Com o Irã no controle do Estreito de Ormuz, responsável pela oferta de 20% do petróleo mundial, países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos já investem pesado para diversificar sua logística com redes de oleodutos e reafirmar sua influência como fornecedores de energia. Afinal, mesmo antes da guerra na região, o Oriente já produzia mais petróleo que o Oriente Médio, um dado-chave sem a divulgação merecida e mérito inclusive da exploração que atrai o interesse de investidores na África e América Latina, onde a estrela do Brasil sobe na cauda de feitos como a produção recorde de 4.475 milhões de barris/dia anotada em junho último. Daí a expectativa de que essa ascensão contribua para vitaminar a estagnada cadeia plástica, revigorando a petroquímica nacional para melhor se posicionar no jogo concorrencial bem mais duro instaurado pela nova geopolítica global. Na entrevista a seguir, esta conjuntura ainda repleta de incertezas, as fraquezas estruturais do setor nacional, os ajustes de rota necessários e oportunidades de crescimento são palmilhados por André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
“Investimentos greenfield na petroquímica dependem da capacidade do Brasil de recuperar sua competitividade industrial”
André Passos Cordeiro, Abiquim
Quais as possibilidades de a indústria química/petroquímica brasileira investir no aproveitamento da ampliação da exploração de gás na Argentina?
A expansão da produção nas reservas de Vaca Muerta representa uma oportunidade de aumento da disponibilidade de gás natural no Brasil, o que tende a contribuir para a diversificação de oferta, maior liquidez de mercado, potencial redução de custos e segurança energética do país. É uma oportunidade, então, para a
competitividade da indústria química/petroquímica brasileira. Ela é o maior consumidor de gás natural do setor industrial nacional, utilizando-o tanto como fonte energética, quanto como matéria-prima de diversos produtos químicos.
Para viabilizar esse incremento de oferta, se faz necessária a integração da infraestrutura existente, não só da malha viária, mas da harmonização regulatória, tributária e tarifária, visando a criação de um ambiente regional realmente integrado e a disponibilidade do gás argentino a preços competitivos para a indústria instalada no Brasil.
Também existem oportunidades para empresas brasileiras energointensivas da cadeia química/petroquímica, que operam em regimes contínuos, participarem dos investimentos associados ao gás de Vaca Muerta. Por exemplo, por meio de contratos de fornecimento de longo prazo, suportando assim os investimentos em infraestrutura para viabilizar a integração na matéria-prima.
A falta de matéria-prima competitiva e a defasagem das plantas demandam investimentos para a petroquímica nacional não definhar. Como avalia a viabilidade desses aportes de recursos no Brasil se, conforme esperado, a Argentina erguer novas unidades de eteno/poliolefinas na trilha da oferta ampliada de gás natural?
O Brasil representa a sexta maior indústria química do mundo e é o maior mercado consumidor da América do Sul. Tem uma base industrial diversificada, experiência operacional e uma cadeia química integrada, A competição regional é, há anos, uma realidade para o setor que, por sinal, já conta com plantas que empregam etano como matéria-prima, demonstrando que a adoção de rotas alternativas à nafta é técnica e economicamente viável para ampliar a competitividade da cadeia química/petroquímica nacional. Além da utilização de etano e outras matérias-primas fósseis, o Brasil possui uma vantagem singular no desenvolvimento de rotas baseadas em seus abundantes recursos renováveis – insumos tipo biomassa, etanol e óleos vegetais. Eles possibilitam ao país liderar em soluções associadas à química verde, aos biopolímeros, aos químicos renováveis e aos produtos de menor intensidade de carbono. Essa diversidade de matérias-primas locais deve ser encarada como diferencial estratégico para a atração de investimentos, complementando as rotas petroquímicas convencionais e fortalecendo a competitividade da indústria brasileira no contexto da transição para uma economia de baixo carbono. Por fim, deve-se assegurar que o Brasil volte a oferecer condições para atrair investimentos industriais, contribuindo para a integração e fortalecimento de sua cadeia química/petroquímica e para a inserção da região nos mercados globais.
Vaca Muerta oportunidade de aumento da disponibilidade de gás natural no Brasil.
A sobrevida da petroquímica brasileira admite a permanência de sua operação desvinculada da matéria-prima (gás, nafta) ou depende de integração upstream (a montante da cadeia) com o fornecedor dela figurando como controlador majoritário?
A competitividade e a sustentabilidade de longo prazo da química e petroquímica brasileira dependem fundamentalmente do acesso a matérias-primas em condições competitivas. São garantidas por mercados de insumos concorrenciais, com liquidez, ampla disponibilidade de oferta, infraestrutura adequada e um ambiente regulatório estável.
No Brasil, entretanto, a indústria química/petroquímica tem enfrentado significativos desafios relacionados ao custo de insumos estratégicos, como gás natural e nafta. Este ônus tem contribuído para os elevados níveis de ociosidade, perda de competitividade internacional e aumento das importações. Nesse cenário, a discussão deve focar as condições de mercado que permitam o acesso competitivo às matérias-primas.
A estrutura industrial deve ser resultado da dinâmica de mercado aderente à realidade brasileira, que ocorre de forma não necessariamente integrada. Isso aconteceu em outros países, que também se utilizaram, por exemplo, de programas como o Gas Release – Programa de Redução da Concentração no Mercado de Gás Natural – como iniciativa regulatória prevista pela Nova Lei do Gás, hoje em andamento e conduzida pela Agência Nacional de Petróleo (ANP).
O Brasil possui uma quantidade expressiva de plantas petroquímicas na ativa há mais de 40 anos. À parte mudar a rota da nafta para gás, o que é mais viável para a sobrevida tecnológica e econômica do setor: investir na modernização de unidades arcaicas ou fechá-las e erguer outras da estaca zero?
O parque industrial brasileiro é compatível com os mais modernos do mundo, em termos de padrões tecnológicos e rotas mais sustentáveis. Além disso, a indústria nacional é destaque mundial no uso de energia e matérias-primas renováveis e na incorporação de atributos de circularidade e descarbonização.
A decisão de realizar investimentos greenfield (da estaca zero) na petroquímica depende da capacidade do Brasil de recuperar sua competitividade industrial. Ela é orientada pela disponibilidade de matérias-primas competitivas, escala de produção, infraestrutura, acesso a mercados consumidores e estabilidade regulatória, conforme tem sido abordado. Considerando que a construção de uma nova planta química ou petroquímica envolve investimentos de grande magnitude, ciclos de maturação longos e elevada complexidade regulatória, a racionalidade econômica costuma favorecer a modernização por retrofits das plantas existentes.
Brasil Abiquim defende retrofit das fábricas defasadas dos polos petroquímicos.
Qual estratégia defende para se aumentar no Brasil a almejada disponibilidade de gás para a petroquímica, pois a produção local do insumo é em grande parte hoje reinjetada nos poços de petróleo?
A ampliação da disponibilidade de gás natural competitivo para a indústria química/petroquímica é tratada como uma agendaestratégica para o aumento da competitividade industrial brasileira. A Abiquim atua ativamente em todos os elos da cadeia do gás natural – molécula, transporte e distribuição – defendendo medidas
que ampliem a oferta, garantam a especificação, aumentem a concorrência e reduzam o custo do gás entregue aos consumidores industriais por meio do melhor aproveitamento da produção nacional, da expansão da infraestrutura, do aperfeiçoamento regulatório e da integração regional.
Dentre as medidas defendidas, destaca-se a redução da reinjeção de gás natural a níveis técnicos estritamente necessários à operação dos campos. Desse modo, seria possível destinar ao mercado uma parcela maior do gás produzido, em especialmente no pré-sal, seja efetivamente direcionada ao mercado. Também apoiamos a expansão do arcabouço de escoamento, processamento e transporte do gás e o acesso não discriminatório às infraestruturas essenciais, promovendo um ambiente concorrencial mais robusto e e estimulando a formação de preços mais competitivos. Por extensão, também respaldamos a harmonização das regulações estaduais e a modernização das regras de movimentação de gás natural e a diversificação das fontes de suprimento. Uma via para isso é a integração regional, com a importação do gás da Argentina e, no Brasil, a oferta complementar de combustível proveniente da ampliação em curso da produção do renovável biometano.
União Europeia: acordos bilaterais com Mercosul e EUA não favorecem importações brasileiras de transformados europeus.
O acordo bilateral Mercosul-União Europeia (UE) envolve gradual redução de taxas de importação. Por sua vez, o acordo EUA-UE contempla matérias-primas dos EUA com isenções tarifárias na Europa. Como avalia a possibilidade de transformados tradable europeus barateados pelo emprego de resinas dos EUA, desembarcarem no Brasil para disputar mercado com a cadeia plástica nacional?
A Abiquim apoia a celebração de acordos internacionais, desde que sejam equilibrados e acompanhados de condições que garantam regras, acessibilidade e previsibilidade ao ambiente de negócios estruturados. O fortalecimento da inserção internacional do Brasil é fundamental para ampliar mercados, aumentar a competitividade e estimular ganhos de produtividade ao longo das cadeias produtivas.
No caso específico da relação entre Mercosul e UE, cabe observar que a discussão sobre eventual vantagem competitiva decorrente do acesso europeu a matérias-primas dos EUA deve ser analisada considerando a realidade do mercado global. A alíquota de importação do etano na União Europeia já é de 0%, o que significa que o acesso da indústria petroquímica europeia a essa matéria-prima não constitui uma mudança estrutural decorrente de novos acordos comerciais nem irá alterar substancialmente a situação atual da fabricação europeia de poliolefinas. Por fim, o acordo Mercosul-UE foi negociado com mecanismos de transição graduais e tratamento diferenciado para setores como o de polímeros, para os quais foram estabelecidos cronogramas de desgravação tarifária de médio e longo prazo, além de exclusões e flexibilidades que permitem uma adaptação gradual dos agentes econômicos à nova conjuntura competitiva.


