Queimaduras de terceiro grau em seu mercado são o gatilho da atual chiadeira da indústria química europeia contra o maremoto de materiais chineses a preços sem igual, relata no site da consultoria Icis o analista Will Beacham. O período 2000-2024, ele situa, deve marcar a China com baixo crescimento econômico, quadro que converge em reação óbvia para a desova internacional do excedente de materiais locais. Conforme postado à larga na mídia mundial, a China não reage a contento desde o fim da pandemia, tendo passado depois por lockdowns intermitentes e sofre hoje com investimentos insuficientes em suas indústrias, demanda hesitante, estouro da zilionária bolha imobiliária e agravantes divulgados tipo um entre cinco de seus jovens estar desempregado.
Beacham retoma sua linha de raciocínio notando que novos projetos de produção de químicos vingarão na China este ano e em 2024, totalizando uma superlativa capacidade da ordem de 232,5 milhões de t/a e envolvendo em seu bojo poliolefinas, PET, estireno, ácido tereftálico purificado (PTA) e bisfenol A (BPA). O consultor argumenta que a crescente superoferta chinesa deprime os preços internos dos materiais em questão e baixa os custos de suas matérias-primas. Em efeito colateral, isso exaure a competitividade da concorrência europeia, cujos preços e margens já foram sangrados pela magreza da demanda doméstica e pela alta dos custos de energia, sequela da guerra da Rússia contra Ucrânia. Desse modo, amarra as pontas Beacham, as margens da petroquímica da União Europeia (UE) seguiram negativas em 2022, embora tenham começado a voltar de leve ao azul deste ano, mérito também das vias de suprimento energético reformuladas, em reação aos cortes de gás russo por Putin, pelo parlamento do bloco comercial.
Mas o vento ainda não virou a favor, alerta o analista. Como referência, ele aponta para a atual ocupação média de 65-70% de crackers europeus, em reação à demanda e margens de lucro insatisfatórias no continente. Se o jogo não virar, ele condiciona, alguns crackers perigam interromper as operações.
O consultor fecha a análise com uma alusão sintomática a PET. Em março último, informa, a UE abriu investigação oficial, a pedido da indústria local, de suspeita de dumping nos desembarques do poliéster da China. Beacham espera para outubro próximo os resultados da vistoria e, se provada a prática da venda do material a preço inferior aos do mercado internacional, a sobretaxa tarifária deve vigorar na UE a partir de abril do ano que vem.