Desde o final dos anos 1990, a petroquímica mundial foi reconfigurada pelo livre comércio e a digitalização em sua operação, possibilitando ao setor aferir com lupa seu desempenho em tecnologia, escala, custos e retorno. Esta página está sendo virada e, com ela, práticas como o planejamento simplista da demanda com base apenas no índice do PIB. Hoje em dia, os fluidos comerciais conhecem fricções, o zelo ambiental se aboletou nos processos, a geopolítica avariou a globalização e choques demográficos alteraram padrões de consumo. Daí a transição das companhias petroquímicas mundialmente eficientes para o modelo hoje perseguido de plataformas industriais agregando escala, flexibilidade de matérias-primas, integração downstream, gestão de carbono e maior alcance logístico. No plano geográfico, a competitividade da petroquímica europeia empaca na energia cara e legislação inibidora, enquanto a da China se destaca pela busca de autossuficiência produtiva num punhado de resinas e intermediários e pelas exportações dos excedentes para compensar o enfraquecido mercado interno. Por fim, Oriente Médio e EUA escoram suas petroquímicas no acesso direto a matérias-primas ultra acessíveis. O impacto dessas mudanças e o necessário rearranjo da indústria e seu mercado, inclusas as perspectivas para o Brasil, nutrem esta entrevista exclusiva de um dos mais influentes analistas da indústria petroquímica mundial, Paul Hodges, presidente da New Nomal Consulting e blogueiro especializado do site Icis.
“Estamos entrando numa nova ordem mundial e nela as antigas regras da globalização não se aplicam mais.”
Paul Hodges – New Normal
Como avalia as consequências dos benefícios fiscais e tarifas protecionistas sobre importações de resina para a sobrevivência das antigas petroquímicas de países como o Brasil, sem matérias-primas competitivas e sem investimentos na melhoria de crackers e plantas de polímeros? E quais os principais efeitos dessa política para a competitividade da indústria transformadora local?
Acho que vale a pena fornecer um pouco de contexto para minha resposta a essa pergunta-chave. Já se passaram quatro anos desde que a invasão russa da Ucrânia pôs em ação um movimento que caminha para uma nova ordem mundial:
- 1945-1989. O mundo se polarizou entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), liderada pelos EUA, e o Pacto de Varsóvia liderado pela União Soviética, situação estendida até a queda do Muro de Berlim.
- 1990-2021. Os dividendos da paz/demográficos levaram ao Boomer SuperCycle (impacto econômico causado pela geração nascida no período 1946-1964), sendo então seguidos pelos estímulos dos bancos centrais.
- 2022-? Este mundo globalizado está sendo substituído por estruturas regionais à medida que as tensões militares, econômicas e financeiras aumentam.
Como observou em setembro a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, essa nova ordem mundial é baseada no poder.
Não vivemos mais em um mundo baseado em regras, onde países de médio porte, como o Brasil, podem defender seus argumentos em órgãos internacionais e esperar vencer. Em vez disso, estamos vendo o mundo voltar ao conceito de Grandes Potências, que focam em encorajar/coagir países menores a pertencerem à sua ‘Esfera de Influência’.
Nesse contexto, o Brasil precisa decidir se deseja ter sua indústria independente de polímeros. Se não o fizer, pode simplesmente relaxar as barreiras tarifárias e permitir que importações subsidiadas capturem o mercado. Isso, é claro, também significa que o país corre o risco de enfrentar preços mais altos e possível escassez em algum momento no futuro, quando as condições do mercado mudarem.
Por outro lado, se se acredita que uma indústria independente é vital para economia mais ampla do país, então será preciso encarar a necessidade de desenvolver um novo plano de ação para sua produção. Como vimos no passado, o simples protecionismo baseado em altas barreiras tarifárias nada faz para apoiar o crescimento econômico de longo prazo.
China: redução da natalidade compromete futuro da demanda interna e orienta a manufatura para exportações.
O excedente global de resinas, que há dois anos corrói as margens de petroquímicas, mostra poucos sinais de alívio significativo em 2026. A fraca rentabilidade da resina reciclada é impulsionada pelos baixos preços do tipo virgem e a demanda sob baixa tração. A permanência desse horizonte e a rejeição drástica de Trump às mudanças climáticas como uma ameaça para o planeta, recusando descobertas científicas, podem tornar a reciclagem de plásticos cada vez mais irrelevante (como solução empresarial ou sustentável) e tendem a estagnar a transição para a energia limpa?
A questão principal é que a China está no meio de uma grande expansão de sua capacidade instalada. E embora fale em mudar a política para focar na produção doméstica, isso é muito improvável que aconteça. A razão é simplesmente que a demografia da China está em um estado muito fraco. Já se passaram 45 anos desde o início da Política do Filho Único, que levou a um enorme desequilíbrio entre meninos e meninas. Normalmente, são 105 meninos: 100 meninas, como no Brasil. Mas a China “perdeu” cerca de 100 milhões de meninas desde 1980, pois a maioria dos casais escolheu ter um menino como filho único. Até hoje, dados do Banco Mundial mostram que a proporção é uma das mais altas do mundo, com 110 meninos para 100 meninas. E meninas que não nasceram nos últimos 45 anos hoje não podem ter filhos próprios. O número de nascimentos, fundamentais para a demanda futura, diminuiu pela metade desde 1980. Portanto, a China não pode expandir o consumo interno e precisa manter o foco na manufatura orientada para exportações.
Ao mesmo tempo, os EUA sob o presidente Trump estão focados em alcançar a “dominação energética”.
Portanto, se o Brasil não quer ser espremido entre essas duas Grandes Potências, precisa desenvolver uma política energética independente, baseada em seus recursos naturais. Em outras palavras, o uso de renováveis está relacionado à segurança nacional. E o Brasil também precisa ver a reciclagem de plásticos como algo crítico para a segurança nacional e a criação de empregos – não apenas como uma atividade ‘boa de se ter’ relacionada às mudanças climáticas. Essa é uma mudança estrutural no mercado que provavelmente se manifestará ao longo de anos e não de meses.
Trump: obsessão pela dominação energética atrelada ao descaso com mudanças climáticas.
A petroquímica europeia enfrenta uma contração de capacidade, crise que se acumula desde 2023 enquanto as regras do comércio global se desintegram. O que sugere como apoio concreto a essa indústria que poderia ser fornecido pela Comissão Europeia para evitar o pior? Acredita que os investimentos retornariam a essa indústria após o fim da guerra na Ucrânia?
Estou encorajado pela nova consciência da necessidade de ações concretas por parte dos formuladores de políticas para apoiar a indústria química europeia. A CEFIC, associação dessa indústria, fez excelente trabalho ao explicar que produtos químicos são essenciais para a economia doméstica e segurança nacional. Participei em 11 de fevereiro, na Bélgica, do evento Cúpula Industrial, com palestrantes como a presidente da Comissão Europeia; o Presidente da França, Emmanuel Macron; o chanceler da Alemanha, Friederich Merz e vários outros chefes de governo. Espero ver os detalhes de uma nova Lei de Aceleração Industrial muito em breve – antes da próxima Cúpula do Conselho Europeu em 19 de março.
Isso precisará incluir proteção para a produção nacional contra preços injustos de importação devido à intervenção estatal. Já vimos tarifas de 100+% impostas aos produtores chineses do composto orgânico 1,4-butanodiol (insumo para materiais como polímeros). A Lei de Aceleração industrial também precisará fornecer apoio significativo aos preços da energia europeia, hoje cerca de três vezes superiores aos de outras regiões devido ao impacto da invasão russa da Ucrânia. Além disso, agora é cada vez mais aceito que a UE precisa repensar drasticamente seu Sistema de Comércio de Emissões, que penaliza os produtores domésticos pelas liberações de gás carbono.
A boa notícia é que as renováveis são muito mais baratas do que outras fontes de energia, como a Comissão Europeia confirmou. Em 2025, as renováveis custavam €24 por megawatt/h, a nuclear €52 por megawatt/h, e o gás – a fonte de energia mais utilizada na EU 27 (27 membros) – saía por €100 megawatt/h. Portanto, acelerar o uso de renováveis faz muito sentido.
Em termos de apoio concreto às mudanças necessárias, a indústria e o governo precisam começar fazendo algumas perguntas básicas. Crucialmente, eles precisam repensar o modelo de negócios para a sociedade envelhecida de hoje. O quadro exige uma abordagem mais voltada para o serviço, como discutimos antes, em vez de focar apenas no fornecimento de produtos. Isso significa fazer uma nova pergunta, a saber: ‘qual problema estou tentando resolver?’, em vez de ‘por que você não compra mais do meu polietileno?’.
Em relação à Ucrânia, continuo cético quanto às perspectivas de um fim rápido, já que Putin parece não ter interesse em alcançar um acordo. Mas, quando isso acontecer, a reconstrução da Ucrânia criará grandes novas oportunidades para a indústria europeia, na escala que vimos após a queda do Muro de Berlim na Alemanha Oriental.
Reciclagem: impulso com mudança estrutural do mercado brasileiro de plásticos aguardada nos próximos anos.
Acredita que a indústria e a demanda global de petroquímica caminham para o ciclo mais baixo em 2028? Outra questão: para equilibrar os mercados, os dados do Icis estimam que são necessários cerca de 24 milhões de toneladas de fechamento da capacidade mundial de eteno e 26 milhões de toneladas no caso de propileno. Mas as ampliações globais de capacidade de eteno e propileno devem atingir o pico em 2027. Como interpreta esse cenário de forças contraditórias?
Tenho muita dúvida quanto à capacidade dos atuais países exportadores de reduzirem sua produção. No momento, como sabemos, eles ainda estão expandindo. Então, me pareceria realista tecer cenários com base na continuidade da grande capacidade, em vez de assumir que eles farão ‘a coisa certa’. Esperança não é uma estratégia, especialmente como mecanismo para resolver a crise atual.
Também considero um desejo supor que estamos apenas em uma recessão cíclica prolongada. Todas as evidências sugerem que, na verdade, trata-se de uma recessão estrutural, na qual as forças que aceleraram o crescimento no passado agora se manifestam. Todas as grandes economias (com exceção da Índia) agora são sociedades envelhecidas. E, como já discutimos, a demanda petroquímica está relacionada à idade. Populações jovens, que estão tendo muitos bebês, precisam de muitas coisas novas. Mas as populações envelhecidas de hoje já possuem a maior parte do que precisam – elas são, essencialmente, uma economia de substituição. E a renda das pessoas diminui à medida que entram na aposentadoria. Portanto, precisamos de novos modelos de negócios e de um novo pensamento.
Europa: nova lei para derrubar custo proibitivo de energia por vias como o uso ampliado de fontes renováveis.
Qual o papel do Brasil/América do Sul no futuro mapa da petroquímica global? Um produtor relevante ou secundário de resinas ou um mercado regional relevante ou secundário?
Como já falamos, estamos entrando numa nova ordem mundial e nela as antigas regras da globalização não se aplicam mais. Potencialmente, portanto, Brasil e América do Sul começam com uma folha limpa em termos de opções políticas. A posição padrão, se não fizerem nada, é que acabarão dentro da ‘Esfera de Influência’ de uma das Grandes Potências, como aconteceu durante a Guerra Fria. Mas, até o momento, nada foi finalizado. Portanto, parece sensato investigar proativamente as opções. Eles querem pertencer a um grupo liderado pelos EUA, como na Guerra Fria? Eles querem pertencer a um grupo liderado pela China, talvez baseado nos BRICS? Ou querem trabalhar com o Canadá e as principais nações europeias no desenvolvimento de um grupo alternativo de países de médio porte? Do ponto de vista petroquímico, as duas primeiras opções resultam no rebaixamento/redução de sua própria manufatura, tornando-se uma válvula de escape para excedentes dos EUA/China. Portanto, parece valer ao menos explorar a opção alternativa.
Não há investimento mais lucrativo e seguro no Brasil do que o mercado financeiro. Por que um empreendedor iniciante e bem capitalizado deveria investir na transformação de plásticos, uma indústria associada a altos custos de produção, incerteza legal, altas tarifas de tributação e importação, questões ambientais e dependência da frágil e instável economia brasileira?
A pergunta parece um prospecto (folheto promocional de oferta de títulos financeiros) PARA investimento! Quando tudo que poderia ter dado errado, deu errado, normalmente é um bom momento para pensar por que as coisas podem mudar – e como lucrar com essa mudança. Nos últimos 20 anos, a economia foi cada vez mais impulsionada por prioridades dos mercados financeiros. Mas nada continua para sempre. Ou, como destacou o famoso analista de mercado Bob Farrell em sua Regra #9 – “Quando todos os especialistas e previsões concordam — algo mais vai acontecer”.


