“Não há empresa que consiga sobreviver a um choque de custos de 3 dígitos em tão pouco tempo”, atesta Márcio Grazino, da Maximu’s Embalagens Especiais

Saraivada de reajustes nas resinas está arruinando a gestão das indústrias transformadoras
Saraivada de reajustes nas resinas está arruinando a gestão das indústrias transformadoras

A cargo da Braskem, a capacidade nacional de polietileno de baixa densidade (PEBD) soma 798.000 t/a, enquanto as importações da resina junto com o tipo linear (PEBDL) beiraram as 500.000 t/a em 2025, retratando assim uma oferta doméstica aquém da demanda, uma dependência de importações hoje açoitada pela guerra no Irã e sobretaxas alfandegárias brasileiras. PEBD é visceral para a transformadora Maximu’s Embalagens Especiais (para proteção, acolchoamento e movimentação de produtos) rodar na faixa total de 100 t/mês a sua operação erguida em 23 anos de ativa e integrada pela matriz em Ribeirão Pires (SP) e a filial em Varginha (MG). Nesta entrevista, o CEO Márcio Grazino espelha o sufoco e vulnerabilidade dos transformadores, em especial aqueles do porte da Maximu’s, para tocar o barco diante dos saltos abruptos nos preços das resinas, de difícil repasse num mercado interno desnutrido, aliás na contramão das expectativas iniciais para um ano eleitoral.         

“A falta de concorrência e a sobretaxação de importações de PE priorizam uma única empresa”

Márcio Grazino - MAXIMU’S

Márcio-Grazino-2026

Até o início da guerra no Irã, como a Maximu’s repartia seu suprimento regular de resina entre PEBD nacional e importado? Como o conflito alterou essa partilha?

Antes da guerra, as resinas compradas diretamente pela Maximu’s eram importadas, mas temos fornecedores importantes que se abastecem majoritariamente pela Braskem. Com a guerra, estamos revendo algumas especificações e alterando o percentual de material reciclado, quando possível. No entanto, trata-se de um recurso limitado e que não mitiga o grande impacto gerado, pois tanto o material nacional quanto o importado foram fortemente impactados em seus preços.

De 28 de fevereiro, início da guerra, até 10 de abril, qual a sua estimativa do aumento médio aferido nos preços de PEBD para a Maximu’s? Um reajuste desse porte nos preços da resina em cerca de mês e meio de conflito a se justifica ou não?

A nosso ver, um aumento dessa magnitude não se justifica. Apenas 20% do petróleo mundial passa pela região (nota: estreito de Ormuz) afetada pela guerra. O problema brasileiro é a falta de concorrência. Petroquímicas de fora do país tiveram suas operações afetadas, com redução de oferta, estimulando a única fornecedora de PEBD no Brasil a elevar seus preços. Os estrangeiros, por sua vez, sentem-se incentivados a continuar fazendo o mesmo. Dessa forma, o ciclo se retroalimenta. Os preços de ambos para PEBD já dobraram desde o início do conflito.

Algum fornecedor de resinas, como PEBD, divulgou como calculou o reajuste comunicado? Ou a praxe é informar o aumento sem explicações ao transformador?

Nenhum fornecedor de resinas apresenta qualquer cálculo. A justificativa é o preço do petróleo e a guerra no Irã impactando a logística. Apenas comunicam os reajustes, muitas vezes de maneira informal.

Antes da guerra, a oferta de PEBD nacional era suficiente para atender toda a demanda brasileira? E como vê a disponibilidade do material hoje em dia?

O Brasil não é autossuficiente no suprimento de PEBD. Dependemos também de material estrangeiro para abastecer a demanda.

A Maximu’s vem tendo seus volumes regulares de compras de PEBD nacional reduzidos/limitados por cotas pelos fornecedores?

Nosso suprimento não tem sido diminuído ou restringido, mas há relatos de fornecedores cuja demanda está pautada e limitada a uma distribuição uniforme ao longo do mês pela Braskem, sem sequer haver uma política de preços definida. Os preços estão sendo alterados semanalmente, ao mesmo tempo em que as compras são limitadas, sem permitir que o cliente possa definir sua própria estratégia de custos e gestão de estoque, pois fica condicionado a adquirir o material de forma gradual, pagando um reajuste que será definido posteriormente. Isso compromete completamente a previsibilidade de qualquer negócio.

Guerra no Irã: preços de PEBD duplicaram no Brasil em menos de dois meses do conflito.

Guerra no Irã: preços de PEBD duplicaram no Brasil em menos de dois meses do conflito.

Na garupa da guerra no Irã, a disparada dos preços do petróleo encareceu reduziu (em especial na Ásia) a produção e disponibilidade de PE no mercado mundial. Diante dessa situação, justificam-se as sobretaxas antidumping praticadas pelo Brasil para resinas importadas dos EUA e Canadá?

Não há motivos para manter políticas antidumping para resinas em um país que não é autossuficiente na sua produção, principalmente quando essas políticas forçam as empresas no Brasil a buscar produtos em mercados mais impactados pelo conflito.

Os seguidos aumentos decretados nos últimos anos pelo Brasil nos impostos e taxas de importação de PE demonstram que eles são decididos mais por critérios técnicos ou mais por pressões políticas em prol da Braskem?

Claramente, são decisões que visam proteger um monopólio, tirando do Brasil a possibilidade de atrair novos investimentos e promover a concorrência, que é justamente o que força as empresas a evoluírem. A falta de concorrência e a política de sobretaxação priorizam uma única empresa, que não tem incentivos para melhorar e se tornar mais competitiva. O resultado disso é nítido: hoje, temos um setor inteiro no Brasil dependendo de uma empresa que está à beira de um colapso financeiro.

A guerra no Irã desfalca o suprimento de petróleo e derivados para Ásia, diminuindo assim a produção local e mundial de resinas como PE. Os EUA aproveitam a ocasião para priorizar ainda mais as exportações de PE para a Ásia, mantendo as vendas à América do Sul em segundo plano. Qual a alternativa para o Brasil depender menos das resinas norte-americanas?

A solução passa pela abertura do mercado. A China é um importante parceiro comercial do Brasil, mas está distante e, no momento, o setor petroquímico atravessa um período delicado. Todas as possibilidades deveriam ser consideradas com urgência, unindo entidades, associações, câmaras de comércio e até a diplomacia. O setor de plásticos é tão importante quanto o de combustíveis, mas pouco se fala em alternativas para além do diesel. Os impactos do setor plástico serão sentidos em toda a economia nos próximos meses.

Hoje em dia, espremida entre demanda desaquecida e custos de produção elevados, como sua empresa consegue repassar satisfatória e formalmente os constantes reajustes altos e reduções nos prazos de pagamento nos preços das resinas?

Com diálogo, transparência e a sugestão de alternativas técnicas sempre que possível para os clientes. Nesse cenário, não repassar os reajustes não é uma opção. Nossa empresa já vem fazendo a lição de casa há quase uma década, modernizando e aprimorando processos, além de investir na reciclagem de materiais.

O desfecho da dureza de repassar reajustes prenuncia uma onda de fechamentos e pedidos de recuperações judiciais de transformadoras? Os fornecedores de resinas perigam assim matar a galinha dos ovos de ouro – os clientes?

Nesse ponto, cada empresa é responsável por suas estratégias e gestão. Sem fazer juízo de valor, as petroquímicas apenas estabelecem as bases de preços para o mercado operar. Incorporar e repassar esses custos é responsabilidade de cada transformador. Não há empresa, bem gerida ou não, que consiga sobreviver a um choque de custos que já atinge a casa dos três dígitos em tão pouco tempo. Quem demorar a reagir, esperando para ver o que vai acontecer, ou não estiver bem estruturado, pode não sobreviver.

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