Metamorfose ambulante

Indústria mostra na Interplast porque é dura na queda
Metamorfose ambulante

Poucas vezes um evento teve sua imagem pública tão mexida pela realidade à sua volta como a edição deste ano da Interplast, a segunda maior feira do plástico no Brasil. De uma clássica feira de negócios, unindo novidades e congraçamento dos elos de um setor, a exposição catarinense insinua dessa vez, sem qualquer culpa dela, as feições de um quarto do pânico, de um abrigo para a indústria pausar enquanto a tempestade perfeita desaba lá fora.

Do lado de dentro da indústria, a conjuntura atual embola o fogaréu nos custos de matérias-primas causado pela disparada do petróleo com a guerra no Irã, combinado com a oferta interna insuficiente de determinadas resinas e a alternativa das importações embaçada pela logística insegura e mais cara.

Do lado de fora da cadeia plástica, por sua vez, reina um festival de adversidades. Elas abrangem, no front doméstico, juros impraticáveis, crédito seletivo, inadimplência recorde de pessoas física e jurídica, alastramento de recuperações judiciais, inflação descontrolada, dívida pública dinamite pura e, para não encompridar o calvário, temos ainda apagão de mão de obra qualificada e de planejamento estratégico e uma demanda vacilante de bens duráveis e de consumo rápido, sinal de um poder de compra das população que eleitoreiros programas assistencialistas não conseguem mais vitaminar. Para completar, o incerto e trabalhoso retorno proveniente de qualquer investimento produtivo é piada diante da tranquila e segura rentabilidade do cassino do capital, melhor dizendo, mercado financeiro.

Além dessas inglórias nossas, há os reflexos por aqui dos abalos sísmicos internacionais. Entre eles, a insaciável metralhadora giratória dos tarifaços de Trump, a desindustrialização em andamento da União Europeia em crise existencial, a impensável perenidade do conflito Rússia x Ucrânia, a proeminência mundial da China na manufatura, comércio e excelência científica e melhor parar por aqui.

Para sentir o batimento cardíaco do setor plástico na Interplast, Plásticos em Revista entrevistou para esta edição uma penca de expositores sobre dois pontos: suas previsões para o mercado este ano pré e pós-guerra no Irã e as novidades trazidas à exposição. A palavra desafio foi das mais empregadas para descrever a zona de turbulência atual e, na mão oposta da praxe aferida em tantas coberturas de feiras de negócios, em momento algum os entrevistados tentaram ocultar ou aliviar o peso da gravidade do cenário. Ao contrário, eles reconhecem o impacto causado por uma conjuntura tão adversa, mas em geral ressaltam que ela também embute um punhado de oportunidades surgidas da diferença entre ver e enxergar. Por exemplo, falta de mão de obra é argumento de venda para recursos de automação, ou então, economia e produtividade podem caminhar juntas no chão de fábrica impulsionadas pelo bem-casado resultante da receita à base da evolução dos equipamentos e matérias-primas.

Plástico é o camaleão sintético. •

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