Entre 1992 e 2021, transcorreu o último super ciclo global de investimentos petroquímicos, puxado pela China e EUA. Desde então, o setor patina em inédito e crescente excedente de resinas, incompatível com a demanda mundial derrubada. Devido à logística facilitada pela proximidade geográfica, a petroquímica norte-americana, a tiracolo da matéria-prima (gás natural) barata, intensificou a exportação para a América Latina da sua sobra de resinas, em especial polietileno (PE) e PVC. Corte para o Brasil: mesmo com as limitações de sua produção para suprir plenamente a demanda interna, o governo brasileiro, a título de amparar a petroquímica nacional presa à cara rota nafta e capacidades defasadas, não só aumentou as alíquotas alfandegárias para termoplásticos como aprovou sobretaxas antidumping para importações dos EUA das resinas mais consumidas: PVC (barreira tarifária vigente há mais de 30 anos), polipropileno (PP, de restritas exportações americanas) e, desde o final de agosto, polietileno (PE).
Desse modo, em detrimento de milhares de indústrias transformadoras, o governo brasileiro possibilita às poucas petroquímicas do país encarecer seus produtos e ampliar suas margens sem perder espaço para a concorrência externa. O xis do problema é que, dada a falta de investimentos na produção brasileira, o crescimento do mercado doméstico é suprido há anos por importações das três resinas commodities. Devido à versatilidade de aplicações e à densa penetração em bens de consumo imediato, as poliolefinas (PE e PP) são o melhor medidor em plástico que se conhece da pressão do pulso da economia. Porta de entrada no Brasil para 22 marcas internacionais dos dois polímeros, a distribuidora Conecta Resinas já põe em campo a estratégia e verba para alargar sua participação de mercado mesmo neste horizonte de previsibilidade embaçada, reitera a CEO Roberta Duarte na entrevista a seguir.
No 1º semestre, o Brasil importou 911. 106 t de PE versus 1.051.266 no mesmo período em 2024. Como explica esta queda diante da insuficiente produção doméstica e demanda desacelerada?
A queda nas importações brasileiras de PE ocorreu por um conjunto de fatores conjunturais, estruturais e interligados. Em primeiro lugar, é importante ressaltar que a demanda doméstica está enfraquecida. O consumo aparente de poliolefinas no Brasil recuou no primeiro semestre de 2025, refletido por um desaquecimento econômico que influenciou uma menor necessidade imediata de importação, mesmo com a insuficiência da produção local.
Outro ponto a avaliar: após o impacto da pandemia da Covid-19 (2020-2023), que destacou a vulnerabilidade da rede de suprimentos global, ainda estamos passando por um momento de reorganização estratégica das cadeias de abastecimento e diversificação das rotas comerciais. Houve um movimento no mercado para ajustar os fornecedores, volumes e as rotas de importação.
Embora o volume total de PE importado tenha caído, houve aumento das importações de certos tipos de resinas e grades. Isso indicou uma mudança estratégica no perfil de importações para atender demandas específicas e otimizar custos.
Outro motivo relevante para essa redução no volume de importação foi que, entre o final de 2024 e o início de 2025, foram adotadas medidas de defesa comercial que influenciaram o comportamento dos importadores. O imposto de importação foi elevado de 12,6% para 20%, e foram abertas investigações sobre os polietilenos importados dos EUA e Canadá, com a possibilidade de aprovação de medidas antidumping (nota: decisão oficializada em 28/8), o que gerou muita insegurança, expectativa e incertezas no mercado, contribuindo para essa redução em pauta das importações.
“Mesmo com a adoção de barreiras tarifárias, o Brasil seguirá dependente em parte de importações de PE e PP para atender sua demanda industrial”
Roberta Duarte, Conecta Resinas
No 1º semestre, o Brasil importou 339.061 t de PP versus 366.098 no mesmo período em 2024. Como explica esta leve subida das importações diante da insuficiente produção nacional da resina e do consumo esfriado?
Valem para esta pergunta os mesmos motivos dados para a questão inicial, com a diferença de que, no caso de PP, não havia então uma expectativa referente à aprovação de medidas antidumping, pois o Brasil já é taxado há muito tempo com alíquota de 14% para produtos provenientes dos EUA.
Quais as prováveis consequências do antidumping para PE dos EUA e Canadá?
A aplicação de antidumping aprovado no final de agosto contra importações de PE norte-americano pode ter várias consequências significativas no mercado interno.
*Provável redução de importações dos EUA e Canadá – Os importadores podem buscar alternativas mais econômicas como importações do Egito.
*Aumento das importações da Ásia – Com a limitação das importações dos EUA e Canadá, as empresas brasileiras podem se voltar para fornecedores asiáticos em condições de oferecer PE a preços mais competitivos, embora a volatilidade no custo de transporte e fatores de qualidade também devam ser considerados.
*Impacto nas importações por Manaus – A aplicação do antidumping pode incentivar a abertura e expansão de plantas de transformação de PE na Zona Franca, especialmente se os transformadores buscarem reduzir custos.
*Reajustes de preços de PE – O antidumping e a redução nas importações de determinados fornecedores podem levar a um aumento nos preços da resina no Brasil, à medida em que a oferta de materiais importados se torna mais restrita e os altos custos de produção nacional podem ser transferidos para os consumidores.
*Inadimplência entre transformadores de menor porte – O aumento de preços de PE pode afetar negativamente os transformadores pequenos e menos capitalizados, sem a capacidade de absorver custos adicionais notada entre indústrias maiores. A propósito, estamos vivendo um momento com grande aumento na inadimplência, devido à dificuldade para estes transformadores menores conseguirem repassar os custos majorados para clientes ou manter seus negócios viáveis diante da queda nas margens de lucro.
Todas essas consequências evidenciam a complexidade e criticidade do mercado de PE no Brasil, onde as decisões regulatórias têm impactos significativos tanto nas dinâmicas de importação quanto na saúde financeira dos transformadores e na estrutura de produção local do polímero. A relação entre preços, oferta e demanda será crucial para se observar como o setor transformador se adapta a essas novas realidades.
As principais alternativas a PE dos EUA alvo de antidumping estão em fornecedores da Ásia, com frete mais caro e demorado que o dos EUA para o Brasil. Como avalia o repasse deste encarecimento aos transformadores e clientes no mercado nacional hoje contraído?
O antidumping para PE dos EUA e a transição para fornecedores da Ásia, que geralmente têm custos de frete mais altos e prazos de entrega mais longos, pode gerar implicações significativas no mercado brasileiro. O repasse desse encarecimento aos transformadores e clientes é influenciado pela seguinte combinação de forças. Para começar, a transição para fornecedores asiáticos provavelmente resultará em preços mais altos para as resinas. Com o frete mais caro e o tempo de entrega maior, os transformadores e clientes terão que arcar com esses custos adicionais, aceitar preços mais altos dos EUA e Canadá devido à sobretaxa ou comprar da petroquímica nacional que, neste movimento, também aumentará seu preço. Em decorrência, isso se traduzirá em aumento no preço final dos produtos, afetando a competitividade no mercado.
O atual desaquecimento da demanda brasileira torna a situação mais desafiadora. Setores usuários de PE, como embalagens e materiais de construção, podem não ter a mesma capacidade de absorver os aumentos de preços. Isso pode levar a uma resistência por parte dos clientes a aceitar preços mais altos, resultando em quedas na venda ou até mesmo aumento impactante na inadimplência de transformadores.
Os transformadores de menor porte, em particular, podem enfrentar dificuldades para repassar os aumentos de custos aos clientes devido à concorrência e à fragilidade da demanda. Isso pode pressionar suas margens de lucro e complicar a viabilidade econômica de suas operações.
Diante do aumento dos preços, algumas indústrias podem buscar alternativas a PE, como reciclados ou outros tipos de plásticos virgens. Essa mudança na demanda pode afetar o volume de vendas de PE e, por extensão, afetar seus preços no mercado.
Como a conjuntura de juros na lua, crédito restrito e consumo desaquecido têm se refletido no nível de inadimplência entre os clientes de resinas importadas este ano?
O cenário econômico descrito na pergunta tem impacto significativo no nível de inadimplência entre os clientes de resinas em geral, pois o aumento das taxas de juros e a escassez de crédito dificultam o fôlego do caixa para muitos transformadores, em particular os de menor porte e capitalização. As empresas, principalmente menores ou desorganizadas, podem encontrar mais desafios nas suas operações, com fluxo limitado de recursos, levando a atrasos nos pagamentos ou até mesmo calotes.
A Braskem, uma das principais fornecedoras de resinas no Brasil (nota- a única de poliolefinas e a maior de PVC), pode ter perdido alguns clientes diretos devido a dificuldades financeiras e incertezas em relação ao seu futuro, pois há uma expectativa de que transformadores de maior porte, com mais capacidade de compra e sólida capitalização, possam ganhar espaço no mercado internacional, realizando importações diretas de produtores globais. A aquisição de insumos de maneira mais competitiva lhes permitirá expandir sua participação de mercado.
Com altos níveis de inadimplência e um cenário mais concorrido, os fornecedores de resinas precisam desenvolver estratégias mais robustas para mitigar riscos. Por exemplo, análises financeiras mais rigorosas dos clientes e diversificação das fontes de receita. As mudanças exigem adaptabilidade e ações inovadoras de todos os envolvidos na cadeia de suprimentos.
O histórico tradicional mostra o consumo de resinas no segundo semestre mais aquecido que no primeiro. Esta praxe deve ser mantida nesta metade final de 2025 ou a instabilidade política e econômica do Brasil, assim como as consequências internas do tarifaço de Trump, devem reprimir o mercado de PP e PE até dezembro?
Projetamos que as importações continuarão relevantes, com destaque para poliolefinas. A tendência para 2025 é de estabilidade em relação ao primeiro semestre ou de leve redução no volume importado, a depender do desempenho da indústria nacional, da demanda interna e da reação do mercado em relação ao antidumping aprovado para PE dos EUA e Canadá.
Entre os fatores que devem influenciar o mercado nos próximos meses, constam a variação do câmbio e o custo do capital; estoques elevados formados em 2024 e que podem postergar novas compras e a permanência da oferta abundante de resinas no mercado internacional, especialmente em países asiáticos.
Mesmo com a adoção de barreiras tarifárias, o Brasil seguirá dependente em parte das importações para atender sua demanda industrial. Os aumentos das alíquotas não eliminam desafios estruturais do Brasil, como o aproveitamento da capacidade instalada e a competitividade da indústria local.
Quais as principais inovações introduzidas este ano pela Conecta Resinas na estrutura de atendimento ao cliente das poliolefinas que importa?
Em julho último, o Grupo Melo Cordeiro realizou importante mudança administrativa. Todas as suas controladas, inclusa a Conecta Resinas, migraram para a plataforma SAP ERP (nota- sistema de gestão empresarial transacional) mais completa e confiável do mercado. Com ela, teremos maior capacidade de oferecer soluções inovadoras e um gerenciamento mais robusto, otimizando e integrando processos e melhorando a tomada de decisões. Outras novidades são a renovação da equipe comercial e o nosso centro de distribuição (CD) próprio, em Garuva, litoral norte catarinense, com acesso privilegiado às principais rodovias do Sul e Sudeste, além da proximidade de portos (nota- com benefícios fiscais para importações) de grande relevância como os de São Francisco do Sul e Itapoá. O CD nos possibilitará reduzir prazos e custos de transporte para entrega segura dos produtos. •


