A guerra no Irã pegou de guarda baixa o varejo brasileiro de resinas – distribuidores autorizados, revendedores autônomos e importadores, em especial de polietileno (PE) e polipropileno (PP). Durante o último ciclo de investimentos petroquímicos globais (1992-2021), a América do Sul firmou-se como canal de desova das resinas de oferta excessiva devido a investimentos nos EUA, China e Oriente Médio. O excedente atraiu ao varejo do Brasil fornecedores concorrentes em quantidade incombinável com o porte da demanda, um contraste agravado pelo desmaio do consumo final no fatídico 2025. Foi quando o poder aquisitivo de baixa renda, mesmo agraciado pelo governo com verbas assistencialistas, sucumbiu diante dos efeitos da inflação real, juros inviáveis, crédito seletivo e inadimplência recorde de pessoas físicas e jurídicas. O drama adentrou por 2026 agravado desde março pela guerra incendiando preços petroquímicos. O momento põe contra a parede o perfil do comércio de plásticos em volumes menores. Na entrevista a seguir, Wilson Cataldi, sócio executivo da Piramidal, maior distribuidora de resinas do país, decifra o desarranjo do mercado mundial e os vasos comunicantes com o varejo brasileiro numa encruzilhada existencial.
“Sem energia competitiva, a Europa deixou em definitivo de ser referência na indústria plástica mundial”
Wilson Cataldi, Piramidal
No mundo inteiro, produtores de poliolefinas enfrentam matérias-primas mais caras e aumentam preços buscando recompor margens após anos de depressão. Já os clientes transformadores lidam com custos elevados e incertezas na demanda, o que limita sua capacidade de absorver aumentos, levando-os a reduzir a produção e comprar apenas o necessário. No meio desse tiroteio no Brasil e voltada para clientes menores e menos capitalizados, quais as principais medidas tomadas pela Piramidal para encarar esta turbulência hoje prevista para durar até 2027, pelo menos? 2026 deverá ser um ano de volumes de vendas menores e faturamento maior?
A superoferta global de eteno/PE/PP deve voltar quando a guerra acabar? Os preços e margens da petroquímica internacional tornarão então a desmoronar? Tudo será como antes da guerra? Afinal, nenhuma reforma estrutural e corte fundo de capacidade foram feitos na indústria global.
Uma vez normalizado o suprimento de petróleo e a operação regular de refinarias e capacidades petroquímicas, o cenário do mercado será muito parecido com aquele em vigor antes da guerra. Por sinal, novas plantas de eteno e PE devem partir nos EUA e Ásia no próximo quarto trimestre ou no primeiro de 2027.
Petroquímica: excedente global de eteno/ PE tende a ressurgir aumentado após o fim da guerra no Irã.
A guerra no Irã tem favorecido ou penalizado as revendas autônomas de poliolefinas (nacionais e importadas) controladas no Brasil por grandes transformadores? E mais: a guerra tornou mais atraente para essas indústrias transformar ou revender resinas?
A resposta aqui tem cunho muito particular; varia conforme a situação de cada revenda desse tipo. Nas circunstâncias atuais, o mercado tem conhecimento de determinadas revendas endividadas, sem estoque ou vivendo o pesadelo de ainda não ter recebido e pago lotes de resinas encomendados antes da disparada nos preços. Por essas e outras, vejo o negócio das revendas independentes atreladas a transformadores como uma grande oportunidade e uma grande ameaça à própria existência.
Golpeada pela guerra no Irã, a indústria química/petroquímica da Europa vem definhando sob energia ultra cara desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Nessas circunstâncias, o acordo comercial União Europeia-Mercosul pode facilitar para a Piramidal a conquista da distribuição de mais materiais de marcas europeias?
Sem energia competitiva, a Europa deixou em definitivo de ser referência na indústria plástica mundial. Em resinas commodities, em especial PE, foi substituída pelos EUA e Oriente Médio. Em plásticos de engenharia e especialidades, foi engolida pela China, cuja produção é autossuficiente e hoje forma opinião e preços mundiais de polímeros como poliamida, policarbonato e poliacetal. Não poderia mesmo ser de outra forma. Quem decide o balanço mundial dos plásticos de engenharia é a indústria automobilística e a China, por sua vez, montou 30 milhões de veículos em 2025, volume correspondente a 40% da produção global. Daí porque, da parte da Piramidal, é zero a hipótese de ampliar seu portfólio com materiais de acesso facilitado pelo acordo União Europeia-Mercosul.
China: maior produção automotiva mundial atrelada à liderança em plásticos de engenharia.
A combinação de aumentos abruptos dos preços das resinas com a imprevisibilidade impedindo o planejamento dos negócios e o consumo final desacelerado tende a aumentar a prática do comércio informal como tábua de salvação para transformadores com caixa deteriorado e recorde de clientes inadimplentes?
Não acredito na imagem do mercado paralelo como tábua de salvação. Temos na indústria transformadora uma parcela de empresas responsáveis e outra de recorrentes na sonegação e que, em regra, se vale burramente dessa infração para baixar preço de venda sem atentar para os danos às margens de lucro. Quem tem esse hábito de comercializar na informalidade não muda, mas o histórico de mortalidade dessas indústrias fala por si e deve piorar à medida que, conforme mostram recentes operações da Receita e PF, recrudesce o uso da Inteligência Artificial como ferramenta de monitoramento fiscal.
Quais as mudanças esperadas pela Piramidal na estrutura e no mercado brasileiro da distribuição de resinas após a guerra? A quantidade de clientes e os volumes de vendas no varejo nacional de plásticos deve encolher? A demanda tende a ficar incompatível com a quantidade de distribuidores e revendas?
O varejo brasileiro do plástico já acusava mudanças em seu perfil antes da guerra no Irã. Ele caminha para o enxugamento natural dos seus participantes, a depender do profissionalismo da gestão, solidez financeira e o atendimento esperado de um aliado do transformador. Nos últimos anos, o excedente mundial de resinas lotou o varejo brasileiro de importadores/revendedores resultando num mercado que, pela lógica dos números, já não viabiliza a existência de tanta gente competindo. A seleção natural pelo mercado fará o seu trabalho.
Brasil: crescimento de setores como alimentos contrasta com investimentos comedidos em plásticos transformados.
O Custo Brasil, a péssima imagem do plástico, mão de obra qualificada em falta e a garantia de retorno maior, mais seguro e menos trabalhoso no mercado financeiro explicam a ausência de novos entrantes na transformação brasileira? Isso também prenuncia, mais adiante, a possibilidade de produção local insuficiente e consequente aumento das importações de transformados remetidos de origens mais competitivas?
De fato, a indústria transformadora está estagnada e não se renova, tanto em termos de investimentos significativos na capacidade como da absorção de novos talentos no setor. A reputação do plástico, a possibilidade de vida ganha com rapidez no mercado de capitais, as oportunidades no setor de serviços e no empreendedorismo (abertura de negócios próprios) explicam o desinteresse pela transformação pelos jovens qualificados e grandes investidores. Além disso, a vulnerabilidade da nossa transformação reflete a falta de apoio estrutural do governo para a indústria resistir à disputa no mercado interno com players de alcance global, o que vai muito além dos benefícios fiscais e antidumpings. Mantido este andar da carruagem, o Brasil está, sim, fadado a chegar a uma produção de transformados em geral aquém da demanda e o espaço para ela crescer será preenchido com produtos tradeable (comercializáveis internacionalmente) vindos de exportadores como a China.


