“De fato, a indústria transformadora está estagnada e não se renova, tanto em termos de investimentos significativos na capacidade como da absorção de novos talentos no setor. A reputação do plástico, a possibilidade de vida ganha com rapidez no mercado de capitais, as oportunidades no setor de serviços e no empreendedorismo (abertura de negócios próprios) explicam o desinteresse pela transformação pelos jovens qualificados e grandes investidores. Além disso, a vulnerabilidade da nossa transformação reflete a falta de apoio estrutural do governo para a indústria resistir à disputa no mercado interno com players de alcance global, o que vai muito além dos benefícios fiscais e antidumpings. Mantido este andar da carruagem, o Brasil está, sim, fadado a chegar a uma produção de transformados em geral aquém da demanda e o espaço para ela crescer será preenchido com produtos tradeable (comercializáveis internacionalmente) vindos de exportadores como a China”.
Dada em entrevista, esta declaração de Wilson Cataldi, sócio da Piramidal, nº1 na distribuição nacional de resinas, expõe as ultra conhecidas lacunas na competitividade da transformação de plásticos, todas elas transponíveis sem retoques para a própria indústria de manufaturados do Brasil.
As premissas para as políticas industriais passadas variavam ao sabor dos credos econômicos do momento, caso da substituição de importações ou da constituição de empresas “campeãs nacionais”. Os motivos da ineficiência dessas políticas envolviam, por parte dos planejadores, desde a recusa em enxergar a internacionalização do comércio até a desatenção nos projetos ao tópico da integração das cadeias. Falam por si – ainda mais hoje – a extrema dependência brasileira de importações de nafta pela indústria petroquímica e de fertilizantes pelo agronegócio.
Ao lado do aumento da insegurança jurídica e do desarranjo das contas públicas que justificam os juros astronômicos e crédito arisco, as rupturas geopolíticas, o novo mundo do trabalho, o declínio educacional e a inteligência artificial tornaram muito mais difícil para qualquer governo conceber um modelo de política industrial em linha com o presente. No passado, por exemplo, o número maciço de empregos dava à indústria cadeira na primeira fila dos setores contemplados com benesses e subsídios para expandir sua capacidade. Ocorre que, hoje em dia, planta moderna é a que emprega pouca gente e os jovens qualificados não querem saber de manufatura. E agora?
Mas como é preciso andar com fé, o governo federal lançou, em janeiro de 2024, a política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), na garupa de R$ 300 bilhões para financiamentos a juros camaradas pelo BNDES. Passados mais de dois anos de vigência da iniciativa, Plásticos em Revista procurou a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) para aferir as empresas transformadoras que toparam contrair financiamentos pela NIB nesses tempos de rendimento imbatível, seguro e confortável em renda fixa. Os porta-vozes ouvidos das duas entidades disseram nada saber. Plásticos em Revista consultou então o BNDES com estas perguntas:
- Do lançamento da NIB, em janeiro de 2024, até hoje, quantas indústrias do setor plástico (fabricantes de produtos transformados de plástico) foram contempladas pela NIB com linhas de financiamento para investimentos? Qual o total do montante financiado até hoje?
- Quais as empresas do setor plástico agraciadas com financiamento da NIB e qual o montante do investimento financiado de cada uma delas?
- Como reparte % entre empresas pequenas, médias e grandes o montante financiado pela NIB para a indústria transformadora de plástico?
- Com base no montante total de financiamento obtido até agora, qual a posição do setor plástico entre as indústrias contempladas com crédito para investimentos da NIB?
Na resposta, a assessoria de imprensa do BNDES deixou claro não dispor desse tipo de informação para divulgar. Do outro lado do balcão, fica a percepção de que a falta de transparência na gestão de dinheiro público também tem muito a ver com a desindustrialização. •


