O Grupo Heineken põe em cena desde junho último uma ação de ecomarketing para minar o consumo de água em garrafas plásticas nas praias cariocas, informa a edição de 14/9 do jornal O Estado de São Paulo. Em parceria com a concessionária de quiosques Orla Rio, a iniciativa da fabricante de bebidas visa escalar as vendas no calçadão de Mamba Water, a sua marca de água mineral acondicionada em lata de alumínio, sensibilizando o público com o chamariz da reciclabilidade do metal. Sem adentrar as funduras do desnível dos preços, pois a embalagem metálica é bem mais cara que a de PET, uma fonte da Heineken afirma na matéria “terem sido criadas condições competitivas”.
Segundo a reportagem, a iniciativa visa “evitar a circulação e o descarte de 800.000 embalagens plásticas neste ano nas praias”. O projeto deve vigorar por três anos e, ao final deste prazo, a Heineken prevê que um volume acima de quatro milhões de latas seja ofertado nos 200 quiosques da Orla Rio. Hoje em dia, dimensiona o artigo publicado, 70% das vendas de água nesses estabelecimentos cabem a garrafas plásticas que, distingue o texto, “têm menor aproveitamento na reciclagem”. Para endossar a sustentabilidade da estratégia da Heineken, o Estadão entrevistou Marcus Nakagawa, coordenador do Cento de Estudos de Desenvolvimento Socioambiental da Escola Superior de Propaganda e Marketing. “A substituição das garrafas plásticas por latas de alumínio é uma ação muito interessante porque vai fazer com que tire (o material) da orla”, ele declarou.
Com mais de 21 bilhões de litros engarrafados ao ano, o Brasil é o quinto produtor e consumidor mundial de água mineral no planeta, atestam rankings do ramo. Pois se o país ostenta este status, o mérito é de PET, por sinal o polímero mais reciclado. Tal como ocorreu no reduto dos refrigerantes, o custo baixo e alta escala da garrafa do poliéster – atributos inatingíveis pelos materiais rivais – levaram à atual popularização da água mineral.
Contestação da ABIPET
Em sua cobertura, o Estadão não ouviu a parte atingida pelo ecomarketing da Heineken, a cadeia de PET. Plásticos em Revista fecha esta lacuna apresentando, a seguir, com exclusividade, o posicionamento oficial da Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET).
A Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET) não tem o conhecimento detalhado sobre modelos de negócios específicos, para que possa opinar a respeito da estratégia das inúmeras marcas ou suas escolhas sobre embalagens. O que podemos afirmar, com base em estudos técnicos de altíssima qualidade, é que a tentativa de usar o tema da sustentabilidade contra o plástico (no caso o PET) é completamente infundada.
Impacto ambiental não se mede apenas pela reciclagem. Para ficarmos no genérico, poderíamos usar o impacto de cada material nas mudanças climáticas ou pegada de carbono, que considera todo o ciclo de produção, distribuição e comercialização, onde o PET supera todas as alternativas de embalagens. (vide informações técnicas e referências sobre o ACV do PET abaixo).
Também não fica em pé o argumento de que poderá haver competitividade da água envasada em lata em relação ao mesmo produto em PET. Existem dados mercadológicos que colocam o PET em patamar de superioridade em relação a outros materiais. Levantamentos realizados em pontos de venda têm demonstrado que produtos envasados em PET apresentam preços significativamente inferiores aos praticados por itens semelhantes embalados em vidro ou alumínio. Isso decorre de fatores estruturais, como menor consumo de matéria-prima, maior produtividade industrial, menor peso das embalagens e custos logísticos reduzidos. Essas características explicam por que o PET se tornou a embalagem predominante no mercado brasileiro de água mineral, detendo mais de 95% de participação nesse segmento.
A ampla adoção do PET pela indústria permitiu ganhos de escala que contribuíram para tornar bebidas e alimentos mais acessíveis à população brasileira, democratizando o consumo. A opção da água em alumínio é uma alternativa voltada a um público “nichado”, de maior renda, capaz de pagar um valor substancialmente superior por um mesmo produto.
Para concluir, normalmente não opinamos nas decisões estratégicas ou táticas mercadológicas dos gestores de marcas. Mas, reforçamos que, baseados em dados técnicos consistentes, procuramos alertar que os consumidores atuais estão mais bem informados e podem ficar contrariados ao perceber que estão pagando mais caro por um mesmo produto, apenas por estar envasado em uma embalagem que não tem performance ambiental melhor que a alternativa mais barata.
ACV do PET e comparativos de embalagens nos segmentos de água, refrigerante e óleo comestível
Em relação ao meio ambiente, a discussão não pode ficar restrita à reciclagem e exige uma análise baseada em outros critérios, utilizando ferramentas amplamente adotadas pela comunidade científica nos Estados Unidos e nações da União Europeia. Estudo de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) realizado pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL/CETEA), da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, com os comparativos com outras embalagens feitos pela ACV Brasil (acesso por este link), concluiu que as embalagens PET apresentam desempenho ambiental superior quando comparadas a alternativas produzidas em outros materiais em diferentes indicadores analisados ao longo de todo o ciclo de vida da embalagem.
Esse tipo de metodologia considera desde a extração de matérias-primas até a destinação final das embalagens, passando pela produção, transporte e distribuição, oferecendo uma visão abrangente dos impactos ambientais envolvidos. As embalagens PET alcançaram desempenho superior às demais alternativas, nos quesitos que mais alertam a sociedade em relação ao meio ambiente. Entre elas, mudanças climáticas: uma embalagem PET de 350 ml, por exemplo, emite quase 30% menos gases de efeito estufa do que uma lata de alumínio de 350 ml, tendo como base a mesma quantidade de um litro de bebida distribuída no mercado brasileiro.
Diante dessa análise técnica, acreditamos que o bombardeio informacional sobre o PET visa apenas esconder uma guerra comercial disfarçada de discussão ambiental, para viabilizar produtos e estratégias de negócio que não teriam condições de prosperar de outra forma, prejudicando principalmente o consumidor final.


