Como se não bastasse a fuzilaria de tensos e intensos reajustes nos preços das matérias-primas, nas pegadas da disparada do petróleo & derivados, o mercado mundial de concentrados para plásticos encara a escassez de ingredientes agravada pelo fato da produção mundial de vários tipos deles ser liderada pelo Oriente Médio. Na entrevista a seguir, Wagner Catrasta, diretor comercial e de suprimentos da componedora brasileira Macroplast, expõe a fragilidade de uma conjuntura nervosa e que promete não dar trégua à indústria internacional de especialidades plásticas neste semestre final.
“Aditivos de efeitos especiais não devem acompanhar a queda de preços das resinas no segundo semestre”
Wagner Catrasta, Macroplast
Quais os tipos de aditivos de efeitos especiais para masters de oferta internacional mais escassa hoje em dia, devido ao desarranjo no suprimento de matérias-primas causado pela guerra no Irã?
A guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz geraram um estrangulamento severo no acesso em alguns insumos que utilizamos na produção de masters e aditivos. Os mais afetados pela escassez internacional foram retardantes de chama bromados, absorvedores UV de alta performance e pigmentos de efeitos metálico e perolado.
Em média e numa estimativa no plano geral, esta escassez e a disparada do petróleo & derivados aumentaram em quanto % o preço desses aditivos desde o início do conflito, em 28/2 último?
Esses materiais exigem sínteses orgânicas complexas que partem de derivados de petróleo refinados. Seus preços reagiram, portanto, ao desvio das rotas marítimas e a paralisação de plantas petroquímicas integradas no Golfo Pérsico. Antes do início do conflito, o barril de petróleo Brent operava na faixa de U$ 70. Logo após o início das hostilidades, o Brent disparou em março para um pico de U$ 118 (alta aproximada de 68%). Neste período de junho de 2026, o mercado precifica o barril em torno de U$ 97 (alta acumulada de cerca de 38% em relação ao período pré-guerra). No plano geral de suprimentos de especialidades químicas, o impacto foi amplificado pela disparada do frete internacional (com navios contornando o Cabo da Boa Esperança) e pela escassez de contêineres. O custo médio dos mencionados aditivos e pigmentos de cunho mais especial aumentou entre 30% e 50% e itens críticos com dependência direta do bromo ou de intermediários de refino complexos sofreram reajustes de 60% a 80% no mercado spot além de acusarem eventual indisponibilidade.
Pigmentos perolados: acesso internacional congestionado pela escassez de matérias-primas no Oriente Médio sob a guerra.
Com a demanda interna desaquecida, os preços desses aditivos devem declinar no segundo semestre, tal como ocorre desde maio com as resinas?
Em contraste com o comportamento das resinas commodities, que iniciaram trajetória de declínio de preços a partir de maio, devido ao desaquecimento da demanda no Brasil, os aditivos de efeitos especiais não devem acompanhar essa queda no segundo semestre. Afinal, grande parte de seus insumos é importada.
Masterbatches de efeitos especiais e funcionais são produtos homologados sob especificações inflexíveis, em especial para o setor automotivo. O cliente final não aceita a troca rápida de um aditivo por outro sem um longo processo de re-homologação. Essa rigidez mantém a demanda por aditivos específicos firme, mesmo com o mercado de resinas desaquecido. Portanto, acredito que os custos contratados agora no pico da crise ainda serão faturados ao longo do último semestre. No caso da minha empresa, a Macroplast, por mantermos parceria com os principais fornecedores desses insumos, não tivemos impacto em relação ao abastecimento; o único baque foi o reajuste financeiro.
Quais tipos de aditivos têm sua oferta mundial liderada por fabricantes do Oriente Médio e quais as razões para essa liderança global e quais as alternativas para, enquanto durar a guerra, substituir Israel como fonte de determinados aditivos?
Como já mencionei, boa parte dos insumos para aditivos provém do Oriente Médio. Entre eles, considero que a oferta foi mais afetada no compartimento dos retardantes de chamas; as reservas de bromo do Mar Morto explicam inteiramente o destaque de Israel como fornecedor global de ponta desses materiais. O Mar Morto possui a maior concentração de íons de brometo do planeta (cerca de 100 vezes mais rico que a água do mar comum), o que permite uma extração de bromo elementar com custo operacional extremamente baixo. Para mitigar o risco de desabastecimento de retardantes de chama base bromo israelenses durante o conflito, vejo três principais alternativas globais. Nos EUA, o município de Magnolia, no estado de Arkansa, possui ricas reservas de salmoura subterrânea de bromo. Na China, a província de Shandong também sobressai pela produção e bromo na região da Baía de Bohai. Por fim, na Índia, a região de Rann of Kutch, no estado de Gujarat, tem expandido com rapidez sua capacidade de extração de bromo a partir de salinas marinhas, despontando como um fornecedor emergente e competitivo para o restante da Ásia e Américas.
Mar Morto: maior reserva mundial de bromo para formulação de retardantes de chama.
A China já alcançou autossuficiência produtiva em todas as especialidades e aditivos?
No curto prazo, não se prevê para a China autonomia total no portfólio completo desses materiais. No âmbito da petroquímica de base, o Oriente Médio continuará imbatível devido à vantagem estrutural do o custo do seu etano associado à extração de petróleo e gás. Quanto à China, a rota carboquímica mostra-se competitiva quando o petróleo está acima de U$ 80 ou U$ 90, mas possui uma pegada de carbono muito maior e custos de capital (Capex) elevados. Na Ásia, portanto, o Oriente Médio permanecerá a referência global em escala de poliolefinas, enquanto caminha para consolidar a liderança em aditivos e pigmentos coloridos.
Com economia de escala, investimentos em P&D e incentivos para exportar, a China pode desbancar o Oriente Médio como referência mundial na produção e vendas de materiais auxiliares?
A combinação de subsídios governamentais focados em alta tecnologia, produção interna gigantesca e forte apoio a P&D de novos efeitos estéticos (como pigmentos termocrômicos, fotocrômicos e micas de nova geração) posiciona a China como o polo inevitável de inovação mundial para aditivos de efeitos especiais.


