Zandei vai soprar embalagens em Minas em 2027

Mercado do Sudeste move expansão da transformadora gaúcha
Zandei vai soprar embalagens em Minas em 2027

Apesar do endividamento recorde apunhalando orçamentos domésticos, o segmento de produtos de higiene & beleza deve fechar 2026 com faturamento da ordem de R$ 258.8 bilhões ou 6,8% acima da receita de 2025, crava pesquisa IPC Maps. O resultado consagra este reduto como ativo fixo das despesas essenciais do brasileiro e, pelo levantamento, as vendas devem ser lideradas por São Paulo, com R$ 66.6 bilhões; Minas Gerais, com R$ 25 bilhões e Rio de Janeiro, com 17.7 bilhões. Esta supremacia do Sudeste e a âncora de um desempenho que, sob chuva ou sol na economia, cresce dois dígitos anuais levam hoje a Zandei Indústria de Plásticos, prenda gaúcha no sopro de polietileno de alta densidade (PEAD) a preparar sua primeira expansão extrarregional. Pelo cronograma traçado, esta empresa fundada em 1989 e com matriz em Guaporé e filial em Dois Lajeados, vai incorporar no primeiro trimestre de 2027 uma fábrica modelo de embalagens em Andradas, sudoeste mineiro, aos pés da Serra da Mantiqueira. O investimento é esmiuçado nesta entrevista por Edilson Luiz Deitos, fundador e diretor da Zandei e megafone do plástico no Rio Grande do Sul.              

“Nossa opção é construir em Andradas uma operação que possa ganhar escala progressivamente”

Edilson Luiz Deitos, Zandei

Edilson Luiz Deitos, Zandei

Qual o capital aplicado, capacidade instalada, data de partida e razão social da filial em Minas?

O investimento previsto para esta etapa inicial supera R$ 15 milhões. A implantação será gradual, acompanhando a formação da equipe local, a consolidação dos processos e a evolução da demanda. A unidade em Andradas iniciará com quatro sopradoras elétricas e uma equipe e 35 colaboradores. O cronograma prevê a conclusão das obras para o final de dezembro e partida da produção em março de 2027. Este intervalo será destinado à instalação e ao comissionamento dos equipamentos, treinamento dos profissionais e à validação dos produtos e processos. A fábrica operará como filial da Zandei Indústria de Plásticos Ltda., mantendo a mesma razão social. Sua capacidade nominal inicial será de 55 t/mês equivalente a 660 t/a.

Nossa opção é construir uma operação que possa ganhar escala progressivamente. Na fabricação de embalagens, ampliar capacidade exige assegurar também a repetibilidade do processo, a qualidade e regularidade das entregas.

Com esta nova unidade, a capacidade total da Zandei Plásticos subirá para quantas t/a?

Com Andradas, a capacidade total nas nossas três plantas ultrapassará 3.500 t/a. Por sinal, a nova unidade também nos permitirá distribuir melhor o atendimento entre as operações. Além de acrescentar capacidade, teremos uma base produtiva mais próxima de uma parcela expressiva dos clientes, com maior flexibilidade para organizar a produção e entregas.

Com quais resinas a nova planta vai operar e quais tipos de embalagens e tampas fornecerá? Na partida, terá quantas sopradoras e quantas injetoras?

Na primeira etapa, a unidade trabalhará exclusivamente com polietileno no sopro de embalagens destinadas aos setores cosmético e farmacêutico. Contará, de início, com quatro sopradoras elétricas. As injetoras serão incorporadas num segundo estágio, assim como os equipamentos de rotulagem e serigrafia, ampliando as possibilidades de fabricação e acabamento.

O projeto para Andradas contempla a utilização de 30% de resina reciclada pós-consumo (PCR) nas aplicações tecnicamente adequadas e já aprovadas pelos clientes, observando as exigências aplicáveis de logística reversa. A propósito, estamos cadastrados na plataforma Recircula Brasil, coordenada pela Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), para apoiar a rastreabilidade, valorização e comprovação da circularidade dos resíduos plásticos utilizados em nossa cadeia produtiva. A incorporação de PCR exige controle da matéria-prima, estabilidade de processamento e validação das características da embalagem. Nosso objetivo é combinar conteúdo reciclado de origem rastreável com desempenho, qualidade visual e segurança de uso.

Andradas: acesso ao mercado paulista e incentivos fiscais de Minas atraíram a Zandei

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Por quais motivos o Sudeste, Minas Gerais e Andradas foram selecionados para sediar a nova planta da Zandei?

A decisão reúne fatores logísticos, comerciais e tributários, mas o principal é a proximidade dos clientes. Afinal, embalagens rígidas sopradas ocupam um elevado volume ocupado em relação ao seu peso. Isso faz com que o transporte tenha uma influência importante no custo final e na eficiência do atendimento. Produzir próximo ao mercado consumidor reduz distâncias, facilita a programação das entregas e melhora nossa capacidade de responder às necessidades dos clientes.

Em frente: Andradas, na divisa de Minas com São Paulo, nos permitirá atender mais de 50% dos nossos clientes em um raio de aproximadamente 300 km. Essa localização reúne o acesso ao mercado paulista e a proximidade de importantes polos consumidores de embalagens.

Minas Gerais também apresentou condições de incentivo que contribuíram para viabilizar o projeto e poderão ajudar na amortização dos investimentos durante a transição tributária. Aliás, a eficiência logística terá, com a vigência da reforma tributária, peso crescente na competitividade das empresas. A redução de distâncias, a melhor utilização da capacidade produtiva e o planejamento integrado entre produção, armazenagem e distribuição serão cada vez mais relevantes para controlar custos e assegurar regularidade no atendimento. Nesse contexto, a unidade de Andradas reforça nossa estratégia de operar mais perto dos mercados consumidores, com maior agilidade, previsibilidade e eficiência logística.

Quais as motivações para implantar a fábrica numa conjuntura de juros elevados, inadimplência e demanda desaquecida?

Reconhecemos as dificuldades do ambiente econômico. Juros elevados tornam o investimento mais exigente, e a incerteza sobre o consumo recomenda cuidado na expansão. Entretanto, nossa decisão se apoia no desempenho da Zandei, na relação construída com os clientes ao longo desses 36 anos e em uma estratégia de longo prazo.

A empresa vem registrando crescimento anual superior a dois dígitos. Em 2026, mesmo descontando o efeito médio dos reajustes de preços, estamos com crescimento real acima de 10%. A inadimplência permanece baixa: no fechamento de setembro, o indicador de títulos vencidos na faixa de até 60 dias foi de 0%. Esses resultados nos dão confiança para investir, mas também reforçam a importância de preservar a disciplina comercial e financeira. Por isso, a implantação da operação em Andradas será gradual, acompanhando a demanda e a capacitação da equipe.

A nova fábrica tem ainda uma função competitiva: reduzir a distância até os clientes e melhorar o custo de atendimento. Esse ganho é relevante inclusive em períodos de mercado mais fraco.

Também vemos a transição tributária e a implantação do split payment (mecanismo de pagamento que divide automaticamente o valor de uma transação financeira entre o vendedor e o governo) como fatores que poderão alterar as condições de concorrência. Nossa expectativa é de que a conformidade tributária, o controle financeiro e a eficiência operacional ganhem importância ainda maior. Estamos estruturando a expansão da Zandei com essa perspectiva.

A filial mineira permitirá à Zandei entrar em mercados nos quais ainda não atua?

A primeira etapa de Andradas terá foco nos setores cosmético e farmacêutico. A localização, porém, abrirá oportunidades para prospectar outros mercados e identificar aplicações compatíveis com nossa tecnologia e capacidade produtiva. A entrada em segmentos como agroquímicos, lubrificantes ou bebidas dependerá de demanda, requisitos técnicos, homologações e viabilidade econômica. Queremos ampliar a atuação de maneira consistente.

Uma diversificação já em desenvolvimento é a fabricação de bisnagas plásticas extrusadas, um mercado novo para a Zandei, mas para o qual já existe demanda de nossos clientes atuais. A primeira linha será instalada na matriz, em Guaporé (RS), para podermos dominar a tecnologia, estabilizar o processo e desenvolver os produtos com os clientes. Depois dessa etapa, o plano é ampliar a produção de bisnagas para Andradas. O projeto contempla extrusão multicamada e diferentes possibilidades de decoração, permitindo atender às exigências funcionais e de apresentação das marcas de cosméticos.

bisnagas

Bisnagas: Zandei estreia produção na matriz e planeja extensão para filial em Andradas

A planta em Andradas começará com quantos funcionários na produção e nas áreas comercial e administrativa?

A previsão inicial é de 35 colaboradores na operação industrial, organizada em quatro turnos para funcionamento 24 horas por dia. O suporte administrativo e comercial será centralizado na matriz, de início sem uma equipe própria dessas áreas. O crescimento desse staff acompanhará a evolução da operação. Precisamos formar profissionais que compreendam o processo e consigam manter os padrões de qualidade e produtividade definidos pela empresa.

Andradas passou, recentemente, pelo fechamento de uma unidade industrial que empregava cerca de 400 pessoas. Estamos recebendo e avaliando currículos desses profissionais para as necessidades da nova fábrica. Há uma oportunidade de aproveitar competências locais e complementá-las com treinamento específico.

Será necessário transferir profissionais capacitados das outras fábricas da Zandei?

Sim. Na fase inicial, alguns técnicos das duas unidades do Rio Grande do Sul serão deslocados para Andradas para apoiar a instalação, a partida dos equipamentos e a formação da equipe local. Esse apoio será importante para transferir conhecimento de processo: regulagem das máquinas, identificação de desvios, controle de qualidade, manutenção e organização da rotina produtiva. O objetivo é desenvolver uma equipe local com autonomia. A experiência acumulada nas unidades existentes será a base desse treinamento e ajudará a reduzir o tempo de aprendizado.

Quais recursos de automação e digitalização serão utilizados em Andradas? Haverá inteligência artificial?

O projeto foi concebido para alcançar um nível elevado de automação. As sopradoras serão 100% elétricas, e estamos prevendo recursos de inspeção, movimentação e acondicionamento que reduzam tarefas repetitivas e melhorem a regularidade da produção. Entre os recursos planejados figuram inspeção óptica das embalagens, testes de estanqueidade para identificação de furos e vazamentos e empacotamento automático. A definição de cada solução acompanha o detalhamento das linhas e das embalagens que serão produzidas.

Na digitalização, a proposta é integrar o chão de fábrica ao sistema de gestão, com coleta de dados sobre produção, paradas, perdas e desempenho dos equipamentos. Isso permitirá identificar as causas dos problemas e orientar ações de manutenção, ajustes de processo e treinamento.

Também estamos estruturando o projeto para incorporar sensoriamento e acompanhamento mais próximo das condições de operação. O valor desses recursos está em transformar dados em decisões que aumentem a produtividade e reduzam desperdícios.

Quanto à inteligência artificial, vemos potencial para adoção na análise de desvios, apoio à manutenção e identificação de padrões de qualidade. Sua utilização será avaliada conforme a disponibilidade de dados confiáveis e os resultados que cada aplicação puder entregar.

A automação também muda o perfil da necessária qualificação de pessoal. Precisaremos preparar os colaboradores para operar os equipamentos, interpretar informações e agir sobre o processo. Tecnologia e formação profissional serão desenvolvidas em conjunto.

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