Assinado por escritores e artistas, circulou em 11/1 pelo site Change.org. um manifesto clamando pelo banimento do filme shrink usado para embalar livros, por afrontar o meio ambiente. “O livro, símbolo do pensamento e da consciência crítica, não pode continuar sendo cúmplice desse desperdício. É incoerente que justamente o setor que trabalha com educação, arte e cultura – fundamentos da sustentabilidade humana – contribua com centenas de toneladas de plástico descartável a cada ano”, ressalta o texto do documento reproduzido em 12/11 pelo jornal O Globo.
“Esse é o plástico mais vagabundo que tem, tanto que é conhecido como ‘plástico de utilização única’. Usa-se olhando para o lixo. Ele não serve para a reciclagem e estamos falando de algo a nível global: no mundo inteiro isso acontece”, arengou para o jornal o escritor Afonso Borges, mentor do manifesto. “Precisamos pensar no que podemos oferecer como solução sustentável a esse material. Além de tudo, uma livraria inteiramente plastificada é uma grande sacanagem. Do ponto de vista simbólico, está aí um baita prejuízo para o incentivo à leitura. O prazer de folhear um livro faz parte da descoberta desse hábito”.
O uso de shrink (no caso, de PVC) no mercado editorial brasileiro, explica a matéria, remonta à década passada e vingou por exigência da Amazon e outros colossos do e-commerce, canal responsável por cerca de 50% das vendas de livros ao mercado. A shrinkfobia não é unanimidade entre os editores, ressalva o artigo. “Se arrumarem uma forma de transportar livros num país continental como o Brasil sem danificá-los e sem submetê-los às condições climáticas de chuva e vento (que também acabam com os livros), eu engrosso o caldo (nota: o manifesto)”, condicionou uma publisher em grupo de Whatsapp.
Aos fatos: shrink cai bem para embalar livros por dois predicados aliados ao baixo custo: proteção higiênica e contra avarias e visualização da capa e contracapa permitida pela transparência do filme. Em lojas físicas, aliás, reina a praxe de deixar exemplares à mostra sem shrink, para serem folheados pelo leitor que, se resolver comprar, sai com o exemplar encapado com plástico.
O manifesto anti-shrink reflete a popularização da atitude ambientalmente correta de que é “in” ser contra o plástico. E nada como a segurança de se juntar à manada que ouve o galo cantar sem saber onde. Melhor ainda quando essa ignorância mescla oportunismo com hipocrisia. Exemplo: não se sabe até hoje de repúdio de artistas ao filme que embala seus LPs e CDs à venda. No mesmo viés da ecodemagogia, não se ouve no meio editorial um pio contra o dano ambiental causado pelo desmatamento, não importa se consentido ou não, para obtenção de madeira, fonte do papel. Um silêncio tornado também compreensível pelo fato de o ganho com vendas de e-books perder feio para o embolsado com livro físico.
No pano de fundo dessa querela, figura a aceitação de uma conotação negativa do termo “plástico descartável” transmitida pelo ecomarketing. A identificação original de produto de uso único, dadas as características de suas aplicações, foi varrida pela imagem de material supérfluo e poluente. É uma maneira de desviar convenientemente para o produto a responsabilidade pela poluição causada, na realidade, pelo consumidor final praticante do descarte incorreto. Mas ambientalista algum é doido de dar os nomes aos bois assim, temeroso de perder ouvintes ofendidos. A barra também pesa com uma virtude hoje vestida de problema. Ao criar produtos de uso único, o plástico instaurou tão a fundo na sociedade uma cultura de comodidade que ajuda a explicar porque, em mais de 30 anos de pregação verde, embalagens retornáveis ainda não deslancharam e porque a participação do grande público no esforço para aumentar a reciclagem de plásticos segue a léguas do ideal.
Por travas econômicas e de processamento, flexíveis e PVC não formam entre os resíduos mais reciclados. O que pessoas como os signatários do manifesto anti-shrink preferem ignorar é que a maior contribuição do plástico não é a possibilidade de ser recuperado e reaproveitado, mas a enormidade de aplicações de primeiro uso com que ele até hoje nos traz o futuro ao presente e o meio ambiente à ideia de uma vida melhor. Bom tema para escritores. •


