Mudança dos ventos

América do Sul pode tirar proveito da nova geopolítica da petroquímica
América do Sul pode tirar proveito da nova geopolítica da petroquímica

Em paralelo ao último super ciclo de investimentos da petroquímica mundial (1992-2021), aconteceu a ampliação das cadeias de suprimento internacional de petróleo bruto e derivados, Mesmo em momentos de nervosismo na geopolítica, não se cogitava o fechamento das rotas comerciais. As poucas interrupções eram vistas como exceções que a conjuntura atual periga tornar regra. Nesse contexto, o Estreito de Ormuz decide o balanço dos fluxos globais de energia. Qualquer interrupção nessa região impacta de imediato o óleo, gás natural liquefeito e as matérias-primas petroquímicas. A guerra no Irã realça a rapidez com que os preços podem explodir com o bloqueio do estreito. Uma benção da globalização foi a queda dos prazos e custos das rotas marítimas, mérito da evolução no frete e logística. Pois hoje este progresso entrou em reversão. Quando os prêmios de seguro sobem devido ao risco geopolítico, a distância volta a importar. Por tabela, as margens da petroquímica são afetadas, as incertezas nos prazos de entrega desarranjam a gerência de estoques e programas de produção e, no plano da competitividade no setor, regiões mais próximas dos centros consumidores ou menos dependentes de rotas comerciais ameaçadas, ganham vantagem.

No estribo dessa guinada geográfica, a América do Sul, região pouco afeita a guerras, bem servida de gás e petróleo e grande importadora de termoplásticos, pode voltar a tomar corpo nas avaliações para investimentos em capacidades num ambiente global mais desmembrado, onde os fluxos comerciais tendem a ficar mais concentrados regionalmente. Esta mudança de ventos na petroquímica e os predicados da América do Sul para surfar na onda dão o tom desta entrevista do renomado analista argentino Jorge Bühler-Vidal, diretor da empresa Polyolefins Consultying.

“Existe um mercado regional para nova capacidade de polietileno de classe mundial na Argentina”

Jorge Bühler-Vidal, Polyolefins Consulting

Jorge Bühler-Vidal, Polyolefins Consulting

Como fica a América do Sul na nova geopolítica da petroquímica mundial? A região caminha para ficar cada vez mais dependente de resinas importadas ou o ambiente atual favorece investimentos em crackers e plantas de polímeros?

 O primeiro grupo inclui Argentina, Brasil e Venezuela, bem como Chile e Colômbia, com capacidade instalada limitada. O segundo grupo inclui os países sem produção.
Além disso, alguns países produtores de polímeros têm abundantes recursos locais (petróleo e gás) e podem gerar materiais petroquímicos básicos, bem como polímeros. Outros, como Colômbia, México e, em certa medida, o Brasil, importam parte dessas matérias-primas.
A situação atual favorece de modo forte a operação das instalações existentes em capacidade máxima e a promoção do desenvolvimento de novas fontes locais de matéria-prima e instalações de polimerização. É uma oportunidade de ouro para a Venezuela resolver suas dificuldades e, utilizando a capacidade instalada, tornar-se novamente um grande produtor petroquímico.
Capacidade de produção adicional, particularmente na Argentina, será necessária na América do Sul, mesmo após o fim da crise atual e ainda que leve alguns anos para ser desenvolvida e construída.
Ainda nessa trilha, vale considerar que, quando a livre passagem pelo Estreito de Ormuz for retomada, levará meses para que o fluxo normal seja restabelecido. A reparação dos danos causados pela guerra às instalações de petróleo, gás e polímeros levará meses e, em alguns casos, anos.

Oriente Médio: reparação de plantas atacadas na guerra pode levar anos e reformular o mapa de expansões da petroquímica mundial.

Oriente Médio: reparação de plantas atacadas na guerra pode levar anos e reformular o mapa de expansões da petroquímica mundial.

A guerra no Irã impulsiona, na indústria petroquímica, a tendência de regionalização de mercados e de suprimento de matérias-primas. Apenas esta estratégia é suficiente para animar investimentos a curto prazo em etano/PE na Argentina, com base na produção crescente de gás em Vaca Muerta?

Absolutamente sim.
Já era uma boa ideia antes e agora é reforçada. A Argentina, com ricas reservas de gás natural e potencial para aumentar a produção, está em uma posição muito forte. Há etano abundante e de baixo custo para a construção de uma capacidade de produção de PE de classe mundial. Existe um mercado regional para PE, muitas tecnologias são oferecidas e o financiamento deve estar prontamente disponível para um projeto tão bem definido.

Como avalia a segurança jurídica para o investidor privado em gás e petroquímica em Vaca Muerta diante da hipótese de o sucessor de Milei mudar a legislação e política econômica, como tantas vezes ocorreu no passado da Argentina?

A estabilidade e a continuidade do governo são questões importantes para os investidores, principalmente os estrangeiros, embora eu também perceba certa timidez ou reticência por parte dos investidores argentinos.
No passado, as regulamentações não permitiam o livre acesso à disposição dos lucros e tributavam fortemente as importações. O Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI) é um programa estratégico aprovado por lei em 2024, concebido para atrair e incentivar investimentos de grande escala na Argentina. Ele oferece benefícios significativos em termos tributários, aduaneiros e cambiais, ao mesmo tempo que estabelece uma sólida estrutura legal para garantir segurança jurídica e facilitar a realização de projetos de investimento de longo prazo.
O RIGI isenta de impostos as importações de bens de capital e maquinário; permite que as empresas acessem livremente moeda estrangeira proveniente de exportações por meio de um cronograma escalonado e, por fim, oferece segurança a longo prazo, incluindo uma garantia de estabilidade de 30 anos contra novos impostos.
Os projetos abrangidos pelo RIGI gozam de estabilidade regulatória em matéria tributária, aduaneira e cambial por 30 anos. Os benefícios não podem ser afetados por derrogações ou pela criação de regulamentações mais onerosas ou restritivas.
Com base nestas garantias, a TGS (Transportadora de Gas del Sur) anunciou recentemente um projeto de US$ 3 bilhões para a separação de líquidos de gás natural. O projeto inclui instalações adicionais de processamento de gás em sua planta de Tratayén e a construção de um gasoduto de Neuquén conectando a instalação ao porto de Bahia Blanca. A TGS pretende exportar 100% da produção. A instalação terá potencial para produzir 2,7 milhões de t/a de propano, butano e gasolina natural.
A TGS é controlada principalmente (51%) pela Compañía de Inversiones de Energía S.A. (CIESA) que, por sua vez, é uma joint venture na qual a companhia Pampa Energía detém participação de 50%. A parcela restante inclui 24% de outros investidores privados e aproximadamente 25-29% em free float (ações em livre circulação no mercado).
Por sua vez, a nova unidade de separação de gases da Compañía Mega, implantada em sua planta de fracionamento de Bahía Blanca, foi comissionada em janeiro de 2026. A Mega processa aproximadamente 40% da produção de gás da bacia de Neuquén e é a maior fracionadora e exportadora de gás natural liquefeito (GNL) da Argentina. A construção começou em novembro de 2023 e elevou a capacidade de produção de C3+ (propeno), propano, butano e gasolina natural a aproximadamente 5.600 t/ dia. Este incremento, sem qualquer saída doméstica adicional, criou um excedente exportável. Os acionistas da Mega são YPF (38%), Petrobras (34%) e Dow (28%).
A expansão adicionará mais de 500.000 t/a de líquidos de gás natural, um aumento de 27% na produção total da empresa. Do volume incremental, 80% são destinados à exportação, principalmente gás liquefeito de petróleo (GLP) e gasolina natural, e 20% são para o mercado doméstico, caso de etano para matéria-prima petroquímica. A capacidade total da Mega ultrapassará 2,5 milhões de t/a e a exportações cobrirão 80% do potencial produtivo.
Apesar de algumas consultas sobre projetos de polímeros na Argentina, sob a escora da abundância de gás natural, nada ainda foi anunciado em público. As matérias-primas estão disponíveis e o mercado está receptivo; é preciso tomar decisões.

Venezuela: guerra no Irã pode ampliar possibilidade de o país voltar a ser cogitado para investimentos em petroquímicos.

Venezuela: guerra no Irã pode ampliar possibilidade de o país voltar a ser cogitado para investimentos em petroquímicos.

Devido à guerra no Irã, a logística passou de variável de custo a fator estratégico primordial para a indústria petroquímica. Os canais de Suez e Panamá e os estreitos de Ormuz, Taiwan, Malaca e Bab-el-Mandeb são hoje gargalos logísticos com risco de interrupção de rotas comerciais. Como este cenário de incertezas deve influir na localização de futuros investimentos petroquímicos na Ásia e Oriente Médio? O quadro favorece a expansão dos EUA em gás, petróleo e resinas?

Existem alguns princípios consagrados que, às vezes, são esquecidos. Entre eles, não ter um único fornecedor e não ter um único cliente.
Custos e preços sempre serão importantes. O que os produtores globais podem fazer é investir em diversas regiões geográficas, assim como os produtores do Oriente Médio que financiaram plantas nos EUA. Por sua vez, norte-americanos e europeus fizeram o mesmo no Oriente Médio. Mesmo produtores menores e de presença regional devem buscar a diversificação geográfica, assim como a Braskem fez.
Houve um aumento expressivo na capacidade instalada na América do Norte e pensar em possíveis limitações territoriais leva a incentivar uma maior pluralidade geográfica dos aportes de recursos, em direção a países ricos em matéria-prima na América do Sul ou, talvez, na África Subsaariana, a exemplo de Angola, Guiné Equatorial, Moçambique e Nigéria.

Braskem: dependência de nafta importada no Brasil e diversificação geográfica buscada no continente americano.

Braskem: dependência de nafta importada no Brasil e diversificação geográfica buscada no continente americano.

A guerra no Irã tornou a América do Sul ainda mais subordinada às importações de poliolefinas norte-americanas, devido às dificuldades para trazer da Ásia. Mas os EUA hoje priorizam seus embarques para Ásia e Europa. Quais as alternativas para os sul-americanos reduzirem esta dependência?

Embora não esteja isenta de problemas, a América do Sul é uma área relativamente livre de conflitos graves. É uma boa área para investimentos. Os importadores sul-americanos precisam diversificar seus fornecedores, não apenas em termos de empresas, mas em termos de regiões de origem. Agora, em meio a uma crise, isso é algo difícil de fazer. No futuro, os transformadores, embora ainda considerem os preços, também precisarão diversificar suas fontes. Talvez, ao levar em conta a origem geográfica das fontes de polímeros, eles também devam analisar quem as supre de matéria-prima.O que torna os produtores de resinas que importam matéria-prima geopoliticamente mais fracos e, de certa forma, mais sujeitos a riscos de abastecimento.

Canal do Panamá: gargalo logístico com risco de interrupção de rotas comerciais na América do Sul.

Canal do Panamá: gargalo logístico com risco de interrupção de rotas comerciais na América do Sul.

Defensor da abertura da economia, Milei acabou com a homologação de tarifas antidumping para resinas importadas na Argentina. O Brasil, por sua vez, aumentou as taxas básicas de importação e impôs medidas antidumping para poliolefinas de origens como EUA e Canadá. Diante dos seguidos aumentos dos preços das resinas e custos de transporte gerados pela guerra no Irã, a manutenção no Brasil dessas sobretaxas constitui ou não um protecionismo abusivo, caro demais para a saúde financeira da sua indústria transformadora?

A função de um presidente é ser estadista, olhar para o longo prazo, em vez de apenas para a crise do momento. Isso é fácil de dizer, mas difícil de fazer.
É válido proteger a indústria local do dumping e concorrência desleal. No entanto, a menos que sejam verdadeiramente estratégicas (em termos militares ou sociais) e se não tiverem uma vantagem intrínseca, as indústrias do país não devem ser protegidas contra a concorrência justa. Os produtores domésticos devem entender que precisam disputar com todos os concorrentes leais em todos os locais do mundo; não apenas com seus rivais na mesma rua.
O protecionismo excessivo levou a Argentina a ter uma indústria têxtil que produz roupas caras e de baixa qualidade. Indústrias que têm uma forte vantagem intrínseca, como a dos vinhos argentinos, não precisam de proteção tarifária, mas apenas de apoio ocasional para continuarem a expandir globalmente. •

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