Termômetro extraoficial da contração do poder de compra, o mercado de embalagens plásticas flexíveis andou de lado na primeira metade do ano. A produção do setor atingiu 1.148 milhão de toneladas ou -0,4% sobre o saldo de janeiro a junho de 2024 e, no mesmo comparativo, o consumo aparente (produção + importação – exportação) declinou 0,3%, totalizando 1.137 milhões de toneladas na primeira metade do ano. Embora os recuos sejam percentualmente discretos, eles traduzem o peso de um governo que gasta (e mal) mais do que arrecada e assim insiste em jogar gasolina na fogueira do insustentável déficit das contas públicas, disso resultando mazelas vindas com o populismo em cena desde 2022, como juros impraticáveis, crédito arisco, inflação indomada, câmbio volátil e insolvência a rodo – quadro piorado pelo tarifaço. Os efeitos dessa barafunda sobre um setor nevrálgico para polipropileno (PP) e polietileno (PE), as resinas mais consumidas, norteiam os números do desempenho no primeiro semestre compilados em relatório pela consultoria MaxiQuim para a Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (Abief). Na entrevista a seguir, o presidente da entidade, Eduardo Berkovitz, também diretor de relações institucionais e compliance da Valgroup, transformadora nº1 do país em flexíveis, decifra os indicadores do estudo, apalpa com cautela as perspectivas para o ano turvadas pelas incertezas e vislumbra a tendência de continuidade do fluxo de indústrias de filmes mais abonadas para fincar filiais na Zona Franca, atrás de alívio fiscal e benefícios alfandegários, estes aliás agora mais atraentes diante da decretada sobretaxa antidumping para PE dos EUA e Canadá.
Na conjuntura atual, a indústria brasileira de embalagens plásticas flexíveis abrange quantas transformadoras, como se repartem entre maiores, médias e menores; qual a capacidade instalada total do setor e com qual nível de ocupação ele operou no primeiro semestre?
Hoje temos cerca de 3.700 empresas na área de flexíveis. Uma parcela de 55% delas concentra-se no Sudeste, 28% no Sul, 11% no Nordeste, 4% no Centro-Oeste e 2% no Norte. Entre 80% e 85% delas são de pequeno porte. A capacidade instalada dessas indústrias soma ao redor de 3.2 milhões de t/a e no primeiro semestre, o setor operou com cerca de 75% de ocupação.
“População endividada reduziu a demanda de embalagens flexíveis para produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica”
Eduardo Berkovitz, Abief
O primeiro semestre marcou por inflação fora da meta, juros na lua, crédito escasso, dólar caro, inadimplência preocupante e transformadores em geral dedicados a atender apenas pedidos em carteira. O que leva a Abief a crer que, em meio a tantas incertezas políticas e econômicas, a demanda para flexíveis melhora razoavelmente nesta metade final de 2025?
É fato que tivemos um primeiro semestre difícil, especialmente nos primeiros três meses. No entanto, o cenário melhorou a partir de abril. Mas já em junho/julho vieram novas incertezas deflagradas com as histórias dos tarifaços. Hoje (nota: início de setembro) vivemos uma fase de expectativa sobre como será esta segunda metade do ano. O importante é que, historicamente, a sazonalidade do segundo semestre é sempre mais positiva. Mas este ano, com as implicações do tarifaço, guerras etc estamos em compasso de espera para ver os impactos no resultado final.
Numa primeira avaliação, já sabemos que importações brasileiras para os EUA, caíram 18%. Ainda não sabemos, no entanto, como este número se comportará daqui para frente – se aumentará ou se estabilizará. Sem dúvida vivemos um momento de um cenário econômico instável, com uma geopolítica difícil e o Brasil no radar dos EUA a partir de uma vertente extremamente política. Portanto, é difícil prever os resultados ou até a tradicional recuperação constatada no semestre final em outros anos.
Com base na esperada melhora neste semestre, o consumo aparente de flexíveis no exercício inteiro de 2025 deve subir, cair ou ficar estável em relação ao saldo de 2024?
O resultado do primeiro semestre de 2025 foi muito próximo ao registrado em igual período de 2024. Mas agora temos os efeitos globais que desenham um cenário mais complicado para o semestre atual. Mas ainda acredito que o setor de embalagens flexíveis possa crescer entre 1,5% e 2%, acompanhando as previsões para o PIB.
Como avalia o peso do tarifaço de Trump sobre o desempenho da indústria nacional de flexíveis este ano?
O impacto do tarifaço é indireto, pois não temos grandes volumes de plásticos exportados diretamente aos EUA. O problema é o efeito indireto, pois as embalagens plásticas flexíveis acondicionam diversos itens exportados. Portanto, se as exportações desses itens caem, nós também sentimos.
Devemos estar atentos também a possíveis retaliações do governo brasileiro aos EUA. Aí sim pode haver um cenário extremamente difícil, pois abriria uma escalada tarifária que não sabemos onde pode parar. A indústria pede para o governo avaliar um possível cenário de retaliação com muita calma e cautela. Esperamos que o Brasil negocie e melhore o ambiente para exportar aos EUA.
O relatório da Abief mostra, no histórico a partir do 1º semestre de 2023, que a produção e consumo aparente de embalagens plásticas flexíveis se mantêm até hoje, basicamente, no mesmo patamar. Análises anteriores atestam que, nos últimos anos, o setor investiu forte na sua capacidade instalada. Foi – até o momento – um investimento algo afoito, atraído por aquecimento circunstancial, ou a montagem de plantas de flexíveis para Manaus seria uma explicação mais plausível?
Não acredito que tenha havido investimentos sem planejamento. Os empresários, obviamente, têm de se antecipar a demandas futuras e a resposta vem dos aportes de recursos em maquinário. Às vezes, contudo, apostamos que essa nova demanda virá em X meses, mas ela é postergada. Não é a primeira vez que isso acontece e não será a última, mas a indústria precisa antecipar-se e apostar no crescimento do mercado. Hoje deparamos, evidentemente, com um cenário diferenciado pelas questões geopolíticas e macroeconômicas, mas não podemos parar por não saber quanto tempo durará essa incerteza e como tudo será negociado. Como indústria, seguimos torcendo pelo melhor desfecho e decerto passaremos a avaliar novos investimentos com mais cautela. Por fim, sim, Manaus tem seu efeito e muitas transformadoras foram para lá por conta da reforma tributária.
No comparativo da Abief entre os 1ºs semestres de 2025 x 2024, shrink desponta como único segmento com demanda de flexíveis declinante (-0,3%). Por quais motivos?
A retração apontada no shrink não é tão expressiva e pode ser conjuntural, por conta de acertos de estoque, por exemplo. Ou seja, não é tão representativa que possamos afirmar que há uma tendência de queda.
Ainda em termos de demanda de flexíveis, os campos de higiene pessoal (-8,7%) e limpeza doméstica (-4,9%) foram os segmentos de maiores quedas no confronto entre os semestres iniciais de 2025 e 2024. Por se tratarem de dois mercados fortes de bens de consumo ao alcance do público de menor renda, como explica esta performance a desejar?
Realmente, higiene pessoal teve uma queda mais expressiva, assim como limpeza doméstica. Mas acredito que esta queda seja efeito da retração da renda. A população está mais endividada e, embora a inflação esteja em declínio, ainda não é baixa.
A demanda de flexíveis para alimentos (-1,5%) e bebidas (-2,3%) também recuou no primeiro semestre de 2025 versus mesmo período em 2024. Como explica o declive com base no alto nível de emprego e intensa distribuição de renda por programas assistencialistas numa conjuntura nos últimos anos de crédito caro, juros nas nuvens, inadimplência e dólar altos?
A queda em alimentos e bebidas não é expressiva. De qualquer forma, esperaremos o segundo semestre para ver como a indústria reage. Mas, novamente, voltamos à questão da renda. Apesar dos programas do governo continuarem e estarem estabelecidos há muitos anos, há o endividamento e a migração do orçamento das pessoas para outras áreas. Também estamos com uma taxa de juros alta, portanto qualquer endividamento reflete no orçamento doméstico. As pessoas estão se ajustando a um cenário de inflação e pouco dinheiro.
No rastreio do 1º semestre pela Abief, o agronegócio só perdeu para alimentos em termos de volumes da demanda de flexíveis por mercado. Essa vice-liderança é mérito básico das safras recordes de grãos ou é reflexo também da demanda enfraquecida em outros campos de flexíveis? Tem mais: por que, apesar do crescimento do mercado nos últimos anos, a transformação de agrofilmes não registra novos entrantes nem saltos na capacidade?
Ainda há muito a desenvolver, crescer, criar e inovar na plasticultura. 2024 não foi um período bom para o agro, mas este ano temos a promessa de safra recorde e o plástico decerto a desfrutará. No mais, é comum alguns setores de flexíveis registrarem queda (como alimentos e bebidas) e outros se manterem em alta. O importante é manter um equilíbrio no balanço geral.
O número crescente de fábricas de flexíveis não laminados na incentivada Zona Franca caminha para tirar de cena concorrentes menores e menos capitalizados, baseados nas demais regiões do país?
Sem dúvida, principalmente as grandes empresas estão se preparando para atuar na Zona Franca e aproveitar os incentivos e se defender da reforma tributária. De qualquer modo, é bom lembrar que não é fácil para uma indústria se instalar em Manaus. A logística e a forma de trabalhar são diferentes das demais regiões e falta qualificação na mão de obra local. Em suma, são vários fatores a serem considerados e driblados. Todos compartilham das mesmas dificuldades, mas todos entendem que Manaus tem suas particularidades, mas é uma oportunidade para os transformadores manterem os incentivos fiscais. Está em curso um grande processo de aprendizado dos transformadores sobre como operar na Zona Franca. •


