Certa vez, contou Alan Greenspan, presidente por 19 anos do Federal Reserve (Banco Central norte-americano), uma pesquisa de opinião varreu os EUA perguntando quais profissionais mais erravam previsões. Economistas ganharam de lavada e, depois da enquete, cartomantes esbravejaram na mídia, iradas por passarem ao público a impressão de que a incidência de seus prognósticos furados era tão descomunal que as equiparava ao mar de disparates profetizados pelos economistas.
A tirada ferina de Greenspan volta e meia aproxima a mídia de negócios dos economistas adivinhos. Uma dessas tentativas de tatear o futuro no escuro pinta no artigo opinativo do jornalista Philip Delves Broughton postado em 1/10 no New York Times e cuja relevância para a indústria plástica já começa pelo título Se você acha que o aumento dos preços do petróleo é ruim, espere só até o inevitável colapso.
“Em todo o universo do petróleo, as condições apontam para um novo colapso. É apenas uma questão de tempo”, sustenta o articulista. “Isso pode ser uma boa notícia para os motoristas que abastecem seus carros. Mas, assim como a recente escalada de preços (barril a US$ 60-70 em janeiro e acima de US$ 100 em 1/10), também traz consigo consequências desastrosas e não intencionais para a indústria petrolífera e para as economias e países que dependem dela”.
Quanto mais se recua na observação do passado, dizia Churchill, mais se avança na visão do futuro. Broughton vai nessa linha rememorando que, em março, a cúpula das petroleiras americanas se extasiava com a boa vida provida por Trump: licenças liberadas num piscar de olhos, produção pau na máquina e cotações em alta volátil com a guerra no Irã. O jornalista canta no mesmo texto a pedra do colapso nos preços se o conflito no Oriente Médio terminar e a navegação se normalizar no Estreito de Ormuz. Ele aposta em queda de preços do barril abaixo do platô de US$ 60 do início do ano, com base no ocorrido em catástrofes históricas – na crise financeira de 2008, a cotação do Brent desabou de US$ 140 para US$ 40 e na pandemia, em 2020, o barril derreteu de US$ 60 para US$ 20. “Uma queda semelhante hoje poderia levar os preços a US$ 30 ou menos. A esse preço, os sauditas poderiam lucrar, mas não os produtores de petróleo dos EUA”, ele compara. Pela sua régua, o ponto de equilíbrio para mineração de novos poços nos EUA põe o barril em US$ 60, valor ainda maior para quem extrai o combustível do xisto.
Oferta e consumo do óleo bruto no mundo estão em queda. “A última estimativa anual da Agência Internacional de Energia (AIE) é de que a demanda global por petróleo cairá 2,5 milhões de barris por dia, enquanto a oferta cairá 5,7 milhões de barris por dia”, ilustra Broughton no artigo. No verão do Hemisfério Norte este ano, ele afirma, o planeta recorreu aos estoques para fechar o gap entre oferta e procura. Daí porque estão no piso estoques como a reserva estratégica de petróleo dos EUA. De outro lado, o jornalista vê mais países emergentes de produção petrolífera relevante (Guiana e Brasil, por exemplo) e considera a energia renovável cada vez mais barata e disponível. E a inconstância do barril e a proliferação de data centers e IA também atraem investimentos em fontes alternativas de energia.
A hipótese de depressão global também assombra a cadeia do petróleo (alô, plástico), a começar por produtores ultra dependentes dele, tipo Rússia e Oriente Médio. O analista frisa que EUA e Europa andam muito endividados, os custos dos empréstimos crescem e uma recessão minaria o consumo do combustível sob aumento da sua oferta. “Cuidado”, alerta Broughton nos parágrafos finais. “Quando os preços do petróleo começam a cair, os produtores correm para o fundo do poço. Aumentam a produção, o que sustenta brevemente as receitas até a oferta adicional baixar os preços ainda mais. Quem tiver custos mais altos não conseguirá suportar os prejuízos”.
Em suas memórias “Histórias de fantasma” (título que evoca o mundo do petróleo/plástico), a escritora Siri Hustvedt desenreda a trama: “é impossível contar histórias reais antecipando o futuro, só é possível imaginá-lo”.
Mandem entrar as cartomantes. •


