“Sobrepreços de 10% ou 15% em relação à resina virgem desestimulam a reciclagem de PET”
Auri Marçon, ABIPET
Em 2025 o Brasil produziu 807.000 toneladas de PET virgem para embalagens rígidas e semi. O resultado ficou 0,75% acima das 801.000 de 2024, volume que, por sua vez, configurou salto de 11,25% sobre 2023. Como explica a queda intensa no índice de crescimento da produção (-10,50%) da resina em 2025 perante 2024?
Canetas emagrecedoras: saudabilidade implica revés para PET em refrigerantes e expansão em água mineral.
Em 2025, o reduto da transformação de PET virgem para embalagens rígidas e semi rodou com quantas empresas e com qual nível de ocupação e capacidade instalada?
Temos hoje no Brasil cerca de oito transformadoras de alta produtividade, com capacidade de processamento superior a 1.000 toneladas/mês de PET, e ao redor de 100 de pequenas empresas médias e pequenas, de alcance regional e atuantes em nichos com máquinas de ciclo lento. Essa proporção, aliás, é comum em muitos países da Europa, Ásia e América do Norte.
Os grandes transformadores oferecem altíssima produtividade, pois o parque brasileiro é moderno, com máquinas bastante robotizadas. Pela voz corrente dos principais players (nossos associados), o nível de ocupação das fábricas foi muito bom em 2024 e 2025, embora eles não definam o percentual. Por fim, é quase impossível definirmos a capacidade de injeção de pré-formas, pois as mesmas linhas rodam com moldes diferentes para injetar diversos tipos e volumes de embalagens com ciclos que podem variar em 100% (p.ex.,10 a 20 segundos). No caso, portanto, a projeção da capacidade teria de ser baseada numa estimativa muito grosseira da quantidade de cada tipo/volume de embalagens processadas/vendidas em cada segmento do mercado.
Em nosso setor, os transformadores sempre trabalham com disponibilidade de capacidade, pois assim podem ampliar com rapidez seu portfólio e/ou volume de produção pela simples aquisição de novo molde ou modificando os existentes.
O que fazemos é medir o desempenho em questão pelo consumo aparente de resina (produção + importação – exportação), por sinal ótimo indicador também para o elo da transformação de PET.
O consumo popular e crescente de canetas emagrecedoras começa a afetar as vendas de refrigerantes, prenunciando seu declínio pela cultura da saudabilidade. A seu ver, pela mesma razão o consumo ascendente de água e sucos naturais deve a contrabalançar, para as vendas de PET, este possível recuo no mercado dos refrigerantes?
Pré-formas: Brasil importou 110.000 toneladas pelo Mercosul em 2025.
Segundo a Abipet, o setor faturou R$ 10,3 bi em 2025. Este montante inclui a participação das duas petroquímicas da resina no país (Alpek e indorama)? Qual a receita em 2024?
Qual o volume de pré-formas importado em 2025 x 2024? Quais as 3 principais origens?
Qual o volume de PET reciclado no Brasil em 2025 versus as 410.000 t em 2024? Do total registrado em 2025, qual a participação detida por PET BTB e com qual capacidade instalada este braço da reciclagem rodou no ano passado?
Ainda não dispomos desses dados consolidados, pois realizamos o Censo da Reciclagem do PET a cada dois anos. No último levantamento, referente a 2024, o uso da resina pós-consumo reciclada (PET PCR) para embalagem (garrafas e bandejinhas) atingiu 49% do total de PET recuperado. Numa análise preliminar, com os principais recicladores, estimamos que o volume de reciclado em 2025 será algo menor. Afinal, a diferença de preço significativa entre virgem e reciclado ocorreu mais acentuadamente no final de 2025.
Por insuficiência de demanda e preços competitivos, Valgroup e Indorama paralisaram suas unidades de PET BTB no Brasil. Abipet tem conhecimento sobre quando devem retomar as atividades?
Não temos essa informação visto que as estratégias de negócios são de domínio exclusivo de cada empresa. Mas, do ponto de vista de mercado, cabe esclarecer que a escolha da proporção de material virgem e reciclado no processo produtivo é de exclusiva decisão de cada fabricante do produto final (brand-owners). Em resumo, as linhas de reciclagem devem ficar paradas até que o custo da matéria-prima pós-consumo seja compatível com o preço que o brand-owner queira pagar pela embalagem com conteúdo reciclado. Infelizmente, a decisão não é do reciclador. Ao contrário, os investimentos em reciclagem são colocados em risco quando os usuários de embalagem não executam seus projetos de incrementar a quantidade de material para segundo uso na produção de uma embalagem.
Até o final de fevereiro último, o preço da resina reciclada superou em até 25% o da resina virgem, uma inversão da relação histórica. Esse movimento foi provocado pela queda da cotação da matéria-prima virgem no mercado internacional, em patamar inferior ao do polímero reprocessado, que mantém suas despesas gerais com a coleta (que permanece deficitária), triagem, logística e o custo industrial da reciclagem.
Brasil: coleta seletiva deficiente encarece e desajusta o suprimento de resíduo PET reciclável.
Como a guerra no Irã influencia este panorama da precificação?
Ela tem provocado oscilações e majoração de preços da resina virgem, um possível alento para o grade reciclado. Como isso tem ocorrido de modo mais expressivo no plano ainda recente – desde março –, precisamos analisar mais um período para avaliar a ociosidade no setor de reciclagem. Além do mais, vale atentar para a deficiência histórica dos sistemas públicos de coleta seletiva; isso limita o abastecimento e encarece muito o resíduo de PET encaminhado aos recicladores. Em alguns meses do ano, essas plantas trabalham com até 40% de ociosidade quando não interrompem a produção. Essa situação gera um cenário em que a grande demanda pelo material reciclado fica muito acima e não pode ser atendida pela falta de acesso à matéria-prima que, por sua vez, impacta no preço final da resina reciclada.
Adicionamos a este contexto as condicionantes trazidas pelo Decreto da Logística Reversa das Embalagens Plásticas (n.º 12.688/2025), homologado em outubro passado. PET tem posição estratégica diante das metas estabelecidas por esta nova norma, com base em seu índice de reciclagem elevado e demanda crescente pelo material recuperado para incorporação em embalagens.
Como a vigência deste decreto pode impactar o setor de PET e de outros materiais plásticos de embalagem?
Os efeitos podem ser percebidos pelos seguintes cenários:
- Preço atrativo do material reciclado -Tanto as grandes marcas como pequenos atores do mercado de bebidas, alimentos e outros itens irão superar as metas de conteúdo reciclado definidas pela norma, ampliando a demanda desse material e o faturamento dos catadores e cooperativas.
- Reciclado supervalorizado – O histórico mostra que sobrepreços de 10% ou 15% em relação à resina virgem levam ao desestímulo, reduzindo a demanda pelo reciclado e, em decorrência, a coleta e renda dos catadores.
Variações indesejadas no preço do reciclado podem ser minimizadas por ações de aumento da coleta. Ou seja, efeito da, maior oferta de sucata e de estímulo à demanda, com benefícios às empresas que ultrapassam as metas mínimas estipuladas pelo decreto. No entanto, seu texto atual desestimula as empresas que reciclam acima do estabelecido ou o utilizam em percentual superior ao determinado pela norma. A regulamentação acaba, assim, punindo quem já faz mais enquanto beneficia setores que sequer têm algum plano para viabilizar a reciclagem.
Os preços instáveis do petróleo e derivados e a perda do poder aquisitivo da população endividada devem esfriar a demanda de embalagens PET neste ano eleitoral no Brasil?
O Brasil pode ser menos afetado que muitos outros países, considerando que temos capacidade excedente de resina e sua reciclagem, além de uma cadeia de abastecimento de matérias-primas originárias também do exterior (nota: importações de paraxileno, ácido tereftálico purificado e monoetilenoglicol, por exemplo) com rotas alternativas às vinculadas ao Estreito de Ormuz.
Para a demanda brasileira de PET, o lado positivo de 2026 é determinado também pelos feriados, eleições e Copa do Mundo. De certa forma, esses eventos acabam incentivando o consumo de bebidas industrializadas.
Consolidando essas perspectivas, nossa previsão inicial de crescimento de 5% no volume para PET virgem e reciclado para este ano foi reavaliada. A expectativa agora é que esse índice fique entre 2% e 3%.
Números entre quatro paredes
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), indicam que o Brasil, mesmo com autossuficiência produtiva em PET virgem (capacidade de 1 M de t/a) importou 160.865 toneladas da resina em 2025 (150.927 toneladas em 2024). No parlatório dos olheiros, uma justificativa é o atrativo dos preços competitivos do excedente global da resina, impulsionado pela capacidade asiática. Para Auri Marçon, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do PET, “os dados da Secex não reportam com precisão, visto que há uma mistura de produtos na mesma codificação da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM)”. Pelos indicadores de 2025 compilados pela autarquia, o Brasil importou 102.390 toneladas de PET com índice de viscosidade de 78 ml/g ou mais e 58.475 toneladas de outros tipos do polímero. Marçon retoma o fio preferindo não informar o volume específico trazido de PET virgem para embalagens rígidas e semi nem as três principais origens. “O detalhamento das informações não é oficial e as empresas tratam como confidenciais”.


