Pesquisa de Opinião

Como vê a possibilidade de petroleiras dos EUA implantarem, a médio prazo, um (ou vários) complexo petroquímico na Venezuela, possuidora da maior reserva de gás natural da América Latina? E quais as possíveis consequências disso para o cogitado plano de investimentos no setor no Brasil?
Como vê a possibilidade de petroleiras dos EUA implantarem, a médio prazo, um (ou vários) complexo petroquímico na Venezuela, possuidora da maior reserva de gás natural da América Latina? E quais as possíveis consequências disso para o cogitado plano de investimentos no setor no Brasil?

*Braskem e Icis recusaram responder a pergunta.

Carlos Fadigas

Carlos Fadigas

CEO da consultoria CF Partners

“Não vejo um projeto petroquímico na Venezuela como relevante ou factível, nem no curto nem no médio prazo”

Nos anos 2000, a Venezuela idealizou a construção de um grande complexo petroquímico em seu território. Apesar dos esforços de planejamento, esse projeto nunca se materializou. Desde então, tanto a produção de petróleo quanto a infraestrutura venezuelana sofreram acentuada deterioração.

Nesse contexto, a perspectiva de novos projetos petroquímicos na Venezuela é, do meu ponto de vista, altamente incerta, sendo eventualmente viável apenas no muito longo prazo. Antes disso, seria necessária uma estabilização do ambiente político, um amplo processo de reconstrução da infraestrutura e, sobretudo, um aumento significativo da capacidade de produção de petróleo e derivados.

Ainda assim, parece-me pouco provável que empresas americanas optem por desenvolver projetos petroquímicos na Venezuela, quando podem continuar investindo nos Estados Unidos, maior produtor mundial de petróleo e onde dispõem de abundância de matérias-primas, infraestrutura consolidada e maior previsibilidade institucional. Dessa forma, não vejo um projeto petroquímico na Venezuela como relevante ou factível, nem no curto nem no médio prazo.

Ao mesmo tempo, a contínua expansão da capacidade petroquímica nos Estados Unidos, na China e no Oriente Médio tende a seguir pressionando fortemente as margens do setor. Isso desafia a viabilidade econômica de qualquer novo projeto petroquímico – em especial em commodities – no Brasil. Além disso, a disponibilidade de resinas competitivas nessas regiões vai continuar fomentando a indústria de transformação plástica ali baseada, o que precisa ser acompanhado de perto pelo setor no Brasil.

12 Simone de Faria diretora da Townsend Solutions para a America Latina

Simone de Faria

Diretora da consultoria Townsend Solutions para a América Latina

“O país detentor das maiores reservas de petróleo do mundo entra no jogo novamente e isso é benéfico à cadeia global de petroquímicos”

A retirada de Maduro do poder na Venezuela decerto criará uma enorme janela de oportunidades para o setor petroquímico de toda a América (Norte e Sul). Mas, não acredito na construção de complexos no país, pois isso esbarra em barreiras práticas que não devem ser superadas tão rápido, em particular em relação à infraestrutura, destruída nos últimos anos. Mesmo em um cenário de transição política pós-Maduro, o interesse imediato das gigantes do setor seria a reabilitação da extração de petróleo bruto para alimentar as refinarias do Golfo do México, historicamente projetadas para processar o óleo pesado venezuelano. A construção de infraestrutura petroquímica exige uma estabilidade jurídica e institucional que pode levar décadas para se consolidar; por isso, é mais provável que a Venezuela retorne ao jogo inicialmente como exportadora de petróleo, deixando o refino e a transformação para plantas já operacionais nos EUA ou em outras regiões. De qualquer forma, o país detentor das maiores reservas de petróleo do mundo, entra no jogo novamente e isso é benéfico à toda a cadeia global de produtos petroquímicos.

O Brasil tem que acordar rápido e realizar investimentos para não continuar refém da importação de nafta ou, ainda pior, da importação de resinas. E a um custo muito alto para os transformadores, por conta do protecionismo imposto ao mercado. Não precisamos investir só em exploração do petróleo, mas em refino. Além de Venezuela, ainda enfrentaremos a concorrência da Guiana e aqui do lado, da Argentina. Afinal, os investimentos nas reservas de gás de xisto em Vaca Muerta estão sendo intensificados pelo governo Javier Milei. Daí que um projeto pode acabar levando a outros – de petróleo e gás a olefinas e aromáticos ou de produtos químicos e matérias-primas básicas a resinas e, por fim, de  resinas à transformação de plásticos. E nós ficaremos a ver os navios passarem ao largo da nossa costa.

André Passos Cordeiro

André Passos Cordeiro

Presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim)

“Caso a Venezuela venha a se consolidar como um polo integrado à cadeia petroquímica norte-americana, isso pode acentuar assimetrias competitivas na América Latina”

A possibilidade de implantação de complexos petroquímicos na Venezuela por petroleiras norte-americanas não se configura como um cenário provável no médio prazo, apesar do elevado potencial energético do país. Embora a Venezuela detenha a maior reserva de gás natural da América Latina, o atual estado de sucateamento da infraestrutura produtiva, as fragilidades institucionais e a necessidade de investimentos intensivos e prolongados impõem restrições significativas à materialização de projetos industriais de maior complexidade.

No médio prazo, o movimento mais plausível envolve a recuperação da produção de petróleo e gás e sua integração à cadeia de valor dos Estados Unidos, com foco inicial em exportação, refino e eventual direcionamento de insumos à base petroquímica norte-americana. Projetos petroquímicos locais exigiriam um ambiente regulatório estável, segurança jurídica e maturação da infraestrutura – fatores que tendem a demandar um horizonte mais longo.

Ainda que os impactos diretos sobre o Brasil não sejam imediatos, uma eventual reconfiguração estrutural do mercado energético regional pode, no longo prazo, influenciar decisões de investimento, custos relativos de insumos e estratégias de suprimento da indústria petroquímica brasileira.

Caso a Venezuela venha a se consolidar como um polo integrado à cadeia petroquímica norte-americana, isso pode acentuar assimetrias competitivas na América Latina, sobretudo se houver acesso privilegiado a matérias-primas a custos mais baixos. Esse cenário reforça a importância de o Brasil avançar em uma agenda consistente de competitividade, segurança regulatória, previsibilidade e atração de investimentos, de modo a preservar e fortalecer o interesse em projetos petroquímicos no país.

Mais do que um efeito de deslocamento imediato de investimentos, o principal impacto para o Brasil estaria na necessidade de acelerar reformas estruturais que garantam condições equivalentes de competição em um ambiente internacional cada vez mais marcado por disputas geopolíticas e reconfiguração das cadeias produtivas.

24 Frederico Fernandes analista da Argus

Frederico Fernandes

Especialista em petroquímica da consultoria Argus Media

“Sem previsibilidade jurídica, a probabilidade de implantação ou recuperação de complexos petroquímicos na Venezuela por empresas dos EUA permanece baixa”

A prisão de Nicolás Maduro por forças dos EUA, relatada pela Argus em sua cobertura temática sobre sanções à Venezuela, reforça o eixo de incerteza política e regulatória que baliza qualquer decisão de investimento petroquímico no país no médio prazo. Para players norte‑americanos, o novo choque institucional soma‑se ao histórico de vai‑e‑vem de licenças e sanções, elevando o prêmio de risco e postergando decisões de CAPEX intensivo até que surja um arranjo de governança estável e reconhecido, condição que o mercado ainda não enxerga.

No plano regulatório, a Argus reportou que Washington reimpôs sanções ao petróleo venezuelano em 17 de abril de 2024, mantendo apenas isenções pontuais (Chevron e algumas empresas de serviços). Mesmo nos momentos de alívio temporário, a orientação oficial foi de ‘pegada limitada’ por parte das companhias, evitando compromissos irreversíveis. Isso esfria, por design, projetos que dependem de contratos de longo prazo de gás (etano/propano), financiamento em moeda forte e marcos regulatórios estáveis, todos indispensáveis a crackers e cadeias de segunda geração. Em síntese: sem previsibilidade jurídica, a probabilidade de implantação ou recuperação de complexos petroquímicos na Venezuela por empresas dos EUA permanece baixa no horizonte de planejamento.

Quanto aos ativos petroquímicos venezuelanos, o quadro recorrente é de subutilização, infraestrutura fragilizada e dependência de decisões políticas, com plantas operando sob licenças restritas. A ausência de anúncios materiais de retomada petroquímica por grupos dos EUA, somada ao novo estresse político, sugere que qualquer “ramp‑up’ (nota: início do processo produtivo de uma empresa) competitivo exigiria tempo, capital e normalização regulatória ainda não observados.

Para o Brasil, o efeito concorrencial é limitado no curto/médio prazo. Sem um pipeline crível de projetos na Venezuela, não se antecipa pressão relevante sobre spreads, captação de capital ou market share de eventuais expansões domésticas. Num cenário alternativo e com alívio consistente de sanções e governança previsível em Caracas, a Venezuela poderia, adiante, disputar capital e insumos regionais e reordenar fluxos de resinas no Atlântico Sul. Mas esse desfecho depende de mudanças estruturais e do horizonte de execução de anos. Até lá, a leitura de mercado, à luz da Argus, é de cautela prolongada e baixa probabilidade de choque competitivo imediato sobre o plano petroquímico brasileiro.

Jorge Vidal 2

Jorge Bühler-Vidal

Diretor da Polyolefins Consulting

Caro Hélio, estou pondo em dia os trabalhos pendentes no recesso de fim de ano. Infelizmente, não tenho condições, desta vez, de responder em detalhes. Minha resposta lacônica é esta: não acho que petroleiras dos EUA implantem complexos petroquímicos na Venezuela pós-Maduro a médio prazo. Isso não aconteceu quando a indústria de petróleo trabalhava lá normalmente e agora não será diferente.

FLAVIO SILVA OHXIDE

Flávio Silva

CEO da consultoria OHXIDE

“Investimentos na exploração e produção de petróleo que poderiam ser realizados no Brasil devem migrar para a Venezuela”

Para uma visão de médio prazo – aqui considero médio prazo um período de até cinco anos – não vejo possibilidade de implantação de complexos petroquímicos na Venezuela. Apesar da enorme reserva de gás (e óleo) é um período muito curto para organizar o país política, econômica e regulatoriamente, de tal forma que fique atrativo para empresas americanas investirem em complexo petroquímicos. É uma situação diferente em termos de investimentos em extração de petróleo, de retorno mais rápido.

As reservas de gás na Venezuela são, de fato, enormes. Hoje estima-se que tenha a oitava reserva de gás natural do planeta, com cerca de 6,90 trilhões de metros cúbicos. A tabela abaixo lista as maiores reservas de gás no mundo e a posição do Brasil.

PosiçãoPaísReserva Estimada
(Trilhões de m³)
% Global (Aprox.)
Rússia48,0
Irã34,0~17%
Catar24~12%
Estados Unidos15,0~6,5%
Turcomenistão13,0~5,5%
Arábia Saudita9,5~4,5%
Emirados Árabes7,0~3,1%
Venezuela6,9~3,0%
Nigéria5,8~2,7%
10ºChina5,5~2,6%
............
32ºBrasil0,6~0,22%

Fonte: Agências de Petróleo dos países – Elaboração OHXIDE Consultoria

Apesar do potencial descomunal, há questões na Venezuela por serem resolvidas antes de se iniciar a exploração do gás – e não são simples. A começar pelo parque industrial do país, em frangalhos devido aos anos de subinvestimento.

O plano americano (ou a ideia inicial) é que os EUA podem subsidiar ou garantir investimentos de petroleiras (como Chevron e ExxonMobil) para estabilizar a economia venezuelana através do petróleo e gás. Porém, especialistas apontam no mínimo em 18 meses o prazo requerido apenas para regularizar a infraestrutura básica de extração do combustível fóssil. Lembro, a propósito, que um complexo petroquímico de grande porte seria um projeto de médio a longo prazo (cinco a 10 anos), dada a necessidade de reconstruir toda a cadeia de serviços e utilidades. Com base apenas nestas estimativas, já se teria praticamente uma década entre o planejamento, execução e inícios das operações, desde que sob respaldo de uma tranquila transição política e econômica, algo ainda incerto.

Admitindo que tudo acima foi resolvido, será que, no médio prazo, faz sentido investir em mais capacidade de produção de petroquímicos com todo o excesso de oferta mundial atual?

Se analisarmos de forma racional e econômica, a resposta seria: ‘vamos esperar mais um pouco’. Na petroquímica global, o ambiente está com viés de baixa, dado o excesso de oferta e a demanda crescendo mais lentamente do que se imaginava. Então, quem tem prudência com dinheiro não investiria na Venezuela. Ou se o fizesse, talvez fosse melhor aplicar em ativos existentes que necessitam de pequenas ampliações ou desgargalamentos – só que estes ativos não ficam na Venezuela.

Está claro, num primeiro momento, que a estratégia americana é monetizar de forma rápida o petróleo venezuelano. A volta do mercado venezuelano ao setor de óleo já impõe, por si só, uma concorrência com o setor brasileiro. Investimentos por empresas de exploração e produção de petróleo que poderiam ser realizados no Brasil devem migrar para a Venezuela. Afinal, devem proporcionar um retorno muito maior para as empresas americanas.

Quanto a investimentos específicos em gás natural, o Brasil vive hoje um dilema de competitividade. Frente a esta reserva abundante da Venezuela, enfrentamos custos de extração elevados e uma infraestrutura de transporte de gás ainda em expansão. A atual competitividade do gás natural venezuelano pode ser considerada um ‘contraste extremo. De um lado, tem o custo de extração potencialmente mais baixo da região, do outro, enfrenta maiores custos logísticos e, em particular, maior risco devido à infraestrutura sucateada. Para as petroleiras dos EUA, o interesse não está apenas no volume, mas na economia de escala que o gás  pode oferecer se a infraestrutura for reconstruída.

A Venezuela possui grandes quantidades de gás associado (extraído junto com o petróleo) e campos offshore rasos (como o campo Dragon). São fatores técnicos que tornam a extração muito mais barata que a do pré-sal brasileiro e, segundo estimativas, até 50% menor que o próprio custo americano, considerando os preços de referência atuais do Henry Hub, em torno de 4,30 US$/MMBTU.

Dada a natureza da pergunta desta pesquisa de opinião (sobre uso de gás venezuelano para petroquímicas locais), não entrarei em detalhes sobre um possível escoamento de gás para fora do país. No momento, porém, a infraestrutura para isso é péssima. Uma opção seria utilizar gasodutos regionais. Por exemplo, reativação do gasoduto Trans-Caribenho, visando criar um mercado integrado no Caribe e a exportação via Trinidad e Tobago. Esta aparenta ser a estratégia mais viável a curto prazo (uso das plantas de GNL de Trinidad).

O impacto que o desenvolvimento do setor petroquímico venezuelano pode trazer ao Brasil não se restringe apenas ao gás venezuelano no subsolo (custo de matéria-prima), abrangendo ainda  o custo de capital. Se o governo americano oferecer garantias contra riscos políticos e isto se perpetuar, o custo total de um complexo petroquímico na Venezuela (CAPEX + OPEX) pode se tornar muito menor que no Brasil, mesmo considerando-se um projeto green field.

Por último, considerando o caso de um projeto petroquímico na Venezuela sair do papel, outro impacto para o Brasil seria a oferta de material (resinas termoplásticas, petroquímicos como propeno, benzeno e outros) com uma forte competitividade. Isso mexeria com preços locais, com a forma de precificação das petroquímicas brasileiras e alteraria a lógica vigente no setor. Para a América do Sul, novos investimentos em petroquímica seriam interessantes do ponto de vista de abastecimento, pois a região é deficitária nas principais resinas termoplásticas.

Em suma, dados os aspectos abordados acima, como instabilidade política e econômica da Venezuela, excedente global de resinas e valor de investimento, não vejo a médio prazo alta possibilidade de uma implantação de complexo petroquímico no país. Num primeiro momento, a retomada da produção deve impactar diretamente o setor de petróleo & gás nacional. Provável ‘desvio’ de CAPEX e pressão para aceleração da exploração da Margem Equatorial pela Petrobras são algumas das consequências para o Brasil. No entanto, para um período maior, tendo em vista uma retomada das margens do setor com equilíbrio de oferta x demanda e num horizonte de meados da próxima década existe, sim, a possibilidade de surgirem projetos petroquímicos na Venezuela”. 

Jose Ricardo

José Ricardo Roriz Coelho

Presidente do Conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast)

“A disputa por capital com a Venezuela pode estimular uma estratégia mais clara de investimento em refino e petroquímica no Brasil”

O movimento recente dos Estados Unidos em relação à Venezuela mostra que o governo Trump não trata a questão segurança energética como blefe. A sinalização é clara: garantir acesso a recursos estratégicos segue sendo parte central da lógica de poder americano no hemisfério ocidental.

Nesse contexto, entendo que, no médio prazo e superada a fase de transição política e institucional, a Venezuela possa voltar a oferecer um ambiente mais seguro para investimentos estrangeiros. Isso inclui o retorno de petroleiras americanas.  

Ambiente mais estável e seguro ao investimento é fundamental para esses potenciais planos seguirem em frente Porém, vale considerar também que, apesar de deter as maiores reservas de petróleo do mundo, a infraestrutura venezuelana está profundamente degradada e a recuperação relevante da produção exigiria investimentos bilionários (US$80-US$110 bilhões, segundo analistas) e vários anos de execução.

Por isso, é difícil que esses investimentos levem a um aumento de produção capaz de desequilibrar a oferta internacional no curto ou médio prazo. O movimento tende a ser mais estratégico do que volumétrico, voltado à garantia de território, influência regional e segurança energética futura.

O petróleo venezuelano é majoritariamente pesado. Um eventual aumento de produção afetaria sobretudo esse segmento, pressionando a competitividade de óleos pesados no mercado internacional. Nesse cenário, o Brasil tende a sentir impactos mais indiretos do que diretos.

Para o setor brasileiro, o principal efeito pode estar na disputa por capital e na necessidade de reforçar sua atratividade. Esse contexto pode, inclusive, estimular uma estratégia mais clara de investimento em refino e petroquímica, ampliando a participação do país em produtos de maior valor agregado, reduzindo a dependência da exportação de óleo cru.

Em resumo, entendo que a maior presença americana na Venezuela não representa uma ameaça imediata aos planos de investimento no Brasil. No entanto, ela talvez impacte na revisão da estratégia de sermos um player competidor apenas na venda do petróleo cru, passando a considerar também a expansão de investimentos em refino e posicionamento como um player global de produtos derivados de maior valor adicionado.

joao luiz zuneda

João Luiz Zuñeda

Diretor fundador da MaxiQuim Assessoria de Mercado

“O discurso político fala em oportunidade. A realidade da Venezuela fala em refino primeiro, produção depois e petroquímica só no longo prazo”

A captura de Nicolás Maduro pelos EUA encerra um capítulo político, mas não resolve o colapso estrutural da indústria de petróleo da Venezuela. Sua produção atual gira em torno de 1 milhão de barris/dia, contra um pico histórico de 3,5 milhões. Recuperar esse nível exigiria US$ 10 bilhões por ano durante uma década – US$ 100 bilhões. Campos maduros, dutos corroídos, terminais obsoletos e refinarias praticamente inoperantes são o legado de décadas de má gestão e sanções.

Antes mesmo de pensar em investimentos em petroquímica, integração de cadeias ou captura de valor industrial, a Venezuela enfrenta um desafio mais básico e urgente: retomar a operação mínima de suas refinarias sucateadas. Mesmo com petróleo pesado altamente demandado pelas refinarias do Golfo dos EUA, o retorno das petroleiras majors não será imediato. ExxonMobil e ConocoPhillips ainda carregam cicatrizes da nacionalização de 2007, com arbitragens bilionárias e ativos expropriados. O discurso político fala em oportunidade. A realidade do setor fala em refino primeiro, produção depois e petroquímica só no longo prazo.

Outro problema: a China foi um dos principais parceiros estratégicos da Venezuela, especialmente no setor energético. Pequim forneceu US$ 60 bilhões em empréstimos e investimentos vinculados ao petróleo, com o governo venezuelano usando parte da produção futura como garantia e transformando PDVSA (estatal Petróleos de Venezuela S.A.) numa espécie de ferramenta de financiamento de longo prazo para a economia chinesa. Agora, com a mudança abrupta no quadro político e a tentativa dos EUA de assumir o controle das exportações e das receitas de petróleo venezuelano, o capital chinês corre risco de desvalorização e perda de influência. Este vai ser mais um ponto para atrasar investimentos.

Luiz Fernando Marinho Nunes

Luiz Marinho

carlos alberto lopes 2

Carlos Lopes

Luiz Fernando Marinho Nunes e Carlos Alberto Lopes

Diretores da consultoria ChemVision

“Como o risco-país da Venezuela continuará elevado em qualquer cenário, isto implica que os investidores exigirão retornos superiores às alternativas”

Ainda é cedo para avaliar se as condições para investimentos de longo prazo de maturação serão consolidadas na Venezuela. Afinal, um complexo petroquímico requer pelo menos cinco anos para implantação em condições favoráveis e, pelo menos, 15 anos para o retorno do investimento, com suprimento de matérias-primas assegurado.

Embora exista todo esse cenário de incertezas, um ponto de atenção é que a Venezuela possui, potencialmente, vantagens comparativas.

Considerando que sequer o quadro político está estabilizado – nem na Venezuela, nem nos EUA, já que restam três anos do mandato do presidente Trump e é incerto como o Congresso americano atuará – decisões finais de investimento não serão tomadas no curto prazo.

Como o risco-país da Venezuela continuará elevado em qualquer cenário, isto implica que os investidores exigirão retornos superiores às alternativas. Outros elementos contribuem negativamente. Por exemplo, a  falta de infraestrutura e de mão de obra especializada tende a elevar o investimento, em comparação com outras regiões. Por sua vez, o mercado interno não é suficiente para permitir que um complexo de porte mundial seja voltado principalmente para atendê-lo. Logo, parte significativa da produção deverá ser exportada, o que impacta, mais uma vez negativamente, os resultados. Um outro aspecto a ser considerado num eventual processo de reconstrução é que investimentos desse porte têm como contrapartida contratos de offtake (nota: garantias de compra do produto a ser fabricado; funciona como redutor de risco do projeto) de seus produtos, dependentes das limitações de comércio em vigor.

A indicação é que os esforços serão voltados para aumentar a produção de óleo na Venezuela, recuperando os ativos e campos já existentes. Só em um segundo momento, o gás natural ganharia prioridade. A recuperação da capacidade de refino representa um desafio adicional, se a opção (improvável) para a petroquímica fosse por cargas líquidas. Desse modo, considerando as previsões de um cenário global de margens deprimidas, ainda por algum tempo, necessariamente a petroquímica venezuelana terá de aguardar.

Diante das premissas elencadas, a possibilidade de Investimento, no médio prazo, em novos complexos petroquímicos na Venezuela é mínima. Portanto, não seria este o motivo para retardar eventuais planos de investimento no Brasil.

Como uma última reflexão, talvez seja mais relevante fazer a mesma pergunta desta pesquisa de opinião, mas substituindo a Venezuela pela Argentina.

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