Após mais de uma década sem atualizar seu parque industrial, alguma coisa começa a mudar no setor brasileiro do filme de polipropileno biorientado (BOPP). Nos últimos anos, a escalada das importações de flexíveis, com BOPP à frente, tem alarmado os transformadores nacionais com películas obtidas de poliolefinas super ofertadas a preços ultra competitivos. Não é à toa, por sinal, que, no radar da consultoria Icis, o Brasil tende a ser este ano o oitavo importador de polipropileno da China, internando em torno de 204.000 toneladas. Na garupa dessa resina mais em conta, o excedente de bobinas de BOPP da Ásia tem alargado seu espaço no mercado brasileiro, razão de sobra para os líderes neste nicho no país descruzarem os braços. A Innova (negou entrevista) anuncia o não detalhado aporte de R$ 423 milhões em sua fábrica de BOPP em Manaus e o Grupo Oben alardeou em junho a encomenda de linha alemã Brückner para engordar a capacidade de sua controlada brasileira Vitopel. As entrelinhas desse cabo de guerra instaurado entre os filmes nacional e importado são descortinadas nesta entrevista por Cláudia Savioli, diretora executiva da Polymark Embalagens, dínamo da distribuição de BOPP, shrink e stretch filiado à Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (Abief) e Associação dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast).
“As principais origens de BOPP desembarcado aqui são Colômbia, China, Índia e, com participação crescente, países do Sudeste Asiático”
Claudia Savioli, Polymark
Polymark é distribuidora oficial de quais empresas de BOPP e de quais empresas de shrink e stretch no Brasil?
A Polymark distribui filmes há 30 anos, com foco predominante em BOPP, operando também por meio do hub de soluções técnicas PolyUp. Em vez de representar exclusivamente uma única marca ou fabricante, nossa proposta de valor reside na curadoria das melhores oportunidades de qualidade e custo-benefício disponíveis, tanto de produtores nacionais quanto internacionais, selecionando para cada cliente e segmento a solução mais adequada. Por essa razão, não divulgamos publicamente a lista completa de fornecedores, pois as parcerias são dinâmicas e estratégicas.
A Polymark importa quais tipos específicos de filmes de PP e PE? Atua como agente autorizada ou revendedora autônoma?
São importados filmes de BOPP e PE que complementam nosso portfólio quando a oferta nacional apresenta lacunas, seja em termos de especificação técnica ou de maior necessidade de custo. Isso inclui filmes biorientados transparente, pérola, metalizado e mate, além de tipos de shrink e stretch com características funcionais específicas. Nossa atuação na importação é autônoma e orientada por inteligência de mercado. Avaliamos as melhores origens entre fornecedores da Ásia, Europa e América Latina. Não operamos como agente autorizado de qualquer fabricante. Isso nos confere liberdade e isenção para recomendar a melhor alternativa para cada aplicação. Mas a nossa melhor opção ainda é o filme distribuído de produtor local, por garantir a melhor logística, atendimento mais fácil e conformidade com as regulações e exigências daqui.
Linha de BOPP Brückner: Grupo Oben encomenda máquina para ampliar no Brasil a capacidade da Vitopel.
Como situa suas vendas atuais entre filmes nacionais e importados e como era essa partilha cinco anos atrás?
O mix entre filmes nacionais e importados reflete, em grande medida, as oscilações do câmbio, oferta doméstica e competitividade de cada origem. Há mais de cinco anos, o BOPP nacional dominava com folga o portfólio de distribuidores como a Polymark. As importações respondiam então por pequena parcela nas vendas. O cenário mudou e um dos episódios que melhor ilustram essa alteração é a trajetória do Grupo Oben no Brasil. Com a aquisição integral da concorrente local Vitopel, este conglomerado peruano se fortaleceu como múlti em BOPP, assumindo as instalações de produção desse filme em Mauá e Votorantim (SP). Como já era fornecedor relevante do exterior para o mercado brasileiro, o Oben passou então a gerir a equação entre produção local e importação segundo critérios globais de rentabilidade e otimização de capacidade. Ele desfruta, assim, de uma flexibilidade inatingível por um produtor de BOPP puramente local. Quando o custo de produção aqui é menos competitivo, o Oben pode abastecer o Brasil com filmes de outras origens da sua operação global.
Este movimento e o crescimento de 21,8% das importações de BOPP e BOPET (poliéster biorientado, também produzido pelo Oben no exterior e Brasil) em 2023 frente a 2022, comprimindo o market share dos distribuidores focados no produto nacional com a pressão contínua de filmes asiáticos fabricados com matéria-prima mais barata, deslocaram o equilíbrio entre filmes importados e nacionais no portfólio dos varejistas deste nicho de flexíveis. O mix atual da Polymark, por sinal, equilibra as duas origens de forma estratégica, privilegiando sempre a melhor relação custo-benefício e a segurança técnica do produto para o cliente, sem dependência exclusiva de qualquer fonte. Não divulgamos percentuais específicos por confidencialidade comercial.
Como situa o volume de vendas do mercado interno de filmes biorientados em 2025 versus 2024?
Desde 2023, a distribuição de filmes biorientados enfrenta uma combinação adversa, queda de market share frente às importações, dificuldades de competir com insumos internacionais e escoamento irregular do produto nacional nos períodos de maior demanda sazonal. Em 2025, o setor viveu pressão intensa sobre sua rentabilidade, mas mostrou resiliência e capacidade de reorganização. Foi um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos para o mercado brasileiro de filmes biorientados. A retração de 11,45% no volume de BOPP e BOPET comercializado pelos associados da Adirplast refletiu um ambiente marcado por demanda mais fraca, forte pressão competitiva dos produtos importados e redução das margens ao longo de toda a cadeia de distribuição. A Polymark também foi impactada por esse cenário, porém conseguiu preservar a competitividade por meio de disciplina operacional, proximidade dos clientes e foco em segmentos nos quais qualidade, disponibilidade e suporte técnico agregam valor à decisão de compra. Por política corporativa, não abrimos volumes absolutos de vendas.
Qual a expectativa para o mercado de BOPP neste ano ainda mais instável?
O cenário permanece provocante e incorpora novo fator de instabilidade: os reflexos do conflito no Oriente Médio sobre a cadeia petroquímica global. Desde o início da escalada das tensões, ocorrem fortes oscilações nos custos das matérias-primas e insumos da cadeia, com impactos relevantes sobre os preços dos filmes e o planejamento de estoques e compras deles.
Além da geopolítica, o Brasil enfrenta obstáculos estruturais, como o elevado endividamento das famílias, o crescimento econômico moderado e a limitação de estímulos ao investimento industrial. Esses fatores tendem a restringir a velocidade de recuperação da demanda. Diante disso tudo, nossa expectativa para o ano é de recuperação gradual do mercado, sustentada pela normalização dos estoques, retomada seletiva do consumo e busca de competitividade pela indústria transformadora. Trata-se de uma conjuntura de cautela propositiva. Em BOPP as transformações anunciadas no lado da sua oferta local, com destaque para o movimento do Oben e da noticiada expansão da planta da Innova em Manaus, podem alterar o equilíbrio competitivo nacional. Assim, nossa expectativa para o mercado este ano é de recuperação em torno de 5% se o segundo semestre estiver mais aquecido.
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A Polymark comercializa filmes sob a marca PolyUp desde 2023. Vários tipos são coextrusados. Qual empresa efetua essa etapa? Não há disputa com quem compra BOPP para coextrusar ou laminar?
PolyUp não é linha própria de produção, mas um portfólio de soluções técnicas desenvolvido em parceria com produtores selecionados daqui e internacionais, não revelados por estratégia comercial. Eles realizam a coextrusão conforme especificações nossas. PolyUp refere-se, portanto, a um segmento complementar e não concorre com a Polymark.
Em suma, ela opera nos segmentos de demanda por filmes já prontos para embalagem direta e indireta com menor escala ou necessidade técnica específica e com foco em eficiência e segurança de produto.
Como avalia a possibilidade de enriquecer o portfólio com BOPET, laminados, masterbatches, tintas e adesivos para laminação?
Acompanhamos esta discussão com interesse genuíno; sua dimensão estratégica ganha mais relevância quando se olha para o horizonte normativo global. Na União Europeia, por exemplo, o regulamento 2025/40, vigente desde fevereiro de 2025 e a ser aplicado a partir de agosto deste ano, estabelece requisitos obrigatórios de sustentabilidade e reciclabilidade para embalagens comercializadas na Europa, seja qual for a origem do produto envasado. Isso impacta direta sobre as estruturas de embalagens flexíveis. A substituição de laminações complexas por estruturas monomaterial é uma das pautas mais fortes para 2026, com soluções ganhando espaço e permitindo melhor aproveitamento na coleta e reciclagem. Nesse contexto, aliás, o filme BOPET, integrante de muitos laminados convencionais incompatíveis com a reciclagem, tende a perder espaço nas estruturas multimaterial em geral. Mas permanece relevante em aplicações de alta barreira e em estruturas unicamente de poliéster. Já BOPP sai fortalecido nesse cenário, como demonstra sua participação em recicláveis estruturas monomaterial de embalagens de alimentos com barreira a gases e umidade.
Para a Polymark, essa transição representa uma oportunidade real de ampliar o portfólio de forma coerente. Nossa visão é a de um hub de soluções para flexíveis e PolyUp é o primeiro passo nessa direção.
Exportações da China: excedentes acessíveis turbinam importações crescentes de flexíveis para o Brasil.
A preocupação da indústria brasileira de flexíveis com importações crescentes de BOPP da Ásia/China é justificada?
Sim e com base em evidências concretas. Desde 2022, com o embargo ao petróleo russo pós-invasão da Ucrânia, China e Índia passaram a comprar esse combustível com desconto enorme frente ao Brent, incorporando-o como base de seus petroquímicos. Ao mesmo tempo, a retração da demanda europeia por alimentos e embalagens gerou considerável excedente asiático de BOPP que, por sua vez, buscou a América do Sul como canal de escoamento.
Além disso, são ascendentes as importações brasileiras de PP da China – em 2025 equivaleram ao dobro do volume internado em 2021. Isso cria a base de matéria-prima barata que viabiliza a produção de filmes asiáticos competitivos. Portanto, o risco temido pela indústria nacional de flexíveis não é hipotético; ele já se materializa em volumes crescentes de BOPP importado e a tendência estrutural aponta para uma pressão que não se dissipará no curto prazo.
O déficit na oferta doméstica de PEBD e PEBDL metaloceno tende a ser preenchido por importações de resinas e filmes produzidos com elas?
Acredito que sim; essa é uma lacuna estrutural do parque petroquímico brasileiro. Ela abre espaço tanto para resinas quanto para filmes vindos do exterior. Entre os materiais mais importados, sobressaem os tipos de PEBDL metalocênicos, cuja produção nacional está há muito tempo aquém da demanda. Transformadores já argumentam formalmente, em processos de antidumping, que alguns grades dessa versão de polietileno simplesmente não são produzidos no Brasil, o que justifica sua importação. Nesse contexto, a tendência é de que tanto as resinas quanto os filmes produzidos a partir delas continuem a ser internados em volumes crescentes, em especial para aplicações que demandam alta performance mecânica e óptica, como embalagens primárias de alimentos frescos.
Mantido o cenário brasileiro de juros altos, câmbio volátil e defasagem tecnológica, os filmes do exterior devem ampliar seu market share no mercado interno ou apenas as resinas do excedente global prosseguirão sendo importadas com intensidade?
O cenário favorece as duas correntes em paralelo, mas por razões distintas. Em 2025, o setor de embalagens flexíveis registrou em 2025 ociosidade (29,6%) na sua capacidade nominal (nota: 3.297 milhões de t/a), com faturamento que cresceu em grande medida por repasse de custos inflacionários, não por expansão real de volume. Isso revela uma indústria que não investe em modernização por falta de condições financeiras estruturais e, portanto, perde competitividade de forma sistemática.
O maior choque de preços de resinas da história recente do Brasil, com PP, PE e PVC acumulando altas de até 100% desde março de 2026, agravadas pela guerra no Irã, pressionou toda a cadeia produtiva. Nesse ambiente, quem consegue importar filmes a preços competitivos têm um incentivo econômico real para fazê-lo.
No entanto, é preciso ressalvar, importar diretamente não está ao alcance de todos. A compra de filmes do exterior exige capital de giro robusto, normalmente com pagamento antecipado, prazos de embarque longos e risco cambial durante o trânsito. Pequenas e médias convertedoras simplesmente não dispõem dessa capacidade financeira, dificuldades que tornam o distribuidor nacional um elo indispensável. A Polymark, ao internar volumes significativos e mantê-los em estoque disponível, permite aos clientes aliarem a competitividade do produto importado sem risco cambial ou logístico e com as condições comerciais do mercado local, com disponibilidade imediata, preço previsível, parcelamento, lotes menores, suporte técnico. Essa é, na prática, uma função de capitalização e democratização do acesso ao melhor produto que a distribuição exerce de forma única. .A tendência, portanto, é de que filmes importados ampliem sua participação no mercado interno, mas intermediados por distribuidores estruturados e qualificados. Também acho que, com seus novos investimentos, os produtores locais de filmes como BOPP redefinirão este cenário em 2027.
BOPET: perspectivas turvadas pela pressão ambientalista em prol de flexíveis mono material
Quais os grades de BOPP mais importados pelo Brasil, as principais origens e os efeitos causados no setor pela guerra no Irã?
Os grades de BOPP mais internados são o transparente biorientado convencional, para embalagem de alimentos, rótulos e conversão geral, seguido do metalizado e do perolado para aplicações diversas.
As três principais origens de BOPP desembarcado aqui são Colômbia, China, Índia e, com participação crescente, países do Sudeste Asiático, como Tailândia e Vietnã. A Ásia concentra cerca de 60% da capacidade produtiva mundial de BOPP e um pouco menos que isso do consumo global.
Quanto à Guerra no Irã, seus efeitos sobre o BOPP chinês são indiretos, mas relevantes. O conflito elevou o preço do petróleo e criou gargalos logísticos nas rotas do Oriente Médio. O choque de preços de resinas observado desde março no Brasil, atribuído em parte ao conflito no Irã, afeta também os custos de produção do BOPP asiático, dependente do polímero derivado do petróleo. Contudo, dada a escala e a eficiência das petroquímicas chinesas, esse repasse de custos é parcialmente absorvido, mantendo seu BOPP competitivo.
Como avalia os efeitos da noticiada expansão da Videolar-Innova em Manaus sobre o mercado de BOPP versus a tímida evolução da demanda doméstica?
É um dos movimentos mais relevantes do setor nos últimos anos. Está muito difícil investir no Brasil, um desafio num momento em que o setor enfrenta forte concorrência dos importados.
E mais: o Grupo Oben, assinou em junho, como parte do plano de expansão global, acordo com a fabricante alemã Brückner para trazer ao Brasil nova linha avançada de BOPP de 12 metros de largura e 94.000 t/a de capacidade. Isso significa que os dois grandes produtores locais de BOPP estarão, simultaneamente, ampliando e modernizando o parque industrial. Investimentos como esse demonstram confiança no mercado brasileiro e reforçam a importância de produtores locais fortes, capazes de gerar empregos, desenvolver tecnologia e oferecer suporte próximo aos clientes daqui. Acredito no potencial deles, e na sua parceria comercial com a distribuição para ampliar o mercado
Nossa leitura é mais otimista do que a simples equação + oferta + demanda estagnada = guerra de preços. Quando se investe em linhas modernas e eficientes, o custo de produção cai, a qualidade sobe e o leque de aplicações se expande. Isso coloca o BOPP nacional em condição de competir de forma muito mais sólida com o importado asiático, que hoje leva vantagem sobretudo no preço e não necessariamente na performance técnica ou na consistência do fornecimento.


