Tubos poliolefínicos: tudo pronto para arrancada do saneamento

Indústria preparada para suprir ciclo de obras mais forte que o atual
Tubos poliolefínicos: tudo pronto para arrancada do saneamento
Petroquímica: expansão em olefinas afetada pela geopolítica e guerra tarifária.
Verbas do governo à míngua para o saneamento hoje emperram a escalada no país do setor de tubos de polietileno de alta densidade (PEAD) e polipropileno (PP). Ainda assim este setor da transformação não cruza os braços, mantendo nos últimos anos um fluxo comedido mas constante de investimentos em competitividade, escorados no potencial azulado entrevisto numa gama de outros redutos de aura hoje mais discreta, desde agricultura a petróleo & e gás e telecomunicações. Este panorama constatado em 2024 e sem maiores mudanças entrevistas para este ano, é descerrado pela primeira vez com base em números filtrados no relatório anual sobre o desempenho do mercado brasileiro organizado pela consultoria MaxiQuim sob encomenda da Associação Brasileira de Tubos Poliolefínicos e Sistemas (ABPE), integrada por 13 empresas que respondem por 86% dos volumes do ramo. Entre os dados-chave do exercício de 2024 colhidos pela pesquisa, constam a capacidade instalada total de 137.000 t/a, produção de 104.000 e vendas internas de 103.000 toneladas. Na entrevista, as forças pulsantes por trás desses indicadores e a perseverança dessa indústria fustigada também pela segunda maior taxa de juro real do mundo são esclarecidas por Osvaldo Oliveira, presidente da ABPE e especialista em relações institucionais, governamentais e de sustentabilidade da ADS-Tigre.

Como analisa o impacto em 2024 e este ano causado na demanda e margens de lucro das indústrias de tubos poliolefínicos pela escassez de crédito, juros reais na lua, inadimplência recorde e sobretaxas de importação de resinas?

Os anos de 2024 e 2025 foram marcados por um ambiente econômico que exigiu atenção e capacidade de adaptação por parte da indústria de tubos poliolefínicos. Fatores como juros elevados, maior seletividade no crédito, níveis mais altos de inadimplência e as recentes sobretaxas para importação de resinas criaram um cenário que demanda cautela e planejamento, mas também estimula as empresas a intensificarem esforços em eficiência e gestão. Nesses dois anos, as indústrias de tubos de PE e PP investiram para aprimorar processos, otimizar recursos e em melhorias pontuais nas plantas. Mesmo que investimentos de grande porte estejam sendo avaliados com mais cuidado nossa setores atendidos, é patente nessas transformadoras um movimento consistente de modernização gradual e foco na sustentabilidade operacional.

“Apesar da velocidade menor das obras públicas de saneamento, nosso setor avança apoiado na agricultura, mineração e drenagem”

Osvaldo Oliveira

Osvaldo Oliveira

Como o setor tem absorvido o encarecimento das poliolefinas em decorrência do aumento das barreiras tarifárias para importações?

Mesmo com a aplicação de medidas de defesa comercial – como as iniciativas antidumping relacionadas a PE – os preços das resinas permaneceram relativamente estáveis. Isso se deve, em parte, ao ritmo mais gradual de novos projetos, o que ajudou a equilibrar a relação entre oferta e demanda por matéria-prima, não gerando oscilações marcantes de custo que comprometessem a estrutura produtiva do setor. Ainda no âmbito das resinas, um aspecto bastante relevante é o crescimento contínuo do uso de PEAD em tubos. Nossa pesquisa setorial revela que, mesmo sem um aumento expressivo no número de obras, o material vem ganhando espaço pela eficiência, durabilidade e custo-benefício como solução completa. Em muitos casos, tem substituído outros materiais.

Relatorio ABPE final V2 11

A indústria de tubos poliolefínicos já colhe os frutos da entrada em vigor da nova regulamentação para o acesso crescente a serviços de água e esgoto?

No segmento de saneamento, especificamente, ainda se aguarda a consolidação de um ciclo robusto de obras impulsionado pelo marco legal. Muitas empresas privadas entraram no setor com metas importantes de investimento, movimento que tende a se intensificar à medida que as condições gerais se tornem mais favoráveis e os projetos avancem. Esse processo de maturação, embora mais lento que o inicialmente imaginado, segue seu curso e mantém o mercado em expectativa positiva.

Relatorio ABPE final V2 12

Como a carência de verbas do governo, imerso em rombo fiscal, tem afetado a demanda de tubos poliolefínicos para infraestrutura em 2024 e este ano?

Essa questão tem relação direta com aquilo que pode ser observado na pesquisa setorial da ABPE. De fato, a menor disponibilidade de verbas públicas acabou reduzindo o ritmo esperado de obras de saneamento. Há uma quantidade muito grande de projetos previstos pelo marco legal e o setor inteiro está esperando uma movimentação mais intensa. As obras existem, claro, mas ainda muito aquém do potencial avaliado.

Apesar desse ritmo mais lento no saneamento – um dos grandes motores da nossa cadeia – a pesquisa mostra claramente que outros setores têm ajudado a compensar essa menor velocidade das obras públicas. Destaco três frentes muito importantes: agricultura, mineração e drenagem pluvial.

Relatorio ABPE final V2 13

Por quais razões?

A agricultura aparece na pesquisa representando cerca de 11% do consumo aparente total de poliolefinas no país em 2024, dentro de um mercado de 4,67 milhões de toneladas. Ou seja, estamos falando de um volume muito relevante e que, obviamente, engloba  diversas aplicações desses materiais. Mas vale lembrar que este setor pujante de nossa economia utiliza nossas soluções em irrigação e drenagem, por exemplo. A agricultura prima pela dinâmica e desafios próprios, mas mantendo o foco em ampliar produtividade. Com isso, apesar das oscilações macroeconômicas, esse setor continua demandando.

Quanto ao setor de mineração, os dados do relatório mostram estabilidade na produção do setor (0% de variação em 2024) e crescimento de 3,9% nos produtos de minerais não metálicos. Isso confirma que a mineração segue investindo, precisa de tubulações para transporte de fluidos e rejeitos, tornando-se um potencial setor para aplicação das soluções em PEAD. É um segmento basicamente privado, com ritmo próprio de expansão e preza tecnologias mais duráveis e sustentáveis, como a nossa.

A terceira frente de alto potencial é a de drenagem pluvial. Envolve uma série de obras com utilização crescente de tubos de PEAD, em especial os tipos corrugados. Por exemplo, grandes condomínios, loteamentos, rodovias, aeroportos etc. E mesmo que a demanda de tubos e demais materiais plásticos de construção tenha recuado 4,3% em 2024, os insumos típicos da engenharia civil cresceram 5,5%. Portanto, as obras privadas continuam acontecendo, gerando demanda em drenagem. A propósito, não posso deixar de citar a ocorrência de calamidades climáticas ativando também a busca por soluções de drenagem, retenção e detenção de águas pluviais para mitigar efeitos devastadores de chuvas intensas.

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Esses três setores mencionados já configuram um porto seguro para tubos poliolefínicos diante da limitação de recursos do governo para infraestrutura?

Pode-se perceber que, apesar da velocidade menor das obras públicas de saneamento, nosso setor avança. A agricultura, a mineração e a drenagem vêm demandando por soluções específicas em tubos poliolefínicos. A prova aparece cio clareza neste nosso primeiro relatório anual: mesmo com um desempenho mais lento no campo da infraestrutura pública, nossa produção de tubos conseguiu crescer, distribuindo melhor sua demanda entre esses outros setores. Daí o crescimento de 5,3% em 2024 versus o saldo de 2023 apontado pela pesquisa na produção brasileira de tubos poliolefínicos. Daí também a previsão do setor, colhida em sondagem e divulgada neste relatório, de que teremos crescimento de cerca de 6,0% em 2025 em relação a 2024.

É isso que tem permitido ao setor atravessar a conjuntura atual: a diversificação dos mercados, a força da iniciativa privada em áreas que continuam crescendo e o foco em eficiência.

Relatorio ABPE final V2 15

Como a indústria de tubos poliolefínicos encara a viabilidade de cumprimento do programa de universalização do saneamento em 2030 diante das condições inibidoras para contrair financiamento para os investimentos necessários?

De fato, o grande desafio hoje é resolver esse descompasso entre a necessidade de ampliar investimentos e as condições de financiamento, ainda aquém do nível que permitiriam uma aceleração mais forte das obras. Quem precisa investir, mesmo tendo o compromisso contratual, acaba buscando postergar o quanto possível – sempre dentro do que é viável, claro, pois há planejamentos e cronogramas que precisam ser cumpridos. Mas é natural que, com juros altos e um cenário mais cauteloso, ninguém consiga avançar em ritmo acelerado para obras desse porte.

Aí entra um ponto crucial: o tempo está passando. Nós estamos entrando em 2026 e 2030 está muito próximo. Portanto, quando se observa o prazo que nos resta para universalização, é inegável que ele se mostra exíguo, pressionando todos os elos envolvidos. O setor enxerga isso com bastante realismo. A meta de universalização é importante e necessária, mas, da forma como as condições estão hoje, fica cada vez mais difícil afirmar que conseguiremos cumprir tudo dentro do prazo original.

Relatorio ABPE final V2 22

Mas o setor tem hoje envergadura e fôlego para investir no caso de uma expansão mais forte e rápida das redes de saneamento?

Apesar da dificuldade do custo do capital, existe um aspecto muito positivo: a capacidade de reação da indústria. Isso é importante sublinhar. A indústria de tubos poliolefínicos tem uma flexibilidade enorme. É perfeitamente possível ampliar linhas, colocar novas máquinas em operação em poucos meses e aumentar significativamente a capacidade instalada. Por sinal, o nível de ocupação dela, demonstra a nossa pesquisa, ainda está bastante baixo – menos de 40% em 2024. Portanto, se ocorrerem os ajustes necessários na economia, se o crédito estiver disponível em níveis adequados e os projetos começarem a avançar em ritmo acelerado, a indústria está preparada para responder rápido, tanto pela lacuna de ociosidade a ser preenchida em sua capacidade como pela via da rápida ampliação do parque fabril.

A produção nacional de PP e PE é limitada e não há investimentos anunciados em sua expansão. Como esta restrição na disponibilidade local de resinas pode turvar o crescimento da indústria de tubos poliolefínicos numa esperada fase de reaquecimento da demanda?

O que preocupa é que, se essa pressão vier de uma vez só, poderemos entrar num cenário de disputa acirrada por matéria-prima. Setores como agricultura, mineração e drenagem vão continuar demandando, não param. E se, de repente, saneamento acelerar muito, sem uma rampa de subida mais gradual e regida por planejamento, existe o risco de desequilíbrios, aumentos de preço, gargalos no abastecimento. O ideal seria que tivéssemos um crescimento mais distribuído ao longo dos anos, permitindo que toda a cadeia – da petroquímica às fábricas de tubos – fosse se ajustando de maneira mais previsível. Mas, como isso não depende da nossa indústria, o que nos resta é estarmos preparados. E é isso o que está acontecendo. Mesmo no atual cenário adverso, as empresas estão investindo de forma pontual e moderada, mas estão. Eficiência é a palavra de ordem, pois coloca as empresas em condições de reagir rápido quando a demanda aquecer.

Podemos dizer, portanto, que a indústria está pronta para reagir, mas preocupa o prazo de até 2030, determinado para universalizar o saneamento básico. Está ficando cada vez mais complicado garantir seu cumprimento. O setor tem condições de acompanhar um crescimento acelerado da demanda, mas o que realmente faz falta é uma previsibilidade maior para respaldar os investimentos, de modo que toda a cadeia consiga crescer e se adequar na cadência necessária.

Relatorio ABPE final V2 23

Quais os fatores que mais reprimem hoje em dia as possibilidades de o setor de tubos poliolefínicos expandir a contento sua mirrada participação de 2% na produção brasileira de transformados de PE e PP?

Quando se avalia essa participação de apenas 2% dentro do universo dos transformados poliolefínicos, é importante entender a dimensão enorme dos outros mercados que compõem esse total. A pesquisa da ABPE mostra que o mercado brasileiro de transformados tem volumes gigantescos em áreas como embalagens rígidas e flexíveis, utilidades domésticas, descartáveis, automotivo, têxtil, brinquedos e assim por diante. Então, quando se comparam o reduto de tubos – dedicado a um mercado muito específico – com setores que produzem bilhões de unidades por ano para o varejo, realmente a participação parece pequena. Mas essa comparação não deve ser encarada de forma tão direta.

Quanto aos fatores que acabam limitando uma expansão mais rápida do nosso setor, acredito que o primeiro ponto é o conhecimento. Apesar de a ABPE ter completado 31 anos de fundação em 2025, foi provavelmente nos últimos 10 anos que o mercado começou a conhecer mais profundamente os diferenciais dos tubos poliolefínicos, principalmente de PEAD. É um processo  ainda  em curso e os  diferenciais desses tubos se estendem pela vida útil, leveza, reciclabilidade, resistência para condução de água e esgoto e a baixa rugosidade que assegura excelência na eficiência hidráulica.

Poderia citar referências das aplicações marcantes de tubos poliolefínicos em sua ascensão no Brasil?

Um momento importante ocorreu à época do nascimento da ABPE, há cerca de 30 anos. Foi quando PEAD estava sendo inserido de forma profissional em redes de infraestrutura, como as de Porto Alegre (RS) e Limeira (SP). Elas mostravam reduções enormes de perdas de água de abastecimento pelas concessionárias dos dois municípios, saindo de índices acima de 50% para patamares na casa dos 20%. Esses estudos de caso evidenciaram então o potencial da solução de PEAD que, aos poucos, o mercado vem percebendo e contabilizando seu real impacto no saneamento.

Vale citar uma outra característica importante e que distingue bastante PEAD de outros materiais em dutos para saneamento: a possibilidade de se realizar sua fusão para a instalação de conexões. O sistema de tubulações para abastecimento de água em PEAD, a partir dessa característica, deve ser considerado contínuo, sem pontos de possível vazamento, dada a fusão do reduzido número de conexões com os tubos. Daí o porquê da ampla utilização dos sistemas em PEAD como estratégia para a redução de perdas de água de abastecimento. Outro fator relevante é o entendimento do sistema como um todo. Uma referência: o tubo de PEAD também acena com vantagens na sua instalação, a exemplo do método não destrutivo (MND). Ou seja, possibilita instalar tubulações subterrâneas ruas sem a necessidade de abrir valas, diminuindo assim o custo e impacto de uma obra urbana.

A China busca autossuficiência produtiva em PEAD, acelerando investimentos sem se preocupar com a rentabilidade em baixa devido ao excedente mundial da resina. Diante desse cenário, como a ABPE encara a possibilidade de, doravante, a China incrementar suas exportações de bens tradeable como os tubos de PEAD que já interna no Brasil? Qual a reação a esta hipótese cogitada pela ABPE?

Quando falamos da possibilidade de a China buscar sua autossuficiência em PEAD e, eventualmente, também realizar exportações de tubos para o Brasil, é claro que isso acende um alerta. Mas é importante contextualizar primeiro alguns pontos.

De início, o parque fabril nacional de tubos de PEAD é bastante robusto, está preparado para um aumento rápido de capacidade e opera hoje com baixa ocupação (abaixo de 40% em 2024). Lembro uma vez mais que, em poucos meses, qualquer fabricante consegue acrescentar uma, duas, até três novas linhas de produção, aumentando significativamente a oferta. Essa agilidade reduz muito o espaço para importações competirem, em especial quanto a tubos de grande diâmetro.

   Mas não se trata apenas de uma questão de capacidade e custo de produção. Em conjunto, temos um ponto crucial: a logística. Quando se trata de tubos maiores fabricados em barras, sejam os tipos lisos sob pressão ou corrugados para drenagem, seu transporte é muito caro e complexo, mesmo ao se utilizar a técnica da telescopagem (tubos de menor diâmetro inseridos nos de maior diâmetro), de forma a otimizar o volume das cargas. Isso dificulta a competitividade de qualquer produto importado em nosso setor. Tubo de PEAD é mais leve que o de metal ou concreto, mas o volume transportado permanece um fator crítico. Então, para grandes diâmetros, sinceramente, não vemos uma ameaça real no curto prazo.

Onde pode haver preocupação? Nos tubos de pequeno diâmetro, em particular os vendidos em bobinas. Nesse caso, a logística pode não ser um entrave para importações, inclusive da China. Essa hipótese constitui ponto merecedor de nossa atenção — não uma ameaça imediata, mas algo que precisamos monitorar com responsabilidade, principalmente no âmbito da garantia da qualidade desses materiais do exterior, comprovando-se o seu atendimento às normas de produção e aplicações.

É por isso que a ABPE reforça e tem dado total ênfase aos programas de qualidade. A questão é garantir isonomia. Se um tubo vier de fora, que desembarque cumprindo rigorosamente as normas brasileiras ou internacionais equivalentes. E que seja possível atestar este cumprimento aqui no Brasil. Daí a importância de duas iniciativas da ABPE: o Programa de Garantia da Qualidade (GQ01) e o Programa Setorial da Qualidade que estamos estruturando no âmbito da ferramenta PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat) e começando pelos tubos lisos, sob pressão, destinados principalmente à condução de água potável. Por isso, a ABPE insiste nesse ponto da isonomia técnica. Se o importado atende à norma e entrega qualidade comprovada, compete de igual para igual. Agora, se chegar ao país um produto fora de especificação, sem testes, sem garantia, com preço artificialmente baixo, não estamos falando de concorrência. Estamos falando de risco para o usuário final e para toda a sociedade – que é quem paga a conta ao final do processo.

Outro ponto que acompanhamos de perto é a matéria-prima. A China pode aumentar exportações de resinas, assim como já ocorre com os EUA. Isso faz parte do mercado global e, desde que garantida a qualidade, pode até contribuir para competitividade dos nossos tubos. O que não pode — e isso vale para matéria-prima e o produto acabado – é que se perca de vista a eficiência da cadeia nacional. A indústria brasileira de tubos de PEAD é altamente eficiente e está em constante evolução. A concorrência saudável é positiva, porque estimula o processo de melhoria contínua.

Então, sim: há pontos de atenção na hipótese de incremento das exportações chinesas. Mas a resposta correta não é protecionismo, mas qualidade, isonomia, transparência e fortalecimento contínuo da cadeia nacional. Tudo isso garante que a sociedade, o elemento mais importante nesse processo, receba produtos confiáveis, duráveis e sustentáveis.

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