Evitar o desperdício de embalagens, elevar o padrão da reciclagem e criar mercado para o reciclado mediante obrigação do seu uso na composição de produtos transformados. Ao ganhar o mundo, essa trinca de imperativos para a sustentabilidade do plástico se firmar gerou o efeito colateral de enobrecer a tecnologia de restauração de polímeros em todas as etapas. A alemã Stadler é uma das locomotivas desse progresso com soluções de componentes e plantas prontas de triagem de resíduos pós-consumo e de reciclagem mecânica. Mesmo na maré de incertezas que hoje inunda o Brasil, a empresa vem conseguindo arrebanhar seguidores na indústria para sua visão de que a qualidade e valor do plástico para segundo uso não são decididas apenas pela sua linha de produção, pois dependem visceralmente de uma seleção acurada do refugo aproveitável para reciclagem, como deixa claro nesta entrevista André Galuppo, diretor de operações da Stadler no país.
No mundo e no Brasil, recicladores se ressentem dos preços das super ofertadas resinas virgens, tirando mercado assim das resinas recicladas. Como este fato tem afetado a procura este ano por suas máquinas/peças e componentes para a indústria recicladora brasileira e como a Stadler tem agido para não perder essas vendas?
O preço da resina virgem em relação à de segundo uso sempre afetou o mercado da reciclagem e, consequentemente, a procura por equipamentos como os da Stadler. O que temos feito para não perder venda é acompanhar de perto e desenvolver para clientes soluções cada vez mais personalizadas e específicas. Além disso, um pilar básico de nossa engenharia é o desenvolvimento de plantas e processos de eficiência incrementada em aspectos como consumo energético, pureza e qualidade do produto classificado, durabilidade e facilidade de manutenção dos equipamentos.
“Temos no Brasil um enorme potencial de crescimento na reciclagem de plástico, pois muito pouco ainda é feito”
André Galuppo, Stadler
Custos produtivos altos têm influído na desindustrialização da Europa, incluindo fechamento de recicladoras. Nos EUA e no Brasil, o setor reciclador se queixa de suprimento irregular e demanda insuficiente de resíduos e reclama muito também dos preços atraentes da super ofertada resina virgem. Devido a isso tudo e mais a instabilidade política, jurídica e econômica, como a reciclagem de plástico pode se viabilizar no Brasil?
O declínio da manufatura é fato em alguns ramos na Europa e EUA. Mas o setor da reciclagem segue se industrializando, principalmente no mercado europeu, devido a normativas internas severas e em virtude da decisão de um número crescente de países de proibir o recebimento de resíduos do exterior. Isso obriga cada país a resolver ‘em casa’ o problema de sua sucata. Temos no Brasil um enorme potencial de crescimento na reciclagem de plástico pós-consumo, pois muito pouco ainda é feito. Porém, a pressão sobre a questão ambiental vem crescendo ano após ano, já não há como negar as mudanças climáticas, cada vez mais visíveis. Isso afeta a população e se reflete diretamente nas políticas nacionais e no direcionamento de recursos. Temos notado os efeitos dessas práticas nas novas licitações para serviços de tratamento de resíduos no Brasil. Elas se mostram cada vez mais completas, tecnicamente adequadas e contemplam tarifas para garantir a execução adequada dos serviços de tratamento e destinação correta do descarte. Ainda falta colocar em prática e aperfeiçoar as regulamentações do tratamento do lixo e da logística reversa, mas já notamos mudanças significativas e temos ótimas perspectivas.
Em geral no Brasil, brand owners e transformadores cobram reciclados de maior qualidade sem o correspondente aumento nos preços, ainda mais em tempos de super oferta de resina virgem acessível. Como sensibilizar o reciclador a investir na tecnologia que possibilita a melhora do material se o seu cliente não o remunera?
O reciclador deve ter em mente que investir em tecnologia é garantir padrão de qualidade para seu produto, escala para seu processo e confiabilidade de sua produção. Ou seja, pontos fundamentais para a estabilidade do negócio. Com isso, os recicladores passam a ter maior poder de negociação quanto ao fornecimento de plástico recuperado aos gestores das marcas (brand owners), possibilitando-lhes conseguir contratos mais favoráveis e de longo prazo. Afinal, os gestores de marcas carecem de um fornecedor confiável e de matéria-prima adequada para atingirem suas metas internas.
Quais os principais avanços introduzidos pela Stadler este ano em suas linhas de equipamentos destinados à cadeia industrial de reciclagem de plásticos?
A principal inovação é o sistema STADLERconnect. Entendemos que a digitalização dos processos de uma planta de classificação de materiais recicláveis é fundamental para o aumento da eficiência, redução de custos e de perdas de produção. Este novo sistema digitaliza as plantas de triagem e permite monitorar em tempo real indicadores como eficiência de classificação e qualidade do produto. Pode reportar, controlar, alertar e até mesmo intervir na seleção caso parâmetros se mostrem inadequados. Com a digitalização, as plantas se beneficiam de um aumento na produtividade e melhor padronização de produtos classificados, favorecendo os recicladores com um fornecimento mais constante e de qualidade. Na área da manutenção, o sistema STADLERconnect monitora parâmetros eletromecânicos dos equipamentos e emite avisos e alertas na iminência de alguma falha mecânica em algum componente ou até mesmo na iminência de entupimento de uma correia, por exemplo. Com isso, o sistema oferece maior previsibilidade ao identificar falhas mecânicas antes que ocorram, reduzindo os tempos de paradas, garantindo o cumprimento das metas de processamento e possibilitando a manutenção preventiva cada vez mais programada, em vez de corretiva inesperada. •


