A guerra no Irã pretejou de vez um cenário já encarado como espinhoso pela indústria nacional de máquinas para a transformação de plástico. Juros astronômicos, crédito arisco, inadimplência recorde e a inflação real fulminam, desde 2025, o poder aquisitivo da população, inclusos os beneficiados pelo assistencialismo. O clima de crista baixa enveredou por este ano eleitoral, contra a expectativa do governo atrás de votos, e piorou desde 28 de março, quando começou o conflito no Oriente Médio catapultando os preços do petróleo e derivados e desandando a economia. Além dessa parada duríssima, persistem em cena as velhas lacunas estruturais e mazelas do Custo Brasil que aprofundam cada vez mais a perda de competividade da transformação brasileira de plásticos. E a fuga do retrocesso passa pela atualização inadiável do parque industrial do setor. Na entrevista a seguir, este panorama de mar revolto e propostas de ações práticas para o setor virar sem demora o placar são esquadrinhados a quatro mãos por Gino Paulucci Junior, presidente do conselho de administração da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e Amilton Mainard, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico (Csmaip) subordinada à Abimaq.
“O problema da desindustrialização não é apenas a oferta de crédito. É também a confiança do empresário para investir”
Amilton Mainard, Csmaip / Gino Paulucci Junior, Abimaq
Qual será o impacto do acordo Mercosul-União Europeia sobre a competitividade da indústria brasileira de máquinas para plástico no mercado interno?
O impacto sobre a competitividade da indústria brasileira será relevante, mas não deve ser analisado de forma simplista. A Europa é referência em tecnologia, automação, eficiência energética, controle de processo e confiabilidade operacional. A redução gradual das tarifas tende a ampliar a pressão competitiva sobre os fabricantes nacionais, principalmente nos projetos de maior valor agregado.
Por outro lado, a indústria brasileira possui vantagens importantes, como proximidade do cliente, assistência técnica local, adaptação às condições reais de operação no Brasil, agilidade no atendimento, tropicalização dos equipamentos e profundo conhecimento das necessidades dos transformadores nacionais.
Com esse acordo comercial em vigor, com a indústria brasileira poderá competir entre máquinas europeias premium e asiáticas/chinesas no segmento standard?
A indústria brasileira não deve competir exclusivamente por preço com os asiáticos, nem apenas por sofisticação tecnológica com os europeus premium. Seu espaço mais competitivo está numa faixa intermediária de alto valor agregado: equipamentos robustos, tecnicamente confiáveis, com suporte local, custo total de produção competitivo e elevada capacidade de customização.
O transformador brasileiro não compra apenas a máquina. Ele compra disponibilidade operacional, assistência técnica, reposição de peças, manutenção, treinamento e segurança produtiva. É nesse conjunto de atributos que o fabricante nacional se diferencia.
Transformação: Brasil importou cerca de US$ 1 bilhão em máquinas em 2025.
Quais deverão ser, nessa disputa, os segmentos mais e menos vulneráveis da indústria brasileira de máquinas para transformação de plástico?
Os segmentos mais vulneráveis tendem a ser as máquinas mais padronizadas, com menor diferenciação tecnológica e maior sensibilidade a preço. Nesses casos, a concorrência asiática já é intensa no mundo todo e a europeia pode ampliar a pressão pelo diferencial tecnológico.
Por sua vez, periféricos, automação complementar, acessórios, sistemas auxiliares e soluções customizadas tendem a ser menos vulneráveis, desde que o fabricante nacional entregue engenharia aplicada, integração eficiente e suporte técnico qualificado. Onde há customização, assistência técnica e domínio do processo produtivo local, o Brasil possui melhores condições de competir.
O acesso a componentes europeus avançados, através do acordo comercial, pode melhorar a posição dos fabricantes brasileiros?
A indústria local já tem acesso a componentes avançados, tanto nacionais como europeus. O acesso a componentes mais avançados e potencialmente mais acessíveis fortalecem os fabricantes brasileiros, em especial em automação, sensores, controles, ferramentas digitais, softwares industriais e eficiência energética. Entretanto, o acesso representa ganho efetivo de competitividade pela capacidade de engenharia local para integrar esses componentes ao equipamento final. O acesso a tecnologias, sejam elas nacionais ou importadas, não basta. O diferencial está em transformá-las em soluções industriais viáveis, com garantia de manutenção local, confiabilidade operacional e custo compatível com a realidade do mercado brasileiro.
Insegurança jurídica: trava do poder público na intenção de investimentos produtivos.
O acordo Mercosul- UE pode comprometer a autossuficiência brasileira em moldes pesados de injeção?
Se não vier acompanhado de uma política de ganhos de competitividade industrial, o acordo pode dificultar a busca por autossuficiência em itens como moldes pesados de injeção.
Durante as últimas décadas, o Brasil perdeu densidade industrial em várias etapas da cadeia produtiva. O segmento de moldes de injeção, por exemplo, exige investimentos elevados, mão de obra altamente especializada, aço de qualidade, centros de usinagem de alta precisão, softwares avançados, engenharia e escala produtiva.
Se o país não enfrentar problemas estruturais – relacionados ao elevado custo de capital de giro e de investimentos, à deficiência na formação técnica, insegurança jurídica, baixos investimentos em infraestrutura – a dependência externa tende a aumentar.
Existe espaço para produção nacional em moldes de maior complexidade, manutenção, reforma, adaptação e projetos estratégicos. No curto prazo, a autossuficiência plena não nos parece um cenário provável, mas cabe destacar que o país possui importante capacidade produtiva que demanda um ambiente de negócios adequado, principalmente neste cenário de maior competitividade internacional.
O governo lançou em janeiro de 2024 a política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), na garupa de R$ 300 bilhões para financiamentos a juros camaradas com o intuito de refrear a desindustrialização. Na visão da Abimaq/CSMAIP, quais os efeitos, até o momento, dessa estratégia na indústria transformadora de plástico?
A NIB é importante porque recoloca a indústria no centro da agenda econômica. Não temos conhecimento da existência de base de dados ou informações públicas consolidadas que nos permita comentar sobre o montante efetivamente direcionado à indústria transformadora de plástico, nem sobre o número de projetos do segmento contemplados até o momento. Mas estamos convictos de que diversas empresas foram beneficiadas pela oferta de recursos a custos inferiores aos de mercado e direcionados, em particular, à modernização e digitalização tecnológica.
De forma geral, o setor produtivo depende fortemente de recursos para capital de giro, sejam próprios ou a partir de financiamento bancário privado, de crédito de fornecedores e negociações diretas com fabricantes. Quando deparam com linhas pouco competitivas, burocráticas, com prazos longos de aprovação, garantias exigidas que não podem ser cumpridas e até mesmo dificuldades de enquadramento de seus produtos, as empresas deixam, em muitos casos, de concretizar o investimento. Além disso, juros estruturalmente elevados reduzem o apetite empresarial por novos investimentos. Mesmo quando existe crédito disponível, o empresário hesita em assumir dívidas de longo prazo num ambiente marcado por demanda instável, insegurança jurídica, volatilidade cambial e baixa previsibilidade econômica.
O problema, portanto, não é apenas a oferta de crédito. É também a confiança para investir.
Com ênfase basicamente em juros reduzidos e crédito facilitado, a NIB pouco difere dos modelos anteriores de política industrial no país. O que falta ao conteúdo dela para vitaminar investimentos na modernização/expansão de transformadoras de plástico?
Crédito é necessário, mas não resolve sozinho os problemas da indústria. O setor de transformação de plástico precisa de uma política industrial que promova ganhos de produtividade, sofisticação tecnológica e um ambiente melhor de negócios.
Necessitamos de ações nas seguintes frentes principais:
- Garantia de previsibilidade – Empresa só investe em modernização, automação e expansão quando consegue enxergar demanda futura, estabilidade macroeconômica e segurança jurídica.
- Formação técnica – O setor transformador enfrenta escassez de operadores, técnicos, projetistas, mecânicos, eletricistas, programadores de CLP, especialistas em automação e profissionais preparados para processos mais sofisticados.
- Incentivo efetivo à renovação do parque fabril – Muitas empresas ainda operam com máquinas antigas, com baixa automação, elevado consumo de energia, perdas de matéria-prima e pouca integração de dados. Assim, entendemos que a política pública deve estimular de forma ainda mais intensa a modernização tecnológica a partir de programas perenes de depreciação acelerada e de financiamentos a baixo custo, estabelecendo metas concretas de produtividade aos beneficiados.
- Maior integração entre fabricantes de máquinas, transformadores, SENAI, universidades, BNDES, FINEP e entidades setoriais. A indústria não se moderniza apenas por decreto ou financiamento. Modernização demanda projeto, engenharia, treinamento, acompanhamento técnico e escala.
Na visão da Abimaq/CSMAIP, qual o faturamento da indústria brasileira de máquinas para plástico em 2025 e qual receita acumulada das importações dessas linhas no mesmo período?
Para o setor brasileiro de máquinas e equipamentos como um todo, a Abimaq divulgou receita líquida próxima de R$ 300 bilhões em 2025, crescimento de 7,3% em relação a 2024. No mesmo período, o setor fabricante de máquinas para bens de consumo, inclusas indústrias de máquinas para plástico, registrou crescimento ainda superior, beneficiado pela melhora da renda das famílias. Para 2026 a projeção é de crescimento mais fraco na receita líquida de vendas, em torno de 0,3%. Dois fatores ajudam a explicar o cenário menos otimista: a manutenção das taxas de juros em patamares extremamente elevados e a elevação das incertezas em relação ao futuro, devido ao cenário internacional e nacional.
As importações seguem pressionando fortemente a indústria nacional. Em 2025, o Brasil registrou novo recorde de importações de máquinas em geral, totalizando US$ 32,17 bilhões. Desse montante, aproximadamente US$ 1 bilhão corresponderam a máquinas para plástico. As principais origens dessas importações foram China, Alemanha e Itália, além da crescente presença de outros fornecedores asiáticos a depender do tipo de equipamento.
Nos últimos anos, o setor de máquinas nacionais tem deparado com uma parcela crescente do mercado interno capturada por produtos importados. Uma evidência de que o Brasil precisa avançar em competitividade sistêmica e não apenas em capacidade produtiva.
Moldes pesados de injeção: acordo Mercosul-União Europeia pode minar a busca de autossuficiência produtiva do Brasil.
Os jovens preferem hoje fazer carreira em empresas de serviços e no mercado financeiro. Diante da escassez de pessoal qualificado, os transformadores podem investir na robotização e digitalização, mas essas tecnologias exigem mão de obra cara demais para caber no caixa das empresas dependentes de uma economia brasileira instável. Qual a saída para esse quadro cada vez mais preocupante?
A ausência de mão de obra especializada é um problema que o setor produtivo hoje enfrenta. A indústria de transformação de plástico, em constante modernização dos seus processos, demanda oferta crescente de pessoal qualificado.
Robotização, automação, coextrusão, inteligência artificial, controle de processo e digitalização não eliminam a necessidade de mão de obra, apenas alteram o perfil exigido. Reduz-se parte das atividades repetitivas e aumenta-se a demanda por profissionais especializados.
A solução passa por um esforço conjunto entre SENAI, escolas técnicas, fabricantes de máquinas e transformadores. É necessário formar operadores industriais modernos, técnicos de manutenção, especialistas em automação e profissionais de processo, além de aproximar os jovens da carreira industrial.
Também é importante atualizar a percepção da indústria perante os jovens. Hoje, a indústria opera com tecnologia, oferece oportunidades de carreira, estabilidade e remuneração competitiva em relação a diversos segmentos da economia.
Para empresas menores, a transformação digital não precisa ocorrer de forma integral e imediata. O caminho mais viável costuma ser gradual: começar por controle de processo, sensores, redução de refugo, eficiência energética, manutenção preventiva, treinamento e automação de pontos críticos.
A digitalização precisa ser compatível com a realidade financeira da empresa brasileira.
Qual o impacto notado desde o início da guerra no Irã no custo e prazos de entrega na fabricação nacional de máquinas em geral, a reboque da disparada do petróleo e derivados e do encarecimento e prolongamento dos incertos fretes marítimos da Ásia para o Brasil? A guerra sinaliza déficit nas vendas de máquinas nacionais neste ano eleitoral versus 2025?
A geopolítica se tornou uma variável central para a indústria. Guerras, tensões no Oriente Médio, disputa entre Estados Unidos e China, tarifas comerciais, preços do petróleo e do frete marítimo afetam diretamente custos, prazos e decisões de investimento.
Mesmo quando os conflitos parecem distantes, seus efeitos chegam rapidamente ao chão de fábrica por meio do aumento dos custos de resinas, aço, componentes eletrônicos, motores, sensores, inversores, fretes e câmbio.
Entre março e maio, a elevação do petróleo e a instabilidade logística pressionaram custos e prazos, especialmente para componentes importados e itens dependentes da Ásia. O impacto não é uniforme, mas existe: o orçamento fica mais apertado, os prazos mais incertos e o fabricante nacional de máquinas precisa absorver mais risco.
Em relação a 2026, o ambiente eleitoral tende a aumentar a cautela dos investidores. O empresário normalmente adia decisões quando há combinação de juros elevados, insegurança jurídica, volatilidade cambial e incerteza política.
Isso não significa necessariamente queda generalizada nas vendas, mas aponta para um mercado mais seletivo, com decisões mais lentas e maior exigência de retorno sobre investimento.
A visão do setor é pragmática: existe demanda reprimida por modernização industrial, mas o ambiente econômico ainda não oferece estímulos suficientes ao investimento produtivo.
A indústria brasileira de máquinas para plástico possui competência técnica, tradição e capacidade industrial. O que falta é estabilidade econômica, financiamento competitivo, formação de mão de obra, previsibilidade regulatória e condições isonômicas de concorrência frente aos importados.


