Uma lição de greenwashing

Um deslize da pecuária muito instrutivo para o setor plástico
Uma lição de greenwashing

Acaba de sair nos EUA o livro (tradução livre) “Plastics Inc.: a história secreta e o futuro chocante da maior aposta das grandes petrolíferas”, da jornalista Beth Gardiner. O lançamento foi celebrado em artigo no New York Times, assinalando que “o plástico dominou o mundo por meio de décadas de marketing intensivo, manobras políticas e pura e simplesmente empulhação”. Na esteira, a autora reitera que as empresas petroleiras estão aumentando a produção de resinas como antídoto para a perda de receita com a projetada queda na demanda de combustíveis fósseis num mundo assolado por mudanças climáticas originárias em boa parte da queima deles, liberadora de gases de efeito estufa.

Defendido há décadas por péssimos advogados e comunicólogos, o setor plástico evoca, com sua estilhaçada imagem realçada no livro, a definição do escritor Mário Vargas Llosa sobre seu país: “o Peru é um índio chorando sentado numa barra de ouro”. Embora não seja a única via para se agregar conhecimento, o preceito de que só se aprende com cases de fracasso funciona para se rever estratégias e tornar erros ensinamentos. Esta tagarelice de coach se aplica ao que a inteligência da cadeia plástica poderia absorver, para sua reputação virar o placar, no exame de recente parada dura ambiental enfrentada pelo agronegócio num dos maiores produtores mundiais de proteína animal, os EUA.

Estudo publicado em 15/4 pela revista PLOS Climate perscruta mais de 1.200 declarações da pecuária norte-americana sobre compromissos de reduzir a emissão de gases poluentes ou atingir o estágio Carbono Zero em suas operações, relata matéria de 2//4 no site Inside Climate News. Entre as intenções ocas verberadas por frigoríficos, o relatório menciona esta da subsidiária da brasileira JBS, publicada em página inteira há cinco anos no New York Times: “Bacon, asas de frango e bife com emissões líquidas zero. É possível.” O relatório taxou 98% dessas afirmações como greenwashing. Segundo o artigo do portal, a pecuária responde por pelo menos 16,5% das emissões globais de gases de efeito estufa.

A partir de 2021, comenta o estudo da PLOS Climate, mais empresas do setor agropecuário difundiram promessas de redução de suas emissões e chegada ao patamar net zero. “A JBS, por exemplo, deu uma guinada abrupta”, menciona o artigo no site. “A empresa afirmou em 2019 que não tinha responsabilidade pelas emissões de gases de efeito estufa em suas cadeias de suprimentos. Dois anos depois, começou a fazer promessas ousadas, dizendo que alcançaria emissões líquidas zero até 2040”. O compromisso motivou a procuradora-geral do Estado de Nova York, Letitia James, a impetrar em 2024 ação acusando a divisão americana da JBS de enganar o público, argumentando que os planejados aumentos da produção da empresa contradiziam seu apregoado engajamento ambiental.

“Quando as empresas anunciam falsamente seu compromisso com a sustentabilidade, estão enganando os consumidores e colocando nosso planeta em risco”, disse a procuradora então em release. “A prática de greenwashing da JBS EUA explora o bolso dos americanos comuns e a promessa de um planeta saudável para as futuras gerações.”

No final do seu artigo, o site Inside Climate News assinala que a JBS fechou em novembro passado acordo com a Justiça norte-americana e aquiesceu em pagar US$ 1.1 milhão a agricultores de Nova York para implementarem práticas redutoras das emanações de carbono.

Carne, como a verdade, não pode passar do ponto.

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Considerando-se a disparada nos preços do petróleo/matérias-primas e gargalos logísticos no suprimento, causados pela Guerra no Irã, e tendo em conta as limitadas margens e juros elevados para as empresas, qual estratégia básica você acha mais adequada para uma indústria transformadora de plástico seguir ativa e oferecendo mínimo retorno?

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