Calculado pela FGV, o Índice Nacional de Custo da Construção Civil (INCC) cravou 5,9% em 2025, com alta de 3,8% nos preços de materiais e serviços. Para este ano, a consultoria Intelligence não faz por menos: INCC entre 7% e 8,3% com expansão de 9% nos preços de materiais e serviços. Uma subida de dar nos nervos, seja para a construção ou reformas de imóveis. Além dos habituais juros estratosféricos, pesam na explosão do INCC o encarecimento de seus materiais, no rastro das cotações do petróleo e derivados incendiadas pela guerra no Irã. Entre os termoplásticos no Brasil, PVC, cujo oxigênio se chama construção civil, sente em cheio este choque tendo como agravante o fato de sua demanda depender de importações sob a estagnada produção nacional do vinil. Fervente de incertezas quanto aos desdobramentos, este quadro é o apimentado prato forte da entrevista de Marta Loss Drummond, analista da consultoria MaxiQuim.
“O mercado da construção civil, principal demandante de PVC, está enfrentando um ano bastante difícil”
Marta Drummond, MaxiQuim
Desde 2019, a capacidade brasileira de PVC roda com ociosidade média anual da ordem de 30% a 40%. Como avalia a viabilidade econômica deste índice perante os atuais padrões de competitividade na petroquímica mundial de PVC?
O ideal de uma planta petroquímica é rodar acima de 80% de nível operacional. Assim como os demais materiais, a produção local de PVC sofre com materiais baratos oriundos do mercado internacional. Recentemente, com o conflito entre Irã e EUA e menor disponibilidade de matéria-prima (nafta e gás) para a China, ela retomou a produção de PVC base acetileno, uma rota (carboquímica) menos ambientalmente correta, mas mais barata. Isso resultou num grande volume de PVC importado pelo Brasil a preços mais baixos do que a indústria nacional consegue praticar.
Com base no histórico dos últimos anos, em quanto tempo acha que as importações igualarão/superarão a produção e vendas da petroquímica brasileira de PVC que, por sinal, não mais exporta?
Acredito que as importações podem seguir crescendo e superar a produção local em menos de cinco anos, caso não sejam feitas melhorias na operação local.
É fato que as exportações brasileiras de PVC caíram bastante no histórico até 2025. Porém, em 2026, o volume até maio já está quase 70% superior ao mesmo período de 2025.
Em 2025, o Egito (com alíquota alfandegária zero devido a acordo com Mercosul) foi a segunda maior origem das importações brasileiras de PVC, desembarcando aqui 118.148 toneladas. A guerra no Oriente Médio, desde março último, tende ou não a alterar a vice liderança do Egito no ranking das importações de PVC este ano?
As estatísticas de balança comercial até maio de 2026 mostram que o conflito não alterou tanto o volume importado. O volume de PVC oriundo do Egito em maio foi praticamente o mesmo de março. É possível que vejamos impacto disso nos dados de junho e julho, considerando-se o transit time. Mas sabemos que as relações das empresas brasileiras com o Egito já estão bem estabelecidas e o fluxo deve voltar a acontecer. No fechamento do ano de 2026, na comparação com 2025, com certeza veremos uma queda, mas não a considero prejudicial nem fará com que Egito saia dos principais fornecedores da resina ao Brasil.
PVC: termômetro da disparada da inflação, impacto dos juros e vendas atenuadas de materiais de construção.
Como situa o consumo aparente brasileiro de PVC em 2025 versus 1.261 milhão de toneladas em 2024? Com base no desempenho do primeiro semestre, qual era, antes da guerra no Irã, a sua expectativa para o consumo aparente deste ano e qual a expectativa atual?
Nossa estimativa anual é de queda entre 1% e 2% no consumo aparente de PVC em 2026. O mercado de construção civil, principal demandante de PVC, está enfrentando um ano bastante difícil. Como em todos os demais setores dependentes de plásticos, a procura está muito fraca, com transformadoras produzindo abaixo de seus níveis usuais.
Por que PVC vem perdendo, segundo analistas, espaço para polietileno de alta densidade (PEAD) em tubos de infraestrutura?
PVC tem a vantagem do custo inicial mais baixo, e facilidade de instalação em redes prediais. Entidades voltadas ao saneamento se organizaram antes para o trabalho com o vinil, mais normas foram implementadas e por isso o consumo do material foi impulsionado no passado. Por sua vez, PEAD possui algumas vantagens em saneamento, tais como menor manutenção, maior vida útil e flexibilidade, instalação mais facilitada, menor abertura de vala requerida e garante estanqueidade total. Em contrapartida, exige na instalação mão de obra mais especializada que a requerida pelos tubos de PVC.
Algumas autarquias já exigem que novos tubos instalados sejam de PEAD e há uma forte atuação de empresas e entidades em demonstrar as vantagens do material poliolefínico.
Já em irrigação, PEAD ainda não está tão consolidado.
PEAD vem ganhando espaço, mas o volume de PVC ainda é cerca de umas dez vezes maior que polietileno em tubos. •
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