A lei de Kafka

No Brasil, hora de controlar crise é quando ela sai do controle
A lei de Kafka No Brasil, hora de controlar crise é quando ela sai do controle

O economista tcheco Alexandre Kafka (1917-2007) virou verbete da wikipédia por ter sido representante do Brasil no Fundo Monetário Internacional, onde trabalhou por 32 anos. Antes disso, porém, ele teve uma vida agitada. Estudou a ciência econômica em Viena, Genebra e Oxford e, graduado na doutrina liberal, aliando humanismo à matemática, chegou ao Brasil em 1941, perseguido pelo nazismo por ser judeu. Por aqui, Kafka foi diretor de pesquisas da Fundação Getúlio Vargas, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e assessor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Nos anos 50, ele integrou o gabinete do ministro da Fazenda Eugênio Gudin junto com o economista e futuro ministro e diplomata Roberto Campos.

Alma gêmea de Kafka, Campos publicou o perfil dele numa edição de 1961 da histórica revista Senhor, onde sublinhava a veia irônica do amigo. “Nas horas jocosas”, rememorou Campos a certa altura, “chegamos à conclusão de que a economia brasileira não obedecia a nenhuma das leis conhecidas e passamos, então, a pesquisar as normas secretas do seu comportamento”. Do brainstorm saíram quatro leis e, para os propósitos aqui em vista, destaque para a denominada Lei do Limiar do Medo. Entra Campos: “Dizia o Kafka que, enquanto a inflação não chega a 15% ao ano, não desperta alarme senão nos círculos técnicos. Quando se situa entre 15% e 30%, agitam-se um pouco os ministros de Finanças, há discursos no Congresso, surge uma ou outra greve. Somente quando se transpõe o limiar do medo, isto é, quando a alta de preços atinge a faixa de 30% ao ano, é que os Governos verdadeiramente acordam para a gravidade do problema.”

Hiperinflação é (tomara) página virada na economia brasileira, mas a lei do limiar do medo, de que o poder público só acorda mesmo para uma crise quando ela beira a catástrofe, merece ser evocada na atual conjuntura de apagão da mão de obra especializada. Em evolução na surdina há bom tempo, a escassez de jovens qualificados explode hoje em todos os setores, mas fere fundo, em especial, a indústria e, neste bojo, a cada vez mais digitalizada transformação do plástico. De tão mencionadas a torto e a direito, as razões aparentes do sumiço da mocidade preparada caíram no lugar comum: aversão à leitura e a ciências exatas; caça aos ganhos fáceis e rápidos; trabalho na indústria considerado monótono, enquanto serviços, entretenimento e mercado financeiro seriam ambientes vibrantes, criativos, mais rentáveis etc etc.

Mas uma interrogação paira sobre esse quadro brasileiro de pífio nível educacional/cultural e redução drástica nas turmas de cursos como Engenharia e de técnicos em plásticos para o chão de fábrica. A questão de fundo é: vale a pena estudar? André Godoy, analista do Canal Dinheiro amarra o dilema a duas feridas até hoje em carne viva. Nº 1: o Estado subsidia milhões de brasileiros no dolce far niente. Nº 2: em média conservadora, o Estado arrecada 30% dos salários mensais e o restante é, em regra, absorvido nas compras de bens ultra encarecidos pelos impostos incidentes e a renda restante (quando resta) desanima a pessoa de se graduar para concretizar sonhos como casa própria ou constituir família. Afinal, nossa carga tributária progride com o aumento dos vencimentos, uma sanha arrecadatória de mísero retorno ao contribuinte, pois a despesa estatal é absorvida com primazia pelo sustento da máquina pública, deixando uma merreca aos serviços essenciais ao povo. Esse modelo poderia ser destronado pela política fiscal, bem sucedida nos EUA, na linha de quanto mais se trabalha, mais se ganha. Quanto ao assistencialismo, resultaria melhor se, praxe internacional, fosse temporário e, na sua vigência, o beneficiado se educasse à custa do governo para voltar ao mercado de trabalho.

Só tem um porém: as saídas citadas acabam com o eleitor de cabresto de quem o governo brasileiro tanto depende. Nesse ambiente viceja outra lei cunhada por Campos e Kafka, a da transferência de culpa: no Brasil, é menos importante encontrar soluções que ter bodes expiatórios. •

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário