No calendário do agricultor, setembro é tempo de plantar grãos, devido à chegada das chuvas. A hipótese de demora logísticas na entrega ou falta de insumos na praça pode, nesse momento, afetar a sequência de recordes da safra nacional que, pelo histórico oficial de 1975 a 2025, mais que dobrou nos últimos 13 anos. Devido a fatores como penúria financeira e baixa nos preços das commodities, sensores do governo já anteviam em janeiro queda de 1,8% na próxima colheita. O panorama enfeiou mais em fevereiro, com a guerra no Irã incendiando cotações e bagunçando fretes do petróleo, gás, resinas e fertilizantes. É um cavalo de pau que ricocheteia no agro brasileiro, pois, entre outros flancos vulneráveis, importa em regra 45 milhões de t/a ou 85% dos fertilizantes que consome. Por tabela, a indústria de ráfia cambaleia, pois tem no agro sua razão de viver e o maior cliente de seus sacos e big bags confeccionados com fibras de polipropileno (PP) é o segmento de fertilizantes. Na entrevista a seguir, Sergio Weiss, gerente executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Fibras Poliolefínicas (Afipol) examina com lente este sufoco atípico que põe à prova a resiliência de um dos nichos mais prósperos da transformação nacional de plásticos.
O agronegócio penou em 2025 com preços em baixa, juros altos e inadimplência recorde, quadro que não promete alívio em 2026, já piorado pela guerra no Oriente Médio, com petróleo e dólar voláteis. Como este cenário afetou as vendas de ráfia para o campo no ano passado e quais as principais iniciativas o setor cogita para assegurar desempenho positivo neste 2026 tão instável?
Sem dúvida, a grande preocupação em 2025 – e tudo leva a crer que 2026 não será diferente – foi o alto custo de financiamento da produção agrícola no Brasil. Ele influencia bastante o aumento da inadimplência no setor. No fim das contas, a demanda em si por embalagens de ráfia não foi ruim em 2025, mas o excesso de capacidade instalada no país e o crescente desembarque de material semiacabado, principalmente da Índia, pois alavancado por conhecidos incentivos à exportação, gerou sobre oferta no mercado interno, forte redução das margens de venda de sacaria e big bags e, na maioria dos casos, levou à apuração de margens negativas pelo produto local.
O cenário de custos e inadimplência no campo tende a fortalecer este ano, agravado desde o final de fevereiro pelo conflito no Oriente Médio. Ele eleva à enésima potência as preocupações nos negócios. Neste momento, empresas do setor de embalagens – e não só da ráfia – enfrentam incertezas nos preços de insumos e começam a deparar com riscos de escassez de resinas.
“Impacto nos preços é inevitável em períodos de crise, mas a segurança, confiança e rapidez do fornecimento local representam benefícios maiores que os riscos de importação de produtos de ráfia”
Sérgio Weiss, Afipol
Estimativas da Afipol situam a capacidade da indústria nacional de ráfia em 300.000 t/a, das quais 65-70% a cargo dos 21 filiados da entidade. Com qual nível de ocupação seus filiados rodaram em 2025 com o campo em crise financeira?
Nosso mapeamento atual leva a uma capacidade instalada total da ordem de 340.000 t/a, considerando não apenas a transformação de polipropiloeno (PP) em fitas finas, mas a fase de confecção do tecido (em teares circulares) e dos sacos e big bags. Afinal, muitas empresas dedicam-se apenas à esta etapa complementar do processo. No ano passado, a Afipol conseguiu ampliar o número de associados, atingindo 18 empresas e três patrocinadores fornecedores. Este contingente representa 75% da capacidade brasileira de transformação de ráfia e ao redor de 65 a 70% de sua confecção. O nível de ocupação tem sido a grande preocupação do setor. Afinal, como vimos na menção à capacidade atual, foram feitos investimentos importantes, mas o mercado não respondeu com a mesma força e tivemos piora na ociosidade média – bateu em 29,5% em 2025 contra 26,8% em 2024.
Qual a expectativa da Afipol para este ano em termos de produção e vendas versus 2025?
O crescimento das vendas conecta-se bastante ao incremento dos números da safra no Brasil, dada a presença da ráfia em inúmeros produtos agrícolas. Nossa projeção inicial para 2026 seria um crescimento entre 4 e 6% na produção e vendas. Mas agora, devido aos efeitos da guerra no Oriente Médio, fica muito difícil manter qualquer prognóstico. Mas pode-se, de imediato, supor que a conjuntura deste ano repita a dos efeitos da pandemia (2020 e 2021). Acontece que a situação atual é delicada, devido às repentinas alterações das condições do cenário, com escalada muito rápida de preços (inexistente nos primeiros momentos da pandemia) e risco crescente de escassez das matérias-primas elevando mais as incertezas no mercado.
Qual o consumo nacional de ráfia em 2025 versus 2024? E como reparte este volume de 2025 entre o produto nacional e importações?
Estimamos o consumo nacional de ráfia em 274.000 toneladas em 2025, correspondentes à expansão de 5.8% versus 2024. Vimos, porém, que a importação pelo principal código de Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) ligado ao setor cresceu 100% em 2024 e outros 20% em 2025. É um movimento que prejudica muito os produtores locais, pois a parcela de 12% de participação externa acaba pesando no estabelecimento de preços muito baixos em todo o mercado, contribuindo de forma expressiva na deterioração de margens da produção brasileira de ráfia.
Fertilizantes: maior mercado de ráfia no Brasil depende de importações do insumo restringidas pela guerra no Irã.
Como reparte o consumo nacional de ráfia pelos principais segmentos usuários dessa embalagem? Quais deles demandaram sacaria costurada e big bags com mais intensidade em 2025?
Considerando todo o setor de ráfia, fertilizantes, é de longe, o principal segmento demandante das embalagens. A solução de ráfia é a melhor opção, pela facilidade e segurança de manuseio, além de ajustável às particularidades dos clientes que, em regra, solicitam ajustes personalizados no produto.
Separando pelos tamanhos das embalagens de ráfia, repartimos assim a demanda para sacarias em 2025: rações (17%), fertilizantes (15%), açúcar (15%), farinha & farelo (13%) e suplemento mineral (10%).
Já para big bags, os principais segmentos demandantes foram: fertilizantes (61%), sementes e grãos (13%), químicos e petroquímicos (3,8%), sementes tratadas (3,4%) e açúcar (2,3%).
Traduzindo em números absolutos, nossa pesquisa relativa a 2025 indica produção de sacaria da ordem de 85.000 toneladas e de 110.000 para big bags. O levantamento fecha com 37.500 toneladas de ráfia destinadas a outros segmentos para usos que não embalagens.
Como a frequência de extremos climáticos tem influído no aumento das propriedades mecânicas ou espessura das embalagens produzidas pelos filiados da Afipol?
Os fenômenos climáticos são aliados das embalagens de ráfia! Essa preocupação embutida na pergunta, na qual as mudanças climáticas aparentam ser um fenômeno novo e reivindicador de melhorias nos sacos e big bags, é preocupação absolutamente perene dos produtores de ráfia. No Brasil, temos regulamentações muito rígidas de produção e manuseio dessas embalagens, principalmente no tocante a big bags, pois precisam resistir às intempéries e requisitos de uso bastante severos na prática.
Quando olhamos para a sacaria de ráfia, a mensagem não é diferente. Sua resistência mecânica superior, facilidade de manuseio e maior capacidade de empilhamento frente a materiais sucedâneos, mesmo em ambientes mais agressivos, explica sua preferência pelos usuários.
Índia: principal exportador de embalagens de ráfia para o Brasil.
Líder mundial em capacidade de PP, a China também está entre os exportadores asiáticos dessa resina e de ráfia a preços competitivos. Como a Afipol encara a perspectiva de continuidade do aumento dessas importações pelo Brasil?
Com relação ao PP chinês, é fato que o Brasil recebe parte das suas exportações, porém o histórico dessa participação no volume total das importações brasileira da resina é inferior a 5%.
Além dessa questão do insumo impactando nos custos de produção do nosso setor, a competitividade chinesa apresenta queda devido ao aumento do custo de sua mão de obra, além de outras barreiras ligadas à produção. Em especial no setor da ráfia, temos no Brasil um efeito bem mais contundente em termos de participação de mercado vindo da Índia, outro grande produtor de de PP e possuidor de indústrias mundialmente relevantes na produção de embalagens e tecidos de ráfia.
Aqui no Brasil, o dever de casa dos seus produtores de ráfia é sempre cumprido no que se refere à investimentos em capacidade e tecnologias de ponta, equiparando-se aos melhores produtores mundiais. Por sua vez, a Afipol tem acionado mecanismos de defesa comercial, pois identificamos a existência de uma diferença pouco razoável entre custo de produção local e os preços identificados pela importação brasileira, a ponto de o material do exterior sequer se equiparar aos próprios custos de matéria-prima.
Na reivindicação desse pleito, reiteramos que nossos associados são grandes empregadores de mão de obra e, caso não tenham competitividade econômica semelhante à aferida nas importações, eles sinalizam demissões de grande vulto. Afinal, seriam obrigados a reduzir a produção ou, até mesmo, fechar plantas locais. Também é importante salientar que a ráfia produzida no Brasil, consome um percentual relevante de material reciclado, absorvendo em grande parte embalagens que retornam ao ciclo produtivo, além de resíduos pós-consumo. Essas contribuições ao meio ambiente e ao mercado de trabalho não ocorrem nas importações de semi acabados ou embalagens prontas de ráfia.
Outra justificativa para a proteção comercial buscada pelo nosso setor é o diferencial no atendimento da produção nacional. Ele oferece grande segurança de fornecimento, em especial em momentos de crise como a atual e, anos atrás, nos tempos da pandemia. Impacto nos preços é inevitável em períodos de crise, mas a segurança, confiança e rapidez do fornecimento local representam benefícios maiores que os riscos de importação de tecidos ou embalagens, além de qualidade e responsabilidade superiores às opções trazidas do exterior
A Agrishow é a feira nº1 do agronegócio brasileiro, setor que responde por 70% da demanda de ráfia. A edição 2026 do evento (27/4 a 1/5) em Ribeirão Preto (SP) não tem expositor da ráfia nacional, mas conta com estandes de concorrentes chineses. Como explica esse desinteresse por parte das indústrias brasileiras?
Eu não falaria em desinteresse, mas em foco de atuação. A Agrishow concentra a atenção no produtor rural, ofertando itens para uso nas propriedades de todos os tipos e tamanhos. Nosso produto (embalagem) não tem direcionamento específico para este público visitante, o setor carece da necessária capilaridade de atendimento nem tem como lidar a contento com relação aos volumes de entregas etc.
Os clientes das embalagens de ráfia são, prioritariamente, empresas produtoras de bens que serão consumidos pelos visitantes dessa feira. Entendemos que, no máximo, nossa maior proximidade desses agricultores se manifeste através de cooperativas. Afinal, elas realizam negociações conjuntas (maior volume de compras) e distribuem as embalagens adquiridas aos cooperados, onde for necessário. No mais, poucos dos nossos associados produzem itens de plasticultura como telas de sombreamento e outras soluções em plástico para o campo. Trata-se de atividade secundária para essas empresas que têm nas embalagens a sua vocação.
Nossos maiores esforços em marcar presença institucional tem ocorrido em mercados onde a ráfia depara com materiais sucedâneos, caso da cadeia da triticultura. Em 2025, por exemplo, a Afipol voltou a patrocinar o jantar do Congresso da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). •


