Chinaplas: os avisos de uma ruptura cada vez mais perto

Feira de Xangai prenuncia fim do modelo industrial da transformação no Brasil
Chinaplas 2026: soluções de robótica acessíveis a transformadores de médio porte.
Chinaplas 2026: soluções de robótica acessíveis a transformadores de médio porte.

De 21 a 24 de abril passado, as mega feira anual Chinaplas 206 atraiu a seus pavilhões em Xangai mais de 350.000 visitantes com uma panorâmica não só do poderio do epicentro da manufatura mundial, mas com uma prévia consistente das tendências que, não importam guerras ou tarifaços, inescapavelmente ditarão as condições de sobrevida da indústria de transformação de plástico. Na entrevista a seguir, Edilson Deitos, diretor da transformadora gaúcha Zandei Plásticos, top of mind nacional no sopro de poliolefinas, interpreta os sinais que vislumbrou nos estandes chineses do tsunami tecnológico que vem se aproximando e acabará vitaminando  a combalida competitividade e reformulando o perfil da transformação de plástico no Brasil.    

“Muitas linhas de produção de transformadoras poderão operar com mão de obra 30% a 50% menor que a atual nos próximos 5 anos”

Edilson Deitos, Zandei Plásticos

Edilson Deitos

Pelo que viu na Chinaplas 2026, a intervenção manual no chão de fábrica da transformação de plástico caminha para ficar, basicamente restrita a quais áreas, devido à escalada da automação, robotização e informatização?

A Chinaplas 2026 deixou evidente que a automação industrial entrou em definitivo numa nova fase: soluções antes restritas a grandes grupos tornaram-se acessíveis também a transformadores de médio porte. O que mais me chamou atenção foi a ampla oferta de tecnologias de automação voltadas à redução da dependência de intervenção manual no chão de fábrica. Entre elas, sistemas de inspeção óptica, linhas de empacotamento, sistemas integrados de alimentação e dosagem, além de robôs de coleta, movimentação e armazenamento de produtos acabados e manipuladores para despaletização de matéria-prima.

O que deve acontecer, então, nos próximos cinco anos?

Na prática, a atuação humana deverá ficar cada vez mais concentrada em funções estratégicas e técnicas, como setup de máquinas, manutenção, engenharia de processos, controle de qualidade, ferramentaria, programação, gestão da produção e supervisão operacional. Já as atividades repetitivas, operacionais e de movimentação tendem a ser amplamente automatizadas.

Este movimento não será apenas uma opção tecnológica, mas uma necessidade para manter a competitividade da nossa indústria de transformação plástica. O setor já enfrenta forte apagão de mão de obra operacional, em especial entre os jovens, pois demonstram cada vez menos interesse em atividades fabris tradicionais. Some-se a isso a crescente pressão sobre os custos trabalhistas e as discussões relacionadas à cogitada extinção da escala 6×1, o que poderá ampliar ainda mais o custo operacional da manufatura nacional.

Transformação na China: competitividade intensiva em automação, produtividade e utilização contínua dos ativos.

Transformação na China: competitividade intensiva em automação, produtividade e utilização contínua dos ativos.

O quadro também vale para a jornada de trabalho de transformadoras na China?

Aquilo que vimos na Chinaplas muitas vezes não reflete integralmente a realidade operacional das fábricas que visitei no país. Apesar de a informação ultra divulgada indicar jornadas de oito horas, encontramos em diversos fabricantes do setor plástico, operações estruturadas em dois turnos de 12 horas, com apenas um dia de descanso mensal. Ou seja, a competitividade chinesa não está baseada apenas em automação, mas num modelo industrial intensivo ao extremo em produtividade e utilização contínua dos ativos. Por causa disso tudo, aliás, o Brasil precisará encontrar seu caminho de competitividade e ele passa, sem escapatória, pela Indústria 4.0, automação integrada, robotização, inteligência de dados e aumento de produtividade por colaborador.

Numa projeção de cunho geral, é possível estimar que muitas linhas de produção da transformação plástica poderão operar, nos próximos cinco anos, com redução de 30% a 50% da mão de obra operacional direta hoje empregada, a depender do nível de automação implementado e tipo de processo produtivo. A indústria brasileira que não acelerar este movimento corre o risco de perder competitividade não apenas frente à China, mas dos próprios concorrentes nacionais já enfronhados nesta evolução.

Como antevê a disponibilidade de mão de obra qualificada no Brasil para trabalhar, daqui a cinco anos, num parque industrial muito mais automatizado e informatizado que o parque transformador atual?

De modo inevitável, a crescente dificuldade no Brasil para se contratar mão de obra para a manufatura acaba acelerando o processo de automação. A indústria da transformação plástica já enfrenta um cenário de escassez estrutural de operadores, técnicos e jovens interessados em construir carreira na manufatura. Parte desse problema também está relacionada ao modelo legal e trabalhista brasileiro. Hoje, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial realiza importante trabalho de formação técnica, capacitando jovens entre 14 e 15 anos para atuação nas fábricas. As empresas investem recursos relevantes nesse processo, pagando bolsas, encargos e treinamento técnico especializado.

Entretanto, existe um grande desalinhamento entre a formação e a possibilidade prática de absorção desses jovens pela indústria. Em função das restrições previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da própria legislação trabalhista, muitos ambientes fabris classificados como insalubres – ainda que totalmente controlados com uso obrigatório de equipamentos de proteção industrial (EPIs), automação e sistemas modernos de segurança NR-12 – acabam impedindo a contratação desses jovens após sua capacitação.

Na prática, cria-se uma situação contraditória: a indústria investe na formação técnica do jovem, mas não consegue depois absorvê-lo formalmente. Muitos deles acabam migrando para atividades informais, setores sem exigência técnica ou funções fora da indústria, justo quando começam a possuir capacidade produtiva e interesse pelo trabalho.

Krupp Kautex: insolvência da grife alemã de sopradoras premium pavimentou sua aquisição por concorrente chinês.

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Como superar esta frustração para a indústria?

O Brasil terá de discutir esse tema com maturidade nos próximos anos. Uma possível solução seria permitir que jovens a partir de 16 anos possam atuar em determinadas áreas industriais modernas, desde que com rígido controle de segurança, uso obrigatório de EPIs e supervisão adequada, em particular em ambientes onde a tecnologia já reduziu bastante os riscos operacionais.

Hoje em dia, pessoas de 16 anos que desejam trabalhar encontram oportunidades em diversos setores. No entanto, a indústria brasileira, paradoxalmente, muitas vezes fica impedida de ofertar essas vagas, mesmo após participar de forma direta da qualificação desses profissionais.

Além do mais, o operador do futuro precisará dominar sistemas informatizados, automação, robótica e integração digital de processos. A indústria deixará de buscar apenas força operacional para disputar o recrutamento de gente cada vez mais especializada.

Por isso, será fundamental que o setor industrial invista em novos modelos de atração de talentos, a exemplo de planos de carreira técnica, ambientes fabris modernizados, programas contínuos de capacitação e maior integração entre empresas e entidades de formação profissional. A competitividade da indústria dependerá de maquinário atualizado e, sobretudo, da capacidade de formar, atrair e reter profissionais preparados para a manufatura avançada.

Como vê os atuais preços médios das máquinas chinesas em relação a três anos atrás? E pelo que viu na feira em Xangai, os fabricantes de equipamentos do país devem ampliar seu comércio exterior com mais representações em breve no Brasil?

Ficou claro na feira que os chineses conseguiram manter seus preços relativamente estáveis nos últimos anos, porém entregando uma evolução tecnológica significativa nos equipamentos. Ou seja, hoje o comprador recebe máquinas mais modernas, automatizadas e eficientes sem aumento proporcional de preço. Além disso, entrou em cena um fator importante para os compradores brasileiros: a desvalorização do Renminbi (Yuan) frente ao Real em determinados períodos recentes. Isso ampliou a competitividade dos equipamentos chineses para o mercado brasileiro.

Outro ponto que tende a ganhar força nos próximos anos é a possibilidade de negociações realizadas diretamente em moedas locais, em especial entre Brasil e China. Os chineses mostram forte interesse nessas transações, pela previsibilidade financeira e redução da exposição cambial ao dólar. Nesse contexto de relacionamento comercial e financeiro, destaco a atuação do Banco do Brasil em Xangai – o único banco sul-americano com operação própria hoje na China. A propósito, tem despertado interesse dos nossos transformadores a operação de E-Forfait, modalidade de financiamento que pode ampliar a competitividade das importações de máquinas e equipamentos chineses para a indústria brasileira.

Quais segmentos de máquinas chinesas para plástico mais atraem interessados brasileiros?

O maior movimento ocorre em injetoras, como evidencia o elevado volume de equipamentos chineses vendidos nos últimos anos. Muitas marcas do país estão ampliando operações no Brasil com estoque de peças de reposição, assistência técnica, treinamento e suporte pós-venda nacionalizado. Esse movimento é natural. À medida que cresce a base instalada de máquinas chinesas por aqui, cresce também a necessidade de assistência ao vivo e disponibilidade rápida de componentes em prol da redução de parada de linhas nas fábricas. Nos próximos anos, os chineses tendem a incrementar suas estruturas no Brasil, não apenas comercialmente, mas através de centros técnicos, assistência local, parcerias industriais e até possíveis operações de montagem parcial ou nacionalização de componentes. O mercado brasileiro caminha para tornar-se estratégico para a China, seja como destino de exportação, seja como plataforma de presença industrial e tecnológica na América Latina.

As máquinas da China expostas na feira podem disputar mercado com as marcas europeias de renome em tecnologia premium?

Pelo que vi na Chinaplas 2026 e em diversas fábricas no país, a indústria de máquinas da China atingiu um novo patamar de competitividade global. Visitei uma nova unidade de máquinas injetoras, com elevado nível de integração digital, células automatizadas de usinagem, robôs de movimentação e processos altamente verticalizados. Chamou atenção o fato de a própria empresa destacar a contratação de profissionais vindos de grandes fabricantes europeus e americanos de máquinas, com o objetivo de acelerar a evolução de seus equipamentos. Em suma, a China deixou de ser apenas uma fabricante de máquinas de baixo custo para se tornar também forte competidora em tecnologia.

Gás natural: energia a custos astronômicos enfraquecem o poderio mundial da indústria europeia de máquinas para plásticos

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Mesmo com o fim do superciclo de investimentos (1992-2021), a China continua a atrair indústrias ocidentais de equipamentos para atuar no mercado interno e nas exportações incentivadas?

É bastante relevante o crescimento da produção na China de equipamentos de marcas de peso sediadas na Europa. Diversos de seus fabricantes tradicionais já transferiram parte significativa de sua manufatura para plantas chinesas, utilizando a estrutura local para abastecer o mundo com custos mais competitivos. A propósito, a vantagem chinesa não se restringe mais ao custo de mão de obra. Ela agora abrange um conjunto de fatores estruturais: energia barata, enorme economia de escala, cadeia de fornecedores ultra integrada, rapidez nos desenvolvimentos, logística eficiente e forte apoio estatal ilustrado por subsídios industriais.

A diferença de preço entre a máquina europeia premium e a chinesa equivalente pode variar entre 30% e 60%, a depender do segmento, nível de automação e tecnologia embarcada. Em casos específicos, essa lacuna a favor do fabricante da China até pode ser maior. Alguns fabricantes europeus ainda mantêm liderança tecnológica em nichos muito específicos, tipo aplicações super sofisticadas, de alta precisão, software avançado, estabilidade de processo etc. Mas essa dianteira baixou muito nos últimos anos.  Nesse sentido, o movimento recente mais emblemático talvez seja a compra em 2024, por uma companhia chinesa, da tradicional fabricante alemã de sopradoras Kautex Maschinenbau (nota: insolvência declarada em 2023).

Mesmo antes da guerra no Irã, já crescia a quantidade de fabricantes de máquinas para plástico europeus em dificuldades financeiras. Qual a possibilidade de essas empresas sucumbirem de vez ou acabarem incorporadas a endinheirados concorrentes chineses atraídos pelas tecnologias e presença mundial?

As recentes declarações do chanceler alemão Friedrich Merz deixam claro que a própria Europa já reconhece sua perda gradual de competitividade industrial frente à China. O excesso de regulamentações, os elevados custos energéticos e carga trabalhista e a menor intensidade operacional da indústria europeia resultaram numa desvantagem estrutural importante diante do modelo chinês. Aliás, a busca europeia por novos acordos comerciais, colaboração na manufatura e reestruturação produtiva demonstra que o tema passou de preocupação pontual a questão de sobrevivência industrial.

O fenômeno não é exclusivo da Europa. Há muitos anos, a indústria brasileira de máquinas alerta para a perda de competitividade causada pela elevada carga tributária, custos financeiros, insegurança regulatória e Custo Brasil. Em decorrência o país presencia a redução da sua participação industrial no cenário global e o encolhimento relativo do seu parque fabril.

A geopolítica da petroquímica talvez seja um indicativo do que pode ocorrer em outras indústrias. A China alcançou enorme expansão de capacidade produtiva e praticamente atingiu autossuficiência em várias cadeias petroquímicas estratégicas. O próximo passo natural tende a ser o aumento das exportações de manufaturados de maior valor agregado, inclusos transformados de plástico.

Como ficam, então, as perspectivas para o setor no Brasil?

Segundo a Abiplast, a transformação nacional fechou 2025 com cerca de 14.600 empresas e mais de 410.000 empregos diretos. Caso o Brasil não consiga avançar com rapidez em competitividade, produtividade e redução do custo tributário, é crescente o risco de aumento das importações de transformados plásticos, repetindo parcialmente o que já ocorreu em outras cadeias industriais globais. Daí ser mesmo bastante provável que fabricantes europeus fragilizados financeiramente, tal como ocorreu com a Krupp Kautex, acabem absorvidos por grupos chineses capitalizados, interessados não apenas na tradição das marcas, mas na engenharia, tecnologia, carteira de clientes e reputação construída ao longo de décadas.

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