Do início da guerra no Irã, em 28/2, até o final de junho a China importou 5.8 milhões de barris/dia de petróleo. O volume embute um declínio de 48,9% perante os 11 milhões de barris/dia internados no país em 2025 e metade desse total veio do Oriente Médio, Irã inclusive. Apesar desse corte na carne, a autonomia energética chinesa não foi chamuscada e as compras de petróleo pelo país se mantêm no menor patamar aferido em quase 10 anos. A intrigante resiliência do maior importador mundial do óleo cru inspirou reportagem postada em 21/8 no Wall Street Journal (WSJ).
O cerne da pauta: como a China tem conseguido sobreviver incólume a tamanha facada nas importações da fonte fóssil de energia e, na linha oposta, até incrementou as exportações de determinados derivados – destaque para polipropileno e polietileno de alta densidade na cadeia plástica. A matéria esclarece que, ao irromper o conflito no Oriente Médio, o governo de Pequim restringiu as exportações de combustíveis oriundos do petróleo, tipo gasolina, diesel e querosene de aviação. Em maio, a taxa média de operação das 49 refinarias estatais – a parcela da capacidade produtiva que processa petróleo bruto ativamente – caíra para 71,6%, o menor nível desde 2020, o início da pandemia de Covid-19, segundo rastreio da consultoria a S&P Global Energy Platts. A produção chinesa de petróleo refinado caiu então 5,6% e a de produtos plásticos, 4,9% no primeiro semestre deste ano. Por tabela, o processamento declinante das refinarias encareceu as passagens aéreas, uma deixa aproveitada pelo modal ferroviário da China, rede abastecida pela energia elétrica do carvão de fontes renováveis. Por sua vez, retoma o fio o artigo do WSJ, as vendas anuais da ordem de oito dígitos de carros elétricos, acima do movimento local de autos movidos a óleo combustível, também influíram na diminuição das compras externas de petróleo por Pequim sem traumas no funcionamento da economia doméstica.
Desde bem antes da guerra, a China, em meio à gritaria ambientalista, já recorria às mega reservas de carvão para gerar materiais como óleo sintético ou gasolina. Estimuladas pelo governo popular central, províncias bem servidas de carvão no noroeste do país, incentivadas pelo governo, estão usufruindo uma alta de projetos de transformação do combustível fóssil em químicos como polímeros, a exemplo de PVC. Na região de Xinjiang, ilustra o artigo do WSJ, onde os preços do carvão estão entre os mais baixos do país, a produção de nafta e diesel a partir do carvão quase dobrou em 2025 versus 2024. O investimento deixou a China bem armada para interrupções do suprimento do petróleo em eventos como guerras.
Outra proteção providencial para a China, cita o jornal norte-americano, são suas alentadas reservas de petróleo mantidas no subsolo. Consultores projetam o total, incluindo as reservas estratégicas de petróleo, o produto estocado em refinarias e as reservas comerciais, entre 1 bilhão e 1,4 bilhão de barris. A China começou a estocar petróleo russo e iraniano barato em 2025, tendo injetado em média 1.1 milhão de barris/dia em suas reservas no ano passado, segundo estimativas da Administração de Informação Energética dos EUA. O acúmulo de reservas continuou em março e abril último com petróleo egresso do Golfo Pérsico antes da guerra. O país começou então a utilizar suas reservas, conforme dados da consultoria Vortexa. Desde o início de maio, a China retirou cerca de 56 milhões de barris de suas reservas comerciais e 15 milhões das refinarias. Entretanto, completa o WSJ, sua reserva estratégica terrestre continua intacta.


