Resinas: balanço da defesa comercial pela Abiquim

Barreiras tarifárias devem estancar as importações do excedente internacional, confia o presidente da entidade André Cordeiro
Resinas: balanço da defesa comercial pela Abiquim
“O Brasil precisa ser pragmático e eficiente no uso de todas as medidas necessárias para reverter o círculo vicioso de baixa rentabilidade, que não incentiva novos investimentos, levando à perda de competitividade, ao fechamento de plantas e consequente aumento do déficit da balança comercial de produtos químicos”, defende nesta entrevista André Passos Cordeiro, presidente executivo da Associação Brasileira da indústria Química (Abiquim). Nesse contexto, a junção do excedente resultante do fim do superciclo global de investimentos petroquímicos (1992-2021) com a economia mundial esfriada, esfaqueia a indústria brasileira de resinas, apanhada pela tempestade sem escalas, tecnologias e custos alinhados com os padrões atuais de competitividade. Para atenuar a sangria nos resultados vinda desses flancos vulneráveis, o Brasil, economia desde sempre fechada, embarcou na onda protecionista aberta em abril de 2025 pelos tarifaços de Trump promulgando uma multidão de barreiras tarifárias para importações de resinas. Na entrevista a seguir, Cordeiro analisa o saldo das iniciativas de contenção das importações e salienta ser crucial para o país se empenhar em tirar a petroquímica brasileira do menor nível histórico de uso de sua capacidade instalada.

As importações de resinas commodities fecharam 2025 no mesmo patamar de 3.7 milhões de toneladas aferido em 2024. Por que a elevação das alíquotas de importação e a profusão das taxas antidumping não cumpriram o objetivo de frear esses desembarques, mesmo num exercício não tão aquecido? E por que, mesmo com esta proteção, a petroquímica nacional não consegue operar com ocupação economicamente satisfatória?

Nos últimos anos, a indústria química brasileira, mais especificamente a de produtos de uso fabril, tem sido enormemente impactada pelo conturbado ambiente geopolítico e seus reflexos na conjuntura econômica internacional. Uma vertiginosa aceleração do direcionamento para o mercado interno dos excedentes asiáticos (em particular, da China), norte-americanos (sobretudo dos EUA) e do Oriente Médio (Arábia Saudita, em especial), em verdadeiro surto de operações predatórias de comércio, significou uma deterioração do ambiente produtivo e competitivo nacional. O quadro demandou rápida reação do Brasil, por meio de firme e correta política de comércio exterior de alto impacto, com a aplicação de medidas cirúrgicas de defesa comercial e de elevações tarifárias emergenciais para os produtos químicos fabricados aqui mais afetados por danos em seu processamento em 2024 e em 2025.

Os dados oficiais da balança comercial da SECEX/MDIC não deixam dúvidas sobre a efetividade dessas medidas, com indiscutível contenção do aumento das importações desses produtos. Inclusive, cabe destacar, que, para diversos códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) já são identificados recuos consideráveis do volume de compras do exterior, em particular nos últimos meses. Além do mais, é indispensável lembrar que, antes dessas majorações tarifárias, observa-se um aumento médio de mais de 30% nas quantidades físicas importadas dessas mercadorias.

“O Brasil precisa voltar a ser um país onde investir, produzir e inovar seja uma escolha racional e sustentável”

André Passos Cordeiro – ABIQUIM

André Passos Cordeiro

Analistas dizem que, sem petroquímica competitiva, o Brasil tornou-se um dos mercados mais rentáveis do mundo para resinas importadas, como poliolefinas e PVC, devido aos preços aumentados por força das barreiras tarifárias. Concorda com esta visão?

Na verdade, os preços estruturais de produtos importados – em particular de termoplásticos – continuam em patamares muito inferiores em comparação a anos recentes, pressionando margens e deslocando o produto nacional no mercado doméstico. As medidas tarifárias e de defesa comercial buscam corrigir as anormalidades desses preços artificialmente baixos (predatórios) de importações. Eles têm representado grave ameaça à produção nacional.

A Abiquim tem se empenhado pela aprovação de benefícios fiscais e barreiras à importação em favor da petroquímica nacional. Já que, pelo visto, tais ações não estão reerguendo a competitividade do setor, a associação cogita recorrer a quais outras vias para isso acontecer?

Não existe país forte sem um setor químico forte e, hoje, a indústria química brasileira é a sexta maior do mundo e uma das mais sustentáveis do planeta. Ainda assim, enfrenta uma competição internacional desigual, custos estruturais elevados e perda contínua de espaço para produtos importados.
Em 2025, houve avanços relevantes em várias frentes de ação institucional: fortalecimento do diálogo institucional com a cadeia de transformação e com a sociedade; implementação de medidas importantes de defesa comercial e de tarifas emergenciais e a sanção do Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (PRESIQ). Trata-se de passo decisivo para a recuperação da competitividade e da capacidade produtiva do setor.

2026 precisa ser o ano da implementação. Mais do que discutir a continuidade do Regime Especial da Indústria Química (REIQ), o desafio agora é ajustá-lo e fortalecê-lo, de modo que seja capaz de responder, com efetividade, a um cenário econômico especialmente crítico. Com intensidade reduzida, o instrumento deixa de cumprir plenamente seu papel. Por isso, atuamos de forma técnica e propositiva junto ao governo para que o REIQ volte a ser um mecanismo compatível com as necessidades atuais do setor, ao mesmo tempo em que avançamos na regulamentação do PRESIQ – ambos trunfos fundamentais para a competitividade e a sustentabilidade da indústria química.

Precisamos também avançar na oferta de energia e gás natural a preços competitivos, assegurar segurança jurídica, previsibilidade regulatória e uma política fiscal orientada pela eficiência – e não pelo improviso. O Brasil precisa voltar a ser um país onde investir, produzir e inovar seja uma escolha racional e sustentável.

Gás natural: algoz internacional dos custos da rota nafta dominante na petroquímica brasileira.

Gás natural: algoz internacional dos custos da rota nafta dominante na petroquímica brasileira.

No epicentro da petroquímica brasileira, a Braskem surge como monopólio em poliolefinas e petroquímicos básicos e como o maior dos 2 produtores locais de PVC. Em 26/12, o site da consultoria Icis postou esta declaração de Carolina Chimenti, analista da agência de avaliação de risco de crédito Moody’s: “A Braskem precisa ser rentável sem depender de incentivos do governo se quiser ser sustentável (economicamente)”. O que acha dessa ponderação?

A indústria química é estratégica para o adensamento, com complexidade, da matriz produtiva de qualquer país e exerce um papel fundamental para diversos setores, como saúde, agricultura e automotivo. É a base para a produção de produtos como fertilizantes, medicamentos e embalagens plásticas.

Logo, a existência de empresas sólidas e com eficiências de escala e de escopo na base da cadeia química e petroquímica é de grande interesse nacional, sejam elas de capital nacional como Braskem, Elekeiroz ou Unigel, como de matrizes estrangeiras, a exemplo de Rhodia/Solvay, Dow, Basf etc.

Entender quais medidas de fortalecimento competitivo estão sendo implementadas pelas principais geografias tem sido parte central do desenho da Nova Política Industrial brasileira e da implementação de programas direcionados ao estímulo produtivo de setores, como a cadeia química, em condições de garantir sustentabilidade econômica, social e ambiental.

PVC: produção doméstica insuficiente enseja importações crescentes mesmo protegida por antidumpings.

PVC: produção doméstica insuficiente enseja importações crescentes mesmo protegida por antidumpings.

Neste ano eleitoral de 2026 divulga-se que o governo desovará R$ 88 bi na economia, via programas assistencialistas e outros incentivos, de olho nas urnas. A seu ver, essa injeção pontual de recursos deve tirar a demanda interna de resinas da mornidão e permitir à petroquímica nacional, escorada em benesses fiscais e protecionismos, escapar do cenário de trabalho sob margens baixas e tensa disputa com importações?

No mundo, a indústria química é considerada a “indústria das indústrias”. Afinal, ela garante abastecimento interno e soberania na manufatura porque seus produtos finais e intermediários compõem a base de insumos de quase toda a matriz industrial moderna. A indústria química gera mais de US$ 4 trilhões de vendas globais. No Brasil, a demanda de seus produtos é comparável às da Alemanha e Coréia do Sul, orçada na faixa de US$150-US$ 200 bilhões anuais.

Nesse sentido, a viabilização de condições competitivas de produção e um mercado interno dinâmico e saudável integram a missão não apenas de um único setor, tampouco somente de governo – em momento eleitoral ou não. É um desafio do país como um todo! Exige convergência entre sociedade, setor produtivo e poder público, com foco no desenvolvimento sustentável, social e econômico. A indústria química está pronta para colaborar ativamente com essa agenda, oferecendo soluções, conhecimento e compromisso com o futuro.

Estamos certos de que 2026 será um ano de construção, diálogo e decisões responsáveis. A Abiquim seguirá trabalhando por uma indústria forte – porque fortalecer a indústria é fortalecer o Brasil.

Braskem: incentivos do governo apoiados pela Abiquim e questionados por analistas do setor petroquímico.

Braskem: incentivos do governo apoiados pela Abiquim e questionados por analistas do setor petroquímico.

Em 2025, o Brasil importou 174.000 toneladas de estireno e 124.000 de poliestireno (PS), embora disponha de capacidade de sobra para suprir a demanda interna. Qual a justificativa? Além disso, em recuperação judicial e sob alegação do ciclo de baixa na petroquímica mundial, a Unigel anunciou em janeiro o fechamento de uma planta de 120.000 t/a de estireno e outra de 190.000 de PS. Com isso a capacidade brasileira nominal do estireno baixa para 580.000 t/a e a de PS para 725.000. Tal como ocorre em PVC, as importações de estirênicos caminham para superar a oferta doméstica a curto prazo?

Os recentes anúncios de escalada dos choques comerciais entre os EUA e China, somados ao prolongamento do ciclo de baixa da indústria química (em particular, a petroquímica) em nível global, colocam ainda mais pressão sobre o setor químico brasileiro. Ele já opera nos mais baixos níveis históricos de utilização da capacidade instalada, com ociosidade de cerca de 40% do seu parque industrial, enquanto as importações ocuparam quase 50% do consumo nacional.

Materializam ainda maior potencial de agressividade à indústria química brasileira as mega capacidades que se instalaram justo nas duas maiores potências globais, ancoradas, respectivamente, em sólidos programas de estímulo industrial nos EUA (desde a política do uso do shale gas como insumo estratégico ao Inflation Reduction Act – IRA) e numa competitividade artificialmente construída na China, com matérias-primas russas adquiridas em condições ultra vantajosas no contexto dos embargos europeus em resposta à invasão da Ucrânia por Putin.

PP da China: Brasil entre os principais destinos do excedente chinês resultante da produção autossuficiente da resina.

PP da China: Brasil entre os principais destinos do excedente chinês resultante da produção autossuficiente da resina.

Diante do antidumping brasileiro para PE da América do Norte, os importadores têm se voltado para compras da Ásia, casos do Oriente Médio e Extremo Oriente. A Abiquim cogita apoiar pleitos antidumping da petroquímica nacional para resinas dessas origens, mesmo sabendo que as sobretaxas não têm funcionado para diminuir os volumes internados? Aliás, a China atingiu em 2025 a autossuficiência produtiva em PP e pode figurar a curto prazo entre os principais exportadores da resina para o Brasil? Se isso ocorrer, fará sentido o Brasil requerer antidumping para a resina do seu maior parceiro comercial?

A presença de produtos importados de forma predatória e desleal que inundam o mercado brasileiro – muitas vezes como resultado de práticas como dumping ambiental e subsídios públicos estrangeiros – deve ser combatida com todo o rigor. Isso deve ser feito independentemente do produto e da origem desses materiais, a partir do uso das ferramentas disponíveis no ordenamento legal para a eliminação de práticas comerciais nocivas e que, em vários casos, estão inviabilizando a sustentabilidade da produção doméstica brasileira.

É fundamental romper-se o ciclo de baixa utilização da capacidade instalada que resulta de uma desproporcional participação de importados no consumo interno de produtos químicos causada pelo surto de importações predatórias dos últimos anos. Diante desse panorama preocupante e que se agrava com a escalada de tensões comerciais internacionais, torna-se premente a necessidade da ação coordenada público-privada pelo fortalecimento do sistema de defesa comercial brasileiro e do combate contra operações predatórias em produtos químicos.

O Brasil precisa ser pragmático e eficiente no uso de todas as medidas necessárias para reverter o círculo vicioso de baixa rentabilidade, que não incentiva novos investimentos, levando à perda de competitividade, ao fechamento de plantas, e o consequente aumento do déficit da balança comercial de produtos químicos. Setores mais sofisticados, com maior conteúdo tecnológico e salários mais elevados, como a indústria química, não podem mais aceitar perder espaço no PIB, transferindo empregos e renda dos brasileiros para fornecedores estrangeiros.

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