Sequela da dívida pública a (por ora) 82% do PIB, da gastança oficial superior à arrecadação, instabilidade crônica, insegurança jurídica e de tantas outras inglórias do ambiente de negócios no país, os juros matadores e o crédito seletivo engessam investimentos para a infraestrutura, mineração, construção e irrigação. Apesar do ferrolho na porta desses mercados, a indústria de tubos de polietileno (PE) e polipropileno (PP) tem ampliado a ponto de, hoje em dia, a diferença entre sua capacidade nominal e produção rondar a marca de 200.000 t/a e o nível de ocupação andar bem aquém do aceitável. O nexo por trás desse aparente despropósito é o otimismo embutido na visão de que a necessidade obriga e, mais hora menos hora, as lacunas e pendências não admitirão mais protelações e os investimentos hoje retidos florirão conforme há tanto tempo se espera, justifica confiante nesta entrevista Osvaldo Barbosa de Oliveira Junior, diretor presidente da Associação Brasileira de Tubos Poliolefínicos e Sistemas (ABPE).
“Há uma demanda reprimida por tubos de PE e PP em áreas como saneamento, construção, mineração e agro. O ponto central reside na viabilização dos projetos de investimentos”
Osvaldo Barbosa, ABPE
Com capacidade anual de 345.000 toneladas, a indústria de tubos poliolefínicos produziu 152.000 em 2025. Rodou, portanto, com cerca de 56% de ociosidade, traduzindo inviabilidade econômica também notada no histórico desde 2023. Como o setor enfrenta este entrave para sua rentabilidade?
A discrepância entre a capacidade instalada e o volume de produção atual reflete, na verdade, o otimismo estratégico do setor. Existe um entendimento claro, por parte do empresariado, sobre a necessidade premente de avanços em infraestrutura – em especial, em saneamento, agricultura e mineração. O Brasil possui um potencial de crescimento significativo. Porém, a viabilização de novos projetos tem sido contida por um cenário macroeconômico complexo, marcado pela volatilidade das taxas de juros e pelas incertezas inerentes ao calendário eleitoral, fatores que impactam diretamente a construção civil. A manutenção de investimentos no parque fabril demonstra a convicção do setor em relação à demanda futura. O horizonte de 2033, estipulado para a universalização do saneamento básico, atua como um balizador essencial. Embora a execução das obras não apresente, até o momento, a celeridade necessária para cumprir as metas estabelecidas, o setor de tubos poliolefínicos mantém sua estrutura preparada para responder de imediato quando a demanda se concretizar. As projeções indicam a necessidade de aportes anuais da ordem de R$ 48 bilhões para atingir a universalização dos serviços de água e esgoto. Contudo, os investimentos atuais permanecem aquém dessa estimativa. Apesar dos avanços pontuais observados por meio de parcerias público-privadas (PPPs), a velocidade das obras ainda não reflete a urgência dos desafios.
A capacidade brasileira de tubos poliolefínicos cresceu 28.000 toneladas de 2023 a 2025. Qual a motivação para este investimento diante dos altíssimos níveis de ociosidade, danosos para as margens do negócio, aferidos desde 2023?
Reforço que temos plena consciência do expressivo potencial de crescimento do Brasil e da necessidade premente de investimentos em diversos setores. Há uma demanda significativa e ainda reprimida por soluções em polietileno (PE) e polipropileno (PP), em especial em áreas estratégicas como saneamento básico, construção civil – tanto residencial quanto comercial –, mineração e agronegócio. O ponto central reside na viabilização desses projetos. Embora o mercado apresente um cenário de expansão, com mais empresas surgindo e organizações consolidadas realizando investimentos, o ritmo de concretização dessas iniciativas tem sido mais lento do que o esperado. O desafio fundamental é identificar os mecanismos necessários para destravar esses recursos, sejam eles de origem pública ou privada, permitindo que a demanda reprimida seja enfim atendida e que a produção industrial alcance o volume projetado. É uma questão de tempo para esses negócios se consolidarem, mas a prioridade deve ser a remoção dos entraves que retardam o avanço.
As vendas internas de tubos poliolefínicos cresceram de 122.000 toneladas em 2023 para 129.000 em 2024 e 155.000 em 2025. A expansão também se deve aos espaços que tubos de polietileno de alta densidade (PEAD) tomam de PVC em infraestrutura, devido à maior vida útil, menor manutenção e oferta doméstica da resina maior que a do vinil?
Observamos que projetos de Parcerias Público-Privadas (PPPs), em especialmente no saneamento, têm sido gradualmente destravados. Esse movimento impulsiona toda a nossa indústria. Quanto à concorrência, não considero PEAD competidor de PVC. Ao contrário, ambos apresentam certa sinergia, pois tratam-se de tecnologias plásticas que compartilham vantagens superiores a outros materiais. O crescimento dos tubos de PEAD, conforme indicado em nossa pesquisa, decorre primordialmente da substituição de metais tradicionais, como ferro fundido e aço, em sistemas de abastecimento de água. Destaco também a expansão do tubo de PEAD em projetos de esgoto e, principalmente, na drenagem de águas pluviais. Nossas soluções em tubos corrugados têm substituído, de forma consistente, os tubos de concreto. Essa migração ocorre não apenas pela praticidade operacional, pois os tubos de concreto são bem mais pesados, mas por critérios de sustentabilidade – os tubos corrugados apresentam pegada de carbono e hídrica bastante menor. Portanto, o crescimento do setor está muito mais atrelado à substituição de materiais convencionais do que à competição entre polímeros.
Tubos corrugados: mais leves, baratos e fáceis de instalar que tubos de concreto para drenagem pluvial.
Pelas estimativas da ABPE, com base num cálculo por alto, qual o consumo anual de tubos plásticos na infraestrutura em 2025 e como reparte este total entre PEAD e PVC?
Não dispomos dessa informação específica. Contudo, gostaria de ressaltar que, antes de eventual confronto entre PEAD e PVC, observa-se um movimento de substituição gradativa de materiais convencionais. Na distribuição de água, por exemplo, ferro fundido e aço cedem cada vez mais lugar a tubos de PEAD, a exemplo da linha de tubos lisos sob pressão e de PVC. Destaco, nessa trilha, os avanços dos tubos corrugados de grande diâmetro, substitutos eficazes das tubulações de concreto em redes de esgoto e drenagem de águas pluviais.
Como divide o consumo nacional de tubos na condução predial de água quente entre polipropileno (PP) random (PPR) e PVC clorado (CPVC)?
Cabe pontuar que o vinil é material consolidado, enquanto PPR obteve aceitação progressiva ao longo dos anos. Embora o foco de nossa atuação na ABPE esteja centrado no saneamento e não na área predial, observa-se concorrência expressiva entre esses materiais na construção civil. De acordo com o histórico, era comum a utilização de PPR em prumadas, devido aos maiores diâmetros, e o emprego de CPVC ou PEX (reticulado) em ramais e subramais, de diâmetros menores. Hoje em dia, embora não possamos atestar com dados estatísticos, nota-se uma distribuição equilibrada entre PPR, CPVC e PEX nas aplicações prediais. Ressalto que esta é uma observação fundamentada em acompanhamentos anteriores do mercado e não representa uma análise técnica oficial.
Como interpreta o posicionamento do consumo aparente de 153.000 toneladas de tubos poliolefínicos em 2025 assentado entre infraestrutura, construção civil, irrigação e usos industriais?
É importante destacar o crescimento substancial observado no triênio 2023-2025, com uma perspectiva de continuidade para 2026, a despeito do cenário econômico e político conturbado. Em 2025, em particular, a evolução do consumo aparente foi relevante em relação a 2024. Embora nossa matriz produtiva ainda apresente ociosidade na capacidade instalada, o crescimento registrado pode ser atribuído, em grande parte, aos avanços no setor de saneamento. Os elevados patamares das taxas de juros e as incertezas conjunturais impõem desafios significativos e, diante desse panorama, o empresariado – tanto na indústria quanto no agronegócio – tende a ser mais cauteloso, postergando com frequência investimentos.
Como interpreta as importações recordes de 70.000 toneladas de PEAD para tubos em 2025?
Os dados demonstram que, em relação a 2024, houve uma duplicação no volume de PE importado para a fabricação de tubos. Esse cenário evidencia um interesse crescente de petroquímicas múltis e traders pelo mercado interno. É provável que esse movimento, iniciado em 2025, já antecipe a expectativa pelo destravamento de grandes obras de infraestrutura. Setores como mineração, agronegócio e construção civil, somados ao saneamento, tendem a demandar cada vez mais soluções em PE para tubos rígidos, destinados a sistemas sob pressão, e os tipos corrugados, empregados em sistemas por gravidade, como redes de esgoto e drenagem de águas pluviais. Essa procura é impelida por diferenciais da poliolefina como durabilidade, baixo coeficiente de atrito para o transporte de fluidos, facilidade de instalação, leveza, além da pegada de carbono e hídrica reduzida.
O relatório da MaxiQuim apresenta sondagem que prevê produção de 190.000 toneladas de tubos poliolefínicos em 2026 versus 152.000 em 2025, com base no setor de infraestrutura. No entanto, os investimentos estão em queda na área devido à diminuição de áreas rentáveis para serviços de água e esgoto. E os recursos já aplicados estão abaixo do necessário para cumprir a meta de universalização do saneamento em 2033. Por sua vez, juros na lua, mega inadimplência e disparada dos preços de materiais de construção refreiam este ano o mercado imobiliário. Diante desses fatos, como se sustenta o previsto salto na produção este ano?
Bem, eu acho até otimista essa previsão da ordem de 190.000 toneladas de tubos produzidas este ano. Mais uma vez, essa expectativa provém da constatação de que as demandas existem, de que a necessidade é premente e que o tempo está passando. Então, com base em cada ano que avançamos, querendo ou não, torna-se necessário o destravamento das obras, principalmente as de saneamento. Então, daí a projeção percebida no saldo da sondagem de que grandes obras acontecerão e que teremos logo mais, sim, um volume grande de obras por serem desenvolvidas. Querendo ou não, essa sondagem entre fabricantes de tubos também traduz um lado bastante otimista de que, pelo lado político, possa existir algum tipo de adequação para o cenário econômico na forma de uma visão que desate os investimentos, aconteça o que acontecer aí nas eleições. Além do saneamento, que tem muita coisa para ser feita, pesa na sondagem o potencial de expansão da construção, mineração, usos industriais dos tubos etc. Tudo isso vai acabar acontecendo. Somos indagados com frequência por órgãos oficiais, entidades setoriais e representantes dos mercados de construção e saneamento sobre a capacidade da indústria em atender à demanda projetada. Nossa posição é clara: possuímos uma capacidade instalada robusta, hoje operando com expressiva ociosidade e plenamente apta a suprir o volume de obras previsto pelo Marco do Saneamento, bem como a demanda proveniente de outros setores, como irrigação e mineração. Estamos preparados para corresponder à aceleração das obras conforme o cronograma de execução foi estabelecido. Mantemos uma perspectiva otimista de que, entre 2026 e 2028, presenciaremos um crescimento sustentado no ritmo dos projetos e, por extensão na utilização de nosso parque fabril.


