Luiz Fernando Marinho Nunes
consultor da ChemVision
“O atraso dos projetos de plantas de pirólise e craqueamento térmico tem sido a tônica, o que é um bom indicador da perspectiva de viabilidade.”
Reciclagem química é um termo bastante genérico, que abriga diferentes processos e fontes de matérias-primas, sendo os principais listados a seguir:
- Despolimerização a monômeros ou oligômeros. Mais comum para o PET.
- Pirólise e craqueamento térmico ou catalítico. É a rota para poliolefinas e mistos, e produz óleo (Pyoil) que segue para o craqueador a vapor.
- Gaseificação. Produz gás de síntese para metanol ou olefinas.
- Co-processamento em refinaria.
Considerando a menção na pergunta às plantas no México e Colômbia, entendo que o seu foco é a pirólise dos plásticos, para posterior processamento em um cracker, ou para ser coprocessado em uma refinaria.
Ambas a unidades mencionadas, tanto no México como na Colômbia, operam com quantidades pequenas, de poucas toneladas por dia, podendo ser melhor caracterizadas como unidades piloto.
Já que é assim, o projeto anunciado pela Braskem, com a participação da Fábrica Carioca de Catalisadores (FCC S.A.), do SENAI CETIQT e da COPPE/UFRJ, mereceria ser incluído, indicando, ao contrário, que também o Brasil atrai este tipo de investimento. A evolução deste projeto deve ser confirmada.
Ampliando o universo das unidades existentes, vamos encontrar plantas em outras regiões do planeta. Mas todas elas estão aquém de ter uma capacidade industrial compatível com as escalas típicas da petroquímica. A maiores operam na faixa de 50.000 t/a (dado obtido em pesquisa não sistemática), o que talvez as coloquem no nível de unidade protótipo. O atraso dos projetos tem sido a tônica, o que é um bom indicador da perspectiva de viabilidade.
A verdade é que a reciclagem térmica ou catalítica não parece oferecer uma solução abrangente para a questão do descarte dos plásticos. A dificuldade começa na seleção dos insumos, onde a presença de PVC, Poliestireno e PET é problemática, pelos efeitos sobre o processo.
Para uma visão das perspectivas futuras, é importante avaliar melhor o Nível de Prontidão Tecnológica ou TRL (Technology Readiness Level) dos processos – desde a coleta e seleção dos plásticos a serem reciclados ao processamento final do Pyoil no craqueamento em uma central petroquímica.
Portanto, à semelhança das questões da Transição Energética onde diversas alternativas como CCUS (tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono), o uso não químico do hidrogênio e a substituição de combustíveis fósseis por renováveis não serão soluções universais. No entanto, podem preencher elementos da equação que levem aos resultados desejados. A reciclagem química dos plásticos está longe poder ambicionar ser a solução definitiva para o destino dos plásticos em qualquer horizonte futuro. Ainda assim, pode – e deve – ser perseguida, como forma de resolver situações particulares.
Simone de Faria
diretora da consultoria Townsend Solutions para a América Latina
“Como viabilizar coleta e logística para devolver as centenas de toneladas de flexíveis descartadas às recicladoras?”
A resposta rápida é que o investimento é muito alto para o resultado obtido. Mas pode ser necessário, no futuro, se as restrições legislatórias exigirem. No entanto, antes de chegarmos a este destino para os resíduos de plástico, precisamos encontrar soluções para a coleta e logística que permitam direcionar os flexíveis pós-consumo às plantas de reciclagem química.
Evoluimos muito na reciclagem mecânica e considero que temos equacionado praticamente tudo o que é possível reciclar. São várias iniciativas para coletar tampinhas, embalagens sopradas, baldes de tintas, bombonas etc. A coleta, separação e redirecionamento desses resíduos às indústrias de reciclagem já é prática real e corriqueira. O que precisamos equacionar são os resíduos flexíveis. E são eles a maior parte dos plásticos de uso único nas embalagens – mais de 2 milhões de t/a entre PE e PP acondicionando arroz, feijão, farinha, açúcar, sal, a cesta básica do brasileiro enfim. E como viabilizar a coleta e principalmente a logística para devolver as centenas de toneladas de embalagens flexíveis descartadas para as recicladoras? Imagine o custo (financeiro e ambiental) de transportar embalagens flexíveis – leves e volumosas – descartadas?
Na mão oposta das recicladoras mecânicas, que podem ser colocadas em regiões espalhadas pelo Brasil, o nível técnico de uma planta de reciclagem química não permitiria a sua construção em qualquer lugar. Portanto, mesmo que estejam próximas de grandes centros urbanos – maior gerador de resíduos (sua matéria-prima), ainda assim será necessário trazer material descartado de longas distâncias para serem processados. E não basta produzir o óleo de pirólise. São necessárias etapas adicionais de hidrotratamento e remoção de contaminantes antes de alimentar os crackers petroquímicos para efetivamente fechar o ciclo. Não vejo essa conta fechar. Na Colômbia isso foi possível, porque quem desenvolveu a reciclagem química foi a própria petroquímica, ganhando em imagem e não em resultado financeiro.
Edilson Deitos
diretor da Zandei Plásticos
“México e Colômbia oferecem referências mais avançadas que o Brasil sobre a integração para viabilizar a reciclagem química”
O Brasil continua atraindo iniciativas de reciclagem química, mas ainda não consolidou nenhuma delas em escala comercial relevante. Em 2022, Braskem e Valoren anunciaram uma unidade de pirólise em Indaiatuba, com investimento conjunto de R$ 44 milhões e capacidade projetada de 6.000 t/a de produtos circulares. Esses números descrevem um projeto anunciado, não um resultado operacional comprovado. Até que haja evidências públicas de implantação, funcionamento e produção, não é possível tratar essa capacidade como efetivamente disponível.
A situação financeira da Braskem pode limitar novos investimentos e afetar o ritmo de projetos em desenvolvimento. Ainda assim, não há elementos públicos suficientes para atribuir exclusivamente à empresa o estágio atual da iniciativa com a Valoren. A análise deve separar três fatos distintos: o anúncio do investimento, a eventual execução da unidade e a comprovação de produção em escala comercial.
México e Colômbia oferecem referências mais avançadas sobre a integração necessária para viabilizar a reciclagem química. No México, a Nestlé se associou à Greenback para processar embalagens flexíveis pós-consumo. Na Colômbia, Ecopetrol e Esenttia articulam recicladores, fornecedores de óleo de pirólise, refinaria, transformador e marca compradora. Esses casos evidenciam que a tecnologia, isoladamente, não basta: é preciso assegurar fornecimento regular de resíduos, contratos de compra de longo prazo, integração com a indústria petroquímica e rastreabilidade dos materiais ao longo da cadeia.
No Brasil, a prioridade deve ser transformar anúncios em operações verificáveis. Isso exige regras claras para comprovar quanto do plástico coletado é efetivamente processado e quanto retorna à fabricação de novos produtos. Sem essa comprovação, capacidade projetada, intenção de investimento e resultado ambiental não podem ser tratados como equivalentes.
A reciclagem química deve complementar, e não substituir, a reciclagem mecânica. Seu principal espaço está nos materiais que não encontram solução mecânica técnica ou economicamente viável e que, por isso, acabam destinados a aterros ou à incineração. Para atrair capital e evitar alegações ambientais sem base operacional, o país precisa garantir rastreabilidade, auditoria e critérios objetivos para contabilizar essa rota nas metas de recuperação e de conteúdo reciclado, preservando a reciclagem mecânica sempre que ela for tecnicamente possível.
Simone Ferreirinha
engenheira de vendas da Gneuss no Brasil
“Nossos custos logísticos encarecem o transporte dos materiais para reciclagem química”
Começo a resposta situando o Brasil na condição geográfica que possui: O Brasil é quatro vezes maior que o México e quase oito vezes maior que a Colômbia. Sendo um país continental, há uma limitação logística a reciclagem química. Afinal, uma planta demandaria da ordem de milhares de t/mês de resíduo a ser processado.
No Brasil, dependemos quase exclusivamente do modal rodoviário, suscetível às variações de preços de combustíveis fósseis, e há pouco investimento em outros tipos de transporte (como ferrovias), fator impactante em vários mercados que não o da reciclagem. Portanto, nossos custos logísticos encarecem o transporte dos materiais. Dessa forma, torna-se então mais vantajoso promover a reciclagem em pequenos negócios locais (característica da reciclagem mecânica), sem a necessidade de transporte de grandes volumes de materiais.
O residuo pode ser recuperado onde é gerado e, assim, transformado em nova embalagem que atenderá o mesmo mercado para a mesma aplicação (entre elas o acondicionamento de alimentos) sem a necessidade de grandes deslocamentos. Isso é possível através da reciclagem mecânica, com investimentos menores que a química e com grande eficiência energética promovendo a circularidade de verdade.
Quanto à higienização do plástico pós-consumo (principalmente para resíduos poliolefinicos) para contato com alimentos, ela já não é mais um tradicional apelo exclusivo da reciclagem química. Existem no mercado internacional tecnologias europeias para reciclagem mecânica de poliolefinas que asseguram descontaminação de grau alimentício com reconhecimento de entidades regulatórias nos EUA e Europa, sistemas estes que também viabilizam a reciclagem de embalagens flexiveis.
O processamento de estruturas multimaterial, também já é possível na reciclagem mecânica. Um exemplo: recipientes termoformados de PET/PE cujos resíduos podem ser reprocessados e destinados à produção de novas embalagens.
Outra grande vantagem da reciclagem mecânica em relação à química: o mesmo equipamento processa diferentes polímeros e requer menor investimento e menor grau de especialização na sua operação.
Em suma, a deficiência na coleta e separação de materiais e falta de incentivo a reciclagem permanecem desafios para os processos mecânico e químico. No entanto, a questão de descontaminação e processamento de embalagens multimaterial já pode ser solucionada através da reciclagem mecânica em volumes menores, em plantas instaladas ao longo do território brasileiro de forma a diminuir os custos logísticos com eficiência energética e modelos de negócios economicamente sustentáveis.
Luiz Henrique Hartmann
presidente executivo da Associação Brasileira Empresarial dos Recicladores de Plásticos (Abrerp)
“A cadeia para reciclagem química ainda não está estruturada no Brasil”
O Brasil tem uma indústria petroquímica capaz de absorver matérias-primas provenientes da reciclagem química. O que ainda falta é um ambiente econômico e regulatório que dê segurança ao investimento, mais capacidade de triagem automatizada que dê segurança de fornecimento.
Uma planta de reciclagem química exige alto investimento, fornecimento contínuo e qualificado de resíduos pós-consumo. Também requer, principalmente, previsibilidade quanto ao enquadramento do óleo de pirólise e ao reconhecimento do conteúdo reciclado por meio de sistemas certificados de rastreabilidade e balanço de massa.
México e Colômbia avançaram na integração entre coleta, reciclagem, indústria petroquímica e grandes consumidores. A Nestlé por exemplo bancou boa parte dos investimentos na unidade mexicana. No Brasil, essa cadeia ainda não está estruturada.
A regulamentação das metas de conteúdo reciclado nas embalagens plásticas, de acordo com o decreto 12688/25, pode ajudar a mudar esse cenário criando demanda efetiva por matéria-prima circular. Mas é fundamental que a reciclagem química seja tratada como complementar à tecnologia mecânica, em especial para resíduos plásticos pós-consumo que hoje apresentam baixa ou nenhuma viabilidade de reciuperação física.
Um dos problemas centrais deste atraso, também se refere ao custo Brasil do investimento industrial. Afinal, uma planta de reciclagem química precisa, simultaneamente, de licenciamento ambiental, contratos de fornecimento contínuo de resíduos, tecnologia, financiamento, tratamento tributário previsível, comprador do óleo de pirólise e integração com petroquímica/refinaria. Quanto maior a incerteza em qualquer desses elementos, maior o retorno exigido pelo investidor.
Portanto, o problema brasileiro não é falta de tecnologia. É, sobretudo, a necessidade de segurança regulatória, maior geração (automatizada) de resíduos pós-consumo, estímulos econômicos e integração da cadeia, atributos que deem previsibilidade aos investimentos de longo prazo, e obviamente, proporcionem retorno aceitável sobre o capital aplicado.
Paulo Francisco da Silva
CEO da consultoria AVB Agora Vai Brasil Soluções em Plásticos
“Não temos um olhar frio e profissional sobre o setor de reciclagem, seja ela mecânica ou química”
Essa é uma pergunta que vale por um completo trabalho de conclusão de curso (TCC) de pós- graduação, tamanhas as variáveis nela contidas:
Vamos tentar resumir, a seguir, a alguns pontos principais neste assunto com tantos nuances.
A tecnologia de pirólise surgiu entre os anos 1930 e 1940, para tirar combustível da biomassa de madeira e celulose. Evoluiu para a produção de carvão ativado e carvão vegetal nas décadas de 1970 e 1980. Nessas aplicações, o biocarvão sólido era o foco principal, sendo as facções líquidas e gasosas vistas como subprodutos secundários, por vezes usados apenas para fornecer energia para o próprio processo.
Isso marcou uma mudança profunda no modelo econômico das operações de pirólise.
Se o foco principal é a valorização de resíduos, o modelo econômico está abraçando a abordagem moderna e integrada. Nela, todos os produtos (óleo, carvão e gás) são vistos como saídas valiosas em um modelo econômico circular.
Analisemos agora, mediante o breve histórico da evolução da tecnologia de reciclagem química, suas nuances, aplicações e direcionamentos conforme a tabela abaixo. Na sequência, veremos as limitações ainda existentes nessa tecnologia e que inviabiliza economicamente seu uso para alguns tipos de termoplásticos.
Era | Objetivo Principal | Principais Produtos | Fatores Impulsionadores |
| Industrial Inicial (1930s-40s) | Conversão de Recursos | Bio-óleo Líquido | Necessidade de combustíveis líquidos a partir de biomassa |
| Meados do século 20 (anos 1970-80) | Produção de Carbono Especializado | Carvão Vegetal, Carvão Ativado | Demanda por fontes industriais de carbono |
| Era Moderna | Sustentabilidade & Valorização de Resíduos | Bio-óleo, Biocarvão, Gás de Síntese | Economia circular, energia renovável, controle avançado de processo |
Por que ainda não decolou de todo esse modelo que gera milhões de toneladas de sucata plástica, sendo a maioria lançada diretamente no meio ambiente do planeta?
Os entraves são vários:
*Os equipamentos necessários necessitam de um aporte financeiro mais do que substancial.
*Hoje se enfatiza a obtenção de líquidos, óleos e suas frações mais leves, porém todas elas não permitem um uso direto e, sim, a necessidade de repasse em uma torre de craqueamento, para deixar todas as fações leves e os óleos obtidos em padrão standard.
* Com o petróleo a preços baixos (barril inferior a US$ 70) os materiais (virgens) gerados nas petroquímicas ficam economicamente muito mais atraentes.
Em termos de Brasil, ainda temos de enfrentar o emaranhado de leis tributárias e severa insegurança jurídica. Ou seja, a incerteza da continuidade do negócio por conta de leis que não garantem o fornecimento de sucata de forma contínua e segura.
Entenda-se aqui que a incerteza não se refere à falta física da referida sucata gerada pela população, comércio e parque fabril nacional. Estamos falando de como as sucatas não chegam aonde necessitam chegar, da falta de profissionalismo desse tipo de mercado, da informalidade e até o fechamento da terceira via que seria, em uma emergência a importação de sucata de plásticos, através da lei 15.088 de janeiro de 2025.
Junte tudo isso e fica bem claro porque por aqui não há vontade de investir em reciclagem química.
Há uma mudança ocorrendo no mundo e, principalmente, no Oriente Médio onde começaram recentemente ataques à infraestrutura, caso de instalações de geração de eletricidade, dutos de transportes de óleo bruto, fechamento de portos e das principais passagens de superpetroleiro nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb.
Essa interrupção afeta o mundo todo. Outro exemplo de impacto internacional: o maior fornecedor de óleo diesel para a frota brasileira tem sido a Rússia, que teve várias refinarias atingidas pela Ucrânia e desativadas. Pois bem, a Rússia já raciona as vendas internas de diesel e gasolina, sendo abastecida em boa parte pela China. A falta de diesel já abala países como Malásia, Tailândia e Indonésia e vai chegar ao Brasil.
É neste contexto que a reciclagem química voltada para a obtenção de óleo diesel será a curto prazo a saída para que toda a cadeia de logística pesada não pare e minimize os efeitos nefastos das guerras
E fique claro que não são todos os tipos de plásticos que se prestam para sofrerem pirólise. Suas formulações não devem conter cloro nem oxigênio.
Conclusão:
Temos no Brasil a geração de sucatas e carecemos de sistema de coleta eficiente. Não temos um olhar frio e profissional sobre o setor de reciclagem, seja ele mecânico ou químico. Temos descarada a insegurança jurídica. Com base nessas lacunas, como podemos pedir ao empresariado nacional ou internacional que aporte aqui milhões e milhões de reais na reciclagem sem as menores condições de uma garantia mínima que seja de que não lhes faltarão o básico, que é a sucata necessária para dar solução de continuidade em suas unidades de produção?
Triste e vergonhosa referência desse descalabro é o que ocorreu com a petroquímica Indorama. Ela desativou sua unidade de reciclagem mecânica em Poços de Caldas (MG) por pura falta de sucata de PET no mercado.


