O ataque ainda é a melhor defesa

Componedores de materiais nobres afiam formulações e atendimento para resistir à instabilidade
Componedores de materiais nobres afiam formulações e atendimento para resistir à instabilidade

Juros nas nuvens, crédito em recesso e inadimplência recorde das famílias brasileiras frustraram em 2025 as vendas de bens duráveis, mercado em vaso comunicante com plásticos de engenharia. Mal saídos de um período nada memorável, os fornecedores de materiais nobres torciam em janeiro pelos bons fluidos na demanda trazidos pelo poder aquisitivo reaprumado pelas bondades do governo em ano eleitoral. Foi tudo ilusão passageira que, desde o início de março, a guerra no Irã levou. Sob essa ducha de água gelada, os componedores de especialidades plásticas agora se desdobram para competir num panorama de calmaria interna embolada com os preços desenfreados do petróleo/derivados e com o frete marítimo mais caro, demorado e incerto dos polímeros de engenharia importados que o Brasil tanto precisa (nota: produz apenas poliamida 6.6 em planta da Basf). Na entrevista a seguir, esta prova de fogo para uma artéria crucial da cadeia plástica é exposta por Julio Victor Casarotti, sócio executivo da Primotécnica; João Rodrigues, CEO da Thathi Polímeros; Laercio Gonçalves, do Grupo activas e da componedora actplus; Gustavo Nascimento, diretor de marketing da Krisoll e Jane Campos, diretora geral da Radici Plastics.

“O cliente hoje quer, principalmente, segurança no recebimento do material com o grau de excelência determinado no pedido”

Julio Victor Casarotti, Primotécnica

Julio Victor Casarotti, Primotécnica

Devido aos juros altos complicando a venda de bens duráveis, 2025 foi dureza para o setor de plásticos de engenharia. Como foram as vendas de sua empresa em 2025 x 2024, qual era sua previsão em janeiro para suas vendas em 2026 e como ficou essa previsão desde março, quando começou a guerra no Irã?

Julio Victor Casarotti: O consumo realmente retraiu na entrada de 2025, devido em grande parte aos aumentos expressivos de preços que vinham desde a época da covid e os produtos moldados com plásticos de engenharia não abaixavam no consumidor final. Tanto é assim que nós, fornecedores desses materiais, operamos em 2025 e 2026 – antes da guerra no Irã – com valores estáveis e muito abaixo do patamar praticado em 2023 e 2024. Com isso, declinaram os valores dos componentes de materiais nobres para produtos finais, como carros, materiais de construção e itens do setor de cosméticos.
No entanto, de março último até a primeira quinzena de abril os preços médios da poliamida (PA – nota: grades 6 e 6.6) aumentarem em torno de 35%. Como o mercado segue menos comprador, a oferta ainda está alta. Mas nós, como fornecedores de poliamidas, não estamos sendo tão afetados como quem supre os mercados de polipropileno, polietileno e afins.

João Rodrigues: Em 2025 não registramos redução das atividades com novos desenvolvimentos e as vendas de PA 6, PA 6.6, poliacetal (POM) e polibutileno tereftalato (PBT). Ao contrário, foi um ano de muito trabalho. Mantivemos os clientes tradicionais e, em paralelo, obtivemos novas oportunidades com empresas que ampliaram nosso portfólio de negócios. A linha de PA Technyl que importamos, colaborou com o faturamento no período em razão de homologações locais da marca. Desse modo, 2025 resultou em crescimento de 16,75% em nossas vendas de resinas de engenharia.
A movimentação de preços internacionais da cadeia química com repercussão nos polímeros de nossa linha se acentuou em março último, com a entrada em cena do conflito no Oriente Médio. A propósito, convém citar que, antes da guerra, os preços andavam nos patamares mais baixos dos últimos tempos. A propósito corriam então rumores de que a calmaria nos preços das resinas iria mudar em algum momento, tirando-os do cenário em vigor há algum tempo de acomodação ou ligeiras baixas nas cotações. Durante o primeiro quadrimestre de 2026, houve uma surpresa na movimentação de negócios, registrando sensível alta nas vendas fechadas e na quantidade de consultas. Nossa estratégia, baseada na agilidade na produção nacional de compostos e na disponibilidade de estoque de segurança robusto, tem permitido estender o raio de alcance do nosso atendimento. Cabe considerar nesse quadro, como é natural, o custo de reposição dos estoques e os novos posicionamentos de preços, pois, os custos das importações de materiais como PA 6, POM e PBT, inclusos fretes marítimos, acusam expressivas altas a partir da Ásia e Europa. Por ora, os reajustes desses custos quanto a PA 6.6 transcorrem com menor ímpeto.

Eletrodomésticos: crédito restrito e juros nas alturas ricocheteiam no consumo de materiais nobres para peças técnicas.

Eletrodomésticos: crédito restrito e juros nas alturas ricocheteiam no consumo de materiais nobres para peças técnicas.

Laercio Gonçalves: 2025 foi de fato um ano desafiador para os plásticos de engenharia, em especial pela combinação de juros elevados e restrição de crédito, fatores de impacto direto nos setores ligados a bens duráveis. Em nosso caso, houve uma retração no faturamento em relação a 2024, refletindo em particular a dinâmica de preços ao longo do ano passado, num ambiente mais pressionado. No início de 2026, a expectativa era de retomada gradual, e o mês de janeiro confirmou esse movimento, com desempenho alinhado e até superior ao planejado, No entanto, a partir de março, com o agravamento do cenário geopolítico, observamos um ambiente de maior volatilidade, com efeitos na dinâmica de mercado e no comportamento de compra dos clientes.

Gustavo Nascimento: 2025 foi um ano de gestão rigorosa. Com os juros em patamares elevados, o mercado retraiu e o custo de manter estoques tornou-se um desafio financeiro direto. Batemos nossas metas, mas isso exigiu um planejamento estratégico cirúrgico e cautela extrema. Ingressamos em 2026 com otimismo, mas o início da guerra, em março, trouxe um choque sistêmico. De uma hora para outra, enfrentamos instabilidade no dólar, nas petroquímicas e na logística global. O mercado, de início assustado com os reajustes, correu para se abastecer por medo da escassez. Operamos hoje com planejamento de curtíssimo prazo; a cautela não é mais uma opção; é a regra.

Jane Campos: O ano de 2025 foi realmente desafiador: passamos para uma planta maior, valorização do real e queda nos volumes e nos preços das poliamidas. Além do mais, operamos no período com estoques altos, preparados para atravessar a fase de mudança da fábrica. O resultado final foi, então, menor do que o esperado, com declínio de 6% no volume de vendas. Mas tudo isso são águas passadas. Vamos para 2026. Começamos o ano bem e fechamos o primeiro trimestre positivo em relação ao budget. A previsão para o segundo segue na mesma trilha, devido a novos projetos e parte de clientes que se estocou com medo de falta de abastecimento disseminado pelos efeitos da guerra no Irã. Hoje em dia, o mercado interno está recessivo devido aos custos e juros e a expectativa para o segundo semestre não é boa num cenário marcado ainda por Copa do Mundo e eleições. Haja coração! Retomando a menção aos efeitos da guerra, os preços das poliamidas também subiram, mas bem menos que os termoplásticos commodities. Isso abre portas para substituição por elas em muitas aplicações que, no passado, havíamos perdido especialmente para polipropileno.

“Antes da guerra, os preços andavam nos patamares mais baixos dos últimos tempos”

João Rodrigues, Thathi Polímeros

João Rodrigues, Thathi Polímeros

Tomando como base um polímero de engenharia padrão, qual a sua estimativa do aumento do preço médio internacional da resina de PA 6 entre 28/2 (início da guerra) até a primeira quinzena de abril? E quais as mudanças constatadas nesse período quanto a reduções no prazo de pagamento estipuladas para seus clientes devido à conjuntura econômica volátil?

Julio Victor Casarotti: Houve um aumento em torno de 35% logo no começo da guerra. Mas nas duas últimas semanas de abril ocorreu uma estabilização de valores, por conta também da demanda fraca.

João Rodrigues: Ainda estamos digerindo as fortes altas nos custos que estão chegando os containers de PA 6, PA 6.6, POM e PBT. Não repassamos em abril a variação dos preços atualizados aos clientes. Não obstante, o reajuste terá de ser aplicado nos faturamentos de maio. Os preços de materiais como PA 6, POM e PBT chegaram a aumentar 40% do início da guerra ao fim da primeira metade de abril. Essas cifras precisam ser tratadas com cada cliente, em negociações exaustivas e intensas. Prazos de pagamento não estão sendo alterados com nossos supridores externos. Somente os preços FOB (vendedor entrega no porto/transportadora e comprador assume custos/riscos a partir dali) e CIF (vendedor paga frete/seguro até o destino final).

Laercio Gonçalves: No período analisado, observamos uma tendência consistente de alta nos preços internacionais das resinas de engenharia, com variações que, de forma geral, superaram dois dígitos percentuais. Esse movimento não constituiu o caso isolado de determinada família de polímeros. Ele foi acompanhado de forma ampla pelo mercado, refletindo um ambiente de maior pressão ao longo de toda a cadeia dessas especialidades plásticas. Em relação às condições comerciais vigentes em plásticos de engenharia, não identificamos mudanças relevantes nos prazos de pagamento, mantendo-se, de forma geral, a dinâmica antes praticada.

Gustavo Nascimento: Hoje em dia, falar de prazos de pagamentos é complexo. O mercado reage negativamente a mudanças bruscas que afetam a estabilidade financeira. Entre o início do conflito no Oriente Médio e meados de abril, consideramos que o preço médio internacional de PA 6 sofreu pressão significativa, refletindo a escalada dos custos do petróleo e frete. Nesse cenário, avaliar cada negociação de forma individualizada é imprescindível para manter o fluxo de caixa saudável para nós e os parceiros.

Jane Campos: Até o momento, o impacto na média para PA 6 chegou a 24% e de 20 % para PA 6.6. Não mudamos nossos prazos de recebimento no geral, somente em casos pontuais. Estamos bem mais rigorosos com o tema do crédito.

“O panorama atual pressiona toda a cadeia, devido em especial à volatilidade de custos e incertezas logísticas”

Laercio Gonçalves, Grupo activas e componedora actplus

Laercio Gonçalves, Grupo activas e componedora actplus

Boa parte dos analistas prevê que, mesmo se a guerra acabar até junho, os problemas de suprimento e custos de materiais devem se estender até 2027. Essa situação tende ou não a desencadear uma onda de fechamentos de fábricas, e/ou de recuperações judiciais de componedores de plásticos de engenharia este ano, por falta de fôlego financeiro ou por não conseguirem repassar os reajustes nos materiais?

Julio Victor Casarotti: No nosso campo dos componedores, eu não vejo um problema muito drástico. Antes da guerra o mercado brasileiro estava bem estocado e com materiais a caminho. Veio a guerra e, mesmo com os valores mais altos, a demanda pelos materiais nobres continua baixa, razão pela qual os preços estão se mantendo no patamar do primeiro aumento aferido em março.

João Rodrigues: Vemos hoje diversos clientes modernizando e aumentando suas capacidades com injetoras mais eficientes, buscando abrir mais frentes de negócios, atualizando seu pessoal técnico e até ampliando este quadro, apesar da baixa qualificação da mão de obra disponível e da dificuldade em contratar por falta de interessados.
Se for mantida esta conjuntura de abruptos aumentos do petróleo, derivados e da carga inflacionária sentida em toda a economia, não será difícil depararmos com empresas que podem despertar em nosso setor preocupação com desemprego, dívidas e degradação do parque industrial. Neste momento, o país precisa exatamente do contrário.

Laercio Gonçalves: O panorama atual pressiona toda a cadeia, devido em especial à volatilidade de custos e incertezas logísticas. Ainda é difícil fazer previsões mais assertivas diante de um ambiente tão dinâmico. A expectativa é de que alguns desses impactos possam se estender ao longo de todo o exercício corrente. Até o momento, não observamos uma tendência generalizada de fechamento de fábricas ou recuperações judiciais. O que se percebe é um mercado mais cauteloso, com ajustes pontuais por parte das empresas, como adequações de produção, gestão mais rigorosa de custos e maior atenção ao fluxo de caixa. Em cenários mais extremos e pontuais, pode haver aumento de inadimplência, adoção de férias coletivas ou até paradas temporárias de produção, mas este não é o comportamento predominante observado até aqui.

Gustavo Nascimento: O risco da onda de calamidades citada na pergunta é iminente. Estamos diante de um efeito em cadeia de proporções globais. A saúde financeira de uma empresa determina quanto tempo ela aguenta o “mar revolto”. O fim de um conflito armado, como o do Oriente Médio, não elimina as consequências imediatas; o mercado demora a estabilizar. Infelizmente, para players menos sólidos, isso pode significar o fim das atividades. Acordamos todos os dias com notícias de negociações em curso entre EUA e Irã e podemos encerrar o expediente com atualizações catastróficas. Hoje, a solidez do caixa de uma indústria é o que separa sua sobrevivência do colapso.

Jane Campos: Este movimento de recuperação judicial e fechamentos de fabricas já acontecia antes da guerra começar; tivemos alguns casos no final do ano passado. Os motivos são diversos e, com certeza, serão agravados pela dificuldade de repasse e fluxo de caixa. Muitos clientes estão com problemas financeiros devido também à condição de pagamento antecipado para as poliolefinas. Isso vem desequilibrando o caixa de muitas indústrias transformadoras, em especial no segmento de embalagens.

“Operamos hoje com planejamento de curtíssimo prazo; a cautela não é mais uma opção; é a regra”

Gustavo Nascimento, Krisoll

Gustavo Nascimento, Krisoll

Quais as semelhanças e diferenças que nota no mercado de plásticos de engenharia este ano e no período da pandemia?

Julio Victor Casarotti: São situações muito diferentes. A demanda estava reprimida na pandemia e, no mercado atual, anda sobrando material nos componedores. Não é uma época fácil para nós. Muitos clientes não usam apenas compostos de PA, mas materiais como poliolefinas e ABS (copolímero de acrilonitrila butadieno estireno); na maioria das vezes esses materiais são o carro-chefe da indústria transformadora que atendemos. Com isso, o cliente tende a comprar somente o necessário em compostos de PA.

João Rodrigues: Na pandemia houve possibilidade de trabalho administrativo remoto. Nas fábricas e outras atividades, isso não era possível. Àquela época, tivemos que negociar os recebíveis com os clientes, pois tínhamos compromissos locais com energia, folha de pagamentos, fretes, impostos e faturas em valores pesados de nossos supridores externos. Foi um trabalho de negociação difícil, mas, felizmente não tivemos quebra de empresas ou cliente que tenha se recusado a entender a situação e parcelamos os valores por eles devidos. Importante frisar que esse trabalho de adequação às mudanças trazidas pela covid transcorreu sem interromper o fornecimento. Tudo foi liquidado. Tudo foi resolvido.
Desta vez, porém, a situação é diferente com os aumentos generalizados e, ao recorrerem aos bancos, os empresários terão que considerar o custo do dinheiro mais um componente na formação de seus preços. Terão menor capital de giro, o que afetará seu fluxo de caixa e acena a eles com a possível consequência da inadimplência. Entretanto, estas minhas conjeturas constituem ilações não necessariamente, sólidas.

Laercio Gonçalves: Há, sim, algumas semelhanças entre hoje e o período da pandemia, em especial quanto à instabilidade global e impactos nas cadeias de suprimento. No entanto, os contextos são distintos. Durante a pandemia, apesar das rupturas logísticas, havia maior previsibilidade de demanda em determinados segmentos e um cenário mais claro de direcionamento da oferta. Agora, o que se observa é um ambiente mais inflacionado e volátil, tanto em preços quanto em disponibilidade de materiais como os de engenharia. Ou seja, passamos de um cenário de ruptura pontual para outro de instabilidade mais prolongada e menor previsibilidade.
Esta experiência proporcionou um aprendizado importante a toda a cadeia plástica. Hoje, suas empresas estão mais preparadas para lidar com esse tipo de situação, com relações mais próximas com parceiros e clientes, maior capacidade de adaptação e gestão mais estruturada dos riscos.

Gustavo Nascimento: A principal semelhança entre as circunstâncias de hoje e as da covid é a total falta de previsibilidade. Em ambos os casos, vemos o mercado buscando “estoques de segurança” por medo do desabastecimento. O problema é o efeito rebote: após esse movimento de estocagem a preços altos, o fluxo de compras tende a travar no médio prazo, prejudicando o giro do setor.

Jane Campos: O panorama agora é totalmente diferente. Afinal, pouco ou muito, o governo ajudou financeiramente as empresas a passar pelo período da pandemia e, neste momento, ele vai no caminho oposto. Durante a pandemia não tínhamos previsibilidade para poder estudar cenários e hoje sabemos da guerra, dos custos, da diminuição da oferta etc. Podemos, então, nos antecipar às situações, sejam para melhorar o resultado ou até mesmo mudar o rumo do negócio.

“Nosso principal investimento este ano será em Inteligência Artificial no controle da produção”

Jane Campos, Radici

Jane Campos, Radici

Na conjuntura atual, poderia dar exemplos concretos dos tipos de desenvolvimentos de soluções em plásticos de engenharia mais solicitados por seus clientes?

Julio Victor Casarotti: Minha empresa, a Primotécnica (Primid), está muito focada na melhoria contínua solicitada pelos clientes, como prova a obtida certificação IATF 16949 (norma internacional de gestão da qualidade no setor automotivo). Notamos que, nas encomendas de desenvolvimentos, o cliente hoje quer, principalmente, segurança do recebimento do material com o nível de excelência determinado no pedido.

João Rodrigues: Há sempre em andamento projetos de peças e componentes automotivos, para eletroeletrônicos, eletrodomésticos, linha branca, implementos agrícolas, moveleiros, substituição de ferragens e incontáveis outras possibilidades de se empregar polímeros nobres reforçados ou não, a depender da aplicação. Mas, o crescimento maior no tocante à incidência de desenvolvimentos ocorre com os materiais que passam por algum tipo de modificação, elevando suas propriedades, triplicando ou mais sua rigidez, trazendo economia ao transformador pela excelente cadência produtiva e diferenciados por atributos como baixa densidade, poupança energética na injeção e a característica de agrado ao tato.

Laercio Gonçalves: Deparamos na componedora actplus com menos projetos de novos produtos na conjuntura atual. O foco está em adequações e melhorias de produtos existentes, com objetivos práticos como ganhos de produtividade em máquina, redução de custos, homologação de fornecedores e aprovação de novos grades como alternativas de matéria-prima, garantindo assim ao transformador produção continua e flexibilidade frente às oscilações de mercado. De outro ângulo, assim como ocorreu no ano passado, seguimos com muitas consultas de transformadores para atendimento de normas automotivas, para projetos de veículos com partida de montagem em série prevista a partir de 2028. Isso dá uma expectativa muito positivo ao nosso setor.

Gustavo Nascimento: Mercados que possuem cadeias de produção ininterruptas, como o automobilístico e o de embalagens, não podem “tirar o pé”. Com a instabilidade da oferta global, a busca por novos fornecedores e desenvolvimentos locais cresceu. Aqui na componedora Krisoll estamos focando em soluções que garantam a continuidade operacional desses clientes. Além disso, a substituição de metais por plásticos de engenharia de alta performance permanece uma frente promissora para redução de custos e peso.

Jane Campos: Ainda continua a substituição de metais por plásticos e a participação de reciclados na estrutura. Além disso temos desenvolvimentos de materiais inovadores que eliminam o processo de pintura e outras aplicações que envolvem cromação das peças injetadas de poliamida.

Baterias de lítio para veículos elétricos: componentes injetados ganham compostos da Primotécnica.

Baterias de lítio para veículos elétricos: componentes injetados ganham compostos da Primotécnica.

Quais os seus principais investimentos programados para este ano e quais as aplicações em vista?

Julio Victor Casarotti: Desenvolvemos este ano muitos materiais para componentes integrantes de baterias de lítio. E dentro da nossa produção de compostos, instalamos uma nova extrusora com capacidade para beneficiar 1200kg/h e incorporamos mais equipamentos ao laboratório.

João Rodrigues: A Thathi se renova constantemente em busca de mais usos para suas resinas para injeção, ganhando experiência a cada conquista, de modo que o material desenvolvido pode ser transposto para itens similares. Na nossa planta de compostos, a atualização de seus equipamentos de processo implica custos permanentes para a conformidade das especificações de cada formulação gerada. Isso é investir na qualidade. No tocante à sustentabilidade, buscamos a certificação ISO14001.

Laercio Gonçalves: O Grupo activas tem investido para fortalece o portfólio de especialidades plásticas, com foco em soluções de maior valor agregado, e no estreitamento da afinidade técnica com o cliente. Nesse contexto, sobressai nossa componedora actplus como linha de produção de masterbatches, compostos, aditivos e formulações customizadas. Portanto, um dos grandes diferenciais dessa estrutura do grupo é a possibilidade de oferecer ao cliente uma solução completa, à base do polímero com coloração e aditivação integradas, o que otimiza o processo produtivo e reduz etapas operacionais do cliente, além de garantir maior consistência à propriedades do produto transformado. Outro pilar importante é a nossa capilaridade e agilidade de atendimento, sustentada por estruturada operação logística de alcance nacional.

Gustavo Nascimento: Nosso maior ativo são as pessoas. Investir em treinamento técnico não é diferencial, mas obrigação para garantir processos eficientes. Temos negociações em andamento para expandir o portfólio de soluções e planos de melhoria na infraestrutura. No entanto, tratamos esses movimentos com sigilo estratégico e cautela, no aguardo do momento certo para divulgar ao mercado.

Jane Campos: O principal investimento será em Inteligência Artificial (IA) no controle da produção, o projeto começa em 2026 e finaliza em 2027. O objetivo é melhorar o monitoramento e variações no processo. Quanto a novos produtos, os investimentos em destaque estão direcionados para o fortalecimento da linha Renycle, que segue como carro-chefe em nosso portfólio de produtos sustentáveis. O foco está em ampliar o uso de materiais com percentual reciclado, agora com propriedade antichama e resistência à hidrólise, características que antes não conseguíamos alcançar e que abrem novas possibilidades de aplicação. Em particular nos setores automotivo e elétrico. Além do mais, prosseguiremos com aportes de recursos em produtos com conteúdo renovável (bio-content). Trata-se da linha bionside ®, hoje enriquecida por lançamentos como: Radilon® P (PA5.6), com teor de 41% of bio-content, Radilon® D (PA 6.10), com 64% de bio-content e Radilon ® TT (PA10.12), com 43% de bio-content.

Autopeças de reposição: refúgio para plásticos de engenharia diante da perspectiva preocupante para as linhas de montagem de carros.

Autopeças de reposição: refúgio para plásticos de engenharia diante da perspectiva preocupante para as linhas de montagem de carros.

No Brasil, a indústria automotiva enfrenta custos altos de insumos e atrasos na importação de componentes. A combinação de combustíveis mais caros, inflação e juros elevados também pesa para reduzir a demanda de veículos. Nesse cenário, montadoras podem priorizar a montagem de modelos mais rentáveis (carros premium e elétricos). Como este cenário pode influenciar a demanda de plásticos de engenharia até dezembro para autopeças originais e de reposição?

Julio Victor Casarotti: Nas autopeças originais, estamos sentindo o mesmo volume de sempre nas vendas de plásticos de engenharia, pois o mercado anda mais calmo desde 2025. Já nas autopeças de reposição, deparamos este ano com aumento drástico da demanda. Afinal, como o comércio de carros novos tem sofrido com grande alta de valor (nota: preços e juros) nos últimos anos, as pessoas tendem a consertar seus autos em vez de substituí-los, razão pela qual o mercado de reposição está muito bem.

João Rodrigues: Em relação a autopeças originais, minha empresa tem buscado não focar todo o seu faturamento em apenas um ou dois segmentos. Sabemos dos riscos. Procuramos ter um split-off (nota: cisão) de áreas as mais diferentes possíveis onde aplicações de resinas de engenharia possam ser exploradas. Especialistas dizem que, até 2035, os automóveis elétricos chineses responderão por 35% do mercado brasileiro. Carros elétricos decerto precisam de termoplásticos de performance nas mesmas aplicações disponíveis nos modelos de motores a combustão, tipo itens do habitáculo, suspensão, teto, assentos, painéis, etc. Todavia, cai nos carros elétricos a quantidade de componentes injetados para uso sob o capô, em grande número nos carros a gasolina, caso do coletor de admissão, partes importantes do radiador e outros itens nos quais compostos reforçados de PA 66 são hoje a única alternativa como material especificado.
Quanto às autopeças sobressalentes, trata-se de um segmento com nível de exigências muito inferior ao dos contratipos originais. Não raro, seus fabricantes empregam materiais reciclados que passariam longe do controle de qualidade das montadoras, com menor segurança, baixa durabilidade, processamento instável e outros pontos negativos. Porém, felizmente há nesse mercado empresas que atuam de forma bem profissional com a reposição seguindo as mesmas restrições à materiais de baixa qualidade, priorizando resinas virgens de ótima procedência.
Retomando o fio da pergunta, acho muito curto o prazo citado para acontecer até dezembro uma alteração significativa nas participações de modelos mais e menos rentáveis nas linhas de montagem, por força da demanda enfraquecida e das transações hoje limitadas pelos juros inacessíveis. Uma mudança mais radical deve exigir um tempo de adaptação maior.

Laercio Gonçalves: O cenário atual traz uma série de variáveis que tornam mais difícil uma leitura segmentada no curto prazo. Custos mais elevados, volatilidade da demanda e incertezas logísticas fazem com que o comportamento do mercado automotivo ainda esteja em formação. A tendência para este ano é de que a demanda por plásticos de engenharia persista nas autopeças, acompanhando as decisões das montadoras e a evolução do cenário econômico.

Gustavo Nascimento: As montadoras estão mesmo, como menciona a pergunta, priorizando modelos de maior valor agregado e veículos elétricos, o que demanda materiais mais técnicos e específicos para autopeças originais. De outro lado, o setor de reposição ganha força. Com o juro alto dificultando a compra do carro novo, o consumidor mantém seu veículo por mais tempo, sustentando a demanda por peças de manutenção que utilizam nossos compostos.

Jane Campos: Em autopeças originais, a queda de volume é provável, embora carros de luxo tenham mais componentes de plásticos de engenharia – como tampa de motor e acessórios de acabamento – que os populares, mas carecem de escala de produção. Por sua vez, o mercado de reposição deve ganhar força. Com a população postergando a compra de veículos novos, cresce a preocupação em manter os carros atuais em bom estado. Isso se traduz em maior demanda por peças de manutenção, impulsionando o consumo de plásticos de engenharia neste segmento.

Reforma de maquinário industrial: demanda aquecida para engrenagens injetadas de poliamida.

Reforma de maquinário industrial: demanda aquecida para engrenagens injetadas de poliamida.

No ano passado, a voz corrente entre componedores era de que o desaquecimento da indústria automobilística e eletroeletrônica foi atenuado pelas vendas de materiais de engenharia para implementos agrícolas. Quais as alternativas para o mesmo quadro este ano uma vez que o agronegócio atravessa forte crise financeira?

Julio Victor Casarotti: Nós vendemos soluções para o agronegócio e hoje ele está mesmo mais pacato, sem novas vontades de investimento e mudanças. Em contraste, um mercado que cresce desde 2025 e tem demandado muitas inovações em PA é o da construção civil.

João Rodrigues: Apesar das perspectivas de queda na produção com possibilidade de demissões e outros problemas que o país enfrenta e decerto não atraem investimentos, as indústrias não paralisarão. Temos que continuar acreditando firmemente em nossa atuação, buscando mais possibilidades de negócios em todos os setores que hoje suprimos com materiais de alto desempenho.

Laercio Gonçalves: De fato, o cenário atual traz desafios adicionais em relação ao ano anterior. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), seu setor apresentou no primeiro trimestre (nota: guerra no Irã iniciada em 28/2) a montagem de 634.700 unidades ou 6% acima do mesmo período em 2025, mas ainda há pressão do panorama volátil na produção e exportações, o que limita um avanço mais consistente na demanda por materiais. No agronegócio, apesar do ambiente mais pressionado por juros elevados e aumento de custos, observamos desde 2025 crescimento nas vendas da actplus para o segmento e maior participação dele no movimento total da empresa.

Gustavo Nascimento: O mercado de reposição de autopeças e a reforma de máquinas industriais tornam-se âncoras. Componentes como engrenagens de PA 6 aditivada com bissulfeto de molibdênio (MoS2) e buchas técnicas ganham demanda para estender a vida útil de ativos existentes. Para o restante de 2026, a visão dos analistas é de que a resiliência no nosso setor não virá do volume bruto (commodities), mas das especialidades e projetos de desenvolvimentos mais estruturados.

Jane Campos: As vendas de materiais para itens de máquinas agrícolas ainda não têm escala satisfatória; os volumes não são significativos. Os setores que devem entrar no foco para plásticos de engenharia contornarem o desaquecimento em carros e eletroeletrônicos são os de infraestrutura e de duas rodas, além da ênfase na exportação de compostos.•

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