Adrenalina hídrica

Busca de previsibilidade no cultivo fertiliza a irrigação localizada, atesta expansão da Netafim
Busca de previsibilidade no cultivo fertiliza a irrigação localizada, atesta expansão da Netafim

A agricultura brasileira vive um paradoxo. Nunca produziu tanto, nunca dominou tão bem a genética, manejo e insumos – e nunca esteve tão exposta à instabilidade climática. Nesse cenário, a irrigação desponta como forma de reduzir a volatilidade produtiva e proteger capital. Até o passado recente, irrigar foi decisão associada a regiões com maior déficit hídrico ou a cadeias de alto valor agregado. Em 2025, o discurso setorial mudou de tom após crescimentos constantes. Os produtores passaram a enquadrar irrigação como ferramenta de gestão de risco, estabilidade produtiva e sustentabilidade. A mudança coincide com a ampliação do debate sobre água, variabilidade climática, eficiência de recursos no campo e pontos da governança hídrica como outorgas (autorização legal) de direito de uso de água. Esta nova música para uma frente-chave para o plástico no agronegócio explica o tom vibrante da entrevista a seguir de Ricardo Almeida e Michele Silva, respectivamente CEO e diretora de marketing da Netafim Mercosur, pedra de toque da irrigação localizada (gotejamento e microaspersão) no Brasil e com a duplicação em andamento de sua fábrica em Ribeirão Preto (SP).

O que os números oficiais dizem sobre escala e potencial da irrigação no Brasil?

Ricardo Almeida: Dados publicados pela Câmara Setorial de Irrigação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) apontam crescimentos do mercado para patamares próximos de 400.000 hectares (ha) anuais. A Agência Nacional de Águas (ANA) apontava mais de 8 milhões de ha de irrigação nos últimos anos e estima expansão de 4,2 milhões de ha até 2040. É mencionado também o potencial técnico de até 55 milhões de ha, mas condicionado a limites de oferta de água e à gestão para usos múltiplos. Isso define o tamanho do mercado e seu limite institucional.

“A irrigação localizada é puxada por culturas onde o custo da instabilidade climática é alto.”

Ricardo Almeida, Netafim

Ricardo Almeida, Netafim

Como avalia a ascensão da irrigação localizada neste contexto?

Ricardo Almeida: Ela ganhou tração por um motivo simples: controle. Ao aproximar água e nutrientes da zona radicular, esses sistemas aumentam a capacidade de intervir no processo produtivo com precisão. Mas a promessa só se sustenta sob condições estritas. Eficiência hídrica é potencial condicionado: depende de dimensionamento, uniformidade e rotina de manejo. Sem isso, a tecnologia perde seu principal valor econômico – previsibilidade.

Qual a mudança no status da irrigação percebida desde o ano passado no debate do agronegócio?

Michele Silva: A virada é menos tecnológica e mais econômica e climática. A irrigação passou a ser percebida como parte do arsenal de gestão de risco. Conforme salientado em declarações públicas, 2025 é descrito como ponto de inflexão: irrigação deixa de ser apenas ‘projeto de mitigação da falta de chuva’ e passa a ser ‘infraestrutura de estabilidade e produtividade com rentabilidade’. Quando o produtor rural enfrenta variabilidade climática e de mercado recorrente, ele compra previsibilidade. E no campo, previsibilidade envolve plano, engenharia e operação, não um equipamento isolado.
Fica enfatizada, portanto, uma virada comportamental: o agricultor investe agora com mais racionalidade. Isso tem um efeito curioso: eleva a barra do setor, pois exige engenharia, serviço e pós-venda. Nesse ambiente, irrigação localizada tende a avançar primeiro onde o custo da instabilidade climática é maior: cadeias perenes, hortifrúti, e, progressivamente, sistemas de grãos irrigando área total ou onde a eficiência do uso de água e energia se torna decisiva.

“A irrigação passou a ser percebida como parte do arsenal de gestão de risco do agricultor”

Michele Silva, Netafim

Michele Silva, Netafim

Como a irrigação localizada se diferencia, no plano técnico, de outros métodos?

Michele Silva: A diferença é controle. Gotejamento e microaspersão ampliam a capacidade de entrega direta de água e nutrientes nas raízes da planta, em alta frequência e volumes menores. Mas eficiência hídrica é potencial condicionado: depende de projeto hidráulico, uniformidade de aplicação e rotina de manejo. Essas variáveis devem ser atendidas, para a tecnologia atender à expectativa de valor para o produtor. Plásticos são parte da engenharia da irrigação moderna
Em grande medida, irrigação localizada é plástico aplicado, como polietileno. Tubos gotejadores, linhas laterais, conectores, válvulas, filtros e componentes de condução formam a infraestrutura física que viabiliza o controle. A discussão sobre plástico no agro passa a adotar uma agenda editorial mais produtiva, tratando o tema pelo ciclo de vida: durabilidade, manutenção, destinação e logística reversa. Na irrigação, a sustentabilidade começa pelo básico: um sistema que dura, opera com estabilidade e pode ser coletado e reciclado ao fim do ciclo.

Quais culturas hoje puxam a adoção do sistema de irrigação localizada?

Ricardo Almeida: Em 2025, café, citros e hortifrútis aparecem como vetores consistentes. São cadeias onde o custo da instabilidade é alto: perder florada, calibre, padrão de qualidade, ou janela de mercado custa mais do que o investimento em controle. E há duas culturas com potencial elevado de crescimento para irrigação localizada pela escala: grãos e cana-de-açúcar. Tem também o cacau, com investimentos e conceito de ‘nascer irrigado’ em novos projetos e regiões.
Café aparece como motor recorrente, associado à busca por estabilidade e, em certos contextos, a janelas de preço que aceleram decisões de investimento. Citros ganham destaque por migração geográfica e necessidade de implantação em regiões mais quentes e secas. Hortifrútis, por sua vez, são quase sinônimo de irrigação moderna em sistemas intensivos, pela exigência de regularidade e qualidade.
A cana-de-açúcar tem potencial gigante em escala quando irrigada e fertirrigada. E a adoção do sistema de irrigação localizada por esta cultura mostra-se ainda mais dependente de desenhos econômico e hídrico.
Grãos com a possibilidade de irrigação em área total e outras culturas emergem com força, caso do cacau. Em novos polos cacauicultores, nota-se com frequência a prática do cultivo que já ‘nasce irrigado’, sobretudo quando o fruto é plantado fora de zonas historicamente úmidas.
O desenho de todas essas oportunidades revela uma lógica: a irrigação localizada avança onde o investimento traz retornos consideráveis e onde o risco climático ameaça diretamente a viabilidade do ativo.

Tubos gotejadores Netafim: Brasil é o segundo maior mercado global da empresa.

Tubos gotejadores Netafim: Brasil é o segundo maior mercado global da empresa.

Como interpreta o surto de recentes investimentos noticiados no parque industrial brasileiro de sistemas de irrigação localizada?

Ricardo Almeida: O movimento sinaliza demanda estrutural e necessidade de capacidade produtiva. A Netafim está investindo mais de R$ 100 milhões para dobrar capacidade, com alocação para indústria, armazéns e escritório, um projeto em curso até o final de junho. O Brasil, aliás, é o segundo maior mercado global da empresa (nota: matriz em Israel e presença em 110 países). Para o produtor, isso tem uma leitura prática: prazo, disponibilidade, serviço e capacidade de atender picos de demanda.
O sinal econômico é claro: quando a indústria de irrigação investe em capacidade, ela aposta que a demanda pelo sistema não é apenas um ‘ciclo de seca’, mas um reposicionamento permanente na agricultura brasileira. Para o produtor, isso se traduz em disponibilidade, prazo e serviço – fatores tão decisivos quanto tecnologia.

Por que a digitalização ainda não escalou a irrigação na velocidade do discurso?

Michele Silva: Porque digitalização é infraestrutura, dados e pessoas. A Embrapa destaca que 84% dos produtores entrevistados já usavam alguma tecnologia digital, mas aponta barreiras objetivas: 41% relatam falta de conhecimento sobre quais tecnologias adotar e 36% falta de capacitação. Some-se a isso a conectividade irregular e plataformas pouco integradas. O resultado é um paradoxo: existe tecnologia, mas falta ‘capacidade organizacional’ para extrair valor.

Hortifrútis: regularidade no cultivo respaldada pela irrigação localizada.

Hortifrútis: regularidade no cultivo respaldada pela irrigação localizada.

Quais dados técnicos importam para uma irrigação realmente orientada por evidências?

Michele Silva: Na prática, a digitalização útil para irrigação opera em três camadas. No solo, mede umidade e ajuda a calibrar reposição hídrica. No clima, conecta evapotranspiração e previsões. No sistema, monitora pressão, vazão, filtragem, alarmes e histórico da execução real do programa.
O objetivo não é automatizar por automatizar: é reduzir erro humano e tornar o manejo auditável. A própria Embrapa lembra: tecnologia, por si só, não garante benefício sem conhecimento e capacitação. Ou seja, a barreira não é só hardware; é capital humano e integração
O valor aparece quando esses dados são convertidos em decisão: reduzir erro humano, antecipar falhas, padronizar manejo e documentar performance. É aqui que a agenda de conectividade entra como variável econômica: sem cobertura confiável, plataformas se tornam subutilizadas e, sem treinamento, o dado vira ruído. A digitalização, portanto, é menos um ‘produto’ e mais um programa de mudança operacional.

Quais são os pontos técnicos que mais determinam o sucesso ou fracasso de um projeto de irrigação localizada?

Ricardo Almeida: Em suma, tratam-se de cinco decisões estruturais, muito alinhadas ao Manual de Irrigante recentemente lançado pela Netafim. São elas: diagnóstico de solo e cultura; disponibilidade e qualidade da água; topografia e dimensionamento hidráulico; manejo e automação como parte do sistema e projeto especializado e assistência para operação. O erro típico é tratar irrigação como compra isolada de equipamento, não como ‘sistema vivo’ que precisa de rotina de verificação.

Muda de café: janelas de preço favorecem adoção da irrigação tecnificada.

Muda de café: janelas de preço favorecem adoção da irrigação tecnificada.

Crédito e juros voltaram. desde 2025, a ser um limitador da expansão do agronegócio. Como destravar os investimentos no setor de irrigação?

Ricardo Almeida:Irrigação não tem um ROI (nota: métrica financeira de retorno sobre o investimento) único. Pode retornar em faixas que variam a depender de fatores como cultura, preço e o projeto em foco. O papel das empresas é tratar retorno como cenário e o papel das políticas é criar instrumentos que premiem eficiência e governança. Existem linhas de agentes públicos e privados para financiar o investimento na irrigação, bem como mecanismos de troca via transações de barter (nota: o agricultor adquire insumos e os paga com os produtos que colhe).

Qual a situação atual do aparente gargalo para o setor de irrigação implementado pela outorga de direitos de uso de água e governança hídrica?

Ricardo Almeida: O gargalo está na interface entre expansão e segurança hídrica. A ANA quantifica a relevância do uso de água na agricultura irrigada e defende planejamento e gestão setorial. O Ministério da Agricultura e Pecuária coloca arcabouço legal e governança como eixos. Então o ponto é: existe potencial, mas é necessária a modernização de processos e gestão por bacia, para aumentar a eficiência de qualquer investimento.

Em quais posturas o mercado de irrigação ainda precisa evoluir?

Ricardo Almeida: Primeiro, na ideia de que irrigação com eficiência é potencial condicionado a projeto e manejo adequado. Segundo, na crença de que digitalização resolve falta de agronomia: dados ajudam, mas não substituem diagnóstico e rotina. Terceiro, a expansão da irrigação é inevitável, mas a governança precisa apoiar a gestão. O mercado vai precisar provar com dados de campo que a irrigação localizada é a ferramenta que mais traz diferencial produtivo, segurança e rentabilidade. Tudo isso é bom para profissionalizar o setor. •

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