“A crise em PET mascara um excedente temporário”, sustenta Antulio Borneo, da consultoria ICIS

Superoferta tende a voltar a corroer as margens quando o cenário normalizar
A crise em PET mascara um excedente temporário

Reação em cadeia, os preços de PET desembestaram em abril a reboque do congestionamento da cadeia global de suprimentos imposto pelo conflito no Oriente Médio. O mercado prossegue volátil, com os preços e spreads (diferença entre preço final da resina e custo da matéria-prima básica) em alta do poliéster influenciados pela escassez de matérias-primas e, em especial nos EUA e Europa, pelas importações competitivas dos grades virgens e reciclados amaldiçoadas pelas indústrias concorrentes locais. Este emaranhado de entraves trazidos pela guerra no Irã, problemas estruturais da cadeia industrial e  perspectivas do mercado global de PET, inclusos reflexos no Brasil, é desatado com destreza na entrevista a seguir de Antulio Borneo,  vice presidente para a cadeia de PET/poliéster e diretor de olefinas para América do Norte  da consultoria ICIS.

“O embate entre produtores de PET e transformadores reflete um choque simultâneo de custos e demanda”

Antulio Borneo, ICIS

Antulio Borneo, vice presidente para a cadeia de PET/poliéster e diretor de olefinas para América do Norte da consultoria ICIS

Ao travar o suprimento de matérias-primas do Oriente Médio para produção asiática de PET, a guerra no Irã eliminou a superoferta mundial da resina? Como vê a queda na sua produção global desde então?

Antes do conflito no Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz, a cadeia global de PET operava com excedente estrutural de capacidade, sobretudo na Ásia – em particular na China e Sudeste Asiático, onde as taxas de utilização estavam bem abaixo do potencial. De acordo com o banco de dados de oferta e demanda da ICIS, a ocupação de capacidade global em 2025 era de 62%. Esse excedente pressionava preços em regiões importadoras, como Brasil e Europa. A guerra não eliminou essa superoferta estrutural, mas provocou um aperto temporário do mercado ao interromper logística, suprimento de matérias primas e operações pontuais, elevando assim os preços de PET no curto prazo. Ainda não há evidências de queda permanente da capacidade global nem dados confiáveis que sustentem uma estimativa numérica de redução da produção global do poliéster.

Global players em PET comemoram a recuperação de margens com a crise atual na oferta da resina, mérito da guerra no Irã. As unidades hoje paradas pela insuficiência de matérias-primas deverão retomar a produção ao final da guerra, trazendo de volta a prejudicial sobra mundial do poliéster ou parte dessas plantas vai fechar de vez?

De forma geral, a maioria das unidades hoje paralisadas ou operando com restrições tende a retomar a produção ao final do conflito, uma vez normalizados três fatores: o suprimento de nafta, gás e intermediários; os fluxos logísticos internacionais e as condições de custo marginal. Isso deve ocorrer, em especial, em regiões onde a cadeia é estrategicamente integrada, financeiramente resiliente e politicamente apoiada, tais como China, Índia e partes do Sudeste Asiático e do Oriente Médio.

Nesses polos, o incentivo para religar capacidade é elevado. Afinal, os ativos já estão amortizados; a orientação exportadora permanece intacta e os governos enxergam PET/PTA (nota – ácido tereftálico purificado, insumo de PET) como cadeias estratégicas.

Apesar disso, uma parcela da capacidade global pode não retornar, mas de forma pontual e seletiva, não sistêmica. O risco maior de fechamento permanente está concentrado em plantas antigas, de pequena escala, com baixa integração upstream, localizadas em regiões de alto custo energético ou sem proteção comercial. 

Pré-formas: Brasil importou 110.000 t em 2025 devido aos preços internacionais competitivos.

Pré-formas: Brasil importou 110.000 t em 2025 devido aos preços internacionais competitivos.

Onde isso deve ocorrer com mais probabilidade?

Em partes do Sudeste Asiático (produtores independentes); algumas operações na América Latina; China, devido à super oferta, e em segmentos específicos da Europa, onde custos estruturais e regulação ambiental já pressionavam a viabilidade econômica das capacidades antes da guerra. Ainda assim, esses fechamentos não seriam suficientes para eliminar a superoferta global, mas apenas reduzir para marginalmente o excedente.

Encerrado o conflito, o cenário mais provável é que se presencie a normalização gradual da produção, o retorno das taxas mais palatáveis de utilização e o reaparecimento da superoferta estrutural, sobretudo na Ásia. Ou seja, a crise atual mascara temporariamente um problema estrutural de excesso de capacidade que tende a ressurgir quando o sistema voltar a operar plenamente.

Como fica a América do Sul nesse pós-guerra?

A América do Sul deve permanecer vulnerável no mercado global de PET pois a região permanecerá tomadora de preço e dependente de arbitragem asiática. As importações voltarão a pressionar preços domésticos na região assim que a logística normalizar.

A rentabilidade local tende a se comprimir de novo, em especial em países sem defesa comercial efetiva.

Produtores sul‑americanos bem integrados e com escala relevante podem sobreviver, mas não há sinal de mudança estrutural favorável para a região. O risco maior é de volatilidade elevada e ciclos curtos de melhora de margem, seguidos por nova pressão competitiva externa.

Em síntese, a guerra no Irã criou um choque temporário de oferta, permitindo uma recuperação momentânea de margens. No entanto, não eliminou o excesso estrutural de capacidade do poliéster global. Com o fim do conflito, a tendência é de retorno da oferta, reativação de plantas e retomada – ainda que ajustada em parte – da dinâmica historicamente pouco lucrativa do mercado de PET.

PET na China: cadeia integrada deverá estar entre as primeiras beneficiadas pelo fim da guerra no Irã.

PET na China: cadeia integrada deverá estar entre as primeiras beneficiadas pelo fim da guerra no Irã.

Analistas calculam que, nos últimos três anos, uma parcela de 10% da produção de PET virgem foi encerrada nos EUA, tal como ocorreu até agora com sete grandes plantas recicladoras da resina. Diante da pressão das exportações de PET virgem e reciclado da Ásia para o mercado norte-americano, como fica a competitividade do poliéster virgem e recuperado local? A cadeia americana de PET implora a Trump por tarifas maiores de importações. Considera este pleito solução ou paliativo?

A combinação de preços deprimidos e volatilidade reduz o incentivo a novos investimentos nos EUA, tanto em capacidade de PET virgem quanto em infraestrutura de reciclagem. Isso impacta diretamente metas de conteúdo reciclado e a resiliência da cadeia doméstica.

Por seu turno, a proposta da entidade U.S. PET Coalition de ampliação de tarifas deve ser analisada sob duas perspectivas. Como solução de curto prazo, o aumento das taxas de importação teria efeito positivo. Afinal, poderia limitar a arbitragem de exportadores asiáticos no mercado americano; elevar temporariamente os preços domésticos, melhorando margens e utilização da capacidade doméstica e por fim, poderia dar suporte a produtores locais num momento de retração e racionalização da indústria do poliéster.

A outra perspectiva a se considerar: subir as tarifas não resolve o excedente estrutural global. Ou seja, o problema central é a sobrecapacidade que persistirá e poderá ser redirecionada a outros mercados. Por tabela, desponta no cenário o risco de desincentivo à eficiência, pois o protecionismo tarifário prolongada podo reduzir a necessidade de ajustes estruturais internos. Pesam também a ameaça de potenciais retaliações comerciais e do impacto na cadeia downstream de PET, com transformadores e consumidores enfrentando custos mais altos e assim afetando demanda.

As tarifas podem funcionar como instrumento de alívio temporário (paliativo necessário), em especial e considerando a recente contração de capacidade norte-americana (~10%) e o fechamento de ativos estratégicos. No entanto, não são solução definitiva. Para restaurar a competitividade de forma sustentável, seriam necessárias medidas complementares, como investimentos em eficiência produtiva e redução de custos; fortalecimento da cadeia de reciclagem (coleta, triagem, qualidade do resíduo coletado), políticas de incentivo à demanda por rPET (exigência de uso de teores de reciclado) e maior equilíbrio global de capacidade da resina, o que depende de dinâmicas externas)

Em resumo, as tarifas ajudam a ganhar tempo. No entanto, a viabilidade de longo prazo de PET nos EUA dependerá de ajustes estruturais mais profundos, tanto internos quanto no cenário global.

Como avalia decisão da petroquímica Alpek, global player em PET, de fechar plantas de reciclagem da resina nos EUA e na Argentina?

Além da Alpek, as petroquímicas Indorama e APG Polytech (FENC) desativaram plantas de reciclagem de PET. A justificativa é puramente econômica, pois os clientes do polímero reciclado (brand-owners) não garantem consumo regular, seja a curto ou longo prazo. Então, aquelas unidades recicladoras eram operações deficitárias.

Brasil: importações voltarão a pressionar preços domésticos de PET assim que a logística global normalizar.

Brasil: importações voltarão a pressionar preços domésticos de PET assim que a logística global normalizar.

Tal como ocorre hoje em todas as resinas, os produtores de PET, à sombra do corte na oferta mundial imposto pela guerra , se empenham em aumentar preços num cenário volátil para recuperar as margens perdidas nos últimos anos. Acontece que, em regra, os clientes estão reduzindo sua produção devido aos aumentos dos custos e demanda incerta. Para onde caminha o final deste embate? E mais: como os preços e demanda de PET devem se portar neste verão no Hemisfério Norte, pico sazonal do consumo da resina?

O embate entre produtores de PET e transformadores reflete um choque simultâneo de custos e demanda. Produtores enfrentam aumento expressivo nos custos de insumos e buscam recompor margens após anos de pressão, enquanto os clientes lidam com custos elevados e incertezas na demanda, o que limita sua capacidade de absorver aumentos. Esse cenário é agravado por um fator estrutural: produtores no Ocidente vêm perdendo competitividade frente à Ásia – muitas vezes vista como concorrência desleal – o que já levou ao fechamento de plantas de PTA e PET, sinalizando uma racionalização da oferta.

Nesse contexto, o mercado tende a encontrar equilíbrio por meio de uma acomodação ao longo da cadeia. No curto prazo, há destruição de demanda, com transformadores reduzindo produção e comprando apenas o necessário. Ao mesmo tempo, o repasse de custos ocorre de forma parcial – produtores conseguem aumentar preços, mas não o suficiente para restaurar totalmente as margens. Em paralelo, ajustes de oferta, como redução de operação ou novos fechamentos, ajudam a sustentar preços.

O resultado desse processo não é um ganho claro de um lado, mas, sim, um equilíbrio mais fraco para todos: produtores recuperam apenas parte das margens, enquanto transformadores operam com custos elevados e demanda mais cautelosa, levando a menor volume e maior volatilidade no mercado.

Para o verão no Hemisfério Norte, espera-se um cenário misto. A demanda será suportada pelo consumo de bebidas, mas deve crescer de forma mais moderada do que em ciclos anteriores. Os preços tendem a permanecer firmes devido aos custos elevados, podendo subir no início da temporada, porém com espaço limitado para altas adicionais diante da resistência da demanda e da continuidade da pressão de importações. Em síntese, o pico sazonal deve ser mais curto e menos intenso, confirmando um mercado ainda frágil e em ajuste estrutural.

Protecionismo nos EUA: pleito controverso de barreiras tarifárias pela cadeia norte-americana de PET.

Protecionismo nos EUA: pleito controverso de barreiras tarifárias pela cadeia norte-americana de PET.

O Brasil tem capacidade instalada total da ordem de 1 milhão de t/a de PET, operando com ociosidade média de 20%. Mesmo autossuficiente, o país internou 110.000 toneladas de pré-formas e 160. 875 do poliéster (grades fibra + embalagens) em 2025. Qual o nexo dessas importações? E mais: se o Brasil produz os intermediários paraxileno (PX), monoetileno glicol (MEG) e PTA, porque os produtores de PET daqui se mostram vulneráveis ao desarranjo no suprimento e preços desses insumos provocado pela guerra no Irã?

Apesar de o Brasil possuir cerca de 1 milhão de t/ano de capacidade instalada de PET e operar com aproximadamente 20% de ociosidade, as importações citadas na pergunta refletem principalmente a dinâmica de arbitragem global. O excesso de capacidade asiática pressiona preços internacionais para níveis frequentemente mais competitivos do que a produção doméstica, levando transformadores brasileiros a optar por importações. Além disso, fatores como especificações técnicas, estratégias comerciais e custos logísticos internos contribuem para a coexistência de ociosidade local com volumes elevados importados.

Por outro lado, a vulnerabilidade dos produtores de PET no Brasil aos choques internacionais de insumos – como os decorrentes de tensões geopolíticas envolvendo o Irã – decorre de limitações estruturais da cadeia petroquímica nacional. Embora o país produza  PTA, PX e MEG, o Brasil é, na prática, deficitário nos dois últimos insumos. Daí a exigência de importações para complementar a oferta interna. Esse quadro reflete, em parte, a falta de investimentos históricos em refino e na cadeia de aromáticos, resultando em disponibilidade limitada e custo elevado desses intermediários de PET.

Adicionalmente, o alto custo da nafta no Brasil eleva significativamente o custo de produção de etileno, tornando o MEG produzido localmente pouco competitivo em comparação ao produto importado, especialmente de regiões com acesso a matérias-primas mais baratas (gás natural ou etano). Como consequência, tanto PX quanto MEG precisam ser importados em volumes relevantes, aumentando a exposição do país às flutuações internacionais de preços.

Em síntese, mesmo com capacidade instalada relevante, o Brasil permanece integrado e dependente do mercado global: importa PET por razões de competitividade de preço e importa insumos-chave por limitações estruturais. Isso faz com que choques externos — seja via excesso de oferta global ou disrupções geopolíticas – sejam rapidamente transmitidos à cadeia doméstica, reforçando sua condição de price taker no mercado internacional.

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