O que o fim da guerra reserva à petroquímica

Indústria será reconfigurada pela geopolítica, choque logístico e integração óleo/gás, preveem consultores da ChemVision
O que o fim da guerra reserva à petroquímica

Como se não bastasse o duro golpe do excedente global de resinas como polipropileno (PP) e polietileno (PE), decorrência do choque entre demanda enfraquecida e o fim do superciclo de investimentos no setor (1992-2021), a petroquímica mundial foi apanhada de guarda baixa pela guerra iniciada em março no Oriente Médio. Ao instaurar a escassez e encarecimento global de petróleo, derivados e do frete marítimo, a guerra deu um respiro à rentabilidade até então abalada do eteno e derivados. O alívio, no entanto, será efêmero após o fim do conflito, pois trará de volta à cena todos os problemas e lacunas de competividade que penalizavam a petroquímica internacional antes da guerra e que, desde o ano passado o setor se esforçava com mais veemência em buscar saídas, caso do empenho em desativar capacidades defasadas em escala, tecnologia e custos produtivos. Nesta entrevista, este dever de casa inadiável para a indústria petroquímica, implicando seu ajuste a uma nova realidade, é analisado a fundo por dois catedráticos no setor, Carlos Alberto Lopes e Luiz Fernando Marinho, diretores da consultoria ChemVision. 

“O cenário pós-conflito poderá ser agravado pela diminuição do crescimento do PIB mundial e contrairá a demanda por petroquímicos”

Carlos Alberto Lopes e Luiz Fernando Marinho, ChemVision

Carlos Alberto Lopes e Luiz Fernando Marinho, ChemVision

Segundo a consultoria Deloitte, um volume de polietileno (PE) acima de 8 milhões de toneladas parte nos EUA e China este ano. Esse acréscimo enfraquece ou anula o esforço empreendido até aqui para diluir o excedente global da resina, iniciado aliás antes da guerra no Irã?

O cenário macroeconômico atual reflete um momento de profunda transformação geopolítica, operacional, de garantia de suprimento e de rearranjo dos preços relativos. Este é o ambiente desafiador que o setor petroquímico global e brasileiro enfrenta em 2026, intensificado após o início do conflito dos EUA contra o Irã em 28 de fevereiro último.

O ingresso projetado de mais de 8,5 milhões de t/a de capacidade nominal global de PE, concentrado na Costa do Golfo americano (via etano da rota do shale gas) e em megacomplexos integrados na China, reconfigura de forma agressiva os fluxos comerciais do mercado de polímeros. Sob condições normais, esse volume agravaria o excedente estrutural global, que já superava 22 milhões de toneladas em capacidade ociosa acumulada antes da guerra.

No entanto, o fechamento das unidades obsoletas e não integradas na Europa, Coreia do Sul e Japão não será suficiente para alterar esse contexto de sobreoferta. Ao eliminar os ativos de menor competitividade, o mercado pode experimentar, paradoxalmente, uma piora generalizada nas margens do negócio, pois o preço internacional é balizado pelo produtor menos eficiente que o mercado necessita demandar.

No momento, o impacto imediato desse bloco de 8,5 milhões de toneladas está “mascarado”. A guerra removeu do mercado cerca de 4,2 milhões de toneladas de PE e derivados do Golfo Pérsico devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Assim, esses novos volumes dos EUA e China funcionam hoje, conjunturalmente, como um suprimento de substituição emergencial.

Em princípio, a partir de 2027, com a consolidação dessas novas capacidades, o mercado europeu enfrentará uma forte pressão. Afinal, o alívio temporário gerado pelo encarecimento atual dos fretes spot e escassez de rotas cessará, expondo a obsolescência dos ativos remanescentes.

Estreito de Ormuz: bloqueio suprimiu 4,2 milhõe de toneladas de PE do mercado mundial.

Estreito de Ormuz: bloqueio suprimiu 4,2 milhõe de toneladas de PE do mercado mundial.

Quando a guerra no Irã terminar de vez, analistas sustentam que o excedente global de resinas hoje sustado voltará com vigor, deprimindo preços e margens como antes da crise atual. Concorda com eles? Petroquímicas aceitarão passivamente esta pedra cantada?

Existe um consenso de que a situação de depressão de preços e margens se restabelecerá com o fim da guerra, à medida que a normalização do Oriente Médio reintroduzir uma pressão de oferta equivalente a um incremento repentino de 7% a 9% na disponibilidade global de poliolefinas. Os preços relativos dessa cadeia produtiva operam muito em função da oferta versus demanda e a nivelação em relação aos patamares anteriores, mesmo voltando à normalidade, deverá apresentar desvios.

Entretanto, esse cenário pós-conflito poderá ser agravado por uma variável macroeconômica crítica: a diminuição do crescimento do PIB mundial como efeito colateral da própria guerra. Ele se projeta no tempo e contrairá a demanda global por petroquímicos.

Tudo indica que os players globais não atuarão passivamente. A resposta empresarial será agressiva e se dará em duas frentes:

*Defesa Comercial Ativa O setor já contabiliza mais de 35 investigações e ações antidumping ativas globalmente, lideradas por grandes produtores (como a Ineos na Europa) contra práticas de preços marginais vindos da Ásia.

**Racionalização e Gestão de Oferta Haverá uma transição clara da estratégia de market share de volume para a preservação de margem de caixa. As corporações líderes preferirão operar suas plantas de alta eficiência com taxas de utilização reguladas e disciplinadas (na faixa de 75%), preferindo hibernar ativos a queimar caixa num mercado sobreofertado e com demanda enfraquecida.

Brasil: importações mobilizam mais de 35% do consumo aparente de poliolefinas para usos como cultivo protegido.

Brasil: importações mobilizam mais de 35% do consumo aparente de poliolefinas para usos como cultivo protegido.

Como vêm a possibilidade de o projetado retorno do excedente mundial de poliolefinas (após a guerra) pressionar para reduzir mais ainda a hoje insatisfatória ocupação da capacidade brasileira de PP e PE por falta de custos competitivos?

O jogo no Brasil, no que diz respeito a PE e PP, se dá pelo monitoramento milimétrico do ponto de equilíbrio (break-even point) entre garantir uma margem operacional pela manutenção de preços locais relacionados à paridade de importação e o risco de perda de mercado em decorrência disso. Hoje em dia, a taxa média de utilização da capacidade da petroquímica brasileira já opera em patamares criticamente baixos, entre 64% e 67%, muito aquém do nível ideal de equilíbrio (75% a 80%). As importações via COMEX STAT já respondem por mais de 35% do consumo nacional aparente.

Para entender o risco do retorno do excedente pós-guerra, a análise estratégica deve separar as duas resinas:

No caso do PE, passada a crise militar no Oriente Médio, a diferença entre a nafta (com preço atrelado ao petróleo Brent), que é a principal base de custo do eteno no Brasil, e o etano nos EUA (maior exportador para o mercado brasileiro) voltará aos níveis desfavoráveis observados em 2024/2025. O fator atenuante poderá ser uma mudança na avaliação de risco por parte dos transformadores nacionais, tendendo a comprar um percentual maior do produto nacional para se protegerem de sobressaltos logísticos globais. Caso contrário, a ociosidade local pode empurrar as plantas de PE no país para a faixa de 55% a 58% de ocupação.

Em relação a PP, os EUA não são exportadores relevantes para o Brasil e o diferencial competitivo da nafta nacional em relação ao propeno americano é menor. O perigo real para o polímero brasileiro no pós-guerra reside no destravamento de importações represadas de origens altamente competitivas que hoje sofrem restrições logísticas, como a China e a Arábia Saudita.

Para conter a desindustrialização na petroquímica brasileira, medidas regulatórias como a elevação temporária da Tarifa Externa Comum (TEC) e a consolidação do programa Gás para Empregar, além de programas de política industrial, como o PRESIQ (Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química) são considerados vitais.

A guerra no Irã deve motivar a expansão da capacidade norte-americana de PP, para reduzir no futuro a dependência de compras da resina asiática pelos EUA?

Este é um movimento de mercado que deve ser observado de perto, mas com cautela temporal. A guerra no Irã gerou um choque logístico profundo na Ásia: a região, altamente dependente da importação de mais de 15 milhões de t/a de GLP/propano, viu o preço do insumo disparar. Governos asiáticos priorizaram o uso social do GLP, forçando cortes de até 30% na produção de PP na China e Coreia do Sul.

Embora esse cenário impulsione a tese de reshoring (trocando o menor custo pela segurança de abastecimento), o mercado petroquímico possui uma lenta maturação de investimentos. O propeno “novo” nos EUA terá de, majoritariamente, vir de unidades de desidrogenação de propano (PDH). Embora projetos visem adicionar mais de 1,2 milhão de toneladas de PP na América do Norte nos próximos anos, para capturar a vantagem do propano do shale gas, os resultados de uma nova onda de investimentos como essa levariam, no mínimo, uns cinco anos para efetivamente se concretizarem. É cedo para avaliar se estratégias de grandes produtoras americanas de PP ou as operações nos EUA de petroquímicas múltis, Braskem inclusa, sofrerão guinadas radicais imediatas.

Estocagem de propano nos EUA: derivado do gás natural precificado regionalmente e mais competitivo que propeno obtido da nafta.

Estocagem de propano nos EUA: derivado do gás natural precificado regionalmente e mais competitivo que propeno obtido da nafta.

Cerca de 120 plantas de químicos/petroquímicos fecharam no mundo nos últimos 4-5 anos, calcula a consultoria De Loitte. Nas entrelinhas, o movimento evidencia que, daqui por diante, não terão mais vez plantas petroquímicas não integradas em energia e matérias-primas competitivas, caso aliás do Brasil?

Historicamente, nunca houve projeto petroquímico viável que não partisse da certeza de competitividade da sua matéria-prima. No passado, como a nafta sempre foi commodity global amplamente comercializada e disponível, a integração física a jusante (da refinaria até a planta de polímero) era menos mandatória. Foi sob este modelo que se desenvolveram os polos do Japão, Coreia do Sul e o modelo inicial do Brasil.

O que mudou radicalmente nos últimos anos, culminando no fechamento de cerca de 120 plantas mundiais, foi o deslocamento da equação de matérias-primas em direção a cargas alternativas (etano e propano) originadas no gás natural e que, ao contrário da nafta, são precificadas regionalmente.

O produtor brasileiro, que opera indexado à nafta/Brent internacional, enfrenta uma desvantagem estrutural severa contra plantas integradas ao shale gas nos EUA ou aos megacomplexos chineses focados em tecnologia COTC (Crude Oil to Chemicals) e MTO (Methanol to Olefins). Esse movimento beneficiou sobremaneira as petroquímicas americanas com base em etano.

O futuro da indústria nacional depende da transição energética e do novo balanço entre refino e líquidos de gás natural. A integração entre produtores de óleo e gás e a petroquímica é o principal caminho para agregar competitividade; o espaço para operadores marginais não integrados deverá ser reduzido. Uma alternativa para os ativos no Brasil seria a migração para contratos firmes de longo prazo atrelados ao etano/gás do pré-sal e correntes de refino.

A guerra no Irã comprova o perigo de uma petroquímica depender de uma única fonte de matéria-prima. Qual a saída então para essas unidades asiáticas dependentes de nafta e/ou gás do Oriente Médio?

Não parece existir no desenho geopolítico atual nenhuma outra região geográfica capaz de substituir o Oriente Médio como o grande supridor estrutural de nafta para a Ásia. Embora a crise causada pela guerra tenha forçado um redirecionamento emergencial dos fluxos de óleo e nafta vindos do Mar do Norte, EUA e África Ocidental (adicionando de 12 a 18 dias de tempo de trânsito e prêmios logísticos pesados), essa mudança é conjuntural.

A conversão estrutural de crackers de nafta asiáticos para rodar com Líquidos de Gás Natural (LGN) importados é improvável, pois alteraria o perfil de coprodução da indústria a jusante. Se a Ásia abandonar a nafta, de onde virão os aromáticos, o butadieno e o propeno em quantidades suficientes para abastecer suas cadeias industriais secundárias? Além disso, os impactos do conflito no Catar e Irã afetaram a oferta global de derivados de metano (como metanol e amônia) de forma duradoura. A conclusão realista é que a Ásia continuará importando nafta do Oriente Médio, adaptando-se a volumes ligeiramente menores, devido à reestruturação interna no Japão e Coreia, e negociando os termos de paz que garantam a reabertura permanente do Estreito de Ormuz.

Indústria europeia: defasagem será evidenciada após o conflito pela redução de preços do frete e disponibilidade de rotas internacionais.

Indústria europeia: defasagem será evidenciada após o conflito pela redução de preços do frete e disponibilidade de rotas internacionais.

O conceito de competitividade relativo a “plantas petroquímicas de capacidade global” é tirado agora de cena pela geopolítica, substituído por futuras “plantas petroquímicas de alcance regional?”

A tese de que a geopolítica destruiu o conceito de “plantas de capacidade global” precisa de uma contextualização histórica. Fora o Oriente Médio, cuja petroquímica, pelas dimensões reduzidas de suas economias locais, sempre foi obrigatoriamente voltada à exportação, o restante do mundo (EUA, Europa, bloco asiático) sempre teve essa indústria focada em seus mercados nacionais e regionais, explorando as janelas de exportação transcontinentais de forma puramente marginal. Esse padrão histórico deve se manter.

O que ocorre em 2026 é uma aceleração do conceito de gestão just-in-case (estoque suficiente para qualquer eventualidade) devido ao aumento real do risco de paradas industriais. Potenciais economias de centavos por quilo na importação de resinas spot asiáticas perdem o sentido empresarial quando o cliente final (cadeia automotiva ou de embalagens) enfrenta riscos de desabastecimento cujos custos de ociosidade superam em muito a economia da matéria-prima. O redesenho não extingue as mega plantas na origem competitiva do insumo, mas força as corporações a pulverizarem centros de distribuição regionais, operando com estoques de segurança locais muito mais robustos.

Drones: ataques a petroquímicas encareceram o seguro contra danos materiais e lucros cessantes nos sites.

Drones: ataques a petroquímicas encareceram o seguro contra danos materiais e lucros cessantes nos sites.

Em reação à guerra no Irã, companhias do Oriente Médio constroem agora gasodutos e oledutos para depender menos do Estreito de Ormuz no atendimento a seu mercado. Uma vez concluídos, estes investimentos implicarão mais aumentos nos patamares de custos e preços internacionais de petróleo e gás nos próximos anos?

Os anúncios de megaprojetos de infraestrutura de dutos terrestres (estimados em mais de US$ 45 bilhões) por estatais do Oriente Médio para contornar o risco físico do Estreito de Ormuz, transportando até 4,5 milhões de barris/dia de óleo e derivados, precisam ser avaliados sob o prisma da viabilidade econômica e temporal.

Se esses gasodutos e oleodutos de by-pass (desvio) não foram construídos no passado, a explicação é o custo mais barato do transporte por supernavios tanques. Sempre foi e assim permanece. Infraestruturas dessa magnitude levariam pelo menos uma década para serem efetivamente implementadas de forma a representar uma alternativa real de escoamento. A viabilidade desses investimentos dependerá umbilicalmente dos termos de um futuro acordo definitivo de paz na região. Caso eles avancem, os custos massivos de CAPEX (capital comprometido com a compra de bens) e tarifas de duto ditarão um novo patamar de preço mínimo (floor price) global para a nafta e petroquímicos básicos, inserindo um prêmio de risco e custos de segurança integrados permanentes nas planilhas globais.

Diante dos recentes atentados a complexos petroquímicos no Oriente Médio e Rússia, a hipótese de ataques a essas plantas por drones passa, daqui por diante, à condição de menção contratual obrigatória entre os riscos de alto grau e encarecedores de seguro industrial para sites químicos/petroquímicos? Quais as ações preventivas possíveis?

Não há margem para dúvidas de que o risco geopolítico mudou de patamar e a assimetria tecnológica introduzida pelos drones, onde atacar é infinitamente mais barato do que defender, alterou a perspectiva do setor. Os prêmios de seguro contra danos materiais e lucros cessantes (Property & Business Interruption) registraram severos reajustes mundiais, e o risco de ataques por vetores não tripulados passou a figurar como exclusão padrão, exigindo aditivos caros de terrorismo e guerra.

Essa percepção generalizada de risco geopolítico é o pano de fundo que baliza as estratégias corporativas este ano. As ações preventivas implementadas pelas petroquímicas envolvem:

*Mitigação Tecnológica Investimentos em sistemas locais de barreiras físicas reforçadas e de guerra eletrônica (anti-drone jamming) nos sites para blindar tanques críticos (GLP, metanol e amônia anidra).

*Revisão Contratual Inclusão de cláusulas de Força Maior ultra específicas, discriminando ataques cibernéticos e cibermilitares por drones, obrigando os produtores a manter estoques de contingência descentralizados para evitar litígios por quebra de fornecimento.

A avaliação de risco geopolítico terá, daqui por diante, o mesmo peso que a competitividade da matéria-prima na aprovação de qualquer projeto petroquímico global. •

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