Papel aceita tudo

Uma pequena diferença entre a visão de mundo dos legisladores e a verdade nua e crua
Papel aceita tudo

Poucos meses antes da guerra no Irã, o ímã dos preços sedutores das resinas virgens, decorrência da super oferta mundial, semeava dúvidas no Brasil sobre o cumprimento da meta de 22% de plástico pós-consumo reciclado (PCR) em produtos transformados, estabelecida para este ano pelo Decreto 12.688/2025 de logística reversa de embalagens plásticas. Off the records, os elos da indústria matutavam se valeria mais a pena infringir a norma, mesmo sob risco de multa, em favor do lucro maior entrevisto no uso 100% da resina zero km mais barata e disponível que a de segunda mão.

O conflito no Oriente Médio esfacelou esta visão ao engatar abrupta explosão dos preços do petróleo e derivados. O que, por tabela, em tese devolveria ao PCR a competitividade perdida para o excedente de resina virgem. Só que na vida real não é bem assim e, por coisas nossas, anda relativamente baixa a probabilidade de cumprimento integral em 2026 do teor de 22% de reciclado na composição de artefatos transformados, pondera Luiz Henrique Hartmann, presidente da Associação Brasileira Empresarial dos Recicladores de Plástico (Abrerp). “Com base no comportamento observado no primeiro semestre, eu consideraria alta a probabilidade de grandes empresas atingirem ou ficarem muito próximas da meta. Entre as médias, acho que parte sim e parte não e, quanto às menores, muitas terão dificuldade para alcançar o percentual exigido”.

Ele abre as explicações para o pressentido descumprimento da meta com a demanda por PCR. “Aumentou muito, mas a oferta não acompanhou”, compara. “O problema é que a capacidade instalada da reciclagem não cresceu na mesma velocidade esperada com a vigência da obrigação legal”. Descompasso resultante da óbvia incompatibilidade de gênios entre investimentos, juros matadores e economia sonâmbula. Retomando o fio, Hartmann acrescenta que grande parte do resíduo disponível ainda não atende às especificações para processamento na reciclagem. “Prossegue a escassez de PCR apto a reúso em aplicações como tampas, filmes, embalagens de cosméticos, fármacos, produtos de higiene e de alimentos sem contato direto com o conteúdo envasado”.

O gargalo estrutural do cenário frustrante permanece na coleta seletiva, distingue o presidente da Abrerp. “O decreto aumentou a demanda, mas sem matéria-prima pós-consumo suficiente, não há reciclado nos volumes necessários para respeitar a lei”.

Outra pedra no caminho é o gradativo preparo das indústrias, no plano geral, para acertar o passo com o crescendo anual de percentuais de PCR prescrito no decreto, pondera Hartmann. “Muitas empresas ainda estão em fase de adaptação”, constata. “No primeiro semestre, boa parte delas passou a homologar novos fornecedores, reformular embalagens, revisar projetos e realizar testes industriais. Ou seja, essas empresas trataram de arrumar a casa na primeira metade do ano, não necessariamente produzindo em escala transformados contendo 22% de PCR”. No arremate, ele comenta que diversas empresas ainda carecem de informações sobre como comprovar o percentual de reciclado, balanço de massa, rastreabilidade, auditorias e certificação de recicladores.

A diferença entre as visões de mundo pela indústria no dia a dia e pelo legisladores no aconchego dos gabinetes não é novidade para o setor plástico. Além da pedra cantada do descumprimento do decreto da logística reversa, são referências o postergado prazo de fechamento dos lixões, determinado pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, e o da universalização do saneamento básico, fixada no Marco Legal para 2033 e que, como já admitem experts nesta edição, deve ficar agora para a próxima década.
Quer fazer Deus rir? Então conte seus planos a Ele. (Woody Allen). •

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