O terreno minado pela disparada do petróleo e derivados sob a guerra no Irã e pelos juros e inadimplência matadores no Brasil tem ceifado planos de aumento da capacidade de indústrias transformadoras. Em função desse freio puxado pelas circunstâncias, a norte-americana Milacron, celebridade mundial em injetoras e extrusoras rígidas, atualiza sua abordagem do mercado brasileiro brandindo como pontos de venda de suas linhas as expectativas hoje dominantes entre os clientes: em lugar dos saltos possibilitados na produção, os argumentos agora incluem um combo para a preservação de margens formado por cortes imediatos nos custos, excelência energética e o estado da arte em produtividade. Na entrevista a seguir, Christoph Rieker, gerente comercial da Milacron responsável pelo Brasil, disseca este reposicionamento da empresa e as perspectivas por aqui para as forças determinantes no mercado mundial de máquinas básicas para plásticos.
“Nossas discussões com os clientes vão além do preço das máquinas e se concentram nos resultados que esses investimentos podem gerar para seus negócios”
Eduardo Berkovitz, ABIEF
Qual a estratégia da Milacron para disputar no Brasil, em injetoras e extrusoras rígidas, com as marcas chinesas hoje impulsionadas pelo preço acessível e qualidade competitiva?
No mercado atual, os transformadores de plástico estão cada vez mais avaliando investimentos em equipamentos com base no custo total de propriedade (TCO) e não apenas no preço inicial de aquisição. A estratégia da Milacron está focada em entregar valor de longo prazo por meio de maior produtividade, eficiência energética, consistência de processo, tecnologia avançada e sólido suporte pós-venda. Ajudamos os clientes a maximizar a disponibilidade operacional dos equipamentos, reduzir perdas e refugos, além de melhorar o desempenho geral de suas operações. Ao combinar a expertise em aplicações com nossas capacidades de assistência técnica e serviços, possibilitamos aos clientes a obtenção de um retorno sobre o investimento mais robusto ao longo de toda a vida útil do equipamento.
Por que a quantidade de fabricantes brasileiros de máquinas básicas para plásticos (injetoras, sopradoras, extrusoras etc) diminuiu bastante nos últimos 20 anos? A ofensiva chinesa é uma justificativa?
A indústria de máquinas para transformação de plásticos passou por profunda evolução nos últimos 20 anos. Os equipamentos modernos incorporam tecnologias cada vez mais sofisticadas, exigindo investimentos significativos em automação, controle de processos, softwares, digitalização e engenharia especializada. Em paralelo, os transformadores demandam mais produtividade, eficiência energética, confiabilidade operacional e suporte técnico. Em consequência, os custos de desenvolvimento e a complexidade para competir nesse setor aumentaram substancialmente, impulsionando um movimento de consolidação de empresas que não se restringe ao Brasil, sendo extensivo a toda a indústria global de máquinas para plásticos.
A tendência em máquinas para plástico é a popularização, a curto prazo, da Inteligência Artificial (IA) integrada aos equipamentos. Como conciliar, no Brasil, a oferta de máquinas Milacron equipadas com essa plataforma diante da escassez de mão de obra qualificada que hoje se agrava na indústria nacional de transformação?
Enxergamos a IA como parte da solução para os desafios relacionados à mão de obra hoje enfrentados pela indústria no Brasil. Sistemas equipados com IA podem simplificar a configuração das máquinas, monitorar o desempenho dos processos, identificar anomalias e apoiar os operadores com recomendações em tempo real. Essas ferramentas ajudam os transformadores a alcançar resultados mais consistentes, ao mesmo tempo em que tornam as tecnologias avançadas de manufatura mais acessíveis a um número maior de profissionais. A IA pode atrair novos talentos para a indústria de plásticos ao criar um ambiente de trabalho mais moderno, orientado por dados e tecnologicamente estimulante.
Embora a capacitação profissional continue sendo fundamental, os sistemas inteligentes podem reduzir significativamente a curva de aprendizado de novos colaboradores e permitir que os operadores mais experientes utilizem seu conhecimento de forma ainda mais eficiente.
Em última análise, a IA deve capacitar e apoiar os operadores, e não substituí-los. O futuro da manufatura será construído por uma combinação equilibrada entre máquinas inteligentes, treinamento prático da força de trabalho e um sólido suporte técnico oferecido pelos fabricantes de equipamentos.
Como a Milacron avalia a trajetória das injetoras elétricas com forças de fechamento cada vez maiores? Elas tendem a abolir as injetoras híbridas e hidráulicas?
As máquinas totalmente elétricas continuam ganhando espaço no mercado devido à sua excelente precisão, repetibilidade e eficiência energética. À medida que plataformas totalmente elétricas de maior porte se tornam disponíveis, sua adoção tende a crescer em um número cada vez maior de aplicações. No entanto, não achamos que as tecnologias hidráulicas e híbridas deixarão de existir. Diferentes aplicações possuem requisitos específicos e cada tecnologia apresenta vantagens distintas. As linhas hidráulicas e híbridas permanecem soluções altamente eficazes para a produção de peças de maior porte, condições de processamento específicas e projetos nos quais é fundamental equilibrar desempenho, produtividade e investimento. Enfim, as três tecnologias continuarão atendendo às demandas de diferentes segmentos e aplicações, permitindo aos transformadores escolher a solução mais adequada às suas necessidades técnicas, operacionais e econômicas.
Diante da desindustrialização em cena na Europa, efeito de pressões regulatórias e custos como os de energia, diversos de seus fabricantes de máquinas para plástico vêm fechando fábricas no continente ou sendo vendidos a concorrentes asiáticos ou fundos financeiros. Em paralelo, a Europa lidera no mundo o fechamento de plantas de resinas não competitivas. Como a Milacron vê o futuro da zona do euro na manufatura de máquinas, matérias-primas e transformados de plástico?
A Europa enfrenta desafios relacionados aos custos de energia, às exigências regulatórias e à crescente concorrência global. No entanto, permanece um dos principais centros mundiais de inovação, desenvolvimento tecnológico e engenharia para a indústria de plásticos.
Esperamos que o processo de modernização continue avançando, uma vez que os fabricantes europeus permanecem na liderança em áreas como automação, sustentabilidade, materiais especiais e tecnologias de processamento de alto desempenho.
Na Milacron, temos forte conexão com a tradição industrial europeia por meio da (nota- subsidiária alemã) Ferromatik Milacron, o que nos proporciona uma visão direta da sólida cultura de excelência em engenharia e inovação desenvolvida no continente.
A indústria de plásticos é global e cada região é influenciada por suas condições econômicas, regulamentações e dinâmicas de mercado. Embora a Europa esteja atravessando um período de transformação, não acreditamos que sua posição de destaque esteja comprometida de forma irreversível. Ao contrário, entendemos que ela continuará desempenhando papel fundamental na construção do futuro da transformação de plásticos.
Quais os argumentos da Milacron para ofertar máquinas no ambiente brasileiro atual, dominado por transformadores descapitalizados, crédito caro, inflação fora da meta, inadimplência recorde, instabilidade e alta de preços aguçada pela guerra no Irã?
Os transformadores brasileiros estão cada vez mais focados em maximizar o retorno de cada investimento realizado. Nesse contexto, nossas discussões com os clientes vão além do preço de aquisição das máquinas e se concentram nos resultados que esses investimentos podem gerar para seus negócios.
A proposta de valor da Milacron está baseada em ajudar os clientes a aumentar sua rentabilidade por meio de maior produtividade, menor consumo de energia, redução de refugos e um desempenho confiável dos equipamentos. A capacidade de entregar resultados operacionais e financeiros mensuráveis representa nossa principal vantagem competitiva.
Quais os mercados mais receptivos hoje no Brasil para suas injetoras e extrusoras? Por quais motivos?
Continuamos identificando fortes oportunidades para injetoras nos segmentos médico-hospitalar, componentes automotivos, embalagens, eletrônicos, bens de consumo, construção civil, produtos industriais e agronegócio. Esses setores seguem investindo em aumento de produtividade, automação e otimização de processos. No compartimento da extrusão, as áreas de infraestrutura, tubos, construção civil e agricultura continuam apresentando importantes perspectivas de crescimento.
Em relação aos modelos específicos de nossas máquinas, a demanda varia de acordo com a aplicação e a força de fechamento requerida. No Brasil, linhas que aliam desempenho robusto à eficiência energética, competitividade econômica e ajuste a soluções de automação tendem a despertar maior interesse dos transformadores.
No entanto, mais do que a preferência por determinado modelo, constatamos maior procura por plataformas de equipamentos capazes de oferecer o melhor equilíbrio entre produtividade e custo operacional.


