Empossado presidente do Brasil em 31 de janeiro de 1961, Jânio Quadros renunciou de surpresa ao mandato em 25 de agosto. Quatro dias, depois, em meio à tensão política crescente, Hans Dieter Schmidt, centrado numa visão a longo prazo do país e das oportunidades para progredir, fundava em Joinville, ao norte de Santa Catarina, a primeira indústria nacional de embalagens de poliestireno expandido (EPS). Corte para hoje: a Termotécnica desabrochou como líder num segmento disputado inclusive com importações, um conglomerado de seis fábricas do expandido, fincadas em Joinville, Manaus (AM), Petrolina (PE), Rio Claro (SP) e São José dos Pinhais (PR). Nesses 65 anos, os espaços que ela abriu para EPS com inovações patenteadas contribuíram para impelir a industrialização e modernizar a logística da entrega de bens num país de extensão continentais. Nesta entrevista, Albano Schmidt, presidente da Termotécnica, esclarece como o sonho do fundador Hans Dieter se concretizou.
“Já exportamos EPS reciclado para aplicações na Europa como placas de isolamento térmico habitacional.”
Albano Schmidt, Termotécnica
Segundo a consultoria MaxiQuim, a atual capacidade instalada nacional de EPS é de 149.000 t/a e a produção atingiu 95.000 toneladas em 2025. Segundo a Abiquim, a capacidade brasileira é de 234.000 t/a e a produção no ano passado ficou em 109.000 toneladas, a cargo da Dinâmica EPS, Innova, Newpop, Styropek e Termotécnica. Como interpreta a importação brasileira de 48.525 toneladas de EPS (fonte: Secex, incluindo material sem e com carga) no ano passado?
A indústria brasileira não tem capacidade para suprir 100% da demanda de EPS. Parte dela é abastecida com material importado, inclusive por ser mais competitivo em algumas regiões.
Nesses 65 anos, quais produtos de EPS da Termotécnica considera precursores e revolucionários quando foram lançados no Brasil?
A Termotécnica acumula mais de 100 patentes em sua trajetória. Mas destaco alguns momentos. Em 1994, por exemplo, ela iniciou o desenvolvimento no Brasil do conceito de embalagem de EPS mais plástico termoencolhível (filme shrink de polietileno), uma solução de armazenamento que possibilitou ganhos logísticos extremos e agilidade no transporte. Estes benefícios decorrem da capacidade de acondicionamento em maior número de eletrodomésticos num único espaço, bem como transportar maiores cargas de mercadorias por longas distâncias. Desde então, além de refrigeradores, equipamentos como lavadoras de roupas, fogões e condicionadores de ar passaram a incorporar a gama de produtos assim despachados.
A Termotécnica contribuiu para estender o alcance de EPS a segmentos no Brasil como refrigeração comercial e industrial, isolamento térmico e acústico no setor automotivo, transporte de produtos químicos, sistemas de segurança, capacetes, impressoras, colchões, mídia de carros, TVs e exportação de compressores e revestimentos cerâmicos
Além disso, a empresa passou, em 2010, a atender o agronegócio com as caixas conservadoras da linha DaColheita.Também ingressou no setor fármaco com a linha TermoChain, compareceu com soluções de estocagem para a cadeia fria, e desenvolveu a linha Go Pack para o transporte no comércio de garrafas de vinhos, sucos e azeites.
Por fim, a Termotécnica foi precursora no país na reciclagem de EPS. Os resíduos coletados do expandido são recuperados na unidade em Pirabeiraba, distrito de Joinville, através do Programa Reciclar EPS criado pela empresa em 2007 e hoje com mais de 1.200 pontos de coleta e a parceria da ordem de 300 cooperativas de recicladores. O material para segundo uso ganha o mercado com a marca Repor, voltado a aplicações como carretéis para esparadrapos, itens de eletrodomésticos e eletrônicos, rodapés, molduras e cachepôs.
Linha DaColheita: caixas conservam qualidade de frutas, legumes e verduras frescos do campo ao ponto de venda.
Nesses 65 anos, a Termotécnica primou pela expansão orgânica, mediante investimento na construção de plantas filiais. Por quais motivos evitou o atalho da compra de unidades concorrentes já em funcionamento?
Tivemos sim, nos últimos anos, uma expansão orgânica com a abertura de unidades fabris visando centros de consumo estratégicos, como ocorreu em Petrolina (PE) e Rio Claro (SP). Esse tipo de decisão sobre a via mais adequada de crescimento depende do contexto do mercado em foco. Por exemplo, nossa filial em Manaus para suprir indústrias da Zona Franca tomou corpo por meio da aquisição de um concorrente local.
Por quais motivos a empresa até hoje optou por não ampliar a gama de polímeros expandidos que utiliza, a exemplo de polipropileno e polietileno expandidos?
Hoje em dia, EPS atende as necessidades do mercado em vista. Acompanhamos de perto as possibilidades, porém os outros polímeros expandidos são mais caros e focados em nichos muito específicos. Já EPS tem uma versatilidade muito grande e tem potencial para inovar em outros segmentos.
Linha GoPack: embalagens talhadas para proteger produtos frágeis de entrega dependente de transporte por longas distâncias.
Poderia dar exemplos de desenvolvimentos avançados de embalagens que ampliaram o leque de propriedades de EPS?
Temos inúmeras patentes, inclusive já trabalhamos com nanotecnologia. Durante a pandemia, por exemplo, desenvolvemos SafePack – linha de caixas de vacinas aditivada com bactericida.
Apesar de reciclável, EPS segue vetado em embalagens e copos em eventos públicos, delivery e estabelecimentos como padarias, lanchonetes e quiosques na União Europeia e várias localidades dos EUA e no Brasil, caso de Sorocaba e Fernando de Noronha. A tendência é EPS perder em definitivo seu lugar em descartáveis?
Não trabalhamos com descartáveis, nosso mercado é outro. Nos campos onde atuamos, acreditamos na logística reversa, na reciclagem, na economia circular, e isso está virando o jogo da rejeição ambientalista, como provam os números já citados do programa Reciclar EPS. Por sinal, já exportamos o material reciclado para uso na Europa em aplicações como placas para isolamento térmico habitacional em países de clima temperado e inverno mais rigoroso.
Em 65 anos, a Termotécnica galgou a liderança em EPS no Brasil. Qual a possibilidade de continuidade dessa expansão passar agora para a internacionalização do negócio no restante da América Latina?
De forma direta e indireta, nossos produtos já ganham uma dimensão global. Nossas caixas DaColheita, por exemplo, chegam em vários lugares do mundo através da exportação das frutas de nossos clientes. Além disso, estudamos sempre a continuidade da nossa expansão mediante a entrada em mais mercados no Brasil. Vêm desse posicionamento investimentos importantes que estamos fazendo, em especial na circularidade.


