Reciclagem: novas expectativas pairam sobre indicadores de 2025

Metas de logística reversa para embalagens coincidem com desempenho positivo do setor
Reciclagem: novas expectativas pairam sobre indicadores de 2025

No Brasil, bem diz o ex-ministro Pedro Malan, até o passado é incerto. Até segunda ordem, esta dúvida flutua sobre a marca deixada por 2025 na reciclagem nacional de plásticos. Para uma ala de olheiros de plantão, o exercício do ano passado prenuncia a continuidade do descompasso entre a busca aquecida por resina recuperada e insuficiência de matéria-prima pós-consumo adequada à reciclagem mecânica, desencontro justificado com argumentos como o gargalo da coleta seletiva e investimentos produtivos na retranca armada pela insegura conjuntura corrente. Para outra leva de observadores, 2025 fica como o último período antes da vigência, iniciada de fato em 2026, do decreto federal da logística reversa e conteúdo reciclado para embalagens plásticas, homologado em outubro do ano passado. Ao determinar o cumprimento em 2026 do teor de 22% de reciclado na composição de artefatos transformados, percentual gradualmente elevado a 50% até 2040, a norma deve desencadear aportes de recursos estruturais para o suprimento regular de resíduos em linha com as especificações para processamento na reciclagem e, por tabela, deve bafejar a rentabilidade do setor, massacrado desde 2022 pela superoferta global de resinas virgens.

Esta expectativa de dias melhores pela frente permeia o recém-lançado relatório “Monitoramento dos Índices de Reciclagem Mecânica de Plásticos Pós-Consumo no Brasil (ano base 2025)”, encomendado pelo Movimento Plástico Transforma – MPT à consultoria Grupo MaxiQuim. Entre os dados vistosos do último período, esta pesquisa anual calcula em 5.003.000 milhões de toneladas a geração de resíduos plásticos no país, ponto de partida para a produção de 1.064 milhão de toneladas de plástico pós-consumo reciclado (PCR) e 352.000 de aparas de primeira moagem. Corte para 2018, início da série histórica traçada pelo monitoramento: o setor produziu então 758.000 toneladas de PCR e 342.000 de aparas. Um sinal de amadurecimento em curso: em 2018 o estudo dimensionava a indústria em 716 recicladoras e sete anos depois contabilizou 639 – mas os postos de trabalho aumentaram 12,8% fechando 2025 com 21.013 empregos diretos. Nesta entrevista, os principais indicadores da pesquisa e as mutações neles embutidas são dissecadas por Solange Stumpf, sócia-executiva do Grupo MaxiQuim.

“Com a implementação do Decreto 12.688/25, a tendência é de que, a partir deste ano, a demanda por PCR cresça de forma mais consistente”

Solange Stumpf, MaxiQuim

Solange Stumpf, MaxiQuim​

Em 2025, o faturamento da indústria recicladora subiu 5.3%, para R$ 4.218 bi, a produção de PCR foi de 1.064 milhão de toneladas e a de pós-industrial (aparas) emplacou 352.000 toneladas (339.000 em 2024). Por que a receita saltou com vigor no ano passado versus 2024 e a produção de reciclado (pós-consumo e pós-industrial) cresceu discreta?

A produção de PCR cresceu 5,1% em 2025 (em 2024 a produção havia sido 1.012 milhão de toneladas). O melhor desempenho em termos de faturamento refletiu, em especial, o crescimento na produção, mas também teve algum impacto do processo de recuperação de preços, observado a partir do segundo semestre.

A produção de reciclado (pós-consumo e pós-industrial) em 2025 ficou, em essência, no mesmo patamar de 2021, ano de pandemia. A explicação se restringe aos preços acessíveis da então superofertada resina virgem?

Depois de dois anos de forte impacto dos preços de resinas virgens competitivos (2023 e 2024), o setor recuperou em 2025 o patamar atingido em 2021, mas ainda não ultrapassou o pico de produção estabelecido em 2022. A tendência é manter esta rota de crescimento em 2026, por conta de questões relacionadas à competitividade e regulatórias (Decreto 12.688/25, de Logística Reversa de Embalagens Plásticas).

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Por que a capacidade instalada de reciclagem caiu 1,5% em 2025, para a faixa de 2.392 milhões de t/a, e com qual nível de ocupação ela rodou no ano passado? Considera este nível economicamente viável ou não?

A queda observada na capacidade instalada pode ser considerada pouco relevante, pois não representa uma tendência. Nos últimos anos tem se observado o fechamento de plantas, surgimento de  players e fusões e aquisições entre aqueles já existentes, o que se reflete na capacidade produtiva do setor. No ano passado, o nível operacional médio ficou em 59%, com leve alta em relação ao ano anterior. É um nível ainda baixo, mas este não é um indicador relevante de viabilidade econômica na indústria de reciclagem, como é usual na petroquímica. Nível operacional baixo é uma característica estrutural da reciclagem mecânica, por tratar-se de  indústria intensiva em mão de obra e pelo fato de a matéria-prima não ser commodity, ou seja, tem baixa regularidade no seu fornecimento. 

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Como interpreta a queda contínua desde 2023 do número de recicladoras constatadas pela MaxiQuim nesta pesquisa anual para o Movimento Plástico Transforma?

O número de recicladores de plásticos em operação vem caindo sistematicamente, à medida que a indústria se consolida e se profissionaliza. O mercado está mais exigente e competitivo. Por conta disso as empresas de pequeno porte têm maior dificuldade em operar, muitas vezes fechando as portas. Por outro lado, os grandes grupos empresariais e recicladores com maior fôlego financeiro buscam ampliar a sua atuação por meio de fusões e aquisições. Nos últimos anos, este movimento de consolidação do setor reduziu o número de players no mercado.

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A reciclagem química seria a única solução para elevar a secundária (19,7%) participação de embalagens flexíveis pós-consumo no volume de resíduos plásticos consumidos na reciclagem no Brasil?

A reciclagem mecânica de embalagens flexíveis é mais difícil do que a de rígidas, por questões técnicas e de mercado. Mesmo assim se nota um crescimento na reciclagem de flexíveis, tanto nos volumes quanto no número de empresas que operam. A reciclagem química é uma alternativa complementar à mecânica, voltada principalmente para aqueles resíduos de embalagens com estruturas mais complexas e/ou de alta sujidade, entre outros aspectos que tornam a coleta/triagem/reciclagem de flexíveis menos atrativa.

Descartáveis são reduto de PS, PP e PET. Quais as limitações técnicas existentes para sua reciclagem mecânica no Brasil? E mais: diante dessas limitações, qual ou quais destinações ambientalmente corretas e economicamente viáveis o MPT sugere para os resíduos de descartáveis plásticos?

Os descartáveis têm poucas limitações técnicas na sua reciclagem mecânica. O maior desafio desses resíduos é a sua coleta e triagem, tendo em vista serem materiais menos disponíveis, mais leves, muitas vezes sujos pela sua aplicação em alimentos e bebidas, dificultando a identificação dos polímeros.

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Nos últimos anos, as importações brasileiras de poliolefinas têm escalado e sua produção nacional de poliolefinas opera com expressiva ociosidade e, inclusive, com capacidade insuficiente para determinados grades. Estes fatores têm influído, direta ou indiretamente, para impulsionar a produção & consumo de poliolefinas recicladas no país?

O mercado de resinas virgens é global, portanto não importa se a oferta é nacional ou internacional; dificilmente haverá escassez de matéria-prima virgem a ponto de abrir espaço para o reciclado, A relação entre o mercado de virgens e reciclados está no preço. Num mercado não regulado, é preciso uma vantagem competitiva na resina reciclada para impulsionar a demanda. Este fator tende a ser atenuado no Brasil num horizonte próximo, com a regulamentação do mercado a partir do Decreto 12.688/25, do Sistema Nacional e Logística Reversa de Embalagens Plásticas. 

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Grande parte do resíduo plástico disponível ainda não atende as especificações para processamento na reciclagem. Prossegue a escassez e instabilidade no suprimento de resíduo reciclável para aplicações como embalagens, tampas e filmes. Desse modo, aumenta a demanda por PCR, mas isso colide com a falta de matéria-prima suficiente para acompanhar o pique da procura por reciclado. Esse cenário acusou alterações em 2025?

Existe oferta suficiente de PCR para atender a demanda, a pesquisa base 2025 não evidenciou desequilíbrio entre oferta e demanda. Por outro lado, apesar da ampla infraestrutura em capacidade de reciclagem, com nível alto de ociosidade, a tendência com a implementação do Decreto12.688/25 é de que, a partir deste ano, a demanda por PCR cresça de forma mais consistente, principalmente por PCR de alta qualidade. Isto porque as empresas produtoras e consumidoras de embalagens plásticas terão que atingir as metas de conteúdo reciclado e a exigência técnica tende a aumentar.

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