Hora de ensinar a pescar

Assistencialismo não esquenta mais a compra de alimentos, maior mercado das embalagens plásticas

A guerra no Irã age feito pá de cal na eficácia das políticas assistencialistas, abraçadas pelos governos do Brasil desde os anos 1990 como subsídios para pessoas em situação vulnerável e, nas entrelinhas, como pega-votos do agradecido eleitor beneficiado. Essa distribuição de recursos hoje rege o balanço dos bens essenciais puxados por alimentos, prato forte das embalagens plásticas.

Antes do conflito no Oriente Médio eclodir justo num ano eleitoral no Brasil, o repasse de incentivos já aparentava perder peso no poder aquisitivo de baixa renda, desgaste agravado pelo repentino encarecimento do petróleo, diesel e fertilizantes provido pela guerra e rastilho para a inflação. “A população brasileira como um todo teve seu poder aquisitivo comprimido drasticamente na pandemia e a recuperação obtida nos últimos anos não foi capaz de recompor esta capacidade de consumo”, julga Erasmo Fraccalvieri, CEO da consultoria EF Desenvolvimento. Estudo recente da agência Kinitro Capital, ele cita, concebeu um indicador do poder de compra de alimento em cestas básicas, fulcro do estudo “Por que a Economia Cresce, mas a Popularidade Recua? O Paradoxo da Carestia”. Em suma, frisa o tarimbado analista, mesmo com o desemprego baixo e PIB crescente, o assalariado formal, por exemplo, consegue comprar hoje apenas 75% do que levava antes da pandemia. “O trabalhador está estagnado na produtividade”, vaticina Fraccalvieri. A SERASA mostrou este empobrecimento na sua projeção de fevereiro último, à beira da guerra: 81.7 milhões de pessoas inadimplentes e o calote dado na faixa de R$ 525 bilhões. “Este montante deveria estar no caixa dos bancos ou financeiras, porém permaneceu no mercado. O crédito ficou escasso para o brasileiro adquirir bens duráveis e até semiduráveis. Assim ele desovou este dinheiro no varejo”, explica o consultor. Apesar disso, o consumo de alimentos vem fraquejando.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente do conselho da Abiplast, resume a pergunta da hora para os universitários: “Como vamos sair deste assistencialismo caduco com objetivos eleitorais e o que os setores que vinham se ‘alimentando’ dele vão ter que fazer para se adaptar a esta nova realidade?”

A pista para uma ruminação a respeito é dada por dois laureados com o Nobel de Economia, James Robinson e Darion Acemoglu, no livro “Por que as nações fracassam”. Direto ao ponto: “Instituições econômicas inclusivas que garantem o direito à propriedade (obs.- segurança jurídica) criam oportunidades igualitárias e incentivam investimentos em novas tecnologias e habilidades têm mais chances de levar ao crescimento econômico do que instituições extrativistas estruturadas para que poucos possam extrair recursos de muitos e que não protegem o direito à propriedade nem oferecem incentivos para a atividade econômica”. Crescimento sustentado da economia, eles argumentam, está ligado à destruição criativa (p. ex., disrupturas causadas pela Revolução Industrial, internet, inteligência artificial) que substitui o velho pelo novo e desestabiliza as relações de poder na política. “Como temem a destruição criativa, as elites que dominam as instituições extrativistas resistirão a ela e qualquer crescimento que germine será breve”. No Brasil, portanto, já passou da hora de se ensinar a pescar em vez de eternamente dar o peixe. •

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