FCC entra de sola na produção de poliuretano termoplástico expandido

Nacionalização do pellet visa ampliar um mercado suprido por importações
FCC entra de sola na produção de poliuretano termoplástico expandido

Com 57 anos de bagagem em especialidades poliméricas, a gaúcha FCC vislumbrou uma brecha para crescer na América Latina duelando com o poderio da China em escala e traquejo no comércio internacional. O pulo do gato é o poliuretano termoplástico expandido (E-TPU), com cadeira cativa em entressolas. Sua produção mundial é liderada pela China, mas seu assédio ao setor calçadista latino americano, segmento presidido pelo Brasil no Ocidente, emperra na baixa densidade (0,35-0,64 g/cm³) do grânulo de TPU expandido por calor e pressão, pois ela onera em demasia o custo logístico das exportações e, por tabela, restringe o uso de E-TPU a entressolas de sapatos mais caros. Estratégia da FCC: importar da Ásia TPU sólido (densidade de 1,10-1,25 g/cm³) e expandí-lo aqui com competitividade econômica inatingível pelas remessas da China.Com aporte de R$ 20 milhões, a FCC montou e anunciou ao final de setembro a partida, em Campo Bom, região metropolitana de Porto Alegre (RS), de sua fábrica apta a expandir TPU em volume suficiente para a produção ao redor de 1,5 milhão de entressolas mensais e considerada a única planta no gênero da América Latina. Na entrevista a seguir, Marcelo Reichert, CEO da FCC, detalha o empreendimento e suas perspectivas.

“A capacidade da FCC é consideravelmente maior que o consumo de E-TPU no Brasil e América Latina”

Marcelo Reichert, FCC

Marcelo Reichert CEO da FCC

Foto: Maicon Hinrichsen

Como avalia a escalada das importações brasileiras de E-TPU importado pelo Brasil em 2025 e quais as principais origens?

Embora uma parte pequena das importações de E-TPU venha em pellets, a maior parte chega no formato de entressolas prontas, já termoformadas. Essas peças prontas não entram em uma NCM (código Nomenclatura Comum do Mercosul) específica que as diferencia de solas fabricadas com outros materiais. O que sabemos é que esta tecnologia tem atraído o interesse dos principais calçadistas do Brasil e a maioria já testou o mercado com algum modelo de E-TPU na sua linha. A principal origem das importações, tanto de E-TPU em pellets quanto em entressolas termoformadas, é a China. O crescente interesse notado nos últimos cinco anos na indústria nacional de calçados decorre da enorme evolução desta tecnologia, viabilizando a criação de entressolas cada vez mais sofisticadas, versáteis e com acabamentos que permitem enfatizar ou ocultar de todo o visual tradicional associado a E-TPU. A ampliação dessas possibilidades permite que a tecnologia seja utilizada em diferentes propostas de calçados, o que incentiva a inovação e, assim, cria oportunidade para a indústria ampliar o leque de opções em design com performance para o cliente final. Este movimento vai ao encontro do que a FCC se propõe: criar condições para o desenvolvimento do mercado calçadista nacional.

Além de entressolas, quais produtos acabados de E-TPU o Brasil importa?

Até o momento, as importações do Brasil se concentram em entressolas ou pellets para a fabricação delas. Existem aplicações consolidadas em outros países e ainda pouco exploradas aqui, como bancos de bicicleta, encostos de cabeça em bancos automotivos, rodas de carrinhos e pisos para pistas de corridas. E-TPU foi uma das tecnologias escolhidas para investimento da FCC justamente pela versatilidade e performance.

E-TPU: densidade encarece logística de exportações da China para o Brasil

E-TPU: densidade encarece logística de exportações da China para o Brasil.

A capacidade instalada de 150 t/mês da FCC corresponde a qual participação no mercado brasileiro de E-TPU?

A demanda brasileira de E-TPU do Brasil é muito pequena, por depender até o momento de importação, o que encarece o seu uso e traz diversos riscos aos clientes. Dessa forma, a nacionalização do pellet pela FCC visa, em essência, ampliar um mercado em desenvolvimento. Por esta lente, a capacidade produtiva da FCC é consideravelmente maior do que o consumo total de E-TPU no Brasil e na América Latina. A nova planta foi construída com a previsão de ampliação modular, mediante a conexão de mais reatores, para aumentar a capacidade em linha com o crescimento da demanda. A FCC conta também com equipe técnica para facilitar a adaptação do seu polímero expandido às necessidades dos clientes.

Por quais razões a FFC só decidiu recentemente ingressar na expansão desse material, desde quando o traz e a nova planta diminuirá ou eliminará essas importações? A FCC pretende termoformar entressolas com seu E-TPU?

No plano mundial, a expansão do mercado de E-TPU é relativamente nova e evoluiu muito nos últimos anos. A tecnologia adquirida pela FCC, por exemplo, é capaz de produzir o grade que pode ser termoformado, resultando em entressolas de altíssimo desempenho e sem deixar visíveis as bolinhas do material, algo inviável com a tecnologia disponível alguns anos atrás.

A FCC fez a primeira importação de E-TPU em 2025, para iniciar o desenvolvimento do mercado antes da produção própria. Neste pre-marketing de sua planta, a empresa avaliou tecnologias e estruturou a operação a partir das necessidades identificadas na indústria usuária do poliuretano expandido. Com a nova fábrica, a FCC espera suprir integralmente a demanda com a produção local.

A termoformagem hoje realizada na FCC visa apenas o controle de qualidade e identificação de oportunidades de aperfeiçoamento. No mercado brasileiro, já existem transformadores se especializando em solados e entressolas de E-TPU para terceiros. Eles podem atender calçadistas que desejam incorporar essa tecnologia às suas linhas de produtos antes de se verticalizarem na termoformagem.

Em quais aplicações no Brasil E-TPU reina absoluto, sem disputa com TPU e copolímero de eteno e acetato de vinila (EVA) e por quais motivos?

E-TPU tem aumentado sua versatilidade nos últimos anos. De início, era um produto viável apenas para calçados esportivos de altíssimo desempenho e elevada faixa de preço. Hoje em dia, este termoplástico já é uma realidade também para aplicações mais econômicas, inclusive em sapatos casuais, palmilhas e outras aplicações que buscam proporcionar conforto, leveza, durabilidade e visual. Suas características de praticamente eliminar perdas de processo e ser reutilizável já o tornam uma alternativa mais econômica que EVA em diversos casos. E-TPU não substituirá por completo este copolímero, pois cada tecnologia tem aplicações com necessidades distintas, mas deve capturar parte do mercado  suprido por ele.

Existem outras tecnologias de materiais também utilizadas em entressolas, como elastômero termoplástico (TPE) ou de poliéster termoplástico (TPEE) e E-TPU expandido não por pressão e calor, mas por nitrogênio na própria forma do calçado.  Por atributos como leveza, vida útil e amortecimento responsivo (ultra elástico), E-TPU é o material supremo no mundo para entressolas e daí porque a FCC o escolheu para este investimento.  

Entressolas: E-TPU extrapola elite dos calçados esportivos para ganhar modelos casuais e ameaça espaço de EVA.

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Qual a marca e origem do maquinário adquirido pela FCC para sua planta de E-TPU?

A FCC explorou diversas tecnologias de potenciais parceiros em diversos países. Foi na China que ela encontrou um parceiro com tecnologia de expansão dotada de flexibilidade e versatilidade para preencher as expectativas do mercado brasileiro. Os equipamentos que compõem a nova unidade têm origem em mais de um país e suas marcas são informações confidenciais.

A China lidera a produção mundial de TPU e E-TPU, reunindo plantas a partir de 100.000 t/a. Como a FCC planeja abrir espaço no Brasil com esse concorrente, formador de preços internacionais à sombra de escalas avantajadas e custos imbatíveis?

Embora a China tenha vantagens de escala em TPUs, está em  enorme desvantagem para comercializar E-TPUs na América Latina. A razão da inferioridade logística decorre da necessidade de o material precisar ser transportado já no formato expandido. Dessa forma, uma remessa de E-TPU da China, com densidade de aproximadamente 0,12 g/cm³ ocupa espaço aproximadamente 10 vezes maior por peso transportado que um TPU em formato compacto. Num container de 45 pés, é possível armazenar apenas 4 toneladas de E-TPU. Em essência, portanto, se está pagando para transportar ar, o que torna o frete da Ásia até o Brasil muito caro. Com a produção local, a FCC pode transportar a matéria-prima (TPU) do exterior em formato compacto e expandir o produto próximo ao seu consumo aqui, desfrutando vantagem logística importante para atender o mercado local.

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