Passando um sufoco

China e EUA encurralam as exportações brasileiras de transformados
Passando um sufoco

Números implacáveis: 2026 deve fechar com cerca de 293.000 toneladas de transformados plásticos exportados pelo Brasil, um cisco perante mais de 1.1 milhão de toneladas importadas desses produtos no período. O contraste entre os indicadores reflete a influência de entraves circunstanciais e estruturais. Entre os primeiros, puxa a fila a demanda por artefatos brasileiros enfraquecida na economia aberta da Argentina (para alegria do setor plástico da China), e no protecionismo tarifário instaurado nos EUA. No plano estrutural, pesam contra a indústria transformadora brasileira a erosão da competitividade da petroquímica nacional, agravada pelo excedente global de resinas mais em conta, e pelos absurdos do Custo Brasil, tão conhecidos quanto preservados. Nesta entrevista, José Ricardo Roriz Coelho, presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), comenta a situação e suas causas e declara que a única porta de saída dela é “uma agenda de Estado que precisa ser efetivamente implementada para a indústria brasileira continuar produzindo”.

“A saída é diversificar os mercados. Mas esse redirecionamento não acontece de uma hora para outra”

José Ricardo Roriz Coelho, Abiplast

jose ricardo roriz coelho

Argentina e EUA são os maiores destinos das exportações brasileiras de transformados plásticos. Como avalia o impacto nessas vendas externas este ano da abertura comercial instaurada na Argentina por Milei e do protecionismo nos EUA por obra das barreiras tarifárias de Trump?

No acumulado até agosto de 2026 observamos uma retração de 14% nas exportações de transformados plásticos do Brasil para a Argentina. Mesmo assim, ela permanece o principal destino de nossas exportações. As medidas de abertura econômica decretadas por Milei aumentaram a entrada no país de produtos de fornecedores extrarregionais, especialmente asiáticos. Daí porque a China passa a ser a principal origem de importações argentinas de transformados plásticos e aumentou em 60% seus desembarques no país no último ano. Já os EUA eram o segundo destino de exportações do nosso setor e caíram para quinto lugar depois do tarifaço. Com esta barreira, as importações norte-americanas de transformados do Brasil retraíram 52%.

Qual a válvula de escape para as exportações do Brasil?

A saída para essa situação é diversificar os mercados. Mas esse redirecionamento não acontece de uma hora para outra. Envolve desenvolvimento de clientes, homologações, logística e condições de competitividade nos novos destinos.

Além da Argentina, o desembarque de transformados asiáticos alastra-se pelo Cone Sul. Diante dessa escalada e dos preços não competitivos da resina nacional, insuficiente em vários grades, acha que o Brasil caminha para perder definitivamente o maior mercado externo para seus transformados de plástico – a América do Sul?

Temos esse movimento de aumento das importações chinesas, mas vemos ainda uma situação em que as operações do Brasil têm representatividade e posição significativa, até por conta da vantagem do posicionamento geográfico e integração logística. Tivemos aumento das nossas exportações para Paraguai, Uruguai e Peru até agosto último, por exemplo.
Agora, o fato é que, sem competitividade, a tendência é, sim, o Brasil ser cada vez menos significativo e importante frente aos mercados parceiros e, pior, perder participação no próprio mercado interno, o que vem acontecendo.

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EUA e Argentina: políticas econômicas ruinosas para a compra de artefatos plásticos do Brasil.

Segundo foi divulgado, a Abiplast espera queda de 4,5% nas exportações de transformados em 2026, após aumento de 5,1% em 2025, alcançando cerca de 277.000 toneladas no acumulado até dezembro. Como interpreta este abrupto sobe-e-desce?

Essa queda esperada vem sendo estimada a partir desses movimentos de retração de operações de nossos principais parceiros comerciais. Argentina e EUA. Vemos redirecionamento de ofertas para outros países do Cone Sul, como Paraguai, Uruguai e Peru. No entanto, ainda assim a previsão é de redução de volumes embarcados no fechamento de 2026.

Em 2024 o Brasil importou 971.000 toneladas de artefatos plásticos e exportou 292.000. Quais as estimativas da Abiplast para a balança comercial em 2025 e para este ano?

Em 2025 ultrapassamos 1 milhão de toneladas de produtos acabados importados no Brasil e esperamos para 2026 um acréscimo no agregado de 20% nesse volume, considerando o ritmo de crescimento das nossas importações da China. Elas aumentaram 29% de janeiro a agosto último, tomando parcela do mercado interno e de importações brasileiras de outros players, como EUA, Alemanha e Uruguai.
Quanto às nossas exportações de transformados, elas ultrapassaram as 307.000 toneladas em 2025 e agora a expectativa é retornar para a faixa de 293.000, considerando as retrações nos embarques para Argentina e, principalmente, para os EUA, por conta do tarifaço.

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Brasil: petroquímica defasada aumenta dependência de importações de resinas e mina competitividade da transformação.

A petroquímica brasileira está defasada e estagnada. Quais as perspectivas para as exportações brasileiras de transformados decorrentes da falta de investimentos na competitividade da produção de resinas commodities?

A competitividade dos transformados plásticos depende diretamente da competitividade da cadeia petroquímica. Quando a petroquímica não investe em expansão, modernização e aumento da eficiência cresce a dependência de importações de resinas, aumenta a volatilidade de suprimento, reduz-se a competitividade da indústria transformadora e perde-se capacidade exportadora.
Uma cadeia petroquímica forte amplia previsibilidade, reduz riscos de abastecimento e fortalece a inserção internacional da indústria transformadora. Por isso a discussão sobre petroquímica não é apenas uma agenda da indústria química. É uma agenda de competitividade industrial e de inserção internacional do Brasil.

Mantida a ausência de investimentos na petroquímica nacional em franco definhamento, tendem então a decolar as importações de resinas e transformados mais baratos. Quais as possíveis mudanças no perfil atual do setor plástico nacional quando o consumo interno de resinas for liderado pelas importações?

A ausência de matérias-primas competitivas vai corroendo a produção nacional e substituindo-a por importados. O grande problema desse cenário, sobre o qual a Abiplast alerta há tempos, é que não adianta haver proteção tarifária contra importações de resinas, pois elas virão em formato de produto acabado, impactando ainda mais o mercado interno. O aumento de 29% das importações brasileiras de transformados plásticos da China nesses oito primeiros meses de 2026 já emite sinais que corroboram essa tese.

Quais as propostas e sugestões de política industrial da Abiplast para revigorar a manufatura nacional de artefatos plásticos e consolidar o comércio exterior como extensão do mercado doméstico para sua indústria transformadora?

Integra a nossa agenda institucional a defesa de um cenário de redução do Custo Brasil, do custo de capital para incentivo ao investimento, de simplificação tributária, de maior competitividade para resinas nacionais e de busca e inserção em mercados internacionais. É uma agenda setorial e uma agenda de Estado que precisa ser efetivamente implementada para a indústria brasileira continuar produzindo, inovando e exportando num ambiente internacional cada vez mais disputado. •

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