Piramidal cresce em plásticos de engenharia apesar dos juros

Distribuidora afia portfólio e serviços para mandar ver num mercado emperrado pelo crédito caro
Piramidal cresce em plásticos de engenharia apesar dos juros
Lendas vivas do varejo do plástico, Wilson Cataldi e Amauri dos Santos debutaram na praça como vendedores de plásticos de engenharia de uma petroquímica. Foi quando pressentiram um filão para esses materiais e, logo a seguir, os incluíram no mostruário da Piramidal, distribuidora que fundaram há 41 anos e hoje reverenciada como divisora das águas no mercado. Óbvio que o balanço de agentes autorizados do naipe da Piramidal sempre foi puxado por resinas commodities. Nem por isso, porém, o comércio de polímeros nobres caiu no descaso, pois tem sido impelido pela ascensão deles na injeção de peças técnicas, botinando alternativas mais caras e/ou de pior desempenho, caso dos metais. No Brasil dos últimos anos, a situação dos plásticos de engenharia mudou para bem melhor, pois, além do reconhecimento dos seus predicados e do florescimento do maior campo para suas peças, a manufatura de bens duráveis, pintou desde 2021 o advento do excedente mundial de termoplásticos Deu o que está dando: em meio a uma demanda volátil e tépida, o reduto das superofertadas resinas commodities vivencia no Brasil um fogo cruzado de preços entre grades importados e nacionais. A Piramidal figura entre as fontes destes últimos, como agente nº1 da Braskem, monopólio da produção brasileira de polipropileno (PP) e polietileno (PE), de margens hoje esfaqueadas por falta de competitividade para digladiar em custos e modernização com global players. Nesse contexto, distribuir plásticos de engenharia configura para a Piramidal um respiro a calhar do sufoco em poliolefinas, uma artéria de diversificação estável, uma obra em progresso (hoje com 22 materiais no mostruário) e com muito chão pela frente, na garupa de uma demanda pautada pela melhora proporcionada por esses polímeros aos custos industriais e à performance de produtos acabados. Na entrevista a seguir, Fábio Koutchin, gerente de resinas de engenharia e soluções circulares da Piramidal, esmiúça a expansão da empresa no segmento e as perspectivas para o mercado este ano.

Qual o peso do negócio dos plásticos de engenharia na receita de 2025 da Piramidal e qual a tendência dessa participação para o exercício de 2026?

A participação percentual de cada unidade de negócio, bem como o faturamento total da companhia, são informações estratégicas e sensíveis; preferimos não divulgá-las. Podemos afirmar, porém, que o negócio de resinas de engenharia já representa fatia relevante da receita da Piramidal e, mais importante, vem crescendo acima da média da empresa. Esse desempenho reflete uma decisão estratégica de priorizar o segmento, com foco na ampliação do portfólio, fortalecimento de parcerias com fornecedores globais e desenvolvimento de soluções de maior valor agregado. Além disso, investimos no fortalecimento das equipes técnica e comercial. Isso tem ampliado nossa capacidade de especificação, suporte a projetos e proximidade dos clientes, em especial no âmbito de substituição de materiais e aplicações diferenciadas. Esse conjunto de iniciativas cria uma base sólida para a continuidade do crescimento em 2026.

“A capilaridade logística, atuação técnica e relacionamento com parceiros permitem nos adaptarmos com rapidez a mudanças na cadeia de suprimentos”

Fábio Koutchin, Piramidal

Fábio Koutchin da Piramidal

Em 2025 os juros impraticáveis e inadimplência recorde inibiram as compras a prazo, modalidade dominante para aquisição de bens duráveis, o maior campo para plásticos de engenharia. Por que o crédito escasso e caro não perturbou este desempenho?

Mesmo em um cenário macroeconômico adverso em 2025, a Piramidal registrou um crescimento de aproximadamente 11% no volume de vendas de resinas de engenharia.

Esse desempenho se explica, em grande parte, pelo nosso modelo de distribuição multissetorial. Ele dilui riscos e cria um efeito de compensação natural entre mercados. Enquanto alguns segmentos mais dependentes de crédito arrefeceram no ano passado, outros ganharam relevância e sustentaram o resultado.

Além disso, o crescimento reflete a já mencionada estratégia de foco específico na comercialização de materiais nobres. Esse posicionamento nos permitiu capturar demandas menos sensíveis ao crédito tradicional e mais ligadas à eficiência e inovação, mitigando os impactos do ambiente econômico e sustentando o avanço do negócio.

Com juros altos e endividamento descomunal de pessoas jurídicas e físicas continuando em cena este ano, por que acha que suas vendas de materiais nobres tendem a seguir expandindo?

Apesar do cenário ainda restritivo, reiteramos que o negócio de resinas de engenharia tende a ampliar por ser tratado da forma estratégica já detalhada, o que nos permite crescer mesmo em ciclos econômicos adversos. Entre nossos principais diferenciais, destaca-se a equipe dedicada a novos projetos, atuando lado a lado com os clientes na especificação de materiais e na substituição de soluções tradicionais; a presença nacional da companhia, com atuação regionalizada, suportada por 10 centros de distribuição e logística amparada em frota própria e estoques mantidos próximos aos clientes, reduzindo prazos de entrega e elevando a confiabilidade do abastecimento.

Substituição de metal por plástico: aplicações ligadas à eficiência e inovação em linha com foco da distribuidora em materiais nobres.

Substituição de metal por plástico: aplicações ligadas à eficiência e inovação em linha com foco da distribuidora em materiais nobres.

Desde a guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, custos de energia prostraram a competitividade econômica da indústria europeia de plásticos de engenharia e ela tem contrabalançado esta perda com filiais da Ásia. Como avalia o impacto na dinâmica de estocagem e vendas de plásticos de engenharia da Piramidal causado por essa mudança da Europa para Ásia devido ao encarecimento do frete e aos prazos médios de dois meses para entrega aqui?

A mudança de base produtiva para a Ásia alonga o ciclo de abastecimento (frete mais caro, maior variabilidade e lead times que facilmente superam dois meses). Isso pressiona a dinâmica de distribuição: exige maior nível de estocagem, mais planejamento e mais caixa empregado para garantir regularidade de atendimento.

Nesse contexto, uma operação saudável e eficiente financeiramente vira diferencial competitivo. E é justo aí que a Piramidal se destaca, combinando disciplina de estoques, capilaridade e logística para manter o nível de serviço mesmo com cadeias mais longas e voláteis.

Diante desse horizonte, o que acha de a Piramidal prospectar a possibilidade de comercializar materiais nobres dos muitos componedores menos renomados dos EUA e/ou Canadá, mais próximos do Brasil?

Vemos como alternativa complementar, com potencial para reduzir risco logístico e encurtar reposição em alguns casos. Porém, para plásticos de engenharia, o critério não é só a distância geográfica; pesa também a consistência de qualidade, rastreabilidade, conformidade regulatória, repetibilidade lote a lote e suporte pré e pós-venda. Assim, a abordagem mais racional é prospectar e qualificar seletivamente, preservando o padrão técnico exigido pelo mercado.

Se o acordo bilateral União Europeia-Mercosul for mesmo homologado, a distribuição de plásticos de engenharia europeus deve voltar a ficar mais atraente no Brasil?

Se a homologação avançar, pode voltar a ser mais atraente por melhorar previsibilidade e, potencialmente, condições tarifárias/regras comerciais. Mas isso não significa retorno automático ao cenário da Europa pré-crise, pois permanecem em cena fatores estruturais como custos energéticos e a reorganização industrial. O acordo foi assinado em 17 de janeiro último e ainda depende de ratificações (incluindo Parlamento Europeu e instâncias dos países do Mercosul), o que traz incerteza de timing e de implementação.

Centro de distribuição: estoques em todas as regiões influem na fidelização dos clientes cultivada pela Piramidal.

Centro de distribuição: estoques em todas as regiões influem na fidelização dos clientes cultivada pela Piramidal.

Sobram distribuidores de plásticos de engenharia com plantas componedoras no Brasil. Por que, apesar deste tipo de concorrência crescente, a Piramidal não embarca no beneficiamento local de polímeros nobres?

Nossa essência é a de uma empresa comercial, com forte vocação para distribuição, desenvolvimento de mercado e geração de valor junto aos clientes. Uma operação industrial própria, como a compostagem, poderia diluir nosso foco e afastar recursos do que fazemos comprovadamente bem. Mas este modelo de atuação pode ser reavaliado no futuro. Para o segmento de compostos, buscamos parceiros que sustentem nossa estratégia de crescimento sem agregar complexidade industrial ao core (cerne) do nosso negócio, a distribuição.

Plásticos de engenharia são sinônimo de venda especializada a cargo de pessoal qualificado. Ocorre que este profissional anda escasso na indústria plástica brasileira. Como a área de RH da Piramidal encara este problema?

Hoje em dia, a escassez de profissionais qualificados é um desafio estrutural do setor plástico. Por isso, a Piramidal revisa continuamente seus modelos de contratação e benefícios, buscando manter uma proposta de valor competitiva e alinhada às expectativas do mercado. Mais do que atrair talentos prontos, nossa principal estratégia está no desenvolvimento interno: investimos na formação de profissionais, combinando capacitação técnica, acompanhamento próximo das lideranças e exposição prática aos projetos. Em situações específicas, quando a urgência do negócio não permite esse ciclo de desenvolvimento, buscamos profissionais mais experientes. De forma complementar, temos realizado investimentos para incrementar a equipe técnica. Este ambiente de aprendizado contínuo, aliado a perspectivas claras de crescimento profissional, tem se mostrado um dos principais fatores de atração e retenção de talentos.

Exportações da China: mudança da base produtiva da Europa para Ásia onera suprimento de plásticos de engenharia para distribuidores no Brasil.

Exportações da China: mudança da base produtiva da Europa para Ásia onera suprimento de plásticos de engenharia para distribuidores no Brasil.

Quais as principais novidades agendadas para este ano pela Piramidal este ano em seu catálogo de plásticos de engenharia e na estrutura de serviços?

Para 2026, nossas principais iniciativas estão concentradas em três frentes claras. A primeira é a ampliação e aumento da competitividade do portfólio de plásticos de engenharia, por meio do fortalecimento das parcerias atuais e desenvolvimento de mais alianças, garantindo acesso a materiais mais competitivos e soluções alinhadas à demanda. No mais, seguimos investindo no fortalecimento das equipes técnica e comercial e, por fim, avançamos na modernização dos processos internos, incluindo a implementação de ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Esses ganhos se refletem na gestão melhor de estoques, agilidade maior nas entregas e um nível de serviço ainda mais consistente.

Qual a visão da Piramidal sobre o número crescente de componedores brasileiros que, pressionados pela nova carga tributária e custos de produção, estão montando filiais no Paraguai? E qual a possibilidade de este movimento vir a proliferar, pelos mesmos motivos, na Zona Franca?

Essa reação é parte de um ciclo já conhecido da indústria do plástico. Iniciativas semelhantes ocorreram no passado e refletem, em grande medida, a busca natural das empresas por maior competitividade diante de mudanças tributárias e custos de produção. São dinâmicas que tendem a gerar impactos pontuais no curto prazo, mas acabam sendo ajustadas pela própria lógica de mercado ao longo do tempo.

Numa visão pragmática, mais do que uma ameaça estrutural, esses movimentos podem, inclusive, se transformar em oportunidades comerciais, desde que conduzidos com seriedade, transparência e dentro da legislação.

Para a Piramidal, o foco permanece inalterado: atender com eficiência, proximidade e agilidade, seja qual for a origem produtiva dos materiais. A capilaridade logística, atuação técnica e relacionamento com parceiros permitem nos adaptarmos com rapidez a mudanças na cadeia de suprimentos e capturar oportunidades advindas desses rearranjos industriais.

Vivemos em um ambiente marcado por incertezas e alta volatilidade. Nessa conjuntura, a proximidade física dos clientes, aliada à flexibilidade e à velocidade de resposta, deixou de ser diferencial para se tornar fator crítico de sucesso.

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