Masterbatches: avarias da guerra nos bastidores das cores

Materiais em falta, demanda incerta e preços inflados atordoam a cadeia de concentrados, constata José Fernandes, da Cromaster
Masterbatches: avarias da guerra nos bastidores das cores

Desgraça pouca é bobagem. Não são apenas a explosão dos preços e a insuficiente oferta de resinas que, embolados com um consumo engessado por dinheiro caro e imprevisibilidade, hoje assombram a indústria de transformação. A mesma conjuntura opaca engole a etapa produtiva subsequente, a cargo do emprego dos materiais auxiliares, nicho onde despontam os masterbatches. Na entrevista a seguir, José Fernandes, sócio executivo da componedora Cromaster, talismã dos concentrados  nacionais, esquadrinha este terreno minado em que a produção do seu segmento corre risco de ser aleijada não só pela economia convulsiva, mas pela carência mundial de materiais componentes.

“De 1 março a 1 de junho, os preços por kg das poliolefinas passaram da ordem de R$10 para R$ 28 no mercado da distribuição”

José Fernandes, Cromaster

José Fernandes, da Cromaster

Além de ftalocianinas, quais ingredientes de pigmentos para masters hoje mais escasseiam devido à guerra no Irã?

Nos pigmentos em geral, algumas matérias-primas são cruciais em seu processo, como alguns cloretos e similares. Quanto ao maior e menor uso, depende dos pigmentos envolvidos. Outros fatores a reboque dessas considerações e que corroboram para o aumento dos custos dos masters são o custo de energia na produção e os encarecimentos do frete e seguros da logística. Esses aumentos se refletem em, praticamente, todos os pigmentos. No caso dos pigmentos de ftalocianinas, a interferência é muito grande devido à ureia e a anidrido ftálico, derivados produzidos no Oriente Médio. Eles pesam muito na composição dos verdes e azuis ftalos. O cobre é outro material de frequente aumento de preços, muito usado também nos azuis.
Copa do Mundo: guerra encareceu mas não afetou suprimento de masters verde e amarelo para festa da torcida.

Copa do Mundo: guerra encareceu mas não afetou suprimento de masters verde e amarelo para festa da torcida.

Quais as alternativas internacionais de suprimento para componentes de masters coloridos de produção mundial liderada por Oriente Médio e Índia?

Em relação aos materiais produzidos na Índia, ainda cabe atentar para a consequência do fornecimento do gás natural na geração de  energia para indústrias. Com a guerra no Irã o preço desse combustível subiu muito, inclusive porque sua oferta caiu muito, diminuindo bastante assim a produção indiana de pigmentos. A expectativa é de que a situação se normalize apenas no próximo ano, previsão que, aliás, tem alimentado a percepção de falta de pigmentos por aqui – e é bem provável que isso venha a acontecer, com os consequentes reajustes de preços que a escassez acarreta. A melhor alternativa para o fabricante de masters lidar com esse problema momentâneo seria cuidar bem de seus estoques, aumentando-os um pouco mais; fortalecer parcerias com fornecedores e olhar um pouco para a Europa. Mas deve fazer isso tendo em mente que os europeus hoje contam, para gerar seus concentrados, com as mesmas fontes orientais da cadeia de matérias-primas hoje em falta e das quais também dependemos no Brasil. Ou seja, talvez as indústrias europeias também não consigam dar conta das necessidades apresentadas pelas atuais circunstâncias.

Esta escassez de insumos para pigmentos deve restringir a produção de masters verde e amarelo, mais procurados no momento para plásticos alusivos à Copa do Mundo?

Não creio, por ora, em desabastecimento de verdes e amarelos. O que há são os já citados encarecimento de seus insumos e a perspectiva de alguma falta deles durante o segundo semestre. Mas agora, no início da Copa, acho que, na maioria dos casos, já deve ter sido comercializado o que foi produzido com essa motivação. Ou seja, masters verdes e amarelos mais caros do que se imaginava pré-guerra, mas sem falta recorrente nesse instante.

Oriente Médio: conflito Irã x Israel-EUA desestabilizou a produção local e oferta global de pigmentos como ftalocianinas.

Oriente Médio: conflito Irã x Israel-EUA desestabilizou a produção local e oferta global de pigmentos como ftalocianinas.

A escassez de materiais auxiliares instaurada pela guerra também atinge dióxido de titânio e negro de fumo para masters?

No caso do dióxido de titânio, há reflexos nos custos também na cadeia produtiva, dado o necessário uso de cloretos em seu processo, além dos aumentos no custo de energia para produção dos concentrados. O incremento dos gastos em fretes e seguros também incide nos custos, pois a China é a maior origem das importações brasileiras do pigmento branco. Daí também porque deveremos enfrentar no restante do ano alguma dificuldade com elevação de preços nas vendas de masters com dióxido de titânio.  

Quanto ao negro de fumo, também encareceu desde o início da guerra, acompanhando a alta internacional de sua matéria-prima, o petróleo. A depender do grade, o preço desse pigmento saltou de 20% a 30%. Somado este reajuste à disparada da resina, os preços de masters contendo negro de fumo têm ficado mais elevados que outros tipos de concentrados. Outro fator para onerar esse pigmento é o custo de seu processo, pois envolve a queima de petróleo, com gasto elevado de gás. 

Desde 1 de março, começo da guerra, até o início de junho, como vê o viés de alta no custo de produção de masters coloridos de poliolefinas e quais medidas a Cromaster tem adotado para aliviar a extrema dificuldade de repassar satisfatoriamente este reajuste sob o clima da demanda instável e retraída?

Quando se trata de aumento de preços, as dificuldades são sempre enormes e cheias de problemas para se obter o entendimento do cliente. Como esses reajustes foram ultra-rápidos e de altos percentuais nas resinas, contaram com maior compreensão do cliente do master. Afinal, todos os envolvidos enxergam o aperto e compactuam do sofrimento geral causado a cadeia industrial.  Outra coisa que acontece numa situação dessas é o receio do mercado em geral quanto à possibilidade de falta de material. Esse temor alarmista intensifica uma correria às compras e provoca um aumento especulativo nos preços, por sinal um pouco maior nas resinas e polímeros. O fato é que, de 1 março a 1 de junho, os preços das poliolefinas passaram da ordem de R$10,00/kg para ofertas de até de R$28,00/kg que chegamos a ver no mercado da distribuição. Foi isso mesmo, constatamos patamares de aumento de 180% em alguns materiais. No mais, reajustes também abrangeram os pigmentos em geral, numa variação de 20-30% e com possibilidades de aumentos ainda maiores, devido a possíveis faltas de produtos, como já comentado.

Estoques altos a preços altos e juros estratosféricos. Fica ai a mistura ideal para sérios problemas de caixa, caso o mercado retraia repentinamente – o maior receio de todo mundo no nosso setor. Uma combinação perigosa para dificuldades financeiras e inadimplência na cadeia produtiva. Levando em consideração as hipóteses de uma trégua ou de fim dessa guerra, já se nota na praça um recuo nos preços dos polímeros, Aquele adicional nos preços motivado pelo receio da falta de material já retrocede um pouco, mas as cotações continuam muito elevadas. O equilíbrio entre oferta e demanda deve demorar um pouco mais.

Agora, é cuidar para que a inadimplência não cresça de maneira a prejudicar ainda mais esse mercado já muito judiado por todas essas incertezas.

3 tampas

Transformação: momento complicado para absorver reajustes nos masters decorrentes de aumentos nos custos de produção.

A subida nos preços dos componentes de masters provenientes da Ásia melhorou ou não a competitividade dos contratipos europeus, penalizados desde a invasão russa da Ucrânia pelo alto custo da energia?

Com certeza. O mercado europeu sente os efeitos da guerra na mesma proporção que nós. Afinal, os insumos de masters produzidos no Oriente Médio, também seguem para a Europa, em grande quantidade. A oferta desses materiais a usuários europeus decerto está comprometida pela escassez apresentada desde o fechamento do Estreito de Ormuz. Talvez algum grade ou outro de insumos de masters possa aparecer disponível com alguma vantagem nesse instante. Quanto aos custos de produção desses materiais, permanecem mais elevados na Europa que nas opções  asiáticas que já mencionei – China, Índia e Oriente Médio.

A economia historicamente aquece no último semestre (ainda mais em ano eleitoral). Se persistir a atual escassez de insumos para masters para atender a demanda de julho a dezembro, qual a possibilidade de uma inédita expansão das importações brasileiras de concentrados?

Acho menos provável à hipótese de aumento na importação de masters. Acredito que o mercado nacional será plenamente capaz de atender as demandas internas. O que temos como possibilidade – e risco – é de uma insuficiência mundial dos pigmentos já citados. Essa falta se dará em todos os mercados. Não creio que fornecedores internacionais deixariam de atender com primazia seus mercados locais, também sofrendo com essa escassez, para suprir outros destinos.

Há a possibilidade de passarmos por algumas dificuldades adicionais em nossa cadeia produtiva, mas decerto sobreviveremos a este ano que parecia promissor no início. Fatores como guerra e desabastecimento tornaram 2026 um pouco mais difícil e desafiador. Confio na capacidade do brasileiro de lidar com tudo isso.

Compartilhe esta notícia:
Reciclado: o outro lado da moeda

Reciclado: o outro lado da moeda

Para duelar com resina virgem, PCR também precisa ampliar a produção de alto padrão e de políticas pró-circularidade, condiciona Luiz Henrique Hartmann, da Abrerp

Deixe um comentário