Tolerância zero

Acabou a vista grossa para a defasagem na transformação
Foto: Messe Düsseldorf /ctillmann

Não importam guerras ou tarifaços, inescapavelmente tendências como a automação, robótica e realidade artificial ditarão as condições de sobrevida da indústria brasileira de transformação de plástico, um tsunami tecnológico que vem se massificando e acabará vitaminando a combalida competitividade e reformulando o perfil de um setor hoje às voltas com forte apagão de mão de obra operacional. Nesta entrevista, Silvio Davi Pires, diretor comercial da Rulli Standard, diadema das extrusoras brasileiras de filmes e chapas, analisa a conjuntura desafiadora para a transformação e as oportunidades nela imersas para as máquinas nacionais para plásticos aguçarem seu desempenho à altura de um patamar de produtividade superior.

“As exigências de sustentabilidade, eficiência energética e mais precisão na transformação criam a necessidade de agregar recursos da Indústria 4.0”

Silvio Davi Pires, Rulli Standard

Silvio Davi Pires, Rulli Standard

As importações mais acessíveis, através do acordo comercial União Europeia (UE)-Mercosul, podem incrementar a produtividade de suas máquinas com a possibilidade de incorporar, a custo menor, quais tipos de componentes da Europa?

A consolidação do acordo comercial União Europeia-Mercosul representa um divisor de águas para a indústria de bens de capital (máquinas e equipamentos) no Brasil. De um lado, abre-se uma janela histórica para a modernização e ganho de produtividade através do barateamento de componentes de alta tecnologia; de outro, estabelece-se um novo patamar de concorrência no mercado interno.

Alemanha, Itália e França são referências globais em componentes de alta precisão e tecnologias voltadas à Indústria 4.0. Com a redução progressiva ou eliminação de tarifas de importação (bens de capital e elétricos contam com cronogramas de desoneração rápidos, em muitos casos imediata ou até sete anos), as empresas brasileiras podem incorporar recursos antes proibitivos devido ao Custo Brasil.

O acesso a esses insumos a um custo menor incrementará a produtividade das máquinas nacionais através da automação avançada. Por exemplo, sensores de alta precisão e sistemas de visão computacional. A integração desses componentes permite às máquinas básicas realizarem a manutenção preditiva. Ou seja, identificando falhas antes que ocorram e operando de forma autônoma, reduzindo assim o tempo de parada e o desperdício de matéria-prima. As importações barateadas de itens europeus também contribuirão para a eficiência energética das máquinas e transmissão de alta performance, baixando muito o consumo de eletricidade da fábrica. Por fim, a disponibilidade ampliada de itens da Europa como válvulas proporcionais eletro-hidráulicas, blocos e relés de segurança dentro dos (padrões NR-12/CE, possibilitando às máquinas rodarem em velocidades maiores sem violar normas rigorosas de segurança do trabalho.

Paradas imprevistas: falhas no processo evitadas por componentes importados a menor custo pelo acordo UE-Mercosul.

Paradas imprevistas: falhas no processo evitadas por componentes importados a menor custo pelo acordo UE-Mercosul.

Como tende a ficar, sob a vigência do mesmo acordo, a disputa de suas linhas com as europeias?

Apesar da queda das tarifas aduaneiras, as indústrias brasileiras de máquinas e equipamentos ainda retêm vantagens estratégicas importantes que o fornecedor estrangeiro não acompanha. Por exemplo, pós-venda e assistência técnica imediata ao vivo.

Coextrusão Rulli Standard: menos perdas devido à redução do tempo de residência do polímero fundido dentro do cabeçote.

Coextrusão Rulli Standard: menos perdas devido à redução do tempo de residência do polímero fundido dentro do cabeçote.

No passado pré-digital, dizia-se que periféricos ou máquinas básicas para plástico entravam em defasagem após cerca de 10 anos. Hoje em dia, sob o primado da automação, computação e robótica, por quanto tempo, em média, eles seguem competitivos?

Em setores de precisão, como a extrusão de termoplásticos, operar com maquinário de 10 anos ou mais representa conviver com variações de espessura. O mercado hoje rejeita essa tolerância decorrente de automação defasada, geradora de maior índice de aparas e de setups ultra lentos.

O divisor de águas entre o maquinário atual e o de 10 anos atrás não é apenas o desgaste mecânico, mas a obsolescência tecnológica. As exigências de sustentabilidade, eficiência energética e mais precisão na transformação criam a necessidade de agregar recursos da Indústria 4.0, como controles automáticos de perfil de espessura e sistemas de refrigeração inteligentes. A incompatibilidade de hardware e o custo para realizar um retrofit saem mais caro do que um equipamento novo.

Reciclagem: Rulli Standard aprimorou geometria das roscas para ampliar rendimento da extrusão de filmes com teores de PCR.

Reciclagem: Rulli Standard aprimorou geometria das roscas para ampliar rendimento da extrusão de filmes com teores de PCR.

Quais as inovações em máquinas da Rulli Standard este ano e quais as as vantagens assim obtidas?

Desde 2021 a empresa investe pesado na modernização de seu parque industrial e 2026 não foge à regra. Como a marca mais antiga e com expertise diferenciada no segmento de linhas convencionais de mono extrusão de filme balão (blown film) e coextrusoras (3 a 9 camadas), além de chapas rígidas –, a Rulli Standard estruturou suas melhorias recentes focando numa engenharia robusta, de alta confiabilidade e custo-benefício. Por exemplo, diante da pressão do mercado por sustentabilidade, a favor da incorporação de teores de plástico reciclado pós-consumo (PCR), a Rulli atualizou a geometria das roscas para trabalho com alto rendimento. Também desenvolvemos novas zonas de mistura e cisalhamento, otimizadas para processar blends contendo polietileno linear metalocênico de última geração com percentuais mais elevados de grades reciclados, inclusive. Este aprimoramento viabiliza o processamento de até 100% de PCR sem perda de produtividade.

Nas coextrusoras, a reologia da distribuição de fluxo foi alterada gerando redução do tempo de residência do polímero fundido dentro do cabeçote, minimizando assim a degradação do material nas transições de camadas e permitindo trocas de ordens de produção e de cores muito mais rápidas. Disso resultam muito menos perdas, estabilizando o balão em larguras e espessuras críticas. Também incrementamos os recursos eletromecânicos em favor da estabilidade e automação do rebobinamento. Por fim, o hardware dos painéis de comando das nossas extrusoras receberam CLPs de última geração e passaram a operar com o software RULLI MACHINE 4.0 dotado de monitoramento remoto de parâmetros vitais (consumo de energia por zona, pressão de massa antes do troca-telas, amperagem do motor principal) e diagnóstico de falhas à distância, agilizando portanto o suporte técnico.

Realidade Aumentada e robótica: novos chamarizes para contratação de jovens qualificados para plantas de transformação.

Realidade Aumentada e robótica: novos chamarizes para contratação de jovens qualificados para plantas de transformação.

Como atualizar linhas de produção com robótica, automação, inteligência artificial e TI sob a escassez crescente de jovens qualificados no Brasil dispostos a fazer carreira na transformação de plástico? O que será do pessoal demitido pelas novas tecnologias?

Esse movimento cria um paradoxo socioeconômico: ao mesmo tempo que extingue postos de trabalho operacionais, gera um apagão recorde na busca por técnicos qualificados. Os trabalhadores braçais ou de funções com interferência manual não têm como disputar as vagas de “técnico 4.0” sem uma transição estruturada. E tampouco eles hoje manifestam interesse nela.

Para minimizar esse problema de falta de mão de obra, existem programas corporativos de requalificação em parceria com instituições como o SENAI, de forma a migrar esse funcionário da condição de trabalhador braçal para a de técnico operacional.

Enfim, a falta de mão de obra qualificada atinge patamares elevadíssimos, agravada pelo fator comportamental de que a maioria dos jovens prefere carreiras no setor de serviços, tecnologia ou empreendedorismo autônomo. Eles vêem o chão de fábrica como um ambiente rígido e antidigital.

Para otimizar as linhas de produção com eficácia diante desse apagão de novos talentos, as indústrias precisam mudar a estratégia de implantação, adotando tecnologias cujas interfaces imitem o ecossistema digital que o jovem já domina (smartphones/video games) e utilizando sistemas de Realidade Aumentada, onde o operador, com óculos especiais ou um tablet apontado para uma extrusora ou painel, visualiza instruções em 3D, passando instruções tipo “Aperte o parafuso X”, “Troque o filtro Y”. A Inteligência Artificial analisa a ação e valida o processo. Isso torna o ambiente industrial atraente e tecnológico para as novas gerações, reduzindo o tempo de treinamento. Por fim, fomentar a parceria das Indústrias com instituições de ensino tecnológico é uma saída para se obter resultados a médio prazo, melhorando a qualidade da mão de obra em linha com a robótica e outras frentes de modernização das fábricas. •

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