O mercado é para quem persiste

Exportadores de transformados do projeto Think Plastic Brazil acertam o passo com o mundo em fricção
O mercado é para quem persiste

Atravancadas por limitações de escala, custo de matéria-prima e de capital e incipiente infraestrutura comercial, as exportações brasileiras de transformados plásticos progridem movidas, em essência, por força de vontade e espírito de luta. Antes mesmo do fim do super ciclo de investimentos petroquímicos (1992-2021), elas deparavam em particular na América do Sul, maior mercado externo da cadeia plástica do Brasil, com o aparato da China em capacidade produtiva, preço e qualidade. O tempo fechou este ano com as convulsões ativadas no mundo pela erupção de dois vulcões: a guerra no Irã e o protecionismo tarifário de Trump. Estes solavancos e suas sequelas no comércio exterior estão sendo amortecidos com jogo de cintura pelo projeto setorial Think Plastic Brazil (TPB), central de inteligência em internacionalização da indústria transformadora, com mais de 100 empresas filiadas e fincado em seis segmentos: agro, construção, UDs, embalagens, insumos para transformação, brinquedos & puericultura. Na entrevista a seguir, os estratagemas para as exportações continuarem a brotar no planeta em fricção são explicados por Carlos Moreira, diretor de projetos do TPB e diretor executivo do Instituto Nacional do Plástico (INP).

“Parem de competir onde a China é imbatível, que é a tonelada de commodity, e passem a concorrer onde o Brasil é superior, que é proximidade, serviço, flexibilidade de lote, design, conformidade regulatória e sustentabilidade. O Think Plastic Brazil existe para encurtar esse caminho”.

Carlos Moreira, Think Plastic Brazil

Carlos Moreira da Think Plastic Brazil

Como a guerra no Irã alterou, a partir deste ano, o mapa das missões comerciais e destinos das exportações apoiadas pelo Think Plastic Brazil (TPB)? Quais países despontaram como mercados substitutos daqueles paralisados no Oriente Médio pela guerra?

Faço questão de começar ajustando o enquadramento, porque o nosso mapa de 2026 não foi redesenhado por um único evento. Foram dois choques quase simultâneos e eles agiram de formas diferentes. O primeiro surgiu em 28/2, com o início do conflito no Oriente Médio seguido pelo fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã aos navios de países considerados hostis. Isso desorganizou a oferta global de resinas, encareceu fretes e seguros marítimos e transformou o Golfo Pérsico em rota de alto risco. O segundo choque veio de Washington, com as sobretaxas fundadas na Seção 301 da legislação comercial norte-americana: a de 25%, resultante da investigação específica sobre o Brasil, em vigor desde 22/7, e a de 12,5%, resultante da investigação sobre trabalho forçado em cadeias globais, em vigor desde 24/7, ambas cumulativas quando incidem sobre o mesmo produto. A guerra atingiu a matéria-prima e a rota; a tarifa abalou nosso maior destino individual fora da América do Sul.

Quais indicadores retratam estes danos?

No acumulado de janeiro a agosto último, segundo o painel do TPB, os dados das empresas apoiadas mostram os dois efeitos com clareza. No Golfo Pérsico, o conjunto relativo a nossas exportações formado por Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein caiu de US$ 4.24 milhões para US$ 1.28 milhão, recuo de 70%, e nos Emirados, país que funciona como hub de redistribuição regional, nossas entregas recuaram 69%. Chama a atenção que as remessas para Israel (+21%) e Turquia (+23%) cresceram no mesmo período. Ou seja, o problema não foi falta de demanda no Oriente Médio e, sim, a rota do Golfo, com prêmio de seguro, desvio de navios e incerteza de embarque. Nos EUA, por sua vez, o impacto foi de outra ordem de grandeza: as vendas das indústrias que amparamos despencaram de US$ 53.6 milhões para US$ 21.8 milhões, um mergulho de 59%, e o país caiu para a 13ª posição entre os nossos destinos.
A maioria dos mercados que despontaram como substitutos está mais perto do Brasil e no eixo do Pacífico. Peru foi o grande destaque: nas cinco verticais (segmentos) de nossos transformados exportados, excluindo insumos, as vendas praticamente dobraram – de US$ 5.6 milhões para US$ 10.8 milhões (+95%). Foram puxadas por utilidades domésticas e embalagens. Já o México cresceu 18% nessas verticais, chegando a US$ 12.1 milhões, e o Equador, 19%. Fora das Américas, a Nigéria avançou 67% nas nossas vendas de transformados; a Holanda quase triplicou o valor total comprado das nossas apoiadas – de US$ 1.3 milhão para US$ 3.8 milhões – e os embarques a Portugal cresceram 25%. Há ainda um efeito que poucos perceberam: com a produção de polietileno (PE) do Golfo prejudicada pela guerra, a Ásia passou a procurar resina brasileira. Por exemplo, Singapura, porta de entrada ao Sudeste Asiático, saltou de US$ 2.0 milhões para US$ 14.1 milhões na nossa vertical de insumos.

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Tensão no Estreito de Ormuz: guerra leva Think Plastic Brazil a alternativas aos mercados na zona de risco.

Quais os efeitos do aumento das alíquotas nos embarques pelo TPB para os EUA?

Diante da barreira tarifária de Trump, o TPB mediu o dano produto a produto, cruzando as exportações das apoiadas por código de mercadoria e por vertical. Conclusão: até julho último, 40% das 75 linhas de produto que exportávamos aos EUA, simplesmente deixaram de ser embarcadas, com quedas acima de 80% em itens como BOPP e filme de polietileno de baixa densidade (PEAD). Construímos a correlação entre a nomenclatura brasileira e a tarifa norte-americana para definir quais produtos teriam maior chance de defesa. Entre 26 e 29/6, realizamos uma consulta estruturada com 15 empresas, 14 exportadoras brasileiras e um importador norte-americano. Esses depoimentos figuram no denominado Dossiê de Impacto Econômico, protocolado em 1/7 no processo da Seção 301 junto ao Escritório de Representação Comercial dos EUA USTR).
Tese do dossiê: a tarifa recai sobre empresas dos EUA e não sobre o Brasil. Por exemplo, um importador do estado da Carolina do Norte declarou nos autos que teria custo adicional de US$ 1.56 milhão por ano, margem bruta praticamente zerada e colocaria em risco empregos americanos que ele gera. Não existe fornecedor doméstico equivalente, e requalificar outro levaria de seis a 12 meses. Além disso, se o importador tirar o Brasil como fonte, ele terá de recorrer a origens asiáticas já punidas nos EUA por prática de dumping. É o caso de direitos antidumping de vigência quinquenal e homologados pelo governo norte-americano sobre sacolas de PE da China, Indonésia, Malásia, Taiwan, Tailândia e Vietnã. Essas sobretaxas foram mantidas na revisão da proteção 2021, estão em reexame desde 1/9 e são extensivas a filme biorientado de PET da China, Índia, Taiwan e Emirados Árabes Unidos), tendo sido prorrogadas em março último. O Brasil não está sujeito a nenhuma delas. Em paralelo, subsidiamos o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços com a quantificação do impacto: a cesta do setor transformador exportada aos EUA somou US$ 1.07 bilhão em 2025, de modo que cada 10 pontos de tarifa representam cerca de US$ 107 milhões por ano e os 25% da Seção 301 equivalem a cerca de US$ 267 milhões. Defendemos que o governo brasileiro apoiasse formalmente a defesa privada e mobilizasse os importadores americanos prejudicados.
O pedido do Brasil para ser excluído das tarifas não foi acolhido pelo governo Trump na decisão final de 15/7. Mas ele evidenciou com dados o custo que a medida impõe à própria economia americana e esse registro segue útil nas duas portas que continuam abertas: a negociação bilateral e o mecanismo de revisão previsto na Seção 307 da lei comercial norte-americana.

Como o mapa da atuação do TPB absorveu essas mudanças conjunturais?

No primeiro semestre, o TPB executou 15 projetos, oito feiras e sete missões comerciais em 12 países e quatro continentes. A investida envolveu 119 participantes e US$ 7.94 milhões em negócios gerados. Com base nesse desempenho, transformamos a barreira tarifária em alavanca. Protocolamos um pedido de termo aditivo de R$ 9.3 milhões, alinhado ao Plano de Diversificação de Exportações em resposta à elevação tarifária norte-americana, com seis ações em 2027 e 115 vagas para empresas: rodadas de negócios em Toronto e Quito; a primeira participação brasileira na Plastprintpack de Lagos, Nigéria, e as exposições Pack Peru Sur em Arequipa, PLMA World of Private Label em Amsterdã e EXPO PACK Guadalajara, México. Quatro desses seis destinos já constavam da matriz de mercados-alvo ranqueados para o biênio 2026/2027. Assim, a tarifa tornou urgente o que já era prioritário.
Para este ano, a estratégia do TPB é proteger o que foi conquistado e ampliar a base geográfica que sustenta o resultado do setor. É também por isso que acompanhamos de perto o desenrolar da negociação do acordo Mercosul-Canadá, de conclusão cogitada para o exercício atual.

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Trump: tarifas protecionistas nocautearam exportações brasileiras de BOPP para o maior mercado mundial.

2026 tende a ser, para o TPB, um período de volumes menores e receita maior de exportações? Qual a expectativa para este ano versus 2025 e por quais razões?

A resposta é sim quanto à direção, com uma nuance que faço questão de explicitar, pois os números permitem. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações das empresas apoiadas pelo Think Plastic Brazil somaram US$ 982.2 milhões e 614.200 toneladas, contra US$ 1.141 bilhão e 774.200 toneladas no mesmo período de 2025. O volume caiu 20.7%, o valor recuou 13.9% e o valor médio por quilo subiu 8,5%, de US$ 1.47 para US$ 1.60. Portanto, 2026 é, sim, um ano de volume menor e de valor unitário maior. O que eu não posso afirmar é que seja um ano de receita total maior. Não é o que os dados mostram até aqui.
Esse movimento não é particular do nosso portfólio; é do setor. No mesmo recorte, as exportações brasileiras da cesta de produtos acompanhada pelo portfólio caíram 11.4% em valor e 16.2% em volume, e as empresas apoiadas pelo Think Plastic Brazil responderam por 17.7% de todo esse total.
Vejo quatro razões para esse comportamento. A primeira é o custo da matéria-prima. No debate sobre a guerra promovido em 9/4 passado pela ABIPLAST e Plásticos em Revista, Flávio Silva, da Ohxide Consultoria, relatou que polipropileno (PP) havia subido no mercado internacional cerca de 80% e poliestireno (PS) perto de 70% entre meados de fevereiro e o início de abril. Ele também notou que, no mercado doméstico, PS estava então na faixa de R$ 9 a R$ 10 por quilo em fevereiro, foi negociado a R$ 11 na primeira semana de março e chegou a R$ 21 na virada para abril. Com resina mais cara, o preço do transformado sobe e parte do aumento do valor por quilo é repasse de custo, não ganho de margem. A segunda razão-chave é a disponibilidade de resina. Em momentos de escassez, os fornecedores passaram a racionar as vendas pelo consumo histórico de cada cliente e o transformador, com matéria-prima limitada, priorizou naturalmente os contratos mais próximos e seguros. A terceira razão é a tarifa norte-americana – ela tirou do nosso mix um dos mercados de maior valor por quilo e que atinge a embalagem por dois caminhos: diretamente, sobre o produto que cruza a fronteira e indiretamente, pois frigoríficos e indústrias de alimentos brasileiras que exportam aos EUA passam a comprar menos embalagem aqui dentro. A quarta e última razão é a Argentina, nosso primeiro destino, que recuou 15% no período.
Para o fechamento do ano, minha expectativa é de volume sensivelmente menor que em 2025, valor por quilo maior e valor total ainda abaixo do ano passado, porém acima da meta pactuada com a ApexBrasil para 2026, de US$ 1.22 bilhão. Até agosto, já realizamos 80% dessa meta, com quatro meses pela frente. E o dado que mais me anima é a qualidade do mix. Os mercados que cresceram em 2026 pagam mais por quilo: o México comprou das nossas apoiadas a US$ 3.31 por quilo e a Holanda a US$ 3.14 contra US$ 0.76 da China. Por sua vez, o Peru, que cresceu 11% no total, passou de US$ 1.03 para comprar a US$ 1.20 por quilo. Crescer onde o quilo vale mais é exatamente a trajetória que defendemos para o setor, e 2026, com todas as suas dificuldades, está acelerando essa transição.

Antes mesmo da guerra no Irã já aumentavam os desembarques de transformados de plástico da Ásia-Pacífico (China, em especial) no maior mercado coberto pelo TPB, a América do Sul. Em quais países da região essa concorrência com produtos asiáticos tem sido mais dura?

A concorrência asiática não é uniforme na região. Ela é mais dura onde três fatores se combinam: um acordo de livre comércio com a China que anula a preferência tarifária que o Brasil tem pelos acordos regionais; acesso logístico direto pelo Pacífico e, por fim, um parque local de transformação pequeno, que faz do importado a regra. Por esse critério, o Chile é o caso mais evidente. É a economia mais aberta da América do Sul e tem tratado de livre comércio com a China em vigor desde outubro de 2006. Desse modo, praticamente todo o produto chinês chega com tarifa zero, a mesma que o nosso tem pelo Acordo de Complementação Econômica (ACE) 35. Não por acaso, nas nossas cinco verticais de transformados, as vendas das empresas que respaldamos para o Chile caíram 21.6% entre janeiro e agosto, com embalagens recuando 22.5%.
Mesmo assim, registro um dado que mostra a resiliência do portfólio. No total, as empresas do Think Plastic Brazil recuaram 6.3% no Chile, enquanto as exportações brasileiras da cesta setorial para o país caíram 17.8%. Com isso, nossa participação nas vendas do Brasil ao mercado chileno subiu de 23.5% para 26.8%. As empresas apoiadas perderam menos do que o restante do país justo no mercado mais disputado.
Na Argentina, o vetor é outro. A abertura comercial conduzida pelo governo argentino desde o fim de 2023 ampliou o espaço do produto asiático num mercado que já vinha de atividade fraca. Nossas cinco verticais referentes a exportações para o país recuaram 20% até agosto, com construção civil caindo 42%. Na Colômbia, que não tem acordo com a China, a pressão vem pelo preço e pela escala: construção civil caiu 44% e embalagens, 18.5%.
O eixo do Pacífico merece atenção especial. O megaporto de Chancay, no Peru, inaugurado em 14 de novembro de 2024, encurtou a rota entre a Ásia e a costa oeste sul-americana e, ainda nessa trilha, o Equador tem acordo de livre comércio com a China em vigor desde 1º de maio de 2024. Seria natural esperarmos perdas ali e foi exatamente onde mais crescemos: +95% no Peru e +19% no Equador nas verticais de transformados. Isso me diz algo importante. Onde existe presença comercial construída ao longo de anos, relacionamento com o comprador e produto adequado ao mercado, o transformado brasileiro compete, mesmo com o asiático na porta. É por isso que o TPB leva o portfólio a Arequipa, no sul peruano, e a Quito.
E por que a disputa é tão dura? Porque a China combina excesso de capacidade, fábricas com escala para atender o mundo, cadeia integrada do refino à transformação e condições de prazo e financiamento ao comprador que uma pequena empresa brasileira dificilmente consegue oferecer. A guerra encareceu temporariamente a matéria-prima asiática, já que o Oriente Médio respondeu por 54% da nafta importada pela Ásia em 2025, segundo o banco de dados da CIS, dependência que detalhamos no relatório de inteligência estratégica que produzimos em março para as associadas. Mas ela não altera a lógica estrutural. Como observou naquele seminário de 9/4 o consultor Luiz Marinho, da ChemVision, não houve destruição relevante de capacidade produtiva capaz de reverter o ciclo de sobreoferta global. Quando o fluxo se normalizar, o excedente asiático de matéria-prima voltará a procurar mercado e a América do Sul é um dos destinos naturais.

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Chile: maior disputa com chineses para transformados do Brasil no mercado mais livre da América do Sul.

Quais seriam os flancos mais vulneráveis dos exportadores brasileiros para competir com transformados de plástico asiáticos/chineses na América do Sul?

Eu separo os flancos em dois grupos: os que estão fora da porta da fábrica e os que estão dentro dela. E começo por uma afirmação que talvez surpreenda: qualidade final não é flanco vulnerável nosso. O transformado brasileiro é aceito na Alemanha, França, Áustria, Espanha, Austrália, Canadá, na Itália, no Reino Unido e nos EUA, destinos alinhados entre os mercados mais exigentes do mundo. Quando perdemos para o asiático, raramente é por qualidade.
Fora da fábrica, o primeiro e mais pesado flanco exposto é o custo da matéria-prima. A resina é, com folga, o principal item do custo de fabricação de um transformado e, em muitas aplicações, responde pela maior parte dele e, para completar as dificuldades, o transformador brasileiro se abastece de uma matriz petroquímica majoritariamente baseada em nafta (rota mais cara), enquanto o concorrente asiático opera por variadas correntes (carvão, gás natural, nafta etc), inclusas cadeias integradas do refino à transformação e com escalas muito maiores que as da petroquímica brasileira. Somam-se a isso a elevação do imposto de importação de polímeros como PE, PP, PVC e PET, de 12,6% para 20%, pela Resolução Gecex nº 648, de outubro de 2024, renovada em 2025 e de novo, para parte das resinas, em agosto último. As medidas de defesa comercial sobre resinas, que cumprem o papel de proteger a produção nacional, mas que, sem mecanismos de compensação, elevam o custo da matéria-prima de quem transforma e disputa mercado lá fora. O segundo flanco vulnerável é o custo de capital: exportar exige capital de giro antes de gerar receita, e fazer isso com juros altos e crédito restrito é competir com uma perna só. Completam o quadro de fragilidades fora do controle do transformador o dispêndio de energia, logística interna e os resíduos tributários acumulados ao longo da cadeia.
Dentro da fábrica, o primeiro flanco é escala. Cerca de 60% das empresas que atendemos são de pequeno e micro porte, proporção que chega a 77% entre as cerca de 12.400 transformadoras do país, segundo a ABIPLAST. Segmentos relevantes operam com ociosidade próxima de 30%, como o de embalagens flexíveis, que usou 70,4% da capacidade em 2025, o que significa custo fixo diluído em menos toneladas. O segundo é tecnologia, que no Brasil é heterogênea: temos empresas de padrão mundial, completamente modernas, convivendo com parques defasados e pouco automatizados. O terceiro ponto fraco (o mais subestimado) é o comercial. O chinês está no mercado com estoque local, distribuidor, prazo de pagamento longo, catálogo digital e presença constante. Muitas empresas brasileiras ainda exportam de forma reativa, atendendo pedido, sem marca construída no destino, pós-venda estruturado e sem inteligência de preço por mercado. Por fim, a conformidade regulatória pesa de forma desproporcional sobre a pequena empresa, muitas vezes sem equipe para acompanhar exigências técnicas e ambientais que mudam de país a país.
Em síntese, o asiático nos vence em custo de matéria-prima, escala e condições comerciais. Nós temos vantagem em proximidade, prazo de entrega, flexibilidade de lote, capacidade de customização e relacionamento. A estratégia vencedora é deslocar a disputa do terreno dele para o nosso.

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Javier Milei: importações da Ásia à sombra da abertura comercial minaram as compras argentinas de artefatos plásticos do Brasil.

Quais as suas sugestões para fechar esses flancos vulneráveis dos exportadores brasileiros?

Parte da solução está no ambiente de negócios e parte está na gestão das próprias empresas. No ambiente, defendo isonomia competitiva na matéria-prima: o transformador que exporta precisa acessar resina a preço de paridade internacional, seja ela nacional ou importada. O regime de drawback, que suspende tributos sobre os insumos utilizados na produção exportada, é instrumento disponível e precisa ser usado de forma muito mais ampla por pequenas e médias transformadoras. Da mesma forma, o crédito à exportação, com mecanismos e linhas de financiamento como ACC, ACE, BNDES-Exim e Proex, precisa chegar de fato à empresa menor, com agilidade e custo compatíveis com o ciclo do comércio exterior.
Dentro das empresas, é onde o TPB faz diferença – e digo isso com números. O primeiro ponto é custo compartilhado. Uma pequena empresa sozinha não consegue sustentar feira internacional, missão e rodada de negócios. No modelo setorial, com rateio entre empresas, ApexBrasil e o TPB, ela consegue, e com retorno mensurado. No primeiro semestre, o Índice de Geração de Exportações do convênio foi de 25,06 contra meta de 10,8. Em 24 anos, realizamos 296 projetos de promoção comercial em 50 países, e o nosso Projeto Comprador acumula, em média, cerca de US$ 238 em negócios projetados para cada dólar investido.
O segundo ponto é inteligência. Nenhuma empresa média brasileira monitora sozinha dezenas de mercados, barreiras e concorrentes. A matriz de mercados-alvo do TPB foi construída com Inteligência de Mercado a partir de 83 variáveis quantitativas, combinadas com a avaliação de 173 empresas e 208 executivos em workshops por vertical, e resultou em 24 mercados prioritários. Foi essa matriz que nos permitiu reagir às barreiras tarifárias em semanas e não em meses. Somamos a isso o diagnóstico de valor por quilo por mercado, que mostra à empresa onde ela ganha margem e onde apenas ocupa capacidade.
O terceiro ponto a sugerir é deslocar a disputa para onde o Brasil é superior. Isso significa design, com o Global Green Design (núcleo do TPB para promover inovação, sustentabilidade e excelência no design) e o Color Trend (guia de tendências internacionais em cores). O Brasil também deve se destacar em sustentabilidade comprovada por dados de reciclabilidade e em conformidade regulatória antecipada, com capacitação por mercado antes de expor a empresa ao comprador. E o quarto ponto a sugerir refere-se à gestão de risco comercial: contratos com cláusulas de reajuste atreladas a índices de preço de resina, hedge cambial e modalidades de pagamento adequadas a cada mercado.
Minha recomendação às empresas é objetiva: parem de competir onde a China é imbatível, que é a tonelada de commodity, e passem a concorrer onde o Brasil é superior, que é proximidade, serviço, flexibilidade de lote, design, conformidade e sustentabilidade. O Think Plastic Brazil existe exatamente para encurtar esse caminho.

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Filmes: indústria brasileira roda com nível de ocupação da capacidade pouco competitivo.

Como avalia o impacto dos acordos comerciais União Europeia-Mercosul e União Europeia-EUA sobre a estratégia de exportações e a competitividade das exportações do TPB?

São dois acordos que precisam ser lidos em conjunto, porque um reposiciona o Brasil na Europa e o outro reposiciona a Europa nos EUA. O acordo Mercosul-União Europeia deixou de ser promessa: a parte comercial está em vigor de forma provisória desde 1º de maio, com eliminação de tarifas pela União Europeia sobre cerca de 92% das exportações do Mercosul ao bloco, em cronogramas que combinam desgravação imediata e escalonada. Para os transformados plásticos, segmento em que a tarifa europeia gira em geral em torno de 6,5% para a maior parte dos artefatos, isso significa entrar num mercado de altíssimo poder de compra com vantagem tarifária sobre a China, que segue pagando a tarifa cheia. Considero o acordo o contrapeso estratégico mais importante que o setor ganhou este ano, bem no momento em que o mercado norte-americano se fechou parcialmente.
Mas faço uma leitura realista. Tarifa menor ajuda, mas a barreira decisiva na Europa não é tarifária, é regulatória. O Regulamento de Embalagens e Resíduos de Embalagem, o PPWR, passou a ser aplicável em 12 de agosto, com exigências de reciclabilidade e metas de conteúdo reciclado; o regulamento europeu de materiais plásticos em contato com alimentos, o Regulamento (UE) nº 10/2011, a legislação REACH e o Passaporte Digital de Produtos completam o quadro. Quem estiver preparado captura o acordo; quem não estiver, continua de fora, com ou sem tarifa zero. Há também o outro lado da moeda: o Mercosul reduz gradualmente as suas tarifas para produtos europeus, o que traz concorrência europeia para dentro do Brasil e dos nossos vizinhos, mas também barateia máquinas, moldes e tecnologia. Isso é competição saudável, que obriga a indústria a se modernizar.
O acordo União Europeia-Estados Unidos, com aprovação final em 25 de junho, tem dois efeitos sobre nós. Nos EUA, o produto europeu passou a pagar, desde 24 de julho, alíquota total de 10% na maior parte das linhas, já incluída a tarifa normal, enquanto o brasileiro enfrenta sobretaxas cumulativas que podem chegar a 37,5%, somadas à tarifa normal. Na Europa, os produtos industriais norte-americanos passam a entrar com tarifa zero, o que anula a nossa preferência frente aos EUA, mas não frente à Ásia. No mais, o acordo ainda tende a baratear a resina que o transformador europeu compra. O saldo é claro: na Europa, o jogo não será vencido por preço, mas por valor, conformidade e diferenciação.
É exatamente aí que o TPB concentra sua estratégia. A Europa é um mercado em maturação. Quem começar a se preparar agora vai colher em 2027 e 2028.

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Moldes de injeção: matrizes da zona do euro mais acessíveis a transformadores brasileiros pelo acordo Mercosul-União Europeia.

Como a União Europeia é referência em transformados de alto valor agregado e a China caminha nesta mesma direção com custos imbatíveis, o espaço que resta no comércio exterior ao Brasil, dada sua baixa produtividade e custos pouco competitivos, seria firmar-se como fornecedor regional (América do Sul) de transformados commodities?

Discordo da premissa. Aceitar o papel de fornecedor regional de commodities seria escolher justo o terreno em que a China é mais forte. Tonelada de commodity é o jogo da escala e escala é o que o asiático tem de sobra. O Brasil não precisa escolher entre ser fornecedor regional de commodities e perder espaço; precisa escolher onde competir.
Os próprios dados de 2026 mostram onde está o nosso espaço. O valor médio das exportações das apoiadas foi de US$ 1.60 por quilo, mas vendemos ao México a US$ 3.31; Holanda a US$ 3.14; Reino Unido a US$ 2.84 e EUA a US$ 2.79. Já para a China, vendemos a US$ 0.76. Onde competimos por valor, crescemos com margem; onde competimos por tonelada, o preço cai. E a América do Sul não precisa ser mercado de commodity. Ela é a nossa plataforma de valor: proximidade, entrega em dias, lote flexível, reposição rápida, idioma e cultura próximos. Isso é serviço e serviço não chega de navio vindo do outro lado do mundo.

Quais as saídas para o Brasil?

Vejo pelo menos seis saídas concretas. A primeira é a posição geopolítica. O Brasil é um dos poucos fornecedores que conseguem vender, ao mesmo tempo, para EUA e China, Golfo Pérsico e Israel, Europa e Rússia. Em um mundo fragmentado, neutralidade é ativo comercial. A segunda são os acordos: o Mercosul-União Europeia já em vigor provisório e o Mercosul-Canadá em fase final de negociação abrem mercados de alto valor com preferência sobre a Ásia. A terceira é a nossa proeminência em sustentabilidade. A quarta são os nichos em que temos conhecimento acumulado, como a plasticultura, construção civil para países de infraestrutura em expansão e marca própria para o grande varejo internacional. A quinta é design e a sexta é a América do Sul como base e não como teto. •

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