A indústria brasileira de máquinas para plástico parece caminhar sobre areia movediça. É o sufoco configurado pela inadimplência recorde, juros e custos abusivos, competição fervente com equipamentos importados, e clientes cautelosos quanto a expandir a produção sendo o amanhã tão incerto. Em contrapartida animadora, uma parcela de transformadores enxerga no investimento em produtividade, automação e redução de gastos o único meio de impedir que suas margens de lucro sejam roídas pela demanda sem vigor e pela piora de gastos como os trabalhistas. Goleadora nacional em sopradoras de poliolefinas e pré-formas, a Multiblow contorna este terreno minado com a estratégia de ampliar o leque de equipamentos e de afiar o desempenho deles com controle fortalecido pela Inteligência Artificial (IA), como detalha nesta entrevista Ulisses Fonseca, fundador e diretor comercial da Multiblow.
“Alcançamos nos últimos quatro anos o nível tecnológico das sopradoras europeias”
Ulisses Fonseca, Multiblow
Como avalia o impacto da escassez de mão de obra nos seus cronogramas de entrega de máquinas encomendadas?
A escassez de mão de obra tem gerado atrasos nos cronogramas de entrega de máquinas. Não está sendo possível a reposição de pessoal qualificado. O tempo de montagem de um equipamento permanece o mesmo, o que houve foi a redução da quantidade de máquinas produzidas e consequente redução de faturamento. A situação deve se agravar com o fim da escala 6×1.
Quais as medidas concretas adotadas pela Multiblow para não esticar em demasia o prazo de entrega das máquinas encomendadas devido à falta de pessoal para o chão de fábrica?
Desde o início da fabricação de sopradoras (2005), trabalhamos com partes e peças das máquinas terceirizadas, o que caracteriza a Multiblow como montadora de linhas de sopro. Hoje, com nossos fornecedores fidelizados, estamos não só recebendo componentes mas os subconjuntos já configurados. Isso aumenta o valor agregado para os fornecedores e diminui nossa necessidade de mão de obra interna.
Qual a principal causa dessa insuficiência de mão de obra? Por exemplo, dinheiro recebido sem trabalhar de programas assistencialistas, os atrativos do setor de serviços, desejo do jovem de abrir o próprio negócio ou a visão dele da produção fabril como um trabalho monótono, bastante analógico e sem futuro?
Acredito que seja um conjunto de todos estes fatores. Hoje em dia, um jovem que estuda por três anos no curso de técnico em plásticos do Senai entra na indústria ganhando R$ 2.500 /3.000. Pois numa plataforma de delivery ele ganha isso sem compromisso de horário. Na atual conjuntura global é difícil para o jovem compreender conceitos como os de carreira e futuro. É vendida uma ideia do “Viva Hoje”. Isso não é regra, mas uma grande maioria dos jovens vai por este caminho. Além disso, me estendendo um pouco, um salário de R$ 2.500 talvez não seja atrativo e a indústria poderia pagar mais. Mas aí caímos no problema de encargos trabalhistas de onde sai a velha máxima “é pouco pra quem ganha e muito pra quem paga”.
Ecoblow 600: linha elétrica de extrusão/sopro carro-chefe da Multiblow.
Pela lei da oferta e procura, a escassez de pessoal eleva os salários do chão de fábrica. Com base nos últimos três anos, poderia estimar, em média e no plano geral, o quanto subiu o salário ofertado pela Multiblow a quem trabalha na sua linha de montagem de suas sopradoras?
Nos últimos três anos, o custo de mão de obra na Multiblow aumentou 35% e me refiro ao custo real, sem considerar dissídios. Isso impacta diretamente no preço final dos nossos produtos.
Por que a disputa no Brasil com marcas chinesas é menor no reduto de sopradoras do que em extrusoras e injetoras?
O mercado brasileiro de sopradoras está muito ameaçado pelas máquinas chinesas. Os clientes que buscam por “low cost”, não se importando com serviços, já optaram por elas. A demanda interna de linhas de extrusão/sopro (sopro por extrusão contínua) é pequena para um chinês. Desse modo, estamos assistindo à entrada de diversas marcas através de empresas comerciais sem experiência em sopro e que vendem de tudo um pouco. Acredito que 30% do mercado atual de máquinas de sopro por extrusão contínua já seja de marcas chinesas.
A Multiblow tem procurado se posicionar em um nicho de máquinas de alta tecnologia e produtividade. Num primeiro momento, isso nos distancia das máquinas asiáticas e nos coloca no patamar das europeias. No passado, as indústrias transformadoras daqui buscavam fornecedores da Europa para evoluir em tecnologia. Desde quatro anos atrás estamos no mesmo nível deles.
O acordo União Europeia-Mercosul pode baratear as importações brasileiras de sopradoras europeias?
As empresas europeias hoje passam por dificuldades maiores que as nossas e sem uma estrutura de serviços/peças de reposição no Brasil fica difícil justificar aos clientes daqui o investimento na compra de suas máquinas.
A nova geração mundial de máquinas básicas para plástico alardeia a incorporação crescente de Inteligência Artificial (IA). Ela deve relegar as aparas a uma posição insignificante na reciclagem de plásticos?
Nossas máquinas elétricas da série Ecoblow contam a partir deste ano com IA nos seus recursos de monitoramento. Trata-se de um salto grande de tecnologia e, inclusive, nos afasta dos concorrentes europeus. A IA vem facilitar a vida do operador das transformadoras, otimizando processos (nota: implicando redução das aparas geradas) e preservação do equipamento, e vem facilitar a vida do fabricante da máquina com monitoramento que permite manutenção preditiva a distância.
Embalagens de agroquímicos e domissanitários: principais mercados para sopro atendidos pela Multiblow este ano.
Em 2011, a Multiblow debutou em sopradoras 100% elétricas. Em 2016, ingressou no processo ISBM (injeção/estiramento/sopro). Em 2025, entrou no sopro de pré-formas de baixas tiragens. Qual o próximo passo?
Nossos focos para 2027 e anos seguintes são:
- IA para chegar a níveis elevados de monitoramento, buscando minimizar para os clientes o problema da falta de mão de obra.
- Lançamento da sopradora elétrica de grande capacidade Ecoblow 1000D – máquina long-stroke com 1400 mm de curso e 50 toneladas de força de fechamento (já contamos com seis unidades vendidas para entrega).
- Lançamento da sopradora elétrica Ecoblow 30DL-2 para produção em quatro cavidades de recipientes de 20 litros.
- Consolidação da linha de cabeçotes 3 camadas Coex-3, agora com todos os modelos munidos de bocal desde 40 mm até 250 mm.
2026 fecha como um ano de juros impraticáveis, inadimplência recorde de empresas e famílias, crédito seletivo, explosão de preços no rastro do petróleo e derivados. Como este quadro influiu nas suas vendas de sopradoras este ano?
O Brasil passa por um momento delicado com todos estes fatores citados, agravado pelo impacto das eleições presidenciais, o que cria um clima de incerteza nos clientes. Nossa estratégia para este ano foi investir em máquinas de alta tecnologia e produtividade. Isso tem impulsionado clientes a substituir seu parque industrial com equipamentos que melhorem a rentabilidade da produção em tempos de margens apertadas. Dois segmentos de sopro se destacam em nosso balanço de 2026: o agronegócio, apesar de um arrefecimento atribuído a custos em alta no campo, e o domissanitário. Ambos apresentam baixas variações produtivas desde a pandemia (2020-2021).
Qual o modelo de suas sopradoras mais vendido este ano?
O carro-chefe da Multiblow, desde sua fundação, é a linha 600 tanto hidráulica, modelo Autoblow 600, como elétrica, a máquina Ecoblow 600. As elétricas correspondem hoje a 70% de nosso mercado e a opção com três camadas (Coex-3) representa 30% das vendas de sopradoras elétricas.
O predomínio dos modelos elétricos em nossa carteira de pedidos, apesar do preço maior, é justificado, em especial, pelo consumo energético 40% inferior ao de sopradoras hidráulicas do mesmo porte do nosso portfólio. Tem mais: por não utilizarem óleo, as linhas elétricas apresentam gasto com manutenção menor que os das hidráulicas, oneradas por exigências como manutenção de cilindros, substituição de mangueiras, despesas para eliminar vazamentos ou custos com troca de conexões quando elas superam os limites de reaperto.
A sopradora elétrica também opera com menor nível de ruído e maior repetibilidade de processo, devido à ausência da inércia hidráulica em seus movimentos e das variações resultantes da temperatura/ viscosidade do óleo. Essa máquina dispensa o uso de capacitores de correção do fator de potência na rede elétrica. Afinal, não possui cargas de energia reativa para a rede, somente energia ativa. A propósito, a sopradora elétrica não depende de consumir água industrial para refrigerar a unidade hidráulica, inexistente em sua constituição. Esta característica favorece a economia energética do equipamento, pois não há carga térmica a ser dissipada pela torre.


