Embalagens flexíveis: o filme promete reviravoltas

Embalagens flexíveis: o filme promete reviravoltas
Embalagens flexíveis: o filme promete reviravoltas

Nos últimos anos, o consenso entre analistas da economia brasileira pregava que juros na lua e travas no crédito reprimiam vendas de bens duráveis para o povo, vergado por inadimplência recorde. Em contrapartida, diziam que o céu era o limite para bens de consumo rápido, devido às transações não parceladas e ao poder aquisitivo da população empobrecida vitaminado por programas de transferência de renda e pleno emprego. Mas, se tudo fosse róseo assim, o setor de embalagens flexíveis, artéria visceral da cadeia plástica, não registraria em 2025 ociosidade de 70,4% em sua capacidade nominal de 3.297 milhões. O faturamento atingido de R$ 40.1 bilhões, cifra 6,2% acima do saldo do balanço também comedido de 2024, tem explicações evidentes como os aumentos nos custos produtivos (inflação de custos repassada ao preço final).

Desde 2022, o governo mergulhou na distribuição de capital via benefícios e aumento do salário mínimo acima da inflação, resultando em incremento real de renda, consumo e de empregos sem ganhos de produtividade, complicando o controle da inflação pelo Banco Central. No entanto, já pintam sinais de fadiga dessa estratégia populista. Entre eles, o abrandamento da demanda em 2025 de bens não duráveis, a menina dos olhos das embalagens flexíveis, por forças como o nível de endividamento por 80,2% das famílias, conforme aferição em fevereiro da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, e registros de 5.680 processos de recuperação judicial e extrajudicial em 2025, atesta a plataforma Monitor RGF. O tempo fechou de vez este semestre com a Guerra no Oriente Médio incendiando os preços do petróleo, combustível e resinas. Piora então o custo de vida no Brasil (o oposto do desejado pelo governo em ano eleitoral) e imerge na penumbra das incertezas o próximo balanço da cadeia plástica. Nesta entrevista, a avaliação de 2025 por Eduardo Berkovitz, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (Abief), deixa no ar indícios-chave dos rumos de um exercício particularmente perturbador para seu setor este ano.

“Mesmo com níveis de emprego elevados em 2025, o endividamento dos consumidores continuou alto e impactou na demanda”

Eduardo Berkovitz – Abief

Eduardo Berkovitz da Abief

Por que a produção e o consumo per capita de embalagens flexíveis caíram em 2025, mesmo em um ambiente de pleno emprego e orçamento doméstico revigorado por programas de transferência de renda?

O desempenho do setor em 2025 mostra que emprego elevado, por si só, não garantiu um crescimento homogêneo do consumo de produtos embalados. A indústria brasileira de embalagens plásticas flexíveis encerrou o ano com uma produção de 2.321 milhões de toneladas, volume que reflete uma queda de 0,5% em relação a 2024, enquanto o consumo aparente, da ordem de 2.305.000 toneladas, recuou 0,9% sobre o saldo anterior (2.328.000 toneladas) levando em 2025 o consumo anual per capita para 10.8 kg contra 11 em 2024.

Ao mesmo tempo, o ambiente macroeconômico foi marcado por juros elevados, inflação pressionada e desaceleração do PIB, fatores que reduziram a capacidade de consumo em quantidade. Ou seja, mesmo com níveis de emprego elevados, o endividamento dos consumidores continuou alto e impactou na demanda.

Os principais mercados consumidores de embalagens plásticas flexíveis também registraram retração: alimentos, reduto responsável por cerca de 40% da demanda do setor, caiu 3%. Por sua vez, entre os segmentos declinantes constam higiene pessoal, com -11,4% e limpeza doméstica, com -5,7%.

A inadimplência elevada pode estimular a procura de bens de consumo rápido e impulsionar a produção de flexíveis em 2026?

A dinâmica econômica atual desloca o consumo para produtos de giro rápido, pois o crédito para bens duráveis está mais restrito. Em cenários de inadimplência elevada, parte das famílias tende a priorizar itens essenciais e de reposição rápida, sobretudo alimentos e produtos de uso cotidiano vendidos no varejo alimentar que, por sinal, são justamente mercados intensivos em embalagens flexíveis.

No entanto, quando o consumidor enfrenta restrições financeiras, ele pode manter a frequência de compra, mas reduzir a quantidade, além de migrar para marcas mais econômicas ou optar por embalagens menores, o que nem sempre se traduz em aumento de embalagens produzidas.

Por isso, acreditamos que 2026 poderá trazer uma recuperação gradual, especialmente se houver melhora nas condições macroeconômicas, como o desfecho da Guerra no Oriente Médio, inflação mais controlada e redução da taxa de juros – um horizonte que não significará um crescimento significativo da produção.

Quais foram os volumes de importação e exportação de filmes e embalagens flexíveis em 2025 em comparação com 2024?

Os dados consolidados do setor mostram que em 2025 o comércio exterior foi positivo para a indústria nacional em volume – importação de 117.000 toneladas e exportação de 133.000 em 2025 e importação de 74.000 toneladas e exportação de 120.000 toneladas em 2024. O saldo, porém, porém ainda se situa em patamar muito inferior ao verificado para os anos de 2021 a 2023.

Observou-se em 2025 um comportamento mais equilibrado nas trocas comerciais, com manutenção da presença brasileira em mercados externos. Esse movimento é relevante por demonstrar que, mesmo num cenário global competitivo e pressionado por custos, a indústria brasileira de flexíveis mantém capacidade de exportação e presença internacional.

Plasticultura: consumo de 316.000 toneladas de flexíveis em 2025.

Plasticultura: consumo de 316.000 toneladas de flexíveis em 2025.

Qual é a participação do setor de flexíveis no mercado brasileiro de polietileno (PE) e polipropileno (PP)?

O setor de embalagens flexíveis é, historicamente, um dos maiores consumidores de poliolefinas no país. Considerando a composição típica das resinas utilizadas pela indústria — aproximadamente 85% de polietilenos (PEBD, PEBDL e PEAD) e 15% de polipropileno (PP) — e a produção setorial de 2.321 milhões de toneladas, estima-se que o segmento tenha consumido cerca de 1.97 milhão de toneladas de PE e aproximadamente 350.000 toneladas de PP em 2025.

Quando comparados com o tamanho total do mercado brasileiro —3.553 milhões de toneladas de PE e 1.802 milhão de toneladas de PP (fonte: Braskem) — esses volumes indicam que as embalagens flexíveis representam aproximadamente 55% da demanda nacional de PE e cerca de 19% do consumo de PP.

Qual é a participação do setor nas importações brasileiras de PE e PP?

As importações brasileiras em 2025 somaram aproximadamente 1.9 milhão de toneladas de PE e 698.000 toneladas de PP. Embora não seja possível determinar com precisão a parcela dessas importações destinada exclusivamente ao setor de flexíveis, é possível afirmar que o segmento exerce forte influência sobre a dinâmica de demanda dessas resinas, dado o volume significativo que consome.

Na prática, isso significa que qualquer alteração nos fluxos de importação, nos preços internacionais ou na disponibilidade de resinas impacta diretamente a cadeia de embalagens flexíveis. O setor opera em um ambiente altamente sensível ao custo e à disponibilidade dessas matérias-primas.

A Abief apoia sobretaxas antidumping para materiais cuja oferta doméstica é insuficiente?

Não nos sentimos confortáveis em responder neste momento.

Como explicar o crescimento de 9,7% da demanda de flexíveis no agronegócio em 2025, mesmo em um cenário desafiador para o setor?

O agronegócio brasileiro é um setor altamente diversificado e resiliente. Apesar dos desafios enfrentados em 2025, como juros elevados, aumento de custos de produção e oscilações nos preços de commodities, algumas cadeias agrícolas mantiveram forte atividade produtiva e logística, o que sustentou a demanda por embalagens flexíveis. As aplicações incluem filmes agrícolas, embalagens para fertilizantes, insumos, armazenagem e transporte de produtos agroindustriais, além de soluções utilizadas na exportação. Como resultado, a demanda por flexíveis no agronegócio cresceu 9,7% em 2025, atingindo cerca de 316.000 toneladas. Ela demonstra que, mesmo em um ambiente macroeconômico preocupante, determinados segmentos continuam exigindo soluções de embalagem eficientes para garantir proteção, transporte e conservação dos produtos.

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