Em 2024, aferiu a consultoria Icis, a capacidade latino-americana de plástico pós-consumo reciclado (PCR) subiu 6%, superando a marca de 3 milhões de t/a. Segundo sensores setoriais, o Brasil comparece nessa planilha com 2.43 milhões de toneladas de capacidade e 1.02 milhão na produção do material. Corte para hoje: a reciclagem da região roda com baixo nível de ocupação e fraca demanda estrutural. Com a guerra no Irã, os preços de PCR revigoraram, no rastro da disparada das resinas virgens deflagrada pelo corte na sua produção imposto pela desordem no suprimento de matérias-primas e frete marítimo para o epicentro do consumo mundial de petroquímicos, a Ásia. Paira agora sobre o setor de PCR o temor do risco de queda nos preços quando a guerra acabar e o excedente de resina virgem ressurgir. No consenso de olheiros como a Icis, o fator-chave para valorizar a longo prazo PCR na América Latina é a regulamentação de sua coleta, processamento e uso, um horizonte onde o Brasil já desponta com o decreto de logística reversa para embalagens plásticas, homologado em 2025 e que, projeta a Icis, sinaliza demanda teórica de conteúdo reciclado da ordem de 700.000 toneladas ainda este ano. Os obstáculos para o cumprimento da nova lei e os necessários ajustes na legislação tributária para PCR brotar no Brasil como alternativa à resina virgem com atributos muito além dos preços são dissecados a fundo nesta entrevista por Luiz Henrique Hartmann, presidente executivo da Associação Brasileira Empresarial dos Recicladores de Plásticos (Abrerp).
“O futuro do PCR não depende apenas do petróleo caro, mas da capacidade do seu setor de transformar sustentabilidade em vantagem industrial permanente”.
Luiz Henrique Hartmann, Abrerp
Desde a guerra no Irã os preços das resinas virgens disparam mundialmente, devido à produção reduzida pelo desarranjo no suprimento de matérias-primas, logística desmantelada e demanda volátil e esfriada dos produtos transformados. Os preços do PCR têm ficado desde então bem abaixo da resina nova. Como o setor do reciclado terá de agir para manter esta competitividade quando acabar o conflito e os excedentes estruturais tornarem a baratear o plástico virgem a ponto de ele voltar a disputar espaço com PCR?
O setor do reciclado precisa aproveitar este momento de vantagem do PCR para consolidar ganhos estruturais antes que a resina virgem volte a cair. Quando o mercado petroquímico se normalizar e os excedentes globais pressionarem novamente os preços do plástico virgem, o PCR só continuará competitivo se deixar de concorrer apenas por preço e passar a sobressair também por qualidade, rastreabilidade, segurança de fornecimento e valor ambiental comprovado.
A estratégia envolve contratos de longo prazo, padronização técnica do material recuperado, investimentos em tecnologia e produtividade, certificação de origem e ampliação das exigências de conteúdo reciclado na indústria. Além disso, será fundamental avançar em políticas públicas que valorizem a economia circular, como incentivos tributários, rastreabilidade do PCR e combate à concorrência desleal.
O mercado mundial caminha cada vez mais para exigir comprovação ambiental real. Por isso, o reciclador que conseguir entregar estabilidade técnica, escala, documentação, certificação e rastreabilidade, terá espaço mesmo em cenários de resina virgem barata. O futuro do PCR não depende apenas do petróleo caro, mas da capacidade do seu setor de transformar sustentabilidade em vantagem industrial permanente.
2026 marca o início da vigência da Reforma Tributária. Em termos de incentivos e pendências, qual o impacto dela para a rentabilidade da indústria recicladora? Quem mais saiu ganhando com a reforma – os transformadores ou os recicladores?
Considerando os termos da lei atual, sem dúvida a resina virgem está com muitas vantagens em relação a resina reciclada. Explico: ao adquirir uma resina nova ou não, o transformador estará usufruindo o crédito do imposto cheio sobre o preço de compra (estimado em 26,5%) e agora (por obra da reforma) mais de todos os insumos, bens e serviços. O reciclador foi penalizado porque, na compra da apara plástica, ele poderá se creditar de apenas 20% sobre o preço do material e somente quando adquirir de “coletores incentivados” – ou seja, cooperativas de catadores, coletores individuais e entidades populares (que ninguém ainda entendeu quem são). E pasme: segundo últimos relatórios da consultoria MaxiQuim, estes coletores são responsáveis por apenas 11 % do fornecimento para a indústria recicladora. Ou seja, se o reciclador comprar do aparista/atacadista, não tem direito a crédito algum e paga o imposto integral na saída.
Segue em tramitação no Legislativo a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 34/2025. Ela visa corrigir o tratamento concedido pela reforma tributária a empresas atuantes no setor de reciclagem, desvalorizando os materiais recicláveis e desincentivando a economia circular. O que é preciso corrigir no referido tratamento?
Esta PEC foi patrocinada por uma entidade visando benefícios para os atacadistas, aparistas que vendem direto para a indústria primária (papel/metal/vidro/alumínio). Ela não atende os recicladores de plásticos. E no setor plástico existe a figura do reciclador e não interessa isenção, pois se estaria emitindo nota sem imposto ao mesmo tempo que o transformador teria o direito ao crédito dos tributos. A correção, então, significa excluir aquele benefício insignificante na entrada e criar um crédito presumido na saída sobre o preço de venda, ao mesmo tempo em que o transformador se credita integralmente. A PEC acabou de ser aprovada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara. Precisa agora ser criada a comissão especial para avaliá-la e, se aprovada, vai a plenário. Se chegar ao plenário, a entidade que representa os recicladores de plásticos já tem uma emenda pronta para colher assinaturas propondo aquele pleito do credito presumido na saída.
Pela nova sistemática, como calcula as carga tributárias para reciclados e materiais virgens?
No momento, é impossível estimar a incidência das duas cargas mencionadas, por causa da atual confusão e falta de clareza sobre como a tributação irá se comportar. Estudos e simulações realizados por tributaristas importantes ainda deparam com muitas dúvidas a respeito. Neste sentido, aliás, o Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast/RS) – onde atuo como consultor convidado para a área de reciclagem –, contratou um importante escritório para avaliar os reais impactos da reforma tributária sobre a cadeia da reciclagem.
Sucata plástica: uso ainda minoritário na produção brasileira de reciclados de alto padrão. | Foto: Borealis
O decreto regulamentador da logística reversa de embalagens plásticas, estabelece a meta de teor de 22% de PCR em produtos transformados em 2026. Com a disparada do petróleo e derivados, juros na lua, crédito seletivo, inflação real alarmante, inadimplência recorde, coleta deficiente e consumo final desaquecido, a meta para este ano será ou não cumprida?
Você esqueceu de citar um fator importante na pergunta: a tentativa da indústria de transformação de não acreditar que o decreto será implantado. Várias federações estaduais de indústrias formalizaram ofícios no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) solicitando prorrogações da implementação da lei, o que foi taxativamente negado. Entretanto, como ocorre em relação a todos os decretos, foi divulgado recentemente o resultado da consulta pública de esclarecimentos sobre a regulamentação em foco. Afinal, muitos pontos estão pouco claros e, a propósito, já na divulgação dos tópicos da consulta, foram definidos prazos que exigem relatório em julho de 2027 apenas para empresas com faturamento acima de R$ 300 milhões e julho de 2028 para as demais. Acredito que não haverá adiamento mas, sim, um período de implementação mais branda da meta estabelecida pelo decreto.
Em quais etapas do processo de reciclagem mecânica de PCR de boa qualidade o setor no Brasil acusa maior defasagem em seu parque fabril? Numa estimativa por alto da média, como reparte na atual produção nacional de PCR as parcelas dos tipos de baixo e alto valor agregado?
O parque industrial brasileiro vem avançando neste quesito da atualização. Porém, ainda temos defasagem relevante na área de triagem, principalmente quanto ao lixo proveniente de aterros, uma enorme fonte de geração de sucata plástica. Nesse contexto, aliás, os órgãos públicos têm demonstrado complacência no cumprimento da obrigação de diminuir a destinação dos resíduos para aterros. À margem desta percepção, é nítida nas centrais de seleção de refugo plástico reciclável a ascensão do processo de separação ótica por infravermelho. Quanto à outra questão colocada, julgo que a falta de informação sobre a real produção e consumo de cada tipo de PCR permanece pelo fato de a Nomenclatura Comum Mercosul (NCM) ainda ser a mesma para resinas virgens e recicladas. Isso pode mascarar uma avaliação em termos de percentual, mas, por feeling, eu diria que 30/35 % da produção de PCR já está na linha de alto valor agregado, cerca de 20% constam no escalão mediano e o resto é de material de baixo ou baixíssimo valor agregado.
Aterro: inadmissível fonte no Brasil de geração de sucata plástica para suprir a indústria recicladora.
Com o acordo União Europeia-Mercosul barateando a importação, as máquinas europeias terão condições de disputar a demanda de recicladores brasileiros de médio porte?
As máquinas europeias de qualidade e sem similar nacional há muito tempo gozam de ex-tarifário, inclusa isenção de ICMS. O problema é que não existem linhas de créditos em bancos de fomento para equipamentos importados. Eu diria que o imposto de importação é menos importante do que credito acessível para investimento. E na linha da contramão, a Receita Federal mudou recentemente as regras de pleitos de ex-tarifário e isso dificultará ainda mais o acesso a tecnologias de ponta.
México e Colômbia contam com plantas de reciclagem química, tecnologia mais eletrointensiva e cara que a reciclagem mecânica. Em contrapartida, cresce o número de recicladoras químicas fechadas na Europa e EUA por inviabilidade econômica. Qual o retorno possível de uma planta de escala industrial de reciclagem química no Brasil?
A reciclagem química, depende muito da rota escolhida e do produto final a ser gerado. Nunca será a melhor opção de retorno frente à reciclagem mecânica. Ela se justificaria, por exemplo numa triagem de aterro onde estaríamos num alto volume que, após o aproveitamento de todos os recicláveis os rejeitos plásticos (em torno de 8% do total) fossem aproveitados num processo químico, gerando por exemplo óleo a ser usado na produção de resinas virgens (polietileno de baixa densidade, por exemplo) e, na última escala dos rejeitos que não podem ser usados na segunda fase, seriam destinados a produção do combustível derivado de resíduos e destinado ao funcionamento de fornos de cimenteiras.
No momento, não vejo potenciais clientes que justifiquem um investimento no Brasil em reciclagem química que proporcione retorno aceitável economicamente. No cenário local, o melhor valor seria vender a resina para segundo uso à indústria petroquímica. Entretanto, temos no país várias iniciativas de reciclagem avançada em circuito fechado. Elas estão produzindo, porém sob escala e risco menores.


