O império do dragão

China reina absoluta no mercado mundial de PVC onde o Brasil sobretaxa as importações de que depende cada vez mais
O império do dragão

PVC está à beira de ocupar uma posição – impensável no passado do setor – entre os termoplásticos nacionais: ser a primeira resina cuja importação sobrepujará a produção doméstica. Essa guinada tem relevância acentuada por acontecer numa conjuntura de economia mundial ainda integrada, mas cindida por rivalidades geopolíticas e disputas comerciais. Como desgraça pouca é bobagem, o cenário no Brasil, atravancado pelos suspeitos habituais (economia sem leme, juros homicidas, populismo, erosão do Judiciário etc) e falta de matéria-prima competitiva para a petroquímica, gela qualquer intenção de investimento na sua carente capacidade de PVC, tornando-a ainda mais vulnerável à precificação do vinil ditada pelo seu maior produtor e consumidor, a China. Na entrevista a seguir, as causas das lacunas e incertezas, o rumo das tendências globais em PVC e reflexos no Brasil são dissecados com perícia por Flávio Silva, fundador e dirigente da consultoria OHXIDE. A propósito, Braskem negou entrevista.

“A capacidade mundial de PVC deve cair em 2027 via fechamento de unidades menos eficientes, em especial na Europa e parte da Ásia”

Flávio Silva, OHXIDE

Flávio Silva, OHXIDE

Com base no histórico desde 2018 (ano do desastre geológico causado pela Braskem em Alagoas), quando acha que as importações de PVC deverão igualar as vendas da resina doméstica?

Desde 2018 a Braskem teve sua produção de PVC comprometida. Embora tenha recuperado parte dela com a importação do intermediário dicloroetano (EDC) dos EUA, em nenhum momento ela conseguiu, desde então, elevar a produção da resina a níveis anteriores ao evento geológico. Entre 2010 e 2017 a taxa operacional média de PVC divulgada pela empresa foi de 85%, enquanto de 2018 até 2025 ficou em apenas 66%.

A Unipar, a outra produtora nacional de PVC vem num ritmo de produção mais constante. No entanto, tem sofrido com impacto de importações competitivas no passado recente.

Com isso, apesar de existir no país ativos com capacidade produtiva de cerca de 1.030 milhão de t/ano de PVC, a produção efetiva está em torno de 70% deste total. Considerando as importações do vinil que entraram em 2025, o saldo supera 640.000 t/a. Ou seja, praticamente, a mesma quantidade produzida no país.

Olhando à frente, a partir do crescimento do mercado, em particular da construção civil, não é difícil imaginar que seja possível em dois a três anos o volume importado ultrapassar a produção nacional.

Em setembro de 2027, expira a vigência de antidumping para PVC-S (em solução) do México. Mesmo com o mercado interno dependendo cada vez mais de importações, esta sobretaxa deverá ou não ser renovada pelo Brasil?

Se respondermos a esta pergunta com base no ambiente regulatório atual, essa sobretaxa vai, sim, ser renovada. Pois, basta analisar todas as recentes decisões tomadas no setor de resinas termoplásticas para se ver que vão no sentido de proteger o setor petroquímico nacional, independentemente da indagação se isso é benéfico ao setor de transformação de plásticos e ao país ou não.

Agora, vale lembrar que esta decisão sobre PVC do México será tomada apenas em 2027 e temos eleição no final deste ano. Caso os rumos mudem, pode ser que esta tendência seja revista.

PVC é a referência em resina de produção eletrointensiva. Como vê o futuro da produção do vinil na Europa, hoje em franca desindustrialização causada pela defasagem de plantas, energia ultra cara e demanda enfraquecida?

O mercado europeu de PVC enfrenta um momento profundamente crítico e estrutural. Como trata-se de resina cuja cadeia produtiva (especialmente a eletrólise do cloro-álcalis) depende massivamente de energia elétrica e gás natural, a Europa viu sua competitividade ser eliminada.

Além do mais, a combinação com taxas de juros que retraíram o setor de construção civil e forte pressão de importações da Ásia redesenhou o ecossistema petroquímico europeu em uma “desindustrialização forçada”.

Para subsidiar minha resposta, trouxe aqui a seguinte relação de algumas unidades do vinil e seus insumos que encerraram as atividades ou estão se reestruturando na região:

  • Vynova Wilhelmshaven (Alemanha): Um dos maiores complexos europeus de PVC e MVC entrou com pedido de insolvência no final de 2025 devido à pressão financeira insustentável. Além disso, a Vynova adiantou o prazo de fechamento de seu site em Beek (Holanda).
  • Dow (Schkopau, Alemanha): A Dow detalhou seus planos de retirada estratégica e anunciou que irá encerrar permanentemente as operações de suas unidades de cloro, soda cáustica, EDC e cloreto de vinila (MVC) em Schkopau até o quarto trimestre de 2027.
  • Fortischem e Spolana (Leste Europeu): Produtoras de menor porte na Europa Central e Oriental, ambas as empresas deixaram o mercado ou paralisaram capacidades de PVC ao longo de 2025/2026 por não conseguirem repassar os custos de matéria-prima.
  • Arkema (Jarrie, França): Forçada a encerrar operações em sua unidade de cloro-álcalis após a interrupção no fornecimento de insumos essenciais em 2025.
Braskem em Alagoas: impacto do desastre geológico na produção cortou fundo a capacidade real brasileira de PVC.

Braskem em Alagoas: impacto do desastre geológico na produção cortou fundo a capacidade real brasileira de PVC.

Por que a envergadura do mercado europeu não conteve essa onda de fechamentos de fábricas?

O principal fator, claro, é a assimetria de custos entre as regiões da nova geopolítica da petroquímica mundial. Vamos analisar caso a caso estas diferenças de custos:

  • EUA: Possuem a matriz petroquímica mais competitiva do Ocidente graças ao shale gas (gás do xisto). Portanto, o vinil americano é integrado ao eteno barato e à energia elétrica bastante acessível da Costa do Golfo.
  • China: Domina o mercado global utilizando majoritariamente a rota do carvão em vez da via tradicional do eteno (petróleo/gás). Mais de 80% do PVC chinês é baseado na carboquímica, o que isola o país de choques de preços no mercado internacional de petróleo e gás natural, garantindo o menor custo marginal do mundo.
  • Europa: Depende da rota do eteno (altamente ligada ao preço do elo nafta/petróleo) e sofre com a eletricidade baseada em redes que ainda pagam prêmios caríssimos pelo gás natural e taxas de transição de carbono (ETS).

Diante desse quadro, ficou impossível para a Europa competir em PVC. Afinal, é uma commodity e com commodities é preciso “lutar” por custos. Então, só restam ao vinil europeu estratégias de consolidação de unidades, atuar em nichos de especialização e aumentar a defesa comercial.

A produção europeia de PVC continuará encolhendo. A região vai se fortificar como estruturalmente importadora da resina para tubos e perfis básicos. Deve manter produção interna do vinil apenas para aplicações médicas de alta especificação.

Por quais motivos escasseiam há anos os investimentos em novas capacidades de PVC fora da China, em particular nos EUA, à sombra do shale gas?

De fato, se olharmos para os últimos anos, para os próximos e para onde novos projetos estão sendo implantados fica claro que o maior crescimento de capacidade mundial de PVC não acontece nos EUA, apesar do eteno barato. Mas o ponto-chave da explicação é justo este: PVC é composto em massa de, apenas, 43% de eteno; o restante é cloro. E é o cloro e as restrições ambientais contra ele que limitam novos investimentos nos EUA, além do excedente local que, claro, obrigaria a exposição maior à exportação de PVC e consequente redução da rentabilidade de novos projetos norte-americanos.

No entanto, foram realizados investimentos de expansões nos EUA. Por exemplo, a Formosa Plastics adicionou 130.000 t/a de capacidade de PVC em sua planta localizada em Baton Rouge, estado da Louisiana, ampliação concluída no terceiro trimestre de 2024. Da mesma forma a Shintech (subsidiária da Shin-Etsu) concluiu investimento bilionário na expansão na fábrica do polímero em Plaquemine, Louisiana, acrescentando em torno de 380.000 t/a no quarto trimestre de 2024. E ainda existe um projeto orçado em US$ 3.4 bilhões, referente à mais uma unidade da Shintech, programado para 2030 também na Louisiana e que inclui um cracker de eteno e unidades de MVC e cloro-álcalis.

Uma vez somadas as expansões efetuadas desde 2024, elas injetaram mais de 510.000 t/a anuais no mercado norte-americano. Isso ajudou a criar um excedente local que precisa ser exportado.

China: liderança resultante da participação estimada em 48% da capacidade mundial de 63 milhões de t/a de PVC.

China: liderança resultante da participação estimada em 48% da capacidade mundial de 63 milhões de t/a de PVC.

E como fica a Ásia nesse quadro?

A China, de fato, expandiu muito sua capacidade nos últimos anos. Agora, porém, quem está investindo mais em PVC é a Índia. Seu objetivo é reduzir as importações correspondentes a mais de 40% da demanda local. Seguem dois projetos em andamento no país:

  • Índia (Adani Group / Mundra Petrochem Ltd): Localizado em Mundra, estado de Gujarat, o complexo utilizará a rota (carboquímica) de carbeto de cálcio/acetileno. Após atrasos na engenharia, a fase I, com capacidade de 1 milhão de t/a de PVC, tem previsão de partida comercial escalonada a partir de dezembro próximo, com conclusão total da primeira etapa até o ano fiscal de 2027/2028. O projeto total mira 2 milhões de t/ano do vinil a longo prazo.
  • Índia (Reliance Industries Limited – RIL): A maior produtora indiana (capacidade total ao redor de 750.000 t/a e dividida entre Hazira, Dahej e Vadodara) executa plano para dobrar sua capacidade nacional de PVC em suas plantas integradas upstream até o horizonte de 2027/2028.

Em suma, até aqui, o shale gas garantiu que os EUA mantivessem suas fábricas de PVC rodando com ocupação elevada e custos competitivos para exportar volumes excedentes. No entanto, construir mais capacidades do zero tornou-se economicamente inviável pela concorrência das exportações da resina chinesa baseada na carboquímica, associada ao “pesadelo” burocrático para os americanos de obtenção do licenciamento ambiental relativo à química do cloro em solo ocidental.

Europa: gás natural mais caro do mundo e dependência da rota nafta encolhem a produção local e impelem importações de PVC.

Europa: gás natural mais caro do mundo e dependência da rota nafta encolhem a produção local e impelem importações de PVC.

Qual a expectativa de alteração do excedente mundial de PVC até o final de 2027?

Com base no monitoramento constante dos mercados globais de polímeros como PVC, efetuado aqui na OHXIDE, minha consultoria, e sob o efeito chocante do conflito no Oriente Médio, as estimativas de balanço global de oferta e demanda se alteraram um pouco. Devido à maior necessidade de racionalização dos ativos no cenário petroquímico como um todo (PVC não é diferente), o gráfico abaixo traça um quadro pré e pós-guerra na visão de mercado.

tabela 1 PVC

Na tabela abaixo alguns exemplos de empresas que já anunciaram algum tipo de racionalização de ativos.

tabela 2 PVC

Como vê a possibilidade de o previsto retorno do excedente mundial de PVC (sob a normalização do mercado pós-guerra) pressionar para reduzir mais ainda a hoje insatisfatória ocupação da capacidade brasileira do vinil por falta de custos competitivos?

Isso já acontece em relação a todos os termoplásticos com a situação do fluxo no estreito de Ormuz. Sob a liberação momentânea do canal (nota: interrompida por novo bloqueio em 11/7) As petroquímicas mundiais voltaram então a produzir mais volumes de resinas. E com a demanda global ainda fraca e transformadores estocados de material comprado no momento de pânico por possível falta de suprimento, o resultado tem sido excesso forte de oferta e queda vertiginosa de preços mundo afora. Por exemplo, na semana de 7/7 PVC na Ásia rondava US$/t 720 contra US$/t 715 em meados de fevereiro. Fica evidente, assim, que o mundo retornará ao excedente pré-guerra, ao menos até normalizar o balanço produção x demanda pós-conflito, o que talvez só deva ocorrer no início de 2027.
Claro, que, para 2027, talvez o equilíbrio seja um pouco diferente, até pelo balanço que apresentei na pergunta anterior e o excedente deva ser menor. Com isso, pode haver alívio para a operação das unidades aqui no Brasil, mas não deve durar muito.

A China possui capacidade de produção de PVC de aproximadamente 30 milhões de t/ano das quais cerca de 10 milhões à base de eteno (obtido da nafta) e 20 milhões à base de carbureto (utilizando acetileno derivado do carvão). O excedente do vinil chinês também reflete o peso do colapso imobiliário desde 2021. Diante dessas credenciais, qual a participação da China na produção e mercado mundial de PVC?

Hoje em dia, a dinâmica global no mercado de PVC revela forte assimetria geográfica, onde a China atua como o motor de oferta e a Índia como o principal polo de demanda e o país já se movimenta para reduzir a dependência externa. Retomando o fio da China, ela encerrou seu ciclo de expansão acelerada e detém hoje uma capacidade instalada que ultrapassa 30 milhões de t/a. Isso representa cerca de 48% da capacidade produtiva mundial de PVC, estimada em torno de 63 milhões de t/a.

Quanto ao market share no consumo/demanda global, a China detém, pelo seu histórico, cerca de 37% a 40% do PVC mundial, fazendo jus à condição de maior mercado doméstico isolado do vinil. Com o recente (nota: desde 2022) colapso imobiliário local (que recuou perto de 19% em novas construções), a China passou a exportar volumes recordes de sua sobra resina, respondendo por fatia massiva do comércio transfronteiriço global.

E como fica a Índia na produção e mercado mundial de PVC?

Historicamente, a Índia possui uma participação muito pequena na produção, detendo menos de 3% da capacidade global (cerca de 1.5 milhão de t/a locais com fatia majoritária do conglomerado Reliance). Porém, este cenário está mudando de forma agressiva com a entrada em operação dos mega-projetos do Adani Group e expansões da Reliance direcionadas para 2026-2028. Em relação ao mercado, a Índia abocanha cerca de 10% a 12% da demanda mundial de PVC, impulsionada por programas maciços de infraestrutura hídrica e saneamento do governo (Jal Jeevan Mission, por exemplo). Como a produção local não supre a demanda, a Índia importa mais de 55% da resina que consome, posicionando-se como o maior importador líquido de PVC do planeta.

Barreiras comerciais: governo brasileiro privilegia petroquímica em detrimento do restante da cadeia do vinil.

Barreiras comerciais: governo brasileiro privilegia petroquímica em detrimento do restante da cadeia do vinil.

China e Índia inibem investimentos concorrentes em PVC no hemisfério ocidental?

Sim, a atuação combinada de China e Índia atua como uma forte barreira “psicológica” e econômica a investimentos no Ocidente (Américas e Europa). Isto ocorre por estes dois motivos centrais:

  • Preço “Teto” Ditado pela China: A China produz mais de 80% do seu PVC pela a rota do carbeto de cálcio (via carvão). Diante da crise imobiliária local, as indústrias chinesas operam focadas em escoar o excesso de produção do vinil para o exterior. Isso fixa o preço internacional da resina commodity em patamares mais baixos, não deixando margens que rentabilizem novos investimentos.
  • Índia Virando Autossuficiente e Capturando Margens: Historicamente, os produtores de PVC dos EUA (apoiados no eteno barato do shale gas) tinham na Índia seu principal destino de exportação para desovar excedentes e rentabilizar suas operações. Com a Índia construindo plantas robustas e estruturadas para partir até 2028 (como a do grupo Adani, que adicionará 1 milhão de t/a na primeira fase), a janela de exportação para o mercado indiano começará a se estreitar. Sem a garantia de conseguir exportar grandes volumes à Ásia com margens saudáveis no futuro, os produtores ocidentais tendem a congelar investimentos em PVC e focar na otimização dos ativos que possuem.

Para aliviar as finanças de sua indústria transformadora o governo da Índia zerou provisoriamente (de 2/4 a 15/7) os custos de importação de matérias-primas como MVC, de insuficiente oferta doméstica e onerados pela disparada do petróleo e derivados e pelo desarranjo na logística de fornecimentos desencadeados pela guerra no Irã. Como avalia esta medida?

A decisão do governo da Índia de zerar o Basic Customs Duty (imposto de importação básico) de 2 de abril a 15 de julho de 2026 sobre cerca de 40 produtos petroquímicos e polímeros essenciais – como MVC, EDC, PE, PP, tolueno e PVC – foi uma resposta pragmática à escalada geopolítica e de preços após o início do conflito. Decisão, totalmente diferente da tomada pelo Brasil…

A resolução indiana foi amplamente elogiada pelo setor local de transformação de plásticos por ter agido como um estabilizador de inflação industrial. Afinal, com os ataques e as tensões no Oriente Médio, o frete marítimo disparou e cadeias inteiras de suprimento foram rompidas. O governo indiano ordenou que refinarias domésticas priorizassem a produção de GLP (gás de cozinha) para proteger a população. Isso estrangulou a oferta interna de nafta e correntes petroquímicas essenciais às indústrias de base. Porém, para não prejudicar o setor de transformação indiano (pulverizado em milhares de pequenas e médias empresas), o governo temporariamente reduziu bastante as alíquotas de importação de produtos petroquímicos, como MVC e resinas. Com isso, o custo de transformados plásticos internos não subiu muito, mantendo o PIB industrial “blindado”. Para o poder público, isso representou, na prática, uma renúncia de cerca de US$ 215 milhões em arrecadação. Quanta diferença em relação ao Brasil!

E por que outros países e regiões não seguiram esta medida ou similares?

Cada país tem suas características. Para países com forte produção local, como os EUA, não faz sentido zerar tarifas de importações, pois são exportadores líquidos de resinas. Já no caso da Índia, que importa mais de 50% do consumo interno de PVC, o respiro tarifário fez sentido. Então cada país deve adotar a estratégia de acordo com a condição interna do mercado. No caso do Brasil, apesar de sua posição semelhante à Índia em termos de importações de PVC, nada foi feito para proteger a cadeia de transformação. Acredito que, no Brasil, o peso político dos produtores locais do vinil é muito mais forte que o do restante da cadeia.

Resumindo, a Índia adotou a temporária tarifa “zero” por saber de sua dependência estrutural de importação (compra mais de 50% de seus insumos clorados do Oriente Médio e restante da Ásia). E para o governo indiano, o bem-estar do transformador (fábricas de tubos, autopeças, embalagens) supera em relevância a proteção ao produtor petroquímico básico local. Já no Ocidente, onde a cadeia industrial petroquímica tem forte peso político e de capital investido, as tarifas funcionam como escudos de sobrevivência corporativa, tornando a adoção de uma “tarifa zero temporal” politicamente inviável.

PVC chinês: preços baixos pela rota majoritária do carvão inacessíveis para a resina base nafta.

PVC chinês: preços baixos pela rota majoritária do carvão inacessíveis para a resina base nafta.

O conceito de competitividade relativo a “plantas petroquímicas de capacidade global” é tirado agora de cena pela geopolítica, substituído por futuras “plantas petroquímicas de alcance regional”? Isso vale para novos investimentos internacionais em PVC?

Desde o início da pandemia as empresas já sentiram impacto da dificuldade do conceito denominado “logística infinita”, segundo o qual qualquer produto pode ser entregue em qualquer lugar do mundo a custos competitivos e prazo confiável. A pandemia mostrou que isso pode não ser uma certeza e agora, a guerra com o bloqueio do Estreito do Ormuz, reforçou muito mais essa noção.

Então, não acredito que haverá uma mudança total de um modelo de plantas globais para plantas regionais, mas, sem dúvida. haverá maior consideração por parte de estratégias corporativas de fornecimento na cadeia como um todo para que existam opções de abastecimento em casos críticos como este de Ormuz.

Para novos investimentos em PVC ou qualquer produto petroquímico, a premissa básica e inicial será: existe matéria-prima competitiva e acessível? Sem isso não há rentabilidade em projetos de petroquímica, mesmo com barreira logísticas, tarifárias etc. Este preceito, na minha visão, não muda.

O que pode ser repensado são as capacidades produtivas de novas unidades, se considerar fábricas menores que tenham a capacidade consumida por mercados mais próximos. Isso pode ser uma tendência, sim. Obviamente, perde-se um pouco da economia de escala, mas o trade-off desta perda com a garantia de ocupação da planta parece hoje ser mais relevante.

Podemos perceber um pouco desta estratégia em algumas regiões. Por exemplo, não vemos nos EUA mega plantas surgindo apesar do etano barato. O que vemos são expansões restritas para consumo quase imediato. Na Europa, presenciamos fechamentos de unidades não competitivas e a tendência para atuar em nichos. Por fim, até mesmo China parou de construir mais fábricas de PVC. Apenas a Índia toca grandes investimentos, mas com objetivo claro de substituir as importações.

Então, prevejo que, por anos a fio (podem ser muitos) este cenário vai perdurar no mercado mundial de PVC. Talvez, ao virar a década, possamos ter alguma perspectiva diferente, mas por enquanto não.

À parte guerras, tarifaços, capital custoso e instabilidade econômica, o fato é que, no Brasil, por volta de 32 milhões de habitantes ainda carecem de água potável e falta esgoto a cerca de 90 milhões. Já no agronegócio calcula-se que, de 2019 a 2040, devem ser agregados 4.2 milhões de hectares irrigados. Indicadores como estes estão suscitando investimentos em tubos vinílicos?

Sim, existe espaço para crescimento na demanda por PVC no Brasil. Tanto para estas aplicações citadas e outras apenas iniciando no país, a exemplo de telhas. Apesar do ambiente macroeconômico desafiador, marcado por crédito corporativo caro, instabilidade fiscal e a complexa situação financeira e operacional da Braskem, os indicadores mostram uma oportunidade estrutural para investimentos para atender o agronegócio, infraestrutura (saneamento) e construção civil) e que devem suscitar investimentos relevantes na capacidade brasileira de tubos e outras peças de PVC.

Este mercado brasileiro de transformação de tubos de PVC opera um pouco sob uma lógica de desacoplamento da macroeconomia tradicional. Digo isso, pois boa parte da demanda não vem do consumidor final e, sim, de investimentos estruturais guiados por um vetor regulatório (o Marco Legal do Saneamento) e outro de produtividade (o PIB do Agronegócio). Ambos os setores geram um fluxo de caixa que compensa o custo do crédito caro.

Abaixo listo alguns movimentos de players do setor que ilustram de forma prática esse cenário de crescimento do PVC no saneamento e irrigação:

  • Água & Esgoto: O abismo estrutural de 90 milhões de brasileiros sem esgoto e 32 milhões sem água potável transformou-se em obrigatoriedade contratual de investimentos privados e estatais privatizadas (como Sabesp e Aegea) por conta das metas do Novo Marco do Saneamento.
    O grupo mexicano Orbia, controlador da Amanco Wavin, anunciou recentemente um aporte global de US$ 92 milhões (cerca de R$ 511 milhões) focado na divisão de construção e infraestrutura. O foco principal desse aporte é a expansão da linha de tubos BIAX (biorientados ou PVC-O) via aumento de 47% nas capacidades da Amanco em Sumaré (SP) e Suape (PE). A tecnologia BIAX reduz a espessura do tubo sem perda de resistência mecânica à pressão hidráulica, nicho previsto de alta demanda até 2033.
  • Irrigação: A projeção de incorporar 4.2 milhões de hectares irrigados até 2040 cria um mercado cativo e resiliente em áreas da fronteira agro (como MATOPIBA e o cinturão de grãos do Centro-Oeste). O produtor rural capitalizado financia sua infraestrutura de irrigação para se proteger de quebras climáticas.
    A transformadora Asperbras, especializada em tubulações para o agronegócio e saneamento regional, anunciou plano da ordem de R$ 50 milhões para dobrar a produção de tubos de PVC em suas plantas (Penápolis-SP, Simões Filho-BA e Macaíba-RN). A empresa justificou o aporte com a necessidade de atender ao boom simultâneo de pedidos para sistemas de irrigação no campo e captação hídrica na infraestrutura.
    Para o horizonte de 2026/2027, delimitam dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), as projeções gerais de investimento da cadeia de transformados somam R$ 31.7 bilhões. Serão fortemente impulsionados pela construção e infraestrutura.
    Os transformadores de tubos conseguem operar com alta ocupação de capacidade porque, diferentemente do PVC de uso em bens de consumo ou embalagens simples, o tubo de infraestrutura (saneamento e irrigação) possui margem de valor agregado superior, diluindo os custos fixos e logísticos. A propósito, transformadores de tubos de infraestrutura (como Tigre, Amanco, Asperbras e Corr Plastik) não dependem do crédito ao consumidor final (varejo de balcão) para fazer suas fábricas rodarem. O financiamento de grandes adutoras de saneamento e projetos de irrigação de grande porte está atrelado a fundos de investimento estruturados, debêntures incentivadas de infraestrutura e linhas de fomento de longo prazo.
Reliance: líder indiana planeja elevar a curto prazo sua capacidade para 1.5 milhão de t/a de PVC.

Reliance: líder indiana planeja elevar a curto prazo sua capacidade para 1.5 milhão de t/a de PVC.

Em 2025, os EUA foram o terceiro maior exportador de PVC para o Brasil (97.347 t). Como explica que, mesmo sob o peso de antidumping, o país tenha conquistado esta colocação, perdendo apenas para Colômbia e Egito, signatários de acordos comerciais bilaterais com o Brasil?

Aqui precisamos analisar melhor os dados. De fato, em 2025 os EUA tiveram esta posição de destaque. No entanto, se analisarmos as importações mensalmente, veremos que esse volume foi construído até julho de 2025. Importante lembrar que já existia uma medida antidumping contra o PVC americano com uma sobretaxa de 8%, que foi aumentada para 43% ao final de maio de 2025. Como reflexo disso, até julho ainda chegaram importações vindas dos EUA em volume significativo (pois já haviam sido contratadas). Após julho, o volume de PVC importado dos EUA caiu de forma drástica, restringindo os desembarques, a, em essência, grades especiais e algum contrato de prazo maior firmado previamente. Tanto foi assim que, das cerca de 97.000 toneladas internadas em 2025, de agosto a dezembro passado chegaram aqui apenas 3.000.

Se pegarmos os dados de importação de 2026 até junho, verificaremos que somente entraram no Brasil, cerca de 5.100 toneladas de PVC oriundo dos EUA (seria o 7º país no ranking). Ou seja, este aumento na taxa do antidumping inibiu, de fato, a entrada de material direto dos EUA no Brasil.

Com base nos números, não acredito que os EUA terão papel de destaque no market share do consumo interno, enquanto a taxa de dumping para o PVC americano estiver nesse patamar.

Devido aos danos causados pela guerra no Irã na petroquímica do Oriente Médio, a resina excedente de PVC da China deve ampliar a curto prazo, mesmo sob o peso de antidumping, sua participação no mercado brasileiro?

Acredito que a busca por material chinês vai aumentar, sim, e isto já ocorre. Na verdade, após o aumento da alíquota do antidumping contra o PVC americano, o mercado já se movimentou para encontrar outras origens de fornecimento com custo menor. Pelos dados de importação, a China foi uma dessas fontes.

Em 2025 antes do aumento da alíquota a média de volume de PVC importada da China era de 57 toneladas por mês (ou seja, nada). No segundo semestre de 2025 essa média aumentou para 112 toneladas por mês, ainda muito pequena. De janeiro a junho de 2026 já entraram 400 toneladas por mês vindas da China. Volume ainda muito baixo, embora quase sete vezes maior que a média histórica, mas cabe considerar que este primeiro semestre foi marcado pelo conflito no Oriente Médio e a dificuldade de obter material importado por algum tempo.

E na contramão disso tudo, o processo de antidumping contra China entrou em revisão pelo Comitê de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (GECEX) e deve ser renovado. A questão é se as alíquotas serão aumentadas também.

Além disso, outros países têm aumentado a presença no Brasil. Fica claro, assim, um aumento nas nossas importações da resina da Colômbia e Egito, as opções mais tradicionais e óbvias (nota: têm acordos bilaterais comerciais com o Brasil). Ms Taiwan, Coreia do Sul também tiveram incrementos significativos de volumes desembarcados aqui.

Devido à calamidade geológica em Maceió, a capacidade nominal brasileira de PVC não condiz desde 2019 com a real capacidade produtiva. Por que este indicador não é atualizado?

egundo dados divulgados pelas produtoras nacionais a capacidade brasileira de PVC é de 1.030 milhão de t/a. No entanto, com a questão de Alagoas a Braskem perdeu a integração na sua produção, devido à interrupção de produção do sal-gema para produzir o cloro a ser utilizado na composição de MVC. Com isso, a empresa decidiu importar EDC dos EUA como forma de suprir parte de sua produção. Até 2018 o volume trazido era praticamente zero, chegando em 2025 a 237.000 toneladas de EDC desembarcado (metade para o porto de Maceió e outra metade para o de Aratu) e até junho último essas importações já somavam 223.000 toneladas.

Na prática, a capacidade produtiva real e disponível do vinil em solo brasileiro está severamente reduzida (estimada pelo mercado entre 550.000 e 700.000 t/a), rodando muito abaixo do indicador histórico devido ao fechamento definitivo do complexo de cloro-álcalis da Braskem em Maceió (Alagoas) e consequente perda de autossuficiência na produção de EDC e MVC.

Existem alguns motivos pelos quais esse indicador estatístico formal não é atualizado ou rebaixado nos anuários setoriais. Assinalo aqui os principais:

  • Conceito de “Capacidade Nominal” versus “Gargalo de Matéria-Prima”: Estatisticamente, as associações diferenciam a capacidade de engenharia de uma planta de suas restrições logísticas momentâneas. Então, no plano do status das plantas, elas continuam fisicamente montadas e possuem os reatores necessários para atingir os volumes nominais históricos. O que foi destruído ou paralisado não foram as fábricas de PVC em si, mas a base de extração de sal-gema e as plantas upstream de cloro/EDC em Maceió.
    Para contornar a falta do cloro nacional, a Braskem adaptou suas operações para importar EDC através do porto de Maceió e do terminal de Aratu (BA) para alimentar suas duas plantas locais de PVC. Como a restrição é de abastecimento de insumo (comercial/logística) e não de capacidade instalada de engenharia de polímeros, os órgãos oficiais mantêm o dado nominal original, pois teoricamente, se houvesse EDC infinito importado, os reatores de PVC poderiam atingir o teto histórico.
  • Implicações Contábeis, Jurídicas, Acionárias: A alteração definitiva da capacidade nominal registrada de uma companhia petroquímica de capital aberto tem repercussões legais e de mercado profundas como as seguintes:
    a) Impacto no balanço e ativos: Reconhecer oficialmente que a capacidade produtiva do país foi cortada de forma permanente pela metade exigiria que a Braskem fizesse uma baixa contábil definitiva (impairment) massiva do valor desses ativos em seu balanço patrimonial.
    b) Processo de venda da empresa, perda de valor dos ativos: Alterar os dados de capacidade instalada nos relatórios setoriais de cunho oficial mudaria o cálculo de market share técnico e a avaliação de valor de mercado (valuation) da companhia em meio a um processo de reestruturação de dívidas e venda de ativos.
  • Estratégia de Defesa Comercial (Antidumping): A manutenção do indicador de capacidade nominal acima de 1 milhão de t/a é ferramenta estatística crucial para o lobby de defesa comercial da petroquímica nacional perante o governo. Para manter tarifas protetivas e aplicar penalidades de antidumping contra PVC dos EUA ou Ásia, os produtores locais precisam demonstrar ao governo que o parque industrial brasileiro possui “capacidade instalada” teórica suficiente para abastecer a maior parte da demanda doméstica, embora na prática isso não aconteça.
    Se o indicador oficial fosse rebaixado à capacidade real de produção de resina integrada, muito menor, os grandes consumidores de PVC teriam argumento legal fortíssimo para exigir a derrubada imediata de tarifas de importação, alegando que o país sofre de déficit estrutural permanente que a indústria local não consegue suprir, gerando desabastecimento.
    O indicador não muda porque, principalmente, Braskem e Unipar teriam muito a perder tanto em questões comerciais e contábeis. Assim, a capacidade nominal é tratada como dado de engenharia estático e um ativo político-comercial protetivo, enquanto o mercado real opera sabendo que o Brasil se tornou importador estrutural de PVC e seu insumo EDC. •
Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário