Punhalada prevista do Irã na guerra com EUA e Israel, o bloqueio do Estreito de Ormuz afeta mais da metade da capacidade global de eteno e periga implicar corte da ordem de 22 milhões de toneladas deste petroquímico básico em sua produção mundial em 2026, reza cálculo da consultoria S&P Global Energy CERA. Essa perda ajuda a alimentar o temor generalizado com uma recessão mundial, a partir do drama na Ásia, onde os estragos da guerra no suprimento internacional de matéria-prima (petróleo, gás e nafta) para o maior núcleo da petroquímica do planeta explicam o surto atual de encerramentos de crackers não integrados e de paradas por força maior de plantas de resinas.
No consenso dos analistas, o conflito no Oriente Médio não alivia o excedente internacional de resinas, empacado há quatro anos na depressão da demanda e margens de lucro para indústrias produtoras. A conjunção dessa superoferta global com a economia brasileira à mercê do populismo estilhaçaram o balanço de 2025 da Braskem, único produtor no país de poliolefinas e o maior dos dois de PVC. Entre as divulgadas cifras sintetizadoras do fiasco no último período, constam o prejuízo líquido de R$9.89 bilhões; dívida bruta corporativa de R$ 9.4 bilhões e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 3.156 bilhões (- 45% perante saldo de 2024).
Sinais de desgaste
Maior mercado da companhia, o desempenho operacional no Brasil teve o tom modulado pela insatisfatória taxa de ocupação de 59% na capacidade local de eteno. O saldo capta a conjunção de um mercado interno inapetente com uma sobra global de petroquímicos matadora de spreads (diferença entre preços da resina e da matéria-prima).
Desde 2022, o governo brasileiro se esbalda na distribuição de capital via benefícios e aumento do salário mínimo acima da subida geral de preços, resultando em incremento real de renda, consumo e de empregos sem ganhos de produtividade, complicando o controle da inflação pelo Banco Central. No entanto, pintou ferrugem nessa coreografia em 2025, agravada desde fevereiro último pelo baque da guerra no Irã. Entre os sinais de desgaste, figuram o abrandamento da demanda de bens não duráveis (maior palco dos plásticos) por forças como o nível de endividamento por 80,2% das famílias, conforme aferição em fevereiro da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, e segundo o registro de 5.680 processos de recuperação judicial e extrajudicial em 2025, atesta a plataforma Monitor RGF.
Ociosidade significativa
Ponto em comum entre os negócios de poliolefinas e PVC da Braskem no Brasil: pelo histórico a partir de 2017, a empresa amargou seus piores níveis de ocupação da capacidade e de volumes de vendas internas em 2025. No cercado de polietileno (PE), divulga a empresa, sua capacidade nominal de 3.204.000 de t/a (fora 200.000 de PE Verde, base etanol) rodou com ociosidade na faixa de 32%. A produção de PE base fóssil fechou 2025 com cúmulo de 2.181.379 toneladas e a do grade verde totalizou 116.913 toneladas. Em 2024, os respectivos indicadores foram os seguintes: 2.238.296 toneladas e 192.955 toneladas. No ano passado, as vendas domésticas de PE convencionais restringiram-se a 1.593 .589 toneladas versus 1.164.111 em 2024, enquanto as do tipo verde limitaram-se a 21.601 toneladas no último período, bem de leve acima das 19.482 do saldo anterior. Quanto às exportações em 2025, a Braskem exportou 660.607 toneladas de PE petroquímico contra 621.725 em 2024 e 160.676 do grade verde versus 171.204 no exercício precedente. Por fim, sonares do governo captam as importações brasileiras de PE em 1.907.768 toneladas no ano passado, pouco atrás das 1.923.141 aferidas em 2024.
Polipropileno (PP) completa o mix de poliolefinas da Braskem. Em 2025, ela veicula ter operado sua capacidade nominal de 1.905.000 t/a do polímero com ociosidade na média de 31%. Produziu 1.294.677 toneladas no exercício passado, aquém do registro anterior de 1.379.965 toneladas. As vendas internas emplacaram 1.117.212 toneladas de PP em 2025, abaixo da marca precedente de 1.210.415 toneladas, As exportações, por seu turno, cravaram 204.297 toneladas no ano passado contra 185.774 no período anterior. Por fim, as importações brasileiras de janeiro a dezembro último, pelo monitoramento do governo, alcançaram 698.579 toneladas de PP face às 723.281 contabilizadas em 2024.
Exportações simbólicas
2026 pinta como o oitavo ano em que a Braskem vai operar sua capacidade de 730.000 t/a de PVC abaixo do limite mínimo de viabilidade econômica, efeito da descuidada mineração de sal gema (insumo do vinil) pela empresa, hoje encerrada e causa do desastre geológico em 2018 em Alagoas. A fração complementar da capacidade nacional do polímero vinílico cabe às 300.000 t/a da Unipar.
No ano passado, a Braskem rodou com ociosidade de 39% seu potencial produtivo de PVC, tendo provido 439.082 toneladas contra 461.810 em 2024. Quanto às vendas internas, ficaram em 455.682 toneladas em 2025 perante 489.881 do balanço anterior. As exportações permanecem simbólicas desde 2018 – ou seja, 450 toneladas no último período e zero no anterior. Por fim, nas contas do governo, desembarcaram aqui 643.336 toneladas do vinil em 2025, degraus acima das 580.086 toneladas em 2024.
Na trilha descortinada pela performance da Braskem e por declarações veiculadas sobre desabastecimento de materiais causado pela guerra no Irã, a Associação Brasileira da Indústria Química sustentou na mídia em 31/3 não haver insuficiência estrutural de produção no setor e que o país tem ampla capacidade disponível para poliolefinas e PVC.


